domingo, 14 de outubro de 2018


V SARAU VIRTUAL



(Homenagem aos poetas Catulo da Paixão Cearense, Mário de Andrade, Antonino Oliveira Júnior, Vinícius de Moraes, Mário Faustino, Luiz Carlos Monteiro, Edwiges de Sá Pereira, Humberto de Campos, Raul de Leoni e Carlos Drummond de Andrade)


Nesta V edição do “Sarau Virtual”, o DCP reuni cinco poetas contemporâneos que se destacam no cenário literário pernambucano: 
Auzeh Freitas, Cláudio Noah, Dantas Jade, José Luiz Mélo e Margarete Cavalcanti




AUZEH FREITAS*











“A poesia é importante, porque nos agiganta nas palavras e perdemos a dimensão do verbo. Nada é pequeno, tudo se faz imenso. É o alimento da minha alma. E se há mel em mim, abelha rainha poliniza versos.”


PESQUEIRA, UM POEMA DE AMOR

Dos caminhos que a carruagem da vida fez
na sala do meu coração ficou a poeira
que deixo se unir à neblina do tempo,
Para eternizar meu doce Pesqueira.

Uma estação e um cruzeiro
brilho de incontáveis estrelas,
braços abertos igual Cristo Redentor.
Faz de Pesqueira um poema de amor.

O palácio do Bispo e Dom Mariano,
a Rosa das minhas festas, o Cristo Rei
bailes nobres no 50. Simples nos Radicais.
Lembranças que não esquecerei

A Peixe, seus doces e aquela chaminé
que na minha memória ainda sopra
a fumaça da PAZ, do Trabalho e da Fé.

Sou poetisa, guerreira sem medo.
Dentro de mim, Santa Águeda
a força das pedras e do lajedo.


*Auzeh é pseudônimo de Maria Auzerina de Freitas, pernambucana de Pesqueira. Professora, poeta declamadora, atriz e guerrilheira cultural. Têm trabalhos divulgados na net, livros e Antologias no Brasil e em Portugal. Participação em comerciais e curtas-metragem. Membro da SOPOESPES, Soc.dos Poetas e Escritores de Pesqueira, SPVO - Soc. dos Poetas Vivos de Olinda, SPVA - Soc. dos Poetas Vivos e Afins do RN, Grupo Corujão da Poesia, Universo da Leitura do RJ. Embaixadora em PE.




CLÁUDIO NOAH*




“Considero que a poesia é uma constante digestão interior das impressões que nos rodeiam e se acumulam em algum lugar lá por dentro da gente. Trazê-las ao mundo tridimensional, esse em que vivemos e interagimos, através de palavras ou notas musicais é um excelente exercício de autodescobrimento e veneração à vida e às pessoas.”


A BOLA DA VEZ

Chego na bruma da noite
Sou quem estava por vir
Trago-te corte e açoite
Sulfa, veneno, elixir
Meu olho de vidro é quebrado
Salivo da cor do açafrão
O cadarço do meu sapato
Rabisca estrelas no chão

Sou boto, sou cobra de fogo
Fazendo teu ventre tremer
A bola da vez no teu jogo
E o drible que falta a você
Tenho na mão bem riscado
O eme dos maracatus
Na goela meu nó é dobrado
Meu sangue é de pó, vento e luz

Na ponta da lança a cabeça
Do teu mais antigo ancestral
Não me negues acaso amanheça
Meu rastro deixei no quintal
E pra terminar dou por dito
O que te permito ouvir
No teu abajur deixo escrito
Apaguei à luz ao sair


ROMÃ

Trago em mim do tempo na estrada
A brisa leve e solta da manhã
No beijo de partida ou de chegada
O doce azedume da romã
Por dentro em mim há muito e quase nada
Fincado em minha pele pelo afã
Nos olhos uma noite estrelada
E boca adentro um gosto de hortelã

Ventos, velas, direção
Gentes, vidas, coração
  
*Claudio Noah é pernambucano de Recife, nascido em agosto de 1961, músico, cantor e compositor além de amante das palavras, que segundo o mesmo, “parecem gostar mais de mim do que mereço”. É parceiro de trabalhos musicais com Zeh Rocha, André Macambira, Lucas Crasto, entre outros músicos e cantores pernambucanos, não tendo ainda lançado publicação exclusivamente de poesias, o que espera fazer brevemente.



DANTAS JADE



Diante da poesia sou apenas encantamento e avidez. Em alguns poemas, me sinto livre para voar com as palavras. Com outros, mergulho em ondas grandes demais para mim. Nestes, a poesia me absolve das minhas próprias loucuras e imperfeições, esfinges no construir e demolir, tentando encontrar a outra face, oculta no desafio das palavras, viciada que sou em intensidade.”


ITINERÁRIO

meu poema é um continente de emoções intactas
porque o tempo da leveza deixa rastros

meu poema guarda uma espécie de loucura
alimentando o ardor das chamas resguardadas

meu poema reflete o mistério das noites
adormecido além da eternidade sublimada

com a mesma luz que adoça o ritmo dos amores
e o itinerário ilimitado das miragens

e no silêncio do ardor apaziguado
inesgotável como toda insensatez

com as metáforas das palavras me ultrapasso
sou uma nave viajando em miragens



JOSÉ LUIZ MÉLO



“Pergunto-me, é possível poesia no sórdido, no escabroso? Qual o toque na alma para despertar o sentimento da poesia nestas circunstâncias? E a sua beleza, seria uma beleza com outras circunferências e reentrâncias? Pergunto-me, o ser (pessoa, gente) sórdido (como julgar quem o é sem mostrar-se severo ou complacente?), qual encanto acharia num poema de nuvens e de estrelas, de pássaros canoros e peixinhos azuis. E um outro ser, (assim, como nos vemos), de que maneira sentiria o fluido transeunte do poema em um (verso) sórdido e nauseabundo? Alguém já leu algum poema sórdido? Eu li, e desentranhei o sórdido do seu novelo para tocar no humano, um outro modo de ser verdadeiro.”


VENEZIANAS

25/04/2018

Tenho vontade de lançar-me aos ares
como um pássaro livre e enlouquecido;
abrir as asas planas, pendulares,
me ver voando no desconhecido.

Exceder! Imergir dentro dos mares
em caverna abissal; submergido
na cratera mais funda; em lupanares
onde nenhum pecado é proibido.

Depois me dessangrar; deixar meu sangue
fluir aos borbotões; num bangue-bangue
ser o índio que ataca a caravana

nas planícies sem fim; salvar a moça
que é refém do bandido; e na palhoça
dos seus braços fechar as persianas.



MARGARETE CAVALCANTI



“A poesia para mim, é uma adição de conhecimentos que me faz atribuir a maneira de conviver, criar e viajar nas minhas emoções e meus sentimentos. São palavras extraídas de uma lavra com um universo amplo. A poesia me protagoniza, enfatiza e ama, sempre em sã consciência. Materializa e idealiza-me. Faz-me conviver em um mundo de fantasias, expectativas e magia. A poesia me irradia.”


SINTA-SE VIVO

Às vezes é difícil perceber que se está vivo.
Passam-se segundos, minutos, dias, anos... O que aconteceu?
Por que você deixou de viver uma vida que muitos gostariam de ter?
Viver não é tão fácil. É preciso compreender a sua missão.
Não adianta ouvir sermões do tipo “levanta!”, “seja forte!” ou “faça alguma coisa!”.
Nada disso. É preciso motivos!
Quando você parar de medir forças contra si próprio e contra as pessoas que em nada te acrescentam,
talvez você esteja preparado.
Deixe fluir suas ideias, pensamentos e sonhos.
Não se permita criticar por pessoas vazias. Critique a si próprio, faça perguntas a você mesmo.
Aceite as respostas que vêm de dentro de você, assim, poderá enfim começar a viver.


*Maria Margarete de Oliveira Cavalcanti é natural de Limoeiro. Veio residir ainda criança no Recife, onde estudou, casou e teve quatro filhos. Atualmente dedica-se à literatura. O lançamento de sua primeira obra, o paradidático intitulado “O jabuti”, se deu no ano de 2018. Recebeu medalhas por incentivo à literatura, revelação da poesia no ano de 2017 e o troféu de revelação literária filantrópica. Foi homenageada no livro “Mulheres que mudaram a história de Pernambuco” edição 2017 e na revista “Perto de Casa”, como exemplo de mulher empreendedora. Participou do concurso de poesias do almanaque artístico e lusófono “Revoada das Artes” com o poema “Natureza”, estando entre as dez melhores. Tomou posse na Academia Internacional de Letras e Artes. Participou das seguintes antologias: antologia de Raimundo Carreiro, Antologias “Essência Poética” e “Sonhos de Todos Vol. II” da escritora Cema Lins, Antologia “Universo da Poetisa e poetas seguidores” da escritora Alessandra Brander e Antologia “Os 10 Mandamentos” do escritor e jornalista Cássio Cavalcante. Teve, ainda, participação especial na obra “Contos Rimados – Frases & Pensamentos”, do escritor Xavier de Barros.














domingo, 30 de setembro de 2018


JORGE LUIS BORGES: O FAZEDOR


30 de setembro de 2018 by Natanael Lima Jr.*





Jorge Luis Borges em Buenos Aires, Nov. 20, 1981.
Imagem: AP Photo/Eduardo Di Baia.




No epílogo da obra O fazedor (Companhia das letras, 2008), o poeta e escritor argentino Jorge Luis Borges relata que se trata de sua mais pessoal obra, não por ser escrita com um estilo confessional, mas “precisamente porque é pródiga em reflexos e interpolações. Um homem que se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto”.

O seu livro compõe-se de uma coletânea de contos, ensaios e poemas líricos escritos em vários momentos de sua vida e reunidos numa edição de 1960, pelo seu amigo-editor.

A cada página, o leitor se defronta e mergulha numa aventura secreta, no mundo mágico e indizível de Borges. “Ao outro, a Borges, é que sucedem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e me demoro, talvez já mecanicamente, para um olhar o arco de um vestíbulo e o portão gradeado; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo seu nome numa lista tríplice de professores ou num dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o gosto do café e a prosa de Stevenson; o outro compartilha essas preferências, mas de um modo vaidoso que as transforma em atributos de um ator.” (“Borges e eu”)



DOIS POEMAS DE JORGE LUIS BORGES



Arte poética*

Olhar o rio feito de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sono
que sonha não sonhar e que a morte
que a nossa carne teme é essa morte
de cada noite que se chama sono.

Ver no dia ou no ano um símbolo
dos dias do homem e dos seus anos,
converter o ultraje dos anos
numa música, um rumor e um símbolo,

ver na morte o sono, no ocaso
um triste ouro, assim é a poesia
que é imortal e pobre. A poesia
volta como a aurora e o ocaso.

Às vezes, certas tardes, uma cara
fita-nos do fundo de um espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao divisar a sua Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
de verde eternidade, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.

*Tradução de Josely Vianna Baptista


Campos entardecidos*

O poente em pé como um Arcanjo
tiranizou o caminho.
A solidão povoada como um sonho
remanseou-se ao redor do vilarejo.
Os cincerros recolhem a tristeza
dispersa dessa tarde.  A lua nova
é um fio de voz que vem do céu.
Conforme vai anoitecendo
volta a ser campo o vilarejo.

O poente que não cicatriza
ainda fere a tarde.
As cores trêmulas se acolhem
nas entranhas das coisas.
No aposento vazio
a noite fechará os espelhos.

*Tradução de Josely Vianna Baptista












*Natanael Lima Jr é pedagogo, poeta e editor-fundador do site ‘DCP’




HAIKAI, POESIA NIPO-BRASILEIRA


30 de setembro de 2018 by José Luiz Mélo*



Capa divulgação



É frequente dizer-se o aforismo: “nos pequenos frascos, as grandes essências”. Sentença que se aplica perfeitamente quando se fala em HAIKAI, ou HAIKU, aportuguesado HAICAI; — pequenos (na extensão) poemas de origem nipônica, criados a partir do século XVI, que expressam de uma forma concisa, porém plena de significado e de carga poética, o mundo que nos cerca e às reações humanas diante dele. HAICAI é a arte poética de se expressar o máximo em sentimentos com o mínimo de elementos, as palavras.

Os seus temas geralmente são simples, porém concretos, não abstratos, captados dos fatos corriqueiros da vida e da natureza.

Pela clareza como conceitua o Haicai, transcrevo as palavras do celebrado haicaísta (designação que se dá aos autores de Haicai) recifense, José Lira, na contracapa do seu magnífico livro: “A Paisagem Lá Fora”, do qual falarei na próxima edição do nosso “Domingo com Poesia”:

“O haicai é um tipo de poema curto e objetivo que se volta para os seres e as coisas da natureza e mostra a vida como ela é e não como gostaríamos que fosse. Escrito em linguagem simples e direta, o haicai não se vale de “enfeites” e “efeitos” poéticos e não valoriza as abstrações nem o sentimentalismo. Privilegiando os sentidos e não a fantasia, o haicai busca captar a fugaz sensação de um breve instante que passa — no instante mesmo em que ele passa diante de nós.”

Quanto a forma, ainda tomo emprestadas as palavras do José Lira, no referido livro: “Além dos aspectos formais mais evidentes num haicai, que são os três versos (em geral de 5-7-5 ou 4-6-4 sílabas poéticas ou algo próximo), é preciso haver uma bipartição do poema em 1+2 ou 2+1 versos.

Esta partição, na qual em uma das partes se tem o cenário e na outra a ação, (o núcleo do poema), evita a sua prosificação, ou seja, evita que o Haicai se confunda com um simples excerto de prosa.

Embora essa seja sua estrutura tradicional, o Haicai, à medida que saiu do Japão e passou a ser escrito em outras línguas, inclusive com estruturas fonéticas diversas, modificou-se preservando, no entanto, o conceito de sua estrutura curta, geralmente dois versos breves e um mais longo.

Dentro deste espírito de atualização e renovação, veem-se hoje em dia haicais que exploram outros temas como o amor, problemas sociais e outros.

Na internet, nos sites de busca, temos, às mãos cheias, dezenas de locais que publicam haicais dos mais variados autores nacionais e estrangeiros, belissimamente emoldurados em quadros/gravuras que realçam os seus encantos.

Aqui, vou me limitar a divulgar uns poucos haicais de autores nacionais.


Afrânio Peixoto

Observei um lírio:
De fato, nem Salomão
É tão bem vestido…

Guilherme de Almeida

Caçador de estrelas.
Chorou: seu olhar voltou
com tantas! Vem vê-las!

Jorge Fonseca Jr.

Ah! estas flores de ouro,
que caem do ipê, são brinquedos
pr'as criancinhas pobres...

Fanny Luíza Dupré

Tremendo de frio
no asfalto negro da rua
a criança chora.

Paulo Leminski

Viver é super difícil
o mais fundo
está sempre na superfície.

Paulo Leminski

Amar é um elo
Entre o azul
E o amarelo.

Millôr Fernandes

Nos dias quotidianos
É que se passam
Os anos.

José Lira

A lua branca:
Na rua a luz do poste
Desnecessária.

José Lira

Coqueiro e poste:
As sombras paralelas
Sobre a calçada.

José Lira

Mais um café:
O piano esta tarde,
Meio deprê.

João Francisco Lima Santos

Eis a minha sina:
O vermelho dos teus lábios
Ser a dopamina.

João Francisco Lima Santos

Não CAPES
(Tu)
O futuro do país.

João Francisco Lima dos Santos

A noite
Desdobra
O silêncio. (neste haicai, o autor emoldura a cena com uma gravura de um sino dobrando)

UM ADENDO

Em “Poesia Completa”, de Alberto da Cunha Melo, no seu sumário, não encontrei Haicais. Não posso, no entanto, deixar de divulgar alguns dos belíssimos poemas intitulados “Salmos de Olinda”, um conjunto de 38 tercetos de versos curtos e rimados que o poeta concluiu em 1988.

O TEMPO CALADO

Silêncio cautelar
É aquele que nos cala,
Para nos consertar.

OURO DOS OUTROS

Aprenda a não ver
Para não desejar
O que não pode ter.

BELOS DIAS

Certos dias, como os licores
Bebe-os em cálices pequenos,
Sem a pressa dos bebedores.












*José Luiz Melo é poeta e editor do DCP







OS MÚLTIPLOS CAMINHOS DA POESIA DE JACI BEZERRA


30 de setembro de 2018 by Maria de Lourdes Hortas*



Imag. Reprodução




 A poesia é um verão de pombos
 Um instante de luz que não se explica
 Jaci Bezerra



JACI BEZERRA (José Jaci de Lima Bezerra) nasceu em Murici (AL) em 1944. A musicalidade dos poetas populares e a sinfonia das ondas do mar foram a trilha sonora da sua infância. Ritmos que lhe ficaram impressos na memória e que irão ressurgir na sua poesia.

Aos 15 anos transferiu-se com a família para Jaboatão dos Guararapes (PE), onde, a partir da sua convivência com Alberto da Cunha Melo, José Luiz de Almeida Melo e Domingos Alexandre, sob a orientação do poeta Benedito da Cunha Melo, sentiu o chamamento da escrita. Graduou-se em Ciências Sociais (UFPE). Desempenhou importantes atividades na Fundação Joaquim Nabuco - FUNDAJ. E estreou como poeta com a publicação de cinco sonetos no Diário de Pernambuco (1996). Pertence à conhecida Geração 65 de escritores pernambucanos. Poeta, contista, dramaturgo, cronista, editor e animador cultural, fundou, em 1979, com Alberto da Cunha Melo, Eugenia Menezes e Myriam Brindeiro, companheiros da Fundação, as Edições Pirata, do Recife, responsável pela publicação de mais de duas centenas de títulos de escritores brasileiros de várias gerações e tendências. Num segundo momento, outros escritores se uniram ao movimento, entre os quais Vernaide Wanderley e eu mesma.

O LIVRO DAS INCANDESCÊNCIAS (Pirata,1985)

O título ajusta-se com exatidão à poesia reunida pelo autor neste volume, poemas de vários livros, que o poeta reúne com títulos diversos, na tentativa de reconstrução de um tempo pretérito, pelo ritual da memória, referido por Marcos R. Barnatán, sobre Borges.

Diz o ensaísta: “O tempo não avança, não muda nada, porque o que ocorrer já ocorreu no passado. Nada altera o ciclo infinito dos astros. Voltar a sonhar o já sonhado é o desígnio dos poetas e reiterar o ritual da memória o castigo dos homens.”

Ao reunir na sua poesia essa dupla maldição, Jaci Bezerra atinge o ponto culminante onde a arte acontece: universo pessoal que se desdobra para, através da metamorfose poética, superar o real, transfigurando-o num mirante de onde se contempla o panorama atemporal do ser.

Sem recusar as ligações telúricas do homem de província que se afirma e quer, Jaci Bezerra caminha para aquém e além de si mesmo, conseguindo, pela restauração dos estilos clássicos do renascimento, fazer ecoar, no seu desassossego e inconformismo contemporâneos, a perene complexidade da alma do homem de ontem e de hoje.

A perseguição do extinto é, em Jaci Bezerra, levada às últimas consequências. Ao invés de se limitar à reconstrução das próprias lembranças, na execução obsessiva de uma sonata monocórdica, a sua apropriação das formas renascentistas – sonetos, sextinas, tercetos encadeados, quadras, versos hexassílabos, decassílabos, alexandrinos – carrega em si uma intenção mais profunda, que não se confunde com um mero gosto lúdico-estético. Tal postura confirma-se num dos versos do poema 81, presente no Livro da Angústia,( um dos capítulos do livro em análise) onde o poeta confessa: “Refaço o calendário e me refaço...”

No entrelaçamento de passado e presente, Jaci atinge a contradição, selo de fogo da verdadeira arte, que abre a obra para múltiplas interrogações.

Por outro lado, o uso frequente de metáforas e imagens que se apropriam de flores, mares, praias, rios, luares, auroras e crepúsculos, pode levar o leitor a remeter o poeta ao romantismo:

“Eu sou um pássaro feito de magia
Não me recuso ao sol e à noite externos:
Meu coração é o sol, e se desfia,
A noite é a lua escrita em meus cadernos”.

(Poema 2, Livro da Biografia).

Ainda a propósito da geografia interior do poeta, observamos que, nela, as coisas têm vida e alma. O seu diálogo com as coisas inanimadas, já constatado em livros anteriores, evolui, neste, para um surrealismo, ora assustador, ora deslumbrante:

“Anjos sobrevoando a derradeira/ baliza punham olhos espantados/sobre pratos e vasos niquelados /tintos no sangue roxo das videiras”.

“No tabuleiro a rosa era o disfarce/ do arcanjo silencioso nas esquinas....”

Na poesia de Jaci Bezerra, o ritmo, a rima e a encantação unem-se para compor a música de fundo de um universo personalíssimo, onde ele extrapola o registro pessoal e atinge o múltiplo inventário dos caminhos de quem o lê. Com a precisão de um compositor, o poeta, a partir das constantes notas utilizadas por líricos de ontem e de hoje, reinventa uma sinfonia bem sua, cuja espantosa orquestração nos comove e aturde, confirmando não só a importância, bem como as inesgotáveis possibilidades da expressão intimista e subjetiva.

“Estendeu no horizonte a cor madura/ da sombra que buscou, seu colorido/algas secas no mar, a vista escura/ cada vez mais achado e mais perdido...” (Livro do Amante)

Só o leitor atento e informado se dará conta de que a escrita de JB – ávida, fluente, ofegante e por vezes alucinada – repousa sobre os moldes clássicos que incorporou ao próprio timbre. Do mesmo modo, a renovação de imagens, a magia das metáforas, toda uma linguagem polida pela invenção, antes de acontecerem como filigranas de estética, são, antes e acima de tudo, meios do poeta transmitir o avesso do real, captado por sua aguda sensibilidade: apreensão do inapreensível, pulsar quente da vida do poeta, seu sangue correndo, quente, pelas vias (veias) abertas da poesia.










*Maria de Lourdes Hortas é poeta, escritora, ensaísta e artista plástica. 









SOBRE DOIS “EUS”


30 de setembro de 2018 by Frederico Spencer



Imag. Reprodução




Em literatura, o campo das “verdades” está nas mãos do jornalismo, das ciências, das bulas dos remédios, dos manuais técnicos e das religiões. A linguagem neste cenário obedece a um padrão: deve ser rígida e concreta, visando o conteúdo único e estático da realidade, para ser facilmente consumida tornando-se desta forma, um instrumento eficaz para a prática dos discursos ideológicos.

A literatura dos romances, novelas, contos e poesia, diferentemente, deve ser antes de tudo um jogo de sedução. Sua linguagem é carregada de significados e de sentidos, desta forma constitui-se num convite para uma viagem sem roteiros preestabelecidos, onde os passageiros desta nave aportarão no cais de sua preferência - no recôndito de suas almas. Esta viagem trará inquietações que deverão abrir novas fronteiras no pensamento do leitor.

Para tanto, a linguagem ficcional deve libertar-se do coloquialismo da palavra usual, campo das ideias do sentido único, para transformar-se em ferramenta de libertação do espírito, impulsionando a potencialização dos aspectos humanos.

Neste sentido o signo deverá se transmutar fugindo da lógica do cotidiano. Seu interior deverá ser carregado das imagens oriundas das memórias do escritor e grafado sobre a ótica das figuras de linguagem – principalmente - transformando-se desta maneira, num novo produto textual, rico em conteúdo imagético, capaz de transportar o leitor para dentro da estória.

Este não é um trabalho fácil para aquele que pretende escrever - transportar para o papel aquilo que traz em seu pensamento, rico em conteúdo representacional - para se tornar algo palatável ao gosto da escrita. Atento a este fato o poeta e crítico literário César Leal afirmou: “Ao usar a palavra para expressar a imagem que traz no seu espírito, o poeta livra-se do espacial e pode revelar os estados de sua alma, suas paixões, todos os movimentos do seu espírito”.

Neste sentido, a arte é a linguagem da experiência e ela não está dentro do objeto, apenas permite que vejamos diretamente o que está em nosso interior, o nosso conteúdo. Ela é somente um espelho que revela nossas marcas, nossa história.

Assim é “A METADE DO QUE EU ERA”, do escritor pernambucano Edgar Mendes Nunes. Um livro acima de tudo - de reminiscências - contadas em dois gêneros: conto e novela, técnica esta que expõe corajosamente o autor levando-o ao seu clímax na arte de contar histórias, oriundas das profundezas de sua memória.

Estes foram os meios encontrados pelo autor para mergulhar naquilo “do que era e do que é”. Momentos estes que se enroscam na estrada dura de barro, no sol do sertão, na sombra materna do pé de fícus e nos banhos de rio, misturados com a vida urbana dos dias atuais, enredada de maneira leve, harmoniosa e que prende a atenção do leitor do começo ao fim.

O autor também se embrenha nestes dois caminhos: do conto e da novela, penso eu, como forma de mediação das contradições do seu “estar no mundo”, contradições estas, próprias dos seres pensantes que buscam respostas num mundo contraditório. Este é um livro de jogo de espelhos, típico de quem senta num sofá para expor suas verdades. Neste instante busca a fonte freudiana: serve-se dos lapsos e da memória – a dualidade do ser, para apaziguar as dores do inconsciente.

Neste livro, aquele que se apresenta nem sempre é aquele que fala, pensa e sofre com suas dores mais profundas. Narrador e personagens se entrepõem numa mística textual disfarçada pelas memórias de um tempo que resiste e pulsa, mesmo mesclado com os acontecimentos mais recentes de um cotidiano que insiste em sobreviver além do seu passado. Espaço e tempo se interpõem buscando uma dialética inevitável para o encontro do homem consigo mesmo.

Aqui há um jogo de cena que busca nos colocar frente a frente com nossas vidas, portanto, com nossas memórias, boas ou ruins, sempre de mãos dadas com o autor.












*Frederico Spencer é sociólogo, poeta, contista e editor do DCP 



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    7 anos

    desde 2011


Editores: Natanael Lima Jr, Frederico Spencer e José Luiz Mélo