domingo, 20 de julho de 2014

Ler poesia é mais útil para o cérebro que livros de autoajuda, dizem cientistas


pUBLICADO EM OBVIOUS LOUNGE POR Marcelo vinicius*

Você já podia imaginar, mas agora está evidenciado cientificamente: ler poesia pode ser mais eficaz em tratamentos psicológicos do que livros de autoajuda. E mais: textos de escritores clássicos como Shakespeare, Fernando Pessoa, William Wordsworth e T.S. Eliot, mesmo quando de difícil compreensão, estimulam a atividade cerebral de modo muito mais profundo e duradouro do que textos mais simples e coloquiais.

William Shakespeare


Um texto já publicado pela agência EFE, mas que poderia ser revisto, afinal estamos comentando sobre a velha história da análise crítica sobre Literatura tida como de qualidade e a Literatura tida como de entretenimento, e mais, autoajuda: a leitura de obras clássicas estimula a atividade cerebral e ainda pode ajudar pessoas com problemas emocionais, diz estudo.

Ler autores clássicos, como Shakespeare, Fernando Pessoa, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e a poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool.

Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos e depois essas mesmas passagens traduzidas para a "linguagem coloquial".

Os resultados da pesquisa, antecipados pelo jornal britânico "Daily Telegraph", mostram que a atividade do cérebro "dispara" quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano.

Esses estímulos se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo, segundo o estudo, que utilizou textos de autores ingleses como Henry Vaughan, John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin.


Os especialistas descobriram que a poesia "é mais útil que os livros de autoajuda", já que afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre eles e entendê-los desde outra perspectiva.

"A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças", explica o professor David, encarregado de apresentar o estudo.

Após o descobrimento, os especialistas buscam agora compreender como afetaram a atividade cerebral as contínuas revisões de alguns clássicos da literatura para adaptá-los à linguagem atual, caso das obras de Charles Dickens.


*MARCELO VINICIUS é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto e apaixonado pelo novo. É amante da arte, seja fotografia, cinema ou literatura. Participou de jornais regionais, escreve para o portal obvious e é colunista do site Homo Literatus. É graduando em Psicologia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Faz parte da equipe editorial da Revista IDEAÇÃO, do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Filosofia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea; participou também do projeto de extensão sobre cinema e produção de subjetividade (Sala de Cinema) e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na UEFS. Além disso, é certificado pelo curso de fotografia do CUCA – Cento Universitário de Cultura e Arte. Foi responsável também por coordenar projetos acadêmicos e cine-debates sobre os clássicos escritores Kafka e Dostoiévski, ainda co-coordenou projetos sobre os cineastas Bergman e Hitchcock.



Navegando nos versos da memória

Jaci Bezerra – o poeta da canção amiga/Foto: Divulgação

Nesta edição o DCP traz mais um grande nome da poesia pernambucana:
Jaci Bezerra – “o poeta da canção amiga”, conforme Edson Nery da Fonseca: “é não apenas o maior poeta de sua geração, mais um dos grandes da língua portuguesa, estando ao mesmo nível de Pessoa e Bandeira, Mourão-Ferreira e Drummond, José Régio e Jorge de Lima.”
Jaci Bezerra nasceu em 1944 na cidade de Murici, Alagoas. Transferiu-se aos quinze anos de idade junto com a família para a cidade do Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife. Poeta, sociólogo, contista dramaturgo e editor. Foi integrante do grupo de poetas de Jaboatão que mais tarde passou a ser denominado como a Geração 65, foi também fundador da Edições Pirata, importante movimento editorial que lançou mais de trezentos títulos de até então jovens poetas da cidade do Recife.
Segundo o poeta e sociólogo Sebastião Vila Nova: “Se a geração 65 representa um dos momentos mais ricos na história recente da poesia brasileira, o poeta Jaci Bezerra personifica o que de mais refinado e original essa geração revelou. Alguns de seus poemas já figuram entre aqueles que quem lê jamais esquece, os poemas de permanência definitiva nas letras do Brasil.”

Os editores


Quatro poemas de Jaci Bezerra


Composição liricamente surrealista

No verão, se a manhã nasce madura
e o tempo nos relógios se derrama,

um ramo já antigo de ternura
abraça a casa e a casa fica em chama.

E no alpendre do verso em que se abriga
onde a chuva, já velha, cai aos pingos,

a casa vestida à noite de cantiga
se abre feliz como um dia de domingo.

A casa, afinal, é um objeto
de palavras e sons que, embora esquivo,

é capaz de sonhar, quando é aberto
e capaz de voar, porque está vivo.

Tanto que exposta do quintal à sala
avaliando o que vive e o que viveu

ao recordar a infância a casa fala,
como falamos nós, você e eu.

E alguns milagres se passam nos seus quartos,
pois hoje em dia, vencidos tantos anos,

até seus tênis velhos e pacatos
há um certo tempo vêm ficando humanos.


Dever de casa

Era tempo de Deus, e Deus chegava
imprevisto e, quase sempre, ao fim da tarde:

ao chegar, abria as portas que eu fechava
revelando, a um passo, a eternidade.

Tinha, Deus, o esplendor de um feriado
aberto à inocência e aos brinquedos:

nesse tempo de paz e chão molhado
eu via Deus e não tinha medo.

O que sonhava, comigo Deus sonhava,
o sol, o céu, o mar, tudo era nosso:

se queria pecar, Deus não deixava,
a alma desconhecia o que é remorso.

O tempo, com insônia, não dormia,
e a vida, perambulando nos quintais,

apesar de ingênua e mansa já dizia
que esse tempo não voltava nunca mais.

Passou o tempo, passei eu, passou
a vida, a cada dia mais remota:

só não passa, preservando o que restou,
o Deus que sonha e me abre suas portas.


A lavra da vida*

O lavrador aprende
com a pedra de mó
acesa enxada fende
defende o canto só

Defende, não depedra
a áspera e dura horta,
a enxada sulca a pedra
a vida, acesa, brota

Arada a pedra oura
a mão, mesmo doída,
a safra da lavoura
doce safra de vida

A vida não divida
o lavrador a horta
exige toda a vida
dar vida à pedra morta.

(In Lavrador, 1973, p. 98)


Opus 9*

Se cauto o amigo ara
a dura pedra doce
a sentirá tão clara
como se água fosse

Se exausto o amigo chora,
dorme e não amanhece,
verá Nossa Senhora,
aceso mar celeste

Se acaso o amigo ama
e não o ama ninguém
fará, quem sabe, drama
do seu amor, porém

Se tarde o amigo escreve,
entre a pedra e o espinho,
morrerá, sim, e deve,
cada vez mais sozinho

(In Lavrador, 1973, p. 96)



A Crônica da Semana

O correto uso do papel higiênico

Última crônica escrita por João Ubaldo Ribeiro para edição do jornal O Globo, neste domingo, 20 de julho de 2014

por João Ubaldo Ribeiro*

João Ubaldo Ribeiro era colunista do jornal O Globo/Foto: Divulgação


O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.

Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.

Agora me contam que, não sei se em algum estado ou no país todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabetes e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.

Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma — chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote —, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.

Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.

*João Ubaldo Ribeiro (1941 – 2014) era escritor, jornalista e imortal da Academia Brasileira de Letras



Panorama Literário

Adeus a João Ubaldo Ribeiro

Foto: Divulgação

Foi com profundo pesar que o DCP recebeu a notícia do falecimento do escritor e jornalista João Ubaldo Ribeiro.
O país reconhece o talento de João Ubaldo, um dos nossos escritores mais premiados. Recebeu o Prêmio Jabuti, em duas ocasiões. A primeira, em 1972, quando o escritor ganhou o prêmio de melhor autor revelação com o romance Sargento Getúlio, e em 1985, foi condecorado na categoria Melhor Romance do Ano, com a obra Viva o Povo Brasileiro. Em 2008 ganhou também o Prêmio Camões, maior premiação para autores de língua portuguesa. 
A literatura brasileira perde um dos grandes romancistas e cronistas da atualidade, membro da Academia Brasileira de Letras. Mas suas obras sempre permanecerão vivas na memória do povo brasileiro.
Conheça e leia mais o escritor brasileiro!



Em tom de conversa na APL

A APL realiza o Projeto "Em Tom de Conversa", com o Acadêmico Amaury de Medeiros, que acontecerá no dia 22 de julho (terça-feira), às 16 horas, na Academia Pernambucana de Letras.



Vamireh Chacon leva Prêmio Machado de Assis


Concedido pela Academia Brasileira de Letras, o prêmio é de R$ 100 mil



O DCP divulga os vencedores dos prêmios literários concedidos pela Academia Brasileira de Letras (ABL). O mais importante deles, o Prêmio Machado de Assis, foi para o cientista político, pesquisador e professor pernambucano Vamireh Chacon que embolsará o prêmio de R$ 100 mil. Chacon é professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) e autor dos livros Globalização e Estados transnacionais (Senac) e Formação das Ciências Sociais no Brasil (Unesp). Além de Chacon, que levou o Machado de Assis pelo conjunto da obra, serão entregues prêmios de R$ 50 mil em outras sete categorias: Poesia, para Gabriel Nascente, pelo livro A biografia da cinza (Kelps); Ficção (Romance, Teatro e Conto) para Luiz Vilela por Você verá (Record); Ensaio e Crítica Literária para João Cezar de Castro Rocha pelo trabalho Machado de Assis: por uma poética da emulação (Civilização Brasileira); Infantojuvenil para Tatiana Salém Levy, pelo livro Tanto mar (Record) e Mirna Pinskyn por Um menino, sua amiga, um  fichário e dois preás (FTD); Tradução para Safa Jubran, pelo seu trabalho em E nós cobrimos seus olhos (Companhia das Letras), de Alaa Al Aswany; História e Ciências Sociais para Lilia Moritz Schwarcz pelo livro Batalha do Avaí (Sextante) e Cinema para Matthew Chapman e Julie Sayres, pelo roteiro do filme Flores Raras, dirigido por Bruno Barreto.



Poeta argentino Héctor Pellizzi realiza exposição de autores pernambucanos

Héctor Pellizzi/Foto: Michele Souza
  
Com experiência de quem leu e viveu a poesia pernambucana por vários anos, o jornalista e poeta argentino Héctor Pellizzi (61) realizou nesta terça (17), no Espaço Pasárgada (Recife), exposição de traduções de autores pernambucanos.
Pellizzi passou a traduzir para o espanhol – já de volta à sua cidade natal, Junín, nos arredores de Buenos Aires – os autores que aprendeu a admirar. Ao longo dos anos, levou para o seu Jornal de los Bairros produções de Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto, Alberto da Cunha Melo, César Leal, Domingos Alexandre, Ângelo Monteiro, Montez Magno até os contemporâneos Cida Pedrosa, Wilson Freire, Miró, Samuca, entre outros.



Oficina de Criação Literária

Foto: Divulgação

A Cultura Nordestina Letras & Artes promove Oficina de Criação Literária nesta próxima quinta (24) e será ministrada pelo escritor Raimundo Carrero (estudo do duplo em Dom Casmurro). Visite a Cultura Nordestina Letras & Artes: Rua Sérgio Magalhães, 54 – Graças (Por traz do Museu do Estado). Fone: 81 3243-3927



Um escritor na minha escola

Escritor Fernando Farias coordena “Circuito Literário” nas escolas de Jaboatão

Fernando Farias e a escritora convidada Adélia Flor com alunos
da Escola Municipal Jaboatão dos Guararapes/Cajueiro Seco

A Secretaria Executiva de Educação do Jaboatão dos Guararapes deu início ao “Circuito Literário – Um escritor na minha escola”, que, até o final do ano, receberá cerca de 25 escritores pernambucanos. O “Circuito Literário” tem a coordenação do escritor Fernando Farias. Excelente iniciativa! 



domingo, 13 de julho de 2014

Entrevista com o editor e poeta Juareiz Correya

“Acredito nos ebooks, nos livros eletrônicos, como escritor e como editor, e vejo, com a Internet, um futuro muito promissor para a nossa literatura, pernambucana e nordestina, para toda a literatura brasileira”.

Poeta Juareiz Correya/Foto: Arquivo DCP
  
O DCP traz mais uma marcante entrevista com um importante nome da literatura pernambucana e brasileira o poeta Juareiz Correya, que dirige, no Recife, a Panamerica Nordestal Editora e Produções Culturais.

Juareiz Correya nasceu em Palmares, cidade da Mata Sul do Estado de Pernambuco, conhecida como terra dos poetas. Juareiz é poeta, contista e editor. Na década de 1970, residiu e trabalhou em São Paulo, onde foi colunista de arte do Diário do Grande ABC. Dirige, no Recife, a Panamerica Nordestal Editora e Produções Culturais. Idealizador do projeto de criação da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho e dirigiu a instituição da Prefeitura dos Palmares em dois períodos distintos: 1987/1991 e 1997/2204. Publicou os livros de poesia AMERICANTO AMAR AMÉRICA (1975/1982/1993), CORAÇÃO PORTÁTIL (1984/1999) e tem outros livros de poesia e de contos inéditos. Seus poemas foram publicados em antologias paulistanas, pernambucanas, e em revistas e jornais brasileiros. Organizou e publicou as antologias POETAS DOS PALMARES (1973/1987/2002), POESIA VIVA DO RECIFE (1996) e o ebook FUTEBOL É POESIA (2014). Publica na internet os blogs: JORNAL DO JUAREIZ, LETRAS&LEITURAS, POESIA VIVA DA CIDADE e AMERICANTO AMAR AMÉRICA.


DCP - Você fez parte da geração dos poetas Independentes de Pernambuco? Passado tanto tempo, o movimento literário do estado avançou?

JC - Não fiz e não faço parte da geração dos poetas Independentes de Pernambuco. Sou simpatizante do grupo desde a sua origem, que ocorreu depois das atividades do grupo da Edições Pirata do Recife, ao qual estive também ligado por simpatia e amizade. Na verdade, sou um solitário poeta marginal, de um tempo anterior ao desses grupos citados, vindo de atividades literárias e experiências editoriais em São Paulo e, de volta a Pernambuco, na minha cidade natal – Palmares – e no Recife. Passado tanto tempo, como vocês dizem, estamos vivendo em um novo século e, sinceramente, mesmo considerando as conquistas sociais, as oportunidades profissionais e os avanços tecnológicos, o movimento literário em Pernambuco pouco ou nada avançou. Tudo cresceu e a vida literária não.  Há grupos de escritores em tudo quanto é canto, encontros, festas e feiras de livros, eventos a torto e a direito, mas, leitores - gente interessada realmente por livros - são um número proporcionalmente insignificante. É o vermelho das estatísticas que fecham as livrarias... E Literatura só existe mesmo se alguém lê. As escolas e faculdades estão cheias de professores e estudantes que não sabem nem querem saber o que é Literatura.


DCP - Nos anos 60 surgiu em Jaboatão dos Guararapes um grupo de poetas, o qual foi denominado mais tarde como “Geração 65”. Qual o legado deixado por esta geração para o Estado de Pernambuco?

JC - Não sou crítico ou historiador. Como escritor e editor que tento ser há mais de 40 anos, e também como amigo e admirador de alguns nomes da GERAÇÃO 65, tenho de aplaudir todos os seus nomes, que estão vivos para além do tempo literário marcado pela sua geração. O legado está vivo e, infelizmente, Pernambuco ainda não o conhece como merece ser conhecido.


DCP - Você já editou livros impressos e agora singra para os ebooks, como você ver o futuro do livro impresso?

JC - Tenho mais de 40 anos dedicados ao livro impresso e uma razoável produção literária e editorial. Acredito nos ebooks, nos livros eletrônicos, como escritor e como editor, e vejo, com a Internet, um futuro muito promissor para a nossa literatura, pernambucana e nordestina, para toda a literatura brasileira. O futuro da Literatura está nas nossas mãos. E pode ser facilmente compartilhado com o mundo. Por outro lado, acredito que o livro impresso ainda vai permanecer vivo no dia-a-dia da nossa cultura, ao lado dos livros eletrônicos, mas a sua produção vai ser reduzida e a sua ação cultural será a cada ano mais limitada. Somente os governos e as instituições culturais e educacionais poderão manter o livro impresso vivo, preservado e validado em projetos editoriais e ações nas áreas da Cultura e da Educação nos municípios, Estados e no País.


DCP - Quais as vantagens dos ebooks frente aos impressos? 

JC - São diversas, prováveis e incomparáveis. O livro impresso, físico, é perecível; o livro eletrônico é imperecível. O livro físico é impresso (caro), distribuído (preço acrescido de custos de distribuição) e vendido (preço acrescido de custos de vendas). E com tudo isso tem um alcance muito restrito e localizado de leitores. O livro eletrônico tem apenas o custo de edição/editoração e é distribuído/vendido diretamente para leitores que tenham acesso à publicação em todo o mundo. Para conhecer um livro eletrônico, você não vai a uma livraria. A livraria está nas suas mãos. Isto é a dimensão da eternidade.


DCP - A Internet atrapalha o movimento literário ou o rejuvenesce?

JC - A Internet está salvando e rejuvenescendo a Literatura. Acredito que, nestas poucas décadas de comunicação digital, a Internet já fez muito mais leitores do que o livro, as revistas e os jornais impressos em séculos de informação cultural.


DCP - Você acha que o livro impresso vai deixar de existir? Por quê?

JC - Não acho que o livro impresso vai deixar de existir. Os livros impressos e eletrônicos vão conviver ainda por um longo tempo. Mas acredito que as revistas e os jornais impressos vão deixar de existir em breve.


DCP - O número de leitores está cada vez menor. O que você acha que deve ser feito para mudança deste quadro?

JC - Os leitores de livros impressos estão desaparecendo há algum tempo. O processo educacional no Brasil não cria leitores, não valoriza a Literatura nos períodos dos estudos, do ensino fundamental ao ensino universitário. Temos professores em todas as áreas que não leem. Há muito tempo o livro impresso vem sendo desvalorizado por todos: professores, alunos, pais, comunidade em geral. Quando comecei a publicar, na década de 1970, como escritor e editor, a edição de um livro impresso era normalmente de 1.000 exemplares. Circulava, tinha livrarias e leitores para essa produção. Hoje um autor é lançado em edição de 300 exemplares e menos do que isso... E vai se contentar se distribuir, muitas vezes de graça, entre parentes e amigos. Tem mais: não é distribuindo livros gratuitamente que existirão leitores para valorizá-lo. Autor, editor, instituição cultural que faz isso está desrespeitando o livro, o autor, a Literatura e a Cultura da sua cidade, do seu Estado, do nosso País.  E livro eletrônico também não deve ser distribuído gratuitamente, na base do “pegue e leve”.  Pegue e leve uma ova ! Livro é um produto de valor, não está pedindo “a esmola de um leitor pelo amor de Deus”. A mudança deste quadro vai exigir muito trabalho e investimento dos governos municipais, estaduais e federal. Um trabalho educacional e cultural permanente para a valorização, em conjunto, dos livros impressos e dos livros eletrônicos.


DCP - Você está fundando a Associação dos Blogueiros do Nordeste, como está este processo e qual o futuro desta Instituição?

JC - Estamos fundando – e neste empreendimento estão vocês, Natanael Lima e Frederico Spencer, de Pernambuco, e Luiz Alberto Machado, de Alagoas. O objetivo da ABLNE - Associação de Blogs Literários do Nordeste é o de fortalecer o trabalho dos blogueiros literários da nossa região, ampliando a ação literária e cultural desenvolvida por todos e em todos os sentidos. Ainda neste segundo semestre de 2014 trabalharemos para que se concretize a eleição da primeira diretoria da associação que já conta, em sua organização provisória, com mais de 40 associados de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Bahia, Rio Grande do Norte e Piauí.  O futuro é do tamanho da Internet.



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