domingo, 22 de fevereiro de 2015


ENTREVISTA COM MARIA DE LOURDES HORTAS

“Os blogs literários são um fenômeno relativamente novo, mas de suma importância, não só na  divulgação da literatura, mas como forma de  democratizá-la, tornando-a  mais  acessível ao grande público”.



Maria de Lourdes Hortas
Foto: Reprodução


Maria de Lourdes Hortas concede entrevista exclusiva ao DCP e fala sobre sua infância em Portugal, sua relação com a poesia, sobre o movimento literário do Recife, as Edições Pirata, sobre a produção literária atual no estado, entre outros assuntos.

A poetisa luso-brasileira Maria de Lourdes Hortas nasceu em São Vicente da Beira, Beira Baixa, Portugal. Com 10 anos, acompanhada da sua família, veio para o Recife, onde reside até hoje. É poeta, escritora, ensaísta e artista plástica. 

Conquistou vários prêmios literários, entre eles: Prêmio Fernando Chinaglia, da UBE-RJ, com o romance Diário das Chuvas (1981); Prêmio Mauro Mota, da FUNDARPE/Governo de Pernambuco, com o livro de poesia Outro Corpo (1988); Prêmio Jorge de Lima, da Academia Mineira de Letras, com o livro de poesia Fonte de Pássaros (2001); Prêmio José Cabaça, da UBE-RJ, com o romance Caixa de Retratos (2004); entre outros.

Publicou 10 livros de poesia, entre eles Fio de Lã, Outro Corpo, Dança das Heras, Fonte de Pássaros e Rumor de Vento. Como ficcionista publicou: Adeus Aldeia (1990); Diário das Chuvas (1995); Caixa de Retratos (2003). Organizou as antologias Palavra de Mulher (1979) e Poetas Portugueses Contemporâneos (1985). Foi coordenadora das Galerias de Arte BeloBelo, em Recife e em Braga (Portugal). Há cerca de 11 anos enveredou pelas artes plásticas.

Integrou o Conselho Editorial do jornal literário "Cultura & Tempo" (1981/1983) e da revista "Pirata Edições" (1983/1984), com participação também na coordenação do Movimento das Edições Pirata (1980/1986), do Recife; participou de várias gestões como diretora cultural do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, onde, atualmente, mais uma vez, exerce o cargo e dirige a revista "Encontro". Na web edita o blog literário Poesia de Maria de Lourdes Horta .


DCP – Outubro de 1950 marcou uma cisão em sua vida, saiu de uma pequena aldeia de Portugal, atravessou o Atlântico e desembarcou numa cidade que se abria para o desenvolvimento. Até onde resiste em sua poesia esse tempo português?

MLH - Esse corte na minha vida foi sem dúvida o que me direcionou  para  escrever. Logo nos primeiros tempos do colégio no Recife, nas redações  das aulas de português,  eu dava um jeito de escrever sobre as minhas lembranças, reconstruindo o universo perdido da infância. Por volta dos doze anos comecei a me trancar no quarto para escrever. Eram fragmentos de versos, cançõezinhas que eu inventava, em papéis soltos. Depois rasgava tudo e jogava os fragmentos  pela janela que dava para um terreno baldio. Ficava assistindo o borboletear das minhas palavras, levadas pelo vento, e me sentia feliz. Mais tarde li um poema de Pessoa, onde ele dizia: Da janela do meu quarto digo adeus aos meus versos que partem para o mundo…


DCP – Posto que a poesia se rebela contra a razão, para a transfiguração de uma realidade que foge do simbólico! – A poesia em sua essência é puramente feminina?

MLH - Investigar se a poesia em sua essência é puramente feminina parece-me tão desnecessário quanto procurar saber qual o sexo dos anjos. A grande literatura de todos os tempos e geografias,  aquela que sobrevive a modismos  e  maneirismos, é aquela que transporta em si a essência  do ser humano, seja homem, ou mulher. No meu entender, não existe literatura feminina, ou masculina. Existem  textos e poemas bem ou mal escritos quer por homens, quer por mulheres. Ocorre, no entanto, que a mulher pode falar melhor do que lhe é pertinente, da sua condição feminina como um todo. Mas essa já é outra questão...


DCP – O verde aldeão, a paz do campo e o tempo que passa se arrastando. Quanto ainda esta referência te alimenta para escrever?

MLH - Essas referências estão sempre presentes em mim e por vezes necessito delas, na poesia e na vida. Entretanto,  quando a poesia me chama,  abstraio-me do tempo e do espaço. Então o  que importa é a urgência da escrita. E, se “o verde aldeão” aparecer, eu o deixo entrar.


DCP – Literatura é inspiração ou transpiração?

MLH - Esses dois ingredientes são quase sempre necessários para que aconteça a química da poesia. Não creio em poesia por encomenda, ou como jogo de palavras. No meu processo de escrita há sempre algo que detona o poema: um sentimento, um som, uma palavra, uma lembrança… Isso seria a inspiração. Depois vem o segundo momento,  a tão decantada transpiração. Enfim: poesia é Arte e, como tal, tem os seus bastidores, a sua oficina. Raramente o poema vem pronto. Mas pode acontecer. Por exemplo, uma vez sonhei com um poema:  acordei, anotei-o  e ficou exatamente como o li no meu sonho.


DCP – O que representou para você o movimento das Edições Pirata?

MLH - No Recife  dos anos oitenta, a Pirata  surgiu com grande força, movimento alternativo de literatura, que se comunicou com os demais movimentos de igual teor, que então aconteciam por toda a parte em nosso país. O movimento das Edições Pirata teve importância, peso e significado  no contexto sociopolítico da  sua época. Esse período, para quem dele participou, é inesquecível.  Havia sonho,  seiva  e esperança. Quanto a mim, posso dizer que a Pirata me abriu caminhos e alargou horizontes.


DCP – As Edições Pirata foi carregada de poetisas, várias delas participaram de modo efetivo para a realização das edições dos livros. Como você vê hoje a poesia feminina no Recife?

MLH - O Recife é um celeiro de boa poesia, escrita por homens e mulheres. Muitos nomes se destacam e extrapolam os limites geográficos. O número de  poetisas é grande. Poderia citar algumas de minha preferência e afinidade, mas já que estamos falando das Edições  Pirata, lembro, com admiração e saudade, aquela que foi a grande musa do movimento:  Celina de Holanda.


DCP – Como você vê hoje a literatura no estado?

MLH - Lamento a ausência dos antigos suplementos literários nos Jornais do Recife, que semanalmente nos mantinham informados da vida cultural da cidade. Também lamento a extinção de  lugares onde poetas e escritores se encontravam como acontecia, por exemplo, nos anos 80 e 90, na Livro Sete. Lembro com saudade os bate-papos sobre literatura, convívio de escritores em suas casas ou em bares, como o Savoy, por exemplo, e tantos outros. Não estou filiada a nenhuma das várias  Academias Literárias de Pernambuco, onde certamente muitos eventos ocorrem, por isso fica difícil fazer uma avaliação. Mas parece-me que hoje,  quer no Recife, quer no resto do país, quer aquém, quer além-mar,  não há grande efervescência na  Literatura. Aliás,  nas visitas que faço ás livrarias, posso constatar isso: há muito espaço para livros de autoajuda, e pouco ou nenhum  espaço para a Poesia.


DCP – Qual a importância dos blogs literários para a literatura hoje?

MLH - Os blogs literários são um fenômeno relativamente novo, mas de suma importância, não só na  divulgação da literatura, mas como forma de  democratizá-la, tornando-a  mais  acessível ao grande público. Por outro lado, são  um excelente suporte para os autores. Neles, qualquer candidato a poeta ou escritor, pode publicar seus textos e poemas sem precisar de editor, ou do favor de que alguém lhe arrume um cantinho numa página de um obscuro jornal… Através dos blogs e sites de poesia, entre a  avalanches de textos,  encontramos  poetas que, por vezes, nos surpreendem pela qualidade do que escrevem.  Fico feliz quando isso ocorre, sobretudo quando se trata de  jovens poetas: isso me dá a certeza de que, sob a  aparência  morna das  cinzas, a chama  da poesia permanece acesa.



*Conheça mais de Maria de Lourdes Hortas acessando o seu blog:http://mariadelourdeshortas.blogspot.com.br/ 




POEMAS DO DOMINGO

 Poemas de Jade Dantas, Raimundo de Moraes, Antonio de Campos, Cícero Melo e Domingos Alexandre
  

Natural
Jade Dantas

o teu olhar de ternura
teu olhar

a ânsia incontida
a felicidade retomada

tão natural ficares comigo
(e ficas) no meu sonho

doloroso é acordar e lembrar
do nunca mais



Mi corazón arde por ti
Raimundo de Moraes

Ainda rutilavam
as últimas cinzas
das Fogueres de San Joan
Descabelada em grandes cachos castanhos
gardênias floradas no pátio
– entre os olivais de Valência
A Rainha de Copas desceu do seu castelo
Nada a deteve
– e suas aias lamentavam cruel desatino
Rasgada as saias
corvos transformados azuis sob a lua cheia
– a Rainha corria
Escutou os lobos que seguiam a trupe de ciganos
e seu grito era também como um uivo:
– Juanitaaaaaa...
Depois disso, foram duas bocas e um mesmo desejo
duas rainhas e nenhum Rei de Paus.




A AGENDA DA MORTE
Antonio de Campos

Todos temos uma hora marcada
na agenda da Morte

Uns com o encontro marcado
nas páginas iniciais,
outros, nas intermediárias

Mas todos esperam ter o encontro
marcado nas páginas finais

Todos iremos de vida vazios
sem que mais nos importe em que página,
em que hora, em que dia,

agendado a última entrevista
(à qual não se pode faltar,
nem atrasado chegar)
a Morte havia.

agosto 14, 2014



V Taverna além
Cícero Melo

Como o tempo corre e cansa
no relógio do meu peito:
Hoje eu sou uma criança,
ontem era um homem feito.
Como o tempo recupera
os outros tempos do sonho,
o longo quintal da espera
do menino que reponho.
Sou menino recomposto
de tempo, sonho e enfado.
Nas tendas de um rei deposto
todo o presente é passado.



Passagem
Domingos Alexandre

Constelações anônimas
saúdam lá do alto
esse pobre mortal
que caminha de bolsos vazios
pelos trigais alheios
e sustenta em seus ombros
o peso dos anos
que passaram rápido
como segundos.
Por detrás de uma nuvem
a lua me acena
com a doce esperança
de outros mundos.






CONTO DO DOMINGO

Libélula tatuada (conto) Paulo Caldas


Paulo Caldas
Foto: Divulgação

Pareciam o sol no limo, umas bolhinhas bestas grudadas no buço, quando não, equilibradas na ponta gordinha do nariz. Lábios grossos, só os de baixo, os de cima nem tanto, são mais uma linha sinuosa riscada entre as barrocas, traço sutil, ainda mais quando o riso movimenta a face rosada de manga madura, expondo jeito inocente quando nasce, mas sedutor quando se completa.

Volátil, me escapou entre os dedos incrédulos, inseguros, inábeis, inibidos.
Hoje amanheci você. Vejo-a como fora. Gentil parceiro, mais que isso, o tempo lhe ama também. Porém, com mais sorte, está em você. E eu? Eu só na espreita da esperança, olhos vazios de sua imagem que apenas me farta quando vinda ao colo das lembranças.

Se ele lhe é fiel, penso que a escolheu para si, musa ou amante, quem sabe as duas coisas, é tirano comigo, me jogando as más querências, pragas da maldade que sempre faz valer.

Contudo esquece ele que a saudade socorre minhas penas. Com ela em mim revejo aqueles olhos meio tristes, nem castanhos nem verdes, nem azuis, um matiz exclusivo, concebido pra você. Toco os cabelos lisos, escorridos quando soltos, escondendo a libélula tatuada que habita no seu ombro.




PANORAMA LITERÁRIO

O Interpoética completa 10 anos


O Interpoética, um dos mais importantes portais literários do país, completa uma década divulgando e lançando novos nomes da literatura pernambucana na web. São 10 anos que transformaram o Interpoética numa eclética fonte de referência para estudantes, jornalistas, pesquisadores, professores, pessoas ligadas à produção cultural de Pernambuco. Abrindo as comemorações de aniversário, o Portal traz 10 entrevistas marcantes com grandes nomes da literatura pernambucana: Raimundo Carrero (2006); Lucila Nogueira (2006); Wilson Araújo de Sousa (2006); Marco Polo Guimarães (2007); Vital Corrêa de Araújo (2007); Lula Côrtes (2008); entre outras. Acesse e confira: http://www.interpoetica.com/site/index.php?option=com_content&view=article&id=1798&catid=64



Raimundo Carrero é destaque no Estadão e Folha UOL

O escritor Raimundo Carrero, na biblioteca em
sua casa, em 2005

O escritor pernambucano Raimundo Carrero foi destaque no Estadão e na Folha uol. Confira aqui:




Site Divulga Escritor destaca a vida e obra de Chico Pedrosa

Chico Pedrosa é um dos mais
Importantes poetas populares
do país

O poeta Chico Pedrosa é destaque no site Divulga Escritor. Confira aqui: http://www.divulgaescritor.com/products/chico-pedrosa-por-eduardo-garcia/#.VOWaTNNHyl8.facebook



Cultura.PE lança o web programa “pasárgada.doc”

Marcelino Freire será o 1º entrevistado
Foto: Divulgação

Na próxima segunda (23), o Cultura.PE vai lançar, no seu canal de Literatura, o 'pasárgada.doc', um web programa que trará, semanalmente, depoimentos de escritores pernambucanos sobre sua trajetória, vida literária e desafios do ofício nos dias de hoje. A estreia será com o escritor pernambucano radicado em São Paulo, Marcelino Freire, que esteve recentemente de passagem pelo Recife. O 1º programa entrará no ar às 16h e estará disponível em  http://www.cultura.pe.gov.br/literatura/



domingo, 15 de fevereiro de 2015


É CARNAVAL!

Nesta edição especial de carnaval o DCP entra na folia com poesia e convida você a brincar em nosso bloco.
Com muita alegria festejamos a crônica do escritor e jornalista Cícero Belmar (Memórias de um ex-folião) e o conto do escritor Fernando Farias (Fantasia manchada de batom carmim), além dos poemas de carnaval de Cecília Meireles, Menotti del Picchia, Carlos Pena Filho, Natanael Lima Jr e Frederico Spencer.

Um feliz e poético carnaval a tod@s.

Os editores




Memórias de um ex-folião
por Cícero Belmar*


Como é que uma criatura que mora no Recife ou em Olinda não gosta de Carnaval? Tem que gostar. Tem que ter disposição para correr atrás de bloco, saber fazer a tesoura do frevo, dar aula sobre a diferença de maracatu de baque solto para o outro, que é virado; ter na ponta da língua as letras das músicas de Capiba; e finalmente achar lindo  o dia amanhecer com violões e pastorinhas mil. Que é para rimar com o Carnaval melhor do meu Brasil.

Todas as vezes que alguém me pergunta se eu gosto de Carnaval, fico sem saber o que dizer. Um negócio complicado de definir. É uma festa bonita, de muita alegria. É muita espontaneidade; todo mundo sai dos andores e pisa no chão; é a celebração da igualdade e da liberdade. Da fraternidade, nem tanto, é melhor deixar esse item para a quarta-feira de cinzas em diante. Mas, por favor, também não me chamem para retiros espirituais. Sou do pecado. Sem escândalo.

Voltemos à questão original. Aí alguém vem e me pergunta. Eu fico naquela: gosto ou não gosto? Querendo ser fiel ao meu passado de folião, tenho que dizer que gosto. Frevo é lindo, maracatu é lindo, caboclinho é lindo. Quem vem do interior e ainda por cima é fantasioso que nem eu, já vem de lá com uma imagem na cabeça. Eu, por exemplo, jurava que o Recife tinha trilha sonora porque desde muito cedo a gente aprende – lá no interior - as letras dos frevos clássicos e vem para cá achando que tudo acaba em frevo.

Sendo assim, não tem como não se empolgar com as orquestras. O maracatu, que é bastante popular no interiorzão, mas não tanto quanto o frevo, eu só vim entender totalmente ao colocar os pés em terras maurícias. Quando a gente escuta o baque do maracatu pela primeira vez é um negócio que vai fundo na nossa herança nagô e vem aquela vontade de dançar. Parece até que todo mundo já sabe como balançar os braços e mover as pernas, pois o som das alfaias casa direitinho com o jeito de corpo que a gente dá.

Deixemos as reminiscências. Sem arrodeios, gosto ou não gosto?  Difícil... Quando eu era mais novo, portanto, se alguém me perguntasse, responderia na bucha: “Gosto não, como com farinha!”. A boêmia é quase uma característica profissional, sinto muito se lhe decepcionei. E ainda por cima tinha essa coisa forte da pernambucanidade somada a uns bagulhos argentinos super cheirosos que a gente adquiria a preços módicos para umedecer lenços. Como não gostar de uma coisa daquelas? Diga aí, gente, como não gostar?

Detalhes número dois. Excetuando os enfoques sociológicos e aquela coisa multicultural, Carnaval tem a coisa da paquera, todo mundo se permite, as coisas ficam muito mais fáceis... Duas doses a mais e bem... como se diz... é a esbórnia. É onde repito: como não gostar, gente?  Por isso mesmo o restante desse parágrafo não será lido porque existem detalhes que não vêm ao caso e é melhor ficar por conta da imaginação de cada pessoa que estiver lendo, até porque a gente termina bebendo cerveja demais, uma coisa e outra... Vamos parar. É ó-ti-mo.

Mas, vem a parte ruim. Detesto empurra-empurra, gente fedorenta, pisando no seu pé, cerveja quente vendida como sendo a última coca-cola do deserto. Não vejo mais graça nenhuma em sair pulando atrás de uma orquestra, subindo e descendo ladeira, até porque não tenho mais aquela resistência física. Alegria e medo convivem no mesmo espaço. O medo de ser assaltado, de pegar conjuntivite, hepatite, herpes, cárie, mononucleose, que é a doença do beijo. Aprendi que não existe nada mais anti-higiênico do que beijo na boca. No Carnaval, então, cruz credo. Logo eu, que adorava passar naquela rua de Olinda, onde todo mundo beija todo mundo. Pois até ela, hoje em dia, é preciso evitar.

Me diga qual é a graça que há num Carnaval desses. No Recife e em Olinda, as coisas ficam todas pela hora da morte.  Perca amor ao salário. Para comprar uma tapioca que seja é preciso desembolsar dez contos. Ora, francamente. Uma água mineral, cinco. Os vendedores de água pensam que estamos em São Paulo, em plena crise de abastecimento. Cinco reais por uma garrafa de água, sinceramente, é melhor beber um litro de gasolina, sai mais barato! Aí vem: tapa na cara de mão de boneco gigante; você não consegue dar um passo no Recife Antigo, de tão lotado...

Mas se você tem a graça de chegar aos polos de animação, as pernas, nessas alturas, estão tremendo de cansaço porque a resistência para atravessar a multidão foi um negócio para atleta. De exausto, a opção é sentar no meio-fio. Simplesmente não há lugar para um cristão se sentar dois minutos se estiver cansado. Então, dá vontade de ir para casa. Muita calma nessa hora. É preciso esperar uma eternidade para pegar um ônibus; o transporte público é uma pequena demonstração da porta do inferno de Dante. Se você quiser pegar táxi, vai ter que andar dez quilômetros para encontrar um.

Não se irrite, calma! Você está ali para... que mesmo?

Por isso, hoje em dia, não sei responder se gosto ou não de Carnaval. Será que eu gostava e aquela magia se desfez? Ou será que eu gostava por que era mais novo e agora não aguento muito repuxo? Tem tudo isso. O fato é que a festa continua maravilhosa e eu, como folião que já fui, não posso estar falando mal só porque os anos passaram. Uma coisa é certa: estou encontrando outras formas de ser feliz. Preservando o bom humor.


*Cícero Belmar é escritor e jornalista pernambucano



  • a literatura em sua rede

    ano III


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima