domingo, 20 de dezembro de 2015


FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!






CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: RECEITA DE ANO NOVO

Carlos Drummond de Andrade / Foto: divulgação




RECEITA DE ANO NOVO*

(Carlos Drummond de Andrade)



Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) 

Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. 

Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.


*Carlos Drummond de Andrade, Editora Record. 2008. 




CRÔNICA DE DOUGLAS MENEZES (DEZEMBRO DAS ACÁCIAS E AÇUCENAS)




Douglas Menezes / Foto: divulgação



Aqui na terra quente explodem as flores como se fosse abril. Dezembro só de luz das acácias, vários sóis a enfeitar a vida, anunciando uma esperança irrealizável. Difícil viver um otimismo cada vez menos visível. Um dia um escândalo, outro dia mais um. E vivência que segue. As acácias são puras, inocentes e de beleza estonteante, cachos que encandeiam a vista. No entanto crianças são mortas nos crimes estúpidos manchando de vermelho as flores mal desabrochadas. Meninas partindo sem o enfeite das açucenas no cabelo. Câncer que os doutores da mente não sabem explicar. Beatriz partindo também, sem o direito de entender o fascínio das flores.

Enxergo, então, as açucenas brotando nas margens do rio tão sujo quanto bonito aos meus olhos de sonhador. Colho a flor branca, popular, democrática, que nasce onde o feio predomina, nasce para embelezar onde não há beleza. Mas ela se expressa em dezembro e diz da perda e diz da angústia de chorar entes que se foram, flor também da saudade e da tristeza, essa açucena.

Acácia magoando com espinhos a cabeça doída de Jesus, no dezembro das sujeiras dos homens, insensíveis à miséria, à dor dos que não têm nada, sem escola, sem saúde, sem segurança, sem a água que dá vida, porque os homens levaram o que a gente pagou. Jesus, um menino nascido na humildade do exemplo, vê o que fazem até no mês do seu nascimento.

Mas há, em dezembro, as açucenas tão bonitas como as moças bronzeadas desse sol nunca se pondo. Graça e beleza nas duas flores, altivez dessas moças, de peitos arrebitados, no bambolê dengoso e no encarar da existência nunca tão fácil.

Em dezembro, a explosão das acácias, ouro de Minas, cheiro bom, trazendo a espiritualidade para melhorar os homens, dando-lhes a sabedoria que parece ir embora.

Dezembro, mês último. As esperanças alimentam o calor dessa fantasia. Ano que vem, talvez a igualdade fraterna, nunca vinda, mas assim mesmo uma nesga pequena, um fio de luz que apareça nesse túnel e que seja enfeitado de acácias e açucenas...



*Douglas Menezes é escritor e membro da Academia Cabense de Letras




VENCEDORES DO V CONCURSO DE POESIA DO SESC PIEDADE







1º LUGAR

Ítalo Dantas de Góes Cavalcanti
Poema: Visão Noturna

Entre o manto de Tânatos e os braços
de Eros, negros orbes vagueiam
postos à noite. Caem aos espaços
infinitos – à lua cambaleiam.

Meus olhos erguem-se ao espetáculo
divino. O hermetismo de toda era,
uma gota de luz rasgando a esfera,
hemisfério de um mesmo receptáculo.

Sobre a grama, embalado contra o vento
frio. Deixar-se levar na imensidão
em percorrer o céu negro e irrestrito.

Ser, verdadeiramente, como são
as estrelas, e por um só momento,
sentir que o corpo é o mantra do infinito.



2º LUGAR

Felippe Luís Maciel da Silva
Poema: Hora Sagrada

Havia quatro celulares na mesa,
manipulando as quatro garotas
que esperavam o almoço no Bar do Biu.
Elas pediram: sarapatel e chambaril,
E repousaram suas bocas.
Enquanto batiam os dedos em teclas,
nenhuma parecia estar com as outras.

Com quem estaria almoçando
do outro lado da linha?
Com quem conversava a menina,
que tomava coca cola?
E as morenas que bebiam cerveja?
Elas sorriam sincronizadamente,
como se entre si conversassem virtualmente,
enquanto dividiam a mesma mesa.

Vocês precisavam ver a outra,
a dos olhos miudinhos.
Ela teclava com a mesma habilidade
com que os japas mexem os pauzinhos
pra comer risoto.

Falava com alguém, do outro lado do mundo,
um assunto que não podia esperar?
Conversaria pessoalmente,
se estivessem no mesmo bar?

[Não quero nem pensar que seja tudo facebook]

Eu sei que comi um prato de fava, farofa e vinagrete
e ainda escrevi esse texto.
E elas somavam seus silêncios,
em aparelhos concentradas.
Não sei se em função de novos tempos
ou porque refeição é uma hora sagrada.



3º LUGAR

Cássio Henrique Tavares Bezerra
Poema: Solar

Vejo as ruas vermelhas,
barulhentas,
agoniadas.
Da lentidão dos carros a força dos
ônibus,
de todo o nosso stress sob e sobre a
pele:
o cheiro de suor do metrô,

o prato,

a cama.

Isso nos move,
nos movemos assim.
Semblante de pressa,

preocupação,

vazio.

Nas paradas e estações me vejo em
outros rostos,
nessas tantas expressões, nessas tantas
vontades.

Gritar,

chorar,

correr,

SAIR.

Impacientemente nossos passos fazem
essa estrada sem rumo,

apressada,

não governada por nós,
e levamos assim,
vivendo sem pensar, pensando em
viver.
Televisão,
internet,
vaidade.

Meios...

meios sorrisos de meia boca,

meios sentimentos,

meias vaidades.

A alma seca é levada, embriagada,
pela esmola da carne sufocada,

presa,


nesse corpo de compromissos. 



domingo, 13 de dezembro de 2015


A LITERATURA VISCERAL

por Alexandre Coslei*


Em seu último trabalho, o escritor Raimundo Carrero alcança o grau mais elevado. O livro “O senhor agora vai mudar de corpo” confirma a obra de um compositor refinado, de um autor ousado e visceral. Em literatura, há os que passam, os que ficam e os que são únicos. Não é preciso dizer mais nada sobre Raimundo Carrero. Ele é.


Raimundo Carrero/Foto:divulgação



- Ele não se suicidou. Foi Kafka, que matou Danilo foi Kafka. (O senhor agora vai mudar de corpo – Raimundo Carrero, Ed. Record: 2015)


Basta pinçarmos o fragmento de um dos diálogos do último livro de Raimundo Carrero para nos convencermos que estamos diante de uma literatura semeada nas entranhas, que brota ensopada da vida e da morte. Num tempo em que o livro é fabricado como o mais vulgar dos objetos, causa alento a leitura intensa e revigorante um trabalho delicadamente esculpido por um mestre. Desde a primeira sílaba lida, a sensação foi a de nos lançarmos numa corredeira desenfreada, numa queda livre vertiginosa. Não causa medo, porque não cabe o medo na descoberta. A boa literatura é o ato de descobrir-se.

Como escritor nordestino, Carrero é testemunha de textos que refletem a condição árida do sertão. Como autor, não escolheu o lugar comum da miséria sertaneja ou, como ele mesmo diz, das caveiras de bois, da terra estorricada, das cercas quebradas e da falta d’água. Preferiu explorar a complexidade fértil da condição humana, fez do escrever a obsessão pelo mergulho profundo que exige o limite do fôlego.

“O senhor agora vai mudar de corpo” abre a primeira página com a intimidação da morte, a expectativa do inevitável e a surpresa com a possiblidade da sua antecipação indesejada. Em toda a sua breve extensão, o livro é permeado por uma desesperança que se confunde com a necessidade da fé, uma fé que não quer ser mística, mas consequência da necessidade de sobreviver para criar. A arte como genitora da vontade de viver.

Impotente após sofrer um inesperado AVC, o escritor vagueia pela angústia dos que sofrem da falência do corpo em conflito com a nostalgia dos sentidos. Cego e paralisado pelo derrame, o que transparece é que a maior dor nasce da solidão imposta pela mutilação da palavra. Sem conseguir falar, sem poder escrever, o homem é um vácuo entregue ao limbo da existência. É nessa escuridão momentânea, trágica e irremediável, que ele pondera sobre o caráter indomado de outros autores. Remete-se à Clarice Lispector e destaca o sentido selvagem de uma literatura que parecia escrita com sangue.

A agonia da inércia física detona um atrito espiritual, o escritor deseja a reabilitação, anseia pelo milagre. No entanto, não se considera merecedor, não reconhece em sua jornada um único momento santo que lhe valesse qualquer benção. Quer se despojar das vaidades. Quer renegar até a humildade, que talvez seja a maior das vaidades, a pior das hipocrisias. Quer merecer. Cada página virada nos faz incorporar o despedaçado narrador, somos empurrados junto com ele pelo sopro da religião que consola. “Não temas, eu estou aqui ”... A frase de Cristo é a ilha do náufrago.

Urubus, aranhas e morcegos passeiam pelas folhas de papel que pulsam como criaturas vivas. Alegorias que espreitam a vida efêmera, que encarnam a morte; alegorias que confirmam a origem nordestina da história; alegorias que tornam o enredo universal. Metáforas que consumam o significado de tudo. A morte que não impede que a arte seja a declaração incessante da beleza.

Impulsionado pela contínua volúpia de parir a obra, o autor expressa a sua perplexidade diante da opção alheia pelo suicídio, demonstra fascínio e desgosto pelos jovens que se suicidam. A solidão, a agonia e a felicidade do homem que confirma a derradeira sentença de se matar. A inexplicável “decisão feliz dos suicidas”.

Há menções associadas ao cinema. Há imagens que evocaram Fellini em minha mente. Há uma névoa folclórica que o escritor não se inibe em assumir quando afirma que o folclore é o símbolo da condição humana.

Raimundo Carrero nos impõe sua escrita ágil, enxuta e de uma densidade atmosférica sufocante. Uma literatura visceral a cada linha, a cada parágrafo, a cada capítulo. Não, não cansa. Somos sugados pelo redemoinho feroz de cada palavra que reconstrói um homem encarando o possível epílogo da sua realidade. Somos tragados pela verdade do texto.

Literatura não é ciência, é arte, reunião de elementos estéticos – ele diz.

“O senhor agora vai mudar de corpo” não se contenta em ser apenas um romance, é um tributo à literatura, ao artista, é o registro da maturidade absoluta de um escritor, é o próprio milagre que o autor busca nas páginas que compôs.


*Alexandre Coslei (RJ) é jornalista e escritor



  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima