domingo, 29 de maio de 2016


EDIÇÕES PIRATA – 40 ANOS*

Por Juareiz Correya



Juareiz Correya e Jaci Bezerra
(em um bar do Derby, Recife, 2004)
Foto: João Guarani


Empreendido por iniciativa dos poetas Jaci Bezerra e Alberto da Cunha Melo, o projeto editorial alternativo da "Edições Pirata" contou, inicialmente, com uma equipe de primeira grandeza: "Eugênia Menezes, Maria do Carmo Oliveira, Nilza Lisboa, Andréa Mota Silveira, Myriam Brindeiro, Amarino Martins de Oliveira, Ednaldo Gomes de Melo, Jadson de Lima Bezerra, Vernaide Wanderley, Alberto Vasconcelos, Moacyr Sena Dantas, Josenildo Freire, Celina de Holanda, Daniele Perin, além de piratas-eventuais, é a equipe que trabalha das 18 às 24 horas, suando depois do expediente.

Foi um empreendimento editorial alternativo, em tempos difíceis de produção e divulgação literária, provando que os escritores brasileiros, sobretudo os mais jovens e inéditos, tinham condições de produzir o seu próprio livro, como revela, de forma afirmativa, o escritor e editor Jaci Bezerra: "Não interessa à Pirata o choro e as lamentações dos que ficam rondando, originais debaixo do braço, os muros das editoras e das instituições oficiais.  Nem interessa à Pirata, enquanto literatura em movimento, as afirmações dos que dizem que bom mesmo é ser publicado, em policromia, pelas editoras do sul-maravilha. A Pirata se propõe, de fato, a ser uma alternativa editorial para os escritores  brasileiros, como forma de resistência cultural independente, e independente de sectarismo e gerações.

Sediada no Recife (PE), a "Edições Pirata" lançou, sem estrutura empresarial ou comercial, mais de 300 títulos de escritores de vários estados brasileiros, promovendo verdadeiras festas com os seus lançamentos "coletivos". Todos participavam e todos brilhavam.



Esses livros - muitos em pequenos volumes artesanais - serão resgatados, preservados e republicados em um novo projeto editorial, digital, que contará, certamente, com o apoio da Prefeitura do Recife e do Governo do Estado de Pernambuco, em 2019, na realização da festa cultural dos 40 ANOS DA EDIÇÕES PIRATA. 
  


*Revista POESIA, Número 6, Recife, PE, Janeiro/Fevereiro, 1981)




A LIGAÇÃO – DOIS (CONTO DE FREDERICO SPENCER)



Img.: reprodução


- Senhor, precisamos fechar um protocolo. Só preciso de alguns dados: seu nome completo, os nomes de seus pais e seu CPF.
- Os nomes de meus pais posso lhes dizer, meu nome completo você já tem e o meu CPF não vou dizer.
- Senhor, é praxe saber se estou falando com a mesma pessoa.
- Já disse meu nome completo e os nomes dos meus pais, prova que sou eu mesmo. Além disso foi você quem ligou para falar comigo, prova que você sabe que sou eu mesmo.
- Preciso do seu CPF.
- Meu CPF, não vou dizer por que não sei quem é você.
- Senhor, temos um protocolo aberto, preciso saber se é você mesmo, preciso do número do CPF.
- Já disse que meu CPF não dou porque não sei quem você é, mas você sabe quem eu sou: sabe meu nome e os nomes de meus pais. Portanto eu sou eu mesmo, aliás você está falando comigo mesmo. Às vezes falo comigo também, será porque trago na memória o meu CPF. Aliás, qual é o número do seu CPF?
- Senhor, sou eu quem pergunta o CPF de todo o mundo. Não estou aqui para dizer a ninguém o número do meu CPF. Essa pergunta é minha.
- Mas eu preciso saber com quem estou falando.
- Agora! Mesmo que você me diga o seu não posso confiar, pode ser o de outra pessoa, quem vai me garantir?
- Mas não tenho nenhum protocolo com você, portanto não preciso dizer o número do meu CPF.
- Mas quem abre os protocolos são as pessoas e não os CPFs!
- Senhor, precisamos fechar o protocolo.
- Olha aí, você sabe com quem está falando. Pode dizer!
- Preciso do número do seu CPF! Se não vai dizer tenha um bom dia.
- A gente só dá bom dia a quem se conhece.




PANORAMA LITERÁRIO

NATANAEL E JUAREIZ NA BERLINDA LITERÁRIA




PRÊMIO NACIONAL CEPE DE LITERATURA




Serão R$ 80 mil reais em prêmios, divididos com os melhores das quatro categorias: Romance, contos, poesia e literatura infanto-juvenil. Cada vencedor, portanto, receberá uma premiação de R$ 20 mil em dinheiro. As inscrições poderão ser feitas até 15 de junho. Mais informações no site da Companhia Editora de Pernambuco www.cepe.com.br



WORKSHOP DE CRIATIVIDADE COM SIDNEY NICÉAS





Oportunidade única da Empreendeler para você: Workshop de Criatividade com o escritor Sidney Nicéas! No sábado 04 de junho de 2016, das 08h às 12h, na Faculdade Guararapes (unidade Derby). Inscreva-se já e descubra o seu próprio poder criativo. Desconto especial para estudantes.
Inscrições: euqueromudaromundo.org  
Informações: (81) 99967.3367



domingo, 1 de maio de 2016


MIOLO DE POTE – Alexandre Furtado

Por Alexandre Furtado




Foto: reprodução




Os feitiços do Brasil e a ilha mítica 


A ideia de América apareceu publicamente, como representação em Novo Mundo, mapa de Martin Waldseemüller, século XVI. A partir daí, desenho e nome consubstanciaram-se numa só coisa e testemunharam, em última análise, o processo de invenção de um espaço cuja identidade estava atrelada ao Outro. Heterogeneidade e sincretismo fizeram parte de sua formação da mesma forma que ancoragens, naufrágios, igrejas, engenhos, escravidão e um número considerável de línguas. Até hoje, por exemplo, em muitas regiões americanas, como é o caso da Bolívia, conta-se com um expressivo contingente populacional mestiço, constituído ali de quéchuas e aimarás, organizados diferentemente, inclusive, em outros idiomas, não somente o espanhol.

João Ubaldo Ribeiro, a respeito dos incontáveis Brasis os quais achamos conhecer, encaminha ideias, digamos “anti-históricas”, a respeito da gestação da civilização brasileira; deixa de lado o modelo entronizado da barbárie, inventado e forjado numa verdade racista, e, no alinhavo da narrativa literária, fala não mais de um “quem oficial”, mas de uma outra nação, aquela que, descalça, gerada na submissão, interrompida, problemática, enfim, cruzada por múltiplos relatos mal ouvidos, constrói nas margens noções válidas, porém desprezadas, de brasilidade.

Este outro Brasil, imaginado literariamente, disfarça-se numa terceira via que traduz a própria identidade cultural na condição de ser “entre”, além de outras coisas.  Ao se ver no chamado entre-lugar, atenta-se para o fato de não ser mais um sujeito inventado pelo outro e, sendo a si mesmo, assume-se uma diversidade naturalmente congênita. É possível descobrir daí que nossa história particular é melhor conhecida quando não mais mediada pela visão externa a qual se afirma ilegitimamente. Deste ponto, a questão da brasilidade deixa de ser unicamente portuguesa ou, na idealização romântico-alencariana, deixa de ser aquela que projeta a figura do índio formatado ou de um país-paraíso. Na repressiva década de 60, João Ubaldo inaugurava, com Setembro não faz sentido, o que seria, para mim, uma das mais contundentes temáticas em seu trabalho, que é a preocupação com os sentidos que governam a mentalidade do povo. Nestes anos de luta, Ubaldo dera início a uma longa reflexão sobre nós mesmos, maturada ao extremo em Viva o Povo Brasileiro de 1984.

Apostando na dessemelhança das práticas histórico-sociais de escrever e configurar uma narrativa que não descarta o passado, o autor elabora uma versão totalmente diferente do mesmo. Em O feitiço da Ilha do Pavão,  abraça a escravidão, os degredos, a corrupção e os jogos de poder, renovando a versão literária com amplitude de humor e risos. Não se trata de um romance histórico comme il fault, nem mesmo pretende sê-lo, mas mostra-se transistórico por atravessar o tempo e renovar a  representação histórica. Habitada por uma população de negros escravos, índios bebedores de cachaça e brancos que enriquecem com o tráfico de homens, na ilha, coexistem, além do senhor de engenho idealista, uma degredada insurreta , um imigrante alemão aos moldes Stadenianos, uma escrava chamada Crescência, inquisidores corruptos, um rei negro e autoritário que rege o quilombo carnavalizado, diverso da imagem histórica. É uma caricatura mestiça e revertida do Brasil no século XVIII.

O estilo híbrido do romance, que é fruto da diversidade de pontos de vista e linguagens, irá reivindicar, na obra ubaldina, uma representação no mínimo semelhante à formação de nosso povo, também talhada na variedade das personagens. Este universo tem por bem revelar as tensões políticas, o jogo das representações, as imagens sociais e, por fim, os mitos populares. Calar a seriedade passa a ser um excelente contraponto da cultura oficializada. E isto mostra um dos pilares da arquitetura bakhtiniana, que é o estudo do romance enquanto gênero discursivo híbrido e capaz de apresentar o homem como ser de linguagem. A mistura de diferentes culturas, classes, registros identitários e linguagens impedem, na visão do teórico russo, a hegemonia de formas estanques de representação.

Como sabemos, João Ubaldo Ribeiro é natural da ilha de Itaparica na Bahia; sendo filho primogênito, muda-se para Aracaju e começa seus estudos em casa com um professor particular por insistência do pai que também era professor. Quando alfabetizado, descobre a leitura e passa a devorar os livros infantis de Monteiro Lobato. Em 51 muda-se com sua família para Salvador e lá aperfeiçoa o idioma inglês que já vinha estudando, além de latim e francês. Não raro, Ubaldo era solicitado a traduzir alguns textos literários ou mesmo resumi-los. Em 1957, inicia a carreira jornalística no Jornal da Bahia e um ano depois ingressa no curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, jamais exercendo a profissão de advogado.

Conta-se que Ubaldo, mesmo aplicado, leu mais Rabelais, Shakespeare, Swift, Cervantes, entre outros do que os livros da área jurídica propriamente. Escreve em 1963, Setembro não tem sentido, um ano antes de viajar para a Califórnia, EUA. A bolsa de estudos concedida pela Embaixada norte-americana garantiu-lhe o mestrado em Administração pública. Volta ao Brasil para dar aulas em Ciência Política na UFBA, mas desiste da carreira acadêmica, retornando a atividade jornalística. Nessa época, a reflexão sobre a identidade coletiva aflorava-lhe, de maneira que setembro, o mês em que se comemora a data de independência da nação brasileira, surgira no título da obra para indagar o sentido dessa comemoração. Curiosamente, o título teria sido alterado por sugestão da editora, em 1968, depois do Golpe Militar e em pleno período de repressão política.

O Feitiço da Ilha do Pavão (1997), prestes ao festejo do “descobrimento” de 2000, abarca muitas coisas misturadas, assim como o Brasil também o faz ; são feitiços, degredos, corrupção, jogos de poder, subversões,  sexualidade, Inquisição, religião, idealismo, soberba, tirania, mistério, miscigenação, humor e riso amplificados. A Ilha do Pavão não tem lugar certo, mas tem o seu lugar. Sabe-se que fica perto do Recôncavo Baiano, perto das Ilhas do Frade e de Maré, mas sua situação geográfica  é misteriosa. Ela aparece e desaparece, guarda para si um segredo que povoa a curiosidade do povo do Recôncavo. Sua paisagem nos é bastante familiar no que se refere à fauna e flora. Também em relação à composição étnica do povo, mestiça e plural. Muitas povoações se espalham ao longo da costa entre elas, as Vilas de São João Esmoler do Mar do Pavão, Nossa Senhora da Praia do Branco e Bom Jesus do Outeirão.




Finalmente, João Ubaldo imagina a nação brasileira como uma comunidade totalmente diferente daquilo que nos é contado. Ela é produto do povo, do subalterno, do oprimido e não das elites. A ficção permite o autor imaginar livremente; lhe permite inventar fórmulas diversas para nossas identidades multiculturais por meio de escravas negras, índios livres, degredados, estrangeiros que assumem uma crítica contra-hegemônica ou ainda nas falas de personagens que representam instituições oficiais como o Exército, a Igreja ou o Estado.
  
Em tempos, quase politicamente estranhos, obscuros, a releitura de O feitiço da ilha do pavão nos coloca em contato com o que talvez seja mais essencial no Brasil, a noção de hibridismo, de diversidade e pluralidade. O espaço mítico da ilha nos convida à reflexão.

















João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro (Itaparica, 1941  Rio, 2014) (Itaparica, 1941 — Rio, 2014) foi jornalista, cronista, roteirista e escritor brasileiro, formado em direito e membro da Academia Brasileira de Letras. Ganhador do Prêmio Camões de 2008, maior premiação para autores de língua portuguesa. Ubaldo Ribeiro teve obras adaptadas para televisão e cinema. É autor de romances como Sargento Getúlio, O Sorriso do Lagarto, A Casa dos Budas Ditosos, e Viva o Povo Brasileiro, destacado pela escola de samba Império da Tijuca, no Carnaval de 1987.






A SENHORA DO SEGREDO (CONTO DE PAULO CALDAS)



Paulo Caldas/Foto: reprodução


Oculto pela cortina, encostado na parede da cabine, observa lá embaixo, no set de gravação, duas moças portando livros e cadernos.

Quem são aquelas duas? Concluintes de um desses cursos de mulher: Psicologia, ou Nutrição, eu sei lá. E o que querem; como entraram? A de calça boca sino é irmã do operador de áudio, elas desejam você paraninfo da turma.  Ah, veja de quanto precisa, a de minissaia é um broto encantador, quero falar com ela.

O susto de se vê diante do ídolo e a surpresa de ser convidada para assistir ao ensaio, deixou Malena imóvel que nem uma estátua. A partir de então, a conversa fluiu. Na intimidade do camarim, ambiente atapetado, decorado com flores naturais, cortinas de cetim, iluminação indireta, às carícias consentidas a levaram ao limbo de amor.          

Refeitos da sofreguidão, ele inicia o diálogo. Qual o seu sonho de futuro, meu amor? Trabalhar, ter uma família feliz, uma aposentadoria serena, repetir esses momentos nas vezes que você vier aqui e dois ingressos grátis. Muito pouco para quem perdera a virgindade.

E assim foi feito. A cada show na cidade, além da liturgia do primeiro encontro, Malena e Ana Clara, a cúmplice do segredo, recebiam convites para os camarotes.

Quando da festa dos vinte anos de carreira do cantor, mesmo casada e mãe de três filhos, mantiveram o ritual do amor maduro. Porém, Ana Clara, em nome da amizade, não resistiu e cedeu à curiosidade: quando vocês se amam, o que ele faz com a perna mecânica? Sempre esperei essa pergunta, Ana; antes de se despir, vai ao banheiro e em seguida, na penumbra, sob os lençóis, pede que eu deite ao seu lado. Então você nunca viu? Não.



  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima