domingo, 1 de maio de 2016


MIOLO DE POTE – Alexandre Furtado

Por Alexandre Furtado




Foto: reprodução




Os feitiços do Brasil e a ilha mítica 


A ideia de América apareceu publicamente, como representação em Novo Mundo, mapa de Martin Waldseemüller, século XVI. A partir daí, desenho e nome consubstanciaram-se numa só coisa e testemunharam, em última análise, o processo de invenção de um espaço cuja identidade estava atrelada ao Outro. Heterogeneidade e sincretismo fizeram parte de sua formação da mesma forma que ancoragens, naufrágios, igrejas, engenhos, escravidão e um número considerável de línguas. Até hoje, por exemplo, em muitas regiões americanas, como é o caso da Bolívia, conta-se com um expressivo contingente populacional mestiço, constituído ali de quéchuas e aimarás, organizados diferentemente, inclusive, em outros idiomas, não somente o espanhol.

João Ubaldo Ribeiro, a respeito dos incontáveis Brasis os quais achamos conhecer, encaminha ideias, digamos “anti-históricas”, a respeito da gestação da civilização brasileira; deixa de lado o modelo entronizado da barbárie, inventado e forjado numa verdade racista, e, no alinhavo da narrativa literária, fala não mais de um “quem oficial”, mas de uma outra nação, aquela que, descalça, gerada na submissão, interrompida, problemática, enfim, cruzada por múltiplos relatos mal ouvidos, constrói nas margens noções válidas, porém desprezadas, de brasilidade.

Este outro Brasil, imaginado literariamente, disfarça-se numa terceira via que traduz a própria identidade cultural na condição de ser “entre”, além de outras coisas.  Ao se ver no chamado entre-lugar, atenta-se para o fato de não ser mais um sujeito inventado pelo outro e, sendo a si mesmo, assume-se uma diversidade naturalmente congênita. É possível descobrir daí que nossa história particular é melhor conhecida quando não mais mediada pela visão externa a qual se afirma ilegitimamente. Deste ponto, a questão da brasilidade deixa de ser unicamente portuguesa ou, na idealização romântico-alencariana, deixa de ser aquela que projeta a figura do índio formatado ou de um país-paraíso. Na repressiva década de 60, João Ubaldo inaugurava, com Setembro não faz sentido, o que seria, para mim, uma das mais contundentes temáticas em seu trabalho, que é a preocupação com os sentidos que governam a mentalidade do povo. Nestes anos de luta, Ubaldo dera início a uma longa reflexão sobre nós mesmos, maturada ao extremo em Viva o Povo Brasileiro de 1984.

Apostando na dessemelhança das práticas histórico-sociais de escrever e configurar uma narrativa que não descarta o passado, o autor elabora uma versão totalmente diferente do mesmo. Em O feitiço da Ilha do Pavão,  abraça a escravidão, os degredos, a corrupção e os jogos de poder, renovando a versão literária com amplitude de humor e risos. Não se trata de um romance histórico comme il fault, nem mesmo pretende sê-lo, mas mostra-se transistórico por atravessar o tempo e renovar a  representação histórica. Habitada por uma população de negros escravos, índios bebedores de cachaça e brancos que enriquecem com o tráfico de homens, na ilha, coexistem, além do senhor de engenho idealista, uma degredada insurreta , um imigrante alemão aos moldes Stadenianos, uma escrava chamada Crescência, inquisidores corruptos, um rei negro e autoritário que rege o quilombo carnavalizado, diverso da imagem histórica. É uma caricatura mestiça e revertida do Brasil no século XVIII.

O estilo híbrido do romance, que é fruto da diversidade de pontos de vista e linguagens, irá reivindicar, na obra ubaldina, uma representação no mínimo semelhante à formação de nosso povo, também talhada na variedade das personagens. Este universo tem por bem revelar as tensões políticas, o jogo das representações, as imagens sociais e, por fim, os mitos populares. Calar a seriedade passa a ser um excelente contraponto da cultura oficializada. E isto mostra um dos pilares da arquitetura bakhtiniana, que é o estudo do romance enquanto gênero discursivo híbrido e capaz de apresentar o homem como ser de linguagem. A mistura de diferentes culturas, classes, registros identitários e linguagens impedem, na visão do teórico russo, a hegemonia de formas estanques de representação.

Como sabemos, João Ubaldo Ribeiro é natural da ilha de Itaparica na Bahia; sendo filho primogênito, muda-se para Aracaju e começa seus estudos em casa com um professor particular por insistência do pai que também era professor. Quando alfabetizado, descobre a leitura e passa a devorar os livros infantis de Monteiro Lobato. Em 51 muda-se com sua família para Salvador e lá aperfeiçoa o idioma inglês que já vinha estudando, além de latim e francês. Não raro, Ubaldo era solicitado a traduzir alguns textos literários ou mesmo resumi-los. Em 1957, inicia a carreira jornalística no Jornal da Bahia e um ano depois ingressa no curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, jamais exercendo a profissão de advogado.

Conta-se que Ubaldo, mesmo aplicado, leu mais Rabelais, Shakespeare, Swift, Cervantes, entre outros do que os livros da área jurídica propriamente. Escreve em 1963, Setembro não tem sentido, um ano antes de viajar para a Califórnia, EUA. A bolsa de estudos concedida pela Embaixada norte-americana garantiu-lhe o mestrado em Administração pública. Volta ao Brasil para dar aulas em Ciência Política na UFBA, mas desiste da carreira acadêmica, retornando a atividade jornalística. Nessa época, a reflexão sobre a identidade coletiva aflorava-lhe, de maneira que setembro, o mês em que se comemora a data de independência da nação brasileira, surgira no título da obra para indagar o sentido dessa comemoração. Curiosamente, o título teria sido alterado por sugestão da editora, em 1968, depois do Golpe Militar e em pleno período de repressão política.

O Feitiço da Ilha do Pavão (1997), prestes ao festejo do “descobrimento” de 2000, abarca muitas coisas misturadas, assim como o Brasil também o faz ; são feitiços, degredos, corrupção, jogos de poder, subversões,  sexualidade, Inquisição, religião, idealismo, soberba, tirania, mistério, miscigenação, humor e riso amplificados. A Ilha do Pavão não tem lugar certo, mas tem o seu lugar. Sabe-se que fica perto do Recôncavo Baiano, perto das Ilhas do Frade e de Maré, mas sua situação geográfica  é misteriosa. Ela aparece e desaparece, guarda para si um segredo que povoa a curiosidade do povo do Recôncavo. Sua paisagem nos é bastante familiar no que se refere à fauna e flora. Também em relação à composição étnica do povo, mestiça e plural. Muitas povoações se espalham ao longo da costa entre elas, as Vilas de São João Esmoler do Mar do Pavão, Nossa Senhora da Praia do Branco e Bom Jesus do Outeirão.




Finalmente, João Ubaldo imagina a nação brasileira como uma comunidade totalmente diferente daquilo que nos é contado. Ela é produto do povo, do subalterno, do oprimido e não das elites. A ficção permite o autor imaginar livremente; lhe permite inventar fórmulas diversas para nossas identidades multiculturais por meio de escravas negras, índios livres, degredados, estrangeiros que assumem uma crítica contra-hegemônica ou ainda nas falas de personagens que representam instituições oficiais como o Exército, a Igreja ou o Estado.
  
Em tempos, quase politicamente estranhos, obscuros, a releitura de O feitiço da ilha do pavão nos coloca em contato com o que talvez seja mais essencial no Brasil, a noção de hibridismo, de diversidade e pluralidade. O espaço mítico da ilha nos convida à reflexão.

















João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro (Itaparica, 1941  Rio, 2014) (Itaparica, 1941 — Rio, 2014) foi jornalista, cronista, roteirista e escritor brasileiro, formado em direito e membro da Academia Brasileira de Letras. Ganhador do Prêmio Camões de 2008, maior premiação para autores de língua portuguesa. Ubaldo Ribeiro teve obras adaptadas para televisão e cinema. É autor de romances como Sargento Getúlio, O Sorriso do Lagarto, A Casa dos Budas Ditosos, e Viva o Povo Brasileiro, destacado pela escola de samba Império da Tijuca, no Carnaval de 1987.






A SENHORA DO SEGREDO (CONTO DE PAULO CALDAS)



Paulo Caldas/Foto: reprodução


Oculto pela cortina, encostado na parede da cabine, observa lá embaixo, no set de gravação, duas moças portando livros e cadernos.

Quem são aquelas duas? Concluintes de um desses cursos de mulher: Psicologia, ou Nutrição, eu sei lá. E o que querem; como entraram? A de calça boca sino é irmã do operador de áudio, elas desejam você paraninfo da turma.  Ah, veja de quanto precisa, a de minissaia é um broto encantador, quero falar com ela.

O susto de se vê diante do ídolo e a surpresa de ser convidada para assistir ao ensaio, deixou Malena imóvel que nem uma estátua. A partir de então, a conversa fluiu. Na intimidade do camarim, ambiente atapetado, decorado com flores naturais, cortinas de cetim, iluminação indireta, às carícias consentidas a levaram ao limbo de amor.          

Refeitos da sofreguidão, ele inicia o diálogo. Qual o seu sonho de futuro, meu amor? Trabalhar, ter uma família feliz, uma aposentadoria serena, repetir esses momentos nas vezes que você vier aqui e dois ingressos grátis. Muito pouco para quem perdera a virgindade.

E assim foi feito. A cada show na cidade, além da liturgia do primeiro encontro, Malena e Ana Clara, a cúmplice do segredo, recebiam convites para os camarotes.

Quando da festa dos vinte anos de carreira do cantor, mesmo casada e mãe de três filhos, mantiveram o ritual do amor maduro. Porém, Ana Clara, em nome da amizade, não resistiu e cedeu à curiosidade: quando vocês se amam, o que ele faz com a perna mecânica? Sempre esperei essa pergunta, Ana; antes de se despir, vai ao banheiro e em seguida, na penumbra, sob os lençóis, pede que eu deite ao seu lado. Então você nunca viu? Não.




PANORAMA LITERÁRIO


RECORDANDO A GERAÇÃO 65



A Cultura Nordestina Letras e Artes promove a palestra “Recordando a Geração 65”, com o poeta e editor Juareiz Correya e a coordenação das escritoras Eugênia Menezes e Myriam Brindeiro, na próxima terça-feira (03), no bairro do Poço da Panela, Rua Luiz Guimarães, 555, Recife-PE. Informações: (81) 3243.3927



PRIMEIROS NOMES CONFIRMADOS NA FLIP 2016




Vencedora do Nobel de Literatura 2015, a jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévich estará na 14ª Flip, que acontece de 29 de junho a 3 de julho em Paraty-RJ.
O escritor norte-americano Benjamin Moser vem à Flip pela segunda vez – após amplo reconhecimento pelo maior trabalho de divulgação internacional da literatura brasileira desde Jorge Amado. O autor da biografia “Clarice,” e organizador dos contos completos da autora brasileira – que por ocasião da Flip ganham edição pela Editora Rocco, “Todos os contos” – lançará em Paraty o volume de ensaios “Autoimperialismo” (Editora Planeta), que reflete sobre a sociedade brasileira a partir de questões de arquitetura. Moser prepara a biografia da crítica cultural e ficcionista Susan Sontag.
Neste ano, a festa tem a poeta Ana Cristina Cesar (1952-83) como autora homenageada.



domingo, 24 de abril de 2016


O ÍNDIO ENGANOU PIAGET II

Por Frederico Spencer*





Foto: reprodução/internet




A cena acontece como em qualquer comunidade indígena: crianças livres correm, pulam no rio, inventam brinquedos. Brincam com a terra e a água, bebem do rio, dormem ao relento nos dias de festa e aprendem com os mais velhos através das histórias de seus antepassados. Com as lendas, contadas por trás das chamas de uma fogueira que queima o frio – sonham. No seu dia a dia experimentam a realidade através das experiências vivenciadas pelas brincadeiras construídas do seu cotidiano. Assim, dormem ao final do dia, sonhando com o nascer de outro sol.

O adulto da aldeia participa das brincadeiras - qual criança no carretel leve do dia. Ensina as obrigações da vida aos pequenos, tais como: caçar, pescar e até a arte da guerra, esperando que os menores entendam que esta pode acontecer até pelo peixe do dia. Assim, os conhecimentos vão sendo passados pelas gerações de acordo com a brincadeira da hora, inventadas e compartilhadas por todos da aldeia.

Em seu processo de aprendizagem, a criança indígena cresce vivenciando sua relação intrínseca com a natureza. Nessa integração, o tempo não é cronológico, mas passional, entre o ser que a vivencia e o objeto de desejo que se faz através do imaginário e, pela estética, mediada pela busca da satisfação das necessidades de sobrevivência. Na aldeia tudo é experimentado, tudo é aprendizagem. Sem os rótulos da razão, aprende-se comendo a caça e a pesca da fome do dia.

Ao índio pequeno, não lhe é cobrado que constitua seu modo de pensar e construir o mundo através de sua idade cronológica, mas pela vivência de sua cultura. Seu tempo é o de sua resposta aos estímulos recebidos através das lendas, das brincadeiras, dos modelos das práticas dos mais velhos, dessa maneira, o índio pequeno vai se tecendo na prática da vida, fora do tempo dos relógios e das fórmulas mágicas de aprendizado.

Ao menino urbano, oferecemos fórmulas compactadas de aprendizado, de acordo com sua idade. Em seu processo de aprendizagem são oferecidos conteúdos formatados pela cultura de consumo de massa, oriundos da ideologia de mercado. Ideologia esta, imposta através das campanhas de publicidade, dessa maneira, são construídos os desejos de mundo da criança moderna.

Mais do que um modelo de olhar e interagir com o mundo, essas duas culturas divergem no modo de sua construção. Uma é constituída pelos mitos e lendas que povoam o imaginário coletivo, voltada exclusivamente ao respeito à natureza, ao bem estar e à preservação dos valores culturais. A outra se valoriza pela perpetuação do conceito de mercadologização das relações, sejam essas pessoais ou de relação de mercado.

Diferentemente da letra da música dos TITÃS: “homem primata, capitalismo selvagem”, diria eu: capitalismo selvagem, homem primata, envolto em sua selva de plástico e antenas.






 *Frederico Spencer é poeta, sociólogo, psicopedagogo e membro da Academia de Letras do Jaboatão dos Guararapes. 




SEM GRAÇA (E SEM UM DICIONÁRIO DE INGLÊS) – CONTO DE SIDNEY NICÉAS*




Foto: arquivo do autor



Sofrer é para os fracos. Foi. Pensei. Juro que pensei. Quando passei contornando a favela. Onde a maioria das pessoas não entra, elas somente contornam. Tudo tão à margem. À míngua... A língua da mulher era o que eu mais via. Cadê os dentes? O que restava não prestava. Mas dentes para quê quando o que se tem é cachaça e melodia, baby?

Sol a pino. A mulher dançava. Arreganhava. Braços em riste. Balançavam. O short mal cobria o sexo. O top só escondia os peitos pequenos. Pés descalços. Pele morena... Smile banguelo e nem um pouco incomodado. O charm passava longe. Happiness. Era. Parecia uma felicidade de quem diz sem dizer: fuck you! Parecia. Fodam-se mesmo! Eu tenho o direito de viver sorrir dançar cagar na cabeça de vocês! Parecia.

Fosse o que fosse, fui socado. Eu, preocupado com dinheiro sob o ar-condicionado do carro, my car! Guiando num conforto surdo na contramão daquela felicidade. Eu, tão momentaneamente mudo de alegrias. Eu, só eu ali. Esqueci o cliente que me deve uma grana boa. O contrato que o outro demora pra assinar. A demora para publicar o livro novo. A conta da internet, o condomínio, o excesso que não falta àquela mulher... Esqueci.

O barraco era mínimo. Parecia cuspi-la. Havia mais pano dependurado no varal de frente do que na mulher. Pano de fundo perfeito ante minhas imperfeições. Ela dançava à frente. E eu passando. Ela sacudia os braços. E eu passando. Ela sorria expondo as gengivas. E eu pensando. Tanta alegria torta... E eu passando. Ainda ouvi a outra mais a frente gritar: abaixa isso Yngrid mulé!!!

Yngrid... Nem mais pelo retrovisor. A curva minguou o meu olhar intruso. Um cavalo a pastar na esquina. Um cachorro a dormir na calçada. A mulher banguela sumiu. O barraco. A música brega. A vizinha a gritar. A favela em contorno. Yngrid... Pareceu fazer sumir o mundo. Deixou uma agonia em mim. E um sorriso. Coincidência ou não, no dia seguinte o ar-condicionado do carro quebrou. My car! Sorri novamente. Sorry.




*A obra do recifense Sidney Nicéas tem sido revelada sob muitos aspectos. Da peça teatral no início da carreira - “Cinzas da Paixão”, onde dirigiu e atuou - ao curta-metragem lançado em 2010, o autor enveredou por outros segmentos artísticos para expressar sua arte, tendo, contudo, se firmado solidamente na literatura. O autor tem quatro livros publicados: “O Que Importa é o Caminho” (2004), “O Rei, a Sombra e a Máscara” (2010 - título homônimo ao curta-metragem já citado), “A Grande Ilusão” (2012, pela Giostri) e “Vic e o Homem Feito de Nuvens” (2013, pela Giostri), todos recebidos com elogios por todo o país e até no exterior, e prepara um novo romance para 2016. Além de realizar palestras e workshops sobre criatividade e escrita, integra os projetos sociais Sertânia Sem Fome e Pré-Vestibular Solidário (onde leciona Redação para jovens da Rede Pública de Ensino), além do projeto Mascote de Rua, ligado à causa animal. Também é professor universitário, produtor cultural, é fundador dos grupos Literáxia e Mangue Cultural e possui parcerias de sucesso com o escritor e dramaturgo paraense Carlos Correia Santos e o colombiano Carlos Sierra. Conheça mais sobre o trabalho de Sidney Nicéas no site oficial: www.sidneyniceas.com.br 



  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima