domingo, 23 de agosto de 2015


O OVO CÓSMICO



por Frederico Spencer*



Capa: Divulgação
‘O ovo cósmico’, de Fernando Farias



Dizem que Colombo conseguiu que um ovo ficasse de pé, frente a uma plateia que refutava seu feito de ter descoberto a América. Hoje essa história faz alusão a algo que parece ser muito difícil de ser realizado, mas, que pode parecer muito fácil depois de feito. O genial diretor de cinema Ingmar Bergman utilizou também o mito do ovo para contar a história do nascimento do nazismo na Alemanha no filme: O Ovo da Serpente.
Na sua cosmologia Fernando Farias nos traz a referência de outro ovo: O Ovo Cósmico, nave gestacional de sua arte de contar histórias. O autor parte da ideia do ovo como meio representacional para sua criação artística: a gema, fonte da criação humana - a substância da arte como forma de expressão das impressões do artista sobre um mundo irracional, tenso, pronto a explodir a qualquer momento. Entre a casca - linha tênue das relações do autor com o mundo pós-moderno, veloz e contraditório, existe uma clara - clara alusão de um humor sarcástico ante às tensões de suas relações com um mundo exterior que agoniza.
Já nas primeiras linhas do prefácio o autor faz referência ao poder metafórico de sua escrita: “Eu já disse uma vez que dentro é bem maior do que fora”, nos alertando para o efeito suicida de seu “big bang”, fonte das mudanças macrocósmicas que partem da contagem de suas estórias e que nos coloca à beira do nosso universo particular.
No livro, o ovo assim como a arte pode servir à gastronomia: palatável para o almoço e atendendo a uma necessidade de sobrevivência do ser humano, como também ser a chave para a abertura de novos conceitos estéticos descobertos a partir de um novo conteúdo, que nos leva à crítica das práticas e dos movimentos do velho mundo, da visão gasta de um tempo que já não nos alimenta.
Na sua frase futurística, “O Ovo Cósmico representa o ponto inicial do universo infinito, ilimitado e sempre em expansão em energia pura em constante movimento oval”, Anton Sever, personagem do conto, aponta para dentro da existência de nossas paixões, onde o próprio Narciso se debruça e estanca - preso está à sua beleza ou também para além do horizonte do universo onde somos queda para um mundo de surpresas, que nos faz treinar a reflexão do nosso tempo terreno nos indicando um recomeço recoberto de imagens e cores, fruto de outras galáxias onde só as palavras conseguem nos levar.
Como alegoria, O Ovo Cósmico nos dá a chance para uma viagem entre personagens e um ambiente representacional que são indicadores de nossas relações no mundo atual, onde cultuamos a objetificação do ser humano, sendo nós mesmos os atores de nossa comédia cotidiana, posto que da gema, da clara e da casca somos todos, juntamente com ele, o ovo, constituídos.


*Frederico Spencer é sociólogo, psicopedagogo, professor, poeta, escritor, membro da Academia de Letras do Jaboatão dos Guararapes e editor do ‘Domingo com Poesia’.




CONTO DO DOMINGO

‘Dois velhinhos’ (conto) de Dalton Trevisan*


Dalton Trevisan é um importante
escritor brasileiro, autor do famoso
livro de contos ‘O Vampiro de Curitiba’.




Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.

Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.

Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:

— Um cachorro ergue a perninha no poste.

Mais tarde:

— Uma menina de vestido branco pulando corda.

Ou ainda:

— Agora é um enterro de luxo.

Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.

Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.

Cochilou um instante — era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.



*Texto extraído do livro "Mistérios de Curitiba", Editora Record — Rio de Janeiro, 1979, pág. 110.




POETA DO DOMINGO

A poesia de Josessandro de Andrade*


Josessandro é poeta, professor,
compositor e autor teatral




O poema e o poeta

A Wilson Freire (Bida)


O poema é o tecido vivo
de carnes e nervos
que o poeta costura
e acaricia com palavras.

O poema é o projetor
do néctar do verbo
que o poema acolhe
de imagens e símbolos.

Ambos tem o ofício
de cumprir a dura missão
de tornar a vida mais aberta
menos triste e mais real.

(1990)



Cala boca, minha vida

A Maurício Floriano e Madson Vaz


A incógnita pendurada
No trapézio do crânio dos que me conhecem.
Sou, como e quando visto
A pele da dúvida em mutação:
Eu, cafajeste sem cabeça
Pintando nas telas dos jornais
Eu, o anjo das mil caras
Crucificado em telegramas clandestinos
E condenado nos becos ocultos
Das mesas e comitês centrais
Eu, o violador de covas
De uma cidade fria
Eu, o bruxo renovado
A cooptar ovelhas brancas
E a semear vertigens
Mil e uma vezes
A mentira apropriando-se
Dos escombros da realidade.
Agora, o eu puramente
Encarnado de espíritos desconhecidos
O eu revelando a ponta da faca
Nas chagas secas,
Os meus trinta minutos
De expectativas teatrais,
O ator fracassado no palco
O silencioso combate nas ruas,
O grito de pavor
Que escorre do ventre dos precipícios.
Nas fronteiras do futuro,
A cerca imperdoável do passado,
Pondo a nu o imposto dos erros,
O cineasta esquecido
E a arquivada loucura estética,
explodindo as imagens incompreendidas
da bolha de fogo
incendiando os pés nervosos de balé vencido
pelo chão e pelas horas
e a ninguém restará
a arrogância decepada de razão
e a ninguém será doado
o choro de cebola cortada
pelos crocodilos do tempo
A vida com seus Corvos humildes
E abutres pacientes
Virá devorar a roupagem áspera
De um cartaz abandonado
Nos braços enrugados das praças
As sílabas perdidas
Nos labirintos dos bares
Faço dos meus dedos
a pena que registra a comunhão
do meu sofrer e do meu gozo
já desprovido de centelhas arrebatadoras
já castrado do amor pela mulher dos escritórios
já gerenciando as flechas e as flores
já incorporando as raízes
que irrigam a energia
de minha diferença plena e livre
como o amor enfurecido
dos cavalos do cão.

(1992)



*Josessandro de Andrade é Membro da Comissão Estadual  Setorial de Literatura de Pernambuco como representante do Sertão, Coordenador de Literatura da Comissão Representativa de Cultura da Microrregião Sertão do Moxotó e Vencedor do Prêmio Nacional Viva a Leitura 2009, do MEC e do MINC., em São Paulo, SP.




PANORAMA LITERÁRIO

‘Linha de Risco’ na Fenelivro


O lançamento do livro 'Linha de Risco' será no próximo sábado (29), às 15h, no estande da Bagaço, na Feira Nordestina do Livro - Fenelivro






13º Festival Recifense de Literatura – A Letra e a Voz




Uma festa para celebrar e relembrar a obra artística de um dos escritores mais importantes do Brasil. Esta é a proposta do 13º Festival Recifense de Literatura – A Letra e a Voz que, este ano, presta uma homenagem ao escritor Ariano Suassuna. Com o tema “A Demanda Artística do Reino de Ariano”, o festival acontece de 26 a 30 de agosto, na Avenida Rio Branco, no Bairro do Recife. A realização é da Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura e Fundação de Cultura Cidade do Recife.
O festival vai convidar o público a refletir sobre a versatilidade da obra de Ariano e sobre como ela se tornou uma produção empreendedora ao navegar e/ou influenciar outras linguagens como o cinema, o teatro e a música.

Programação:

DIA 26 (quarta-feira)
19h - Onça Malhada – Intervenção de dança com Maria Paula Costa Rêgo
 
19h30 - As múltiplas faces de Ariano – Uma conversa com Fátima Quintas e Raimundo Carrero. Mediação de Hugo Viana
21h - Leitura de textos de Ariano por Braulio Tavares

DIA 27 (quinta-feira)
19h - Romeu e Julieta, cordel de Ariano Suassuna – Intervenção teatral com Aramis Trindade
19h30 - A importância do romanceiro popular nordestino na obra de Ariano Suassuna - Uma conversa com Carlos Newton Júnior
 
21h - Uma Cantoria para Ariano com Edmilson Ferreira e Oliveira de Panelas

DIA 28 (sexta-feira)
19h - Eu vivi Ariano – Uma conversa com Geninha da Rosa Borges, Virginia Cavendish e Williams Sant'anna. Mediação de Cristiano Ramos
20h - Mesa de glosas em homenagem a Ariano Suassuna – Com Dudu Morais, Genildo Santana, Henrique Brandão, Maciel Correia e Zé Adalberto – Coordenação de Cida Pedrosa

DIA 29 (sábado)
Festa do Livro (8h às 20h)
14h - Contação de histórias com Susana Morais e Tio Diego
16h - Recital poético com o grupo Doiscordéis
19h - Apresentação do grupo Em Canto e Poesia

DIA 30 (domingo)
Festa do Livro (8h às 20h)
14h - Contação de histórias com a Turma Mangue e Tal
18h - RECITATA 2015 - Concurso de Poesia Oral do Recife


Neilza Buarque lança o seu ‘O Indizível’




‘O indizível’  é um livro de poesia erótica e afetiva. Trata-se de um convite para o que o leitor deleite-se nos 'poemas com a coragem de desnudar o que há de mais camuflado em cada um, o desejo. Palavras temperadas de uma corajosa vulnerabilidade que nos convidam, ou talvez insinuem um convite transgressor à verdade da fome de cada um de nós. Neilza convida o leitor a sentir-se em casa (no quarto, na cama), a desatar os nós, tirar os sapatos, desnudar-se e sentir a umidade e o paladar do desejo.
Já disponível nas livrarias virtuais: Amazon, Cultura, Kobo, Buqui, Travessa, Folha de São Paulo e Apple Store. Acesse a ‘fanpage’ do livro: https://www.facebook.com/indizivel1234





domingo, 16 de agosto de 2015


O ESTELIONATO DA LITERATURA



por Alexandre Coslei*



Img: Reprodução



Todos os índices do mercado editorial encolheram com exceção da modalidade digital. A venda de livros, por exemplo, despencou acima dos 5%. O número de leitores também diminuiu, de acordo com o atual censo da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Justificam-se os dados decadentes pelo aperto nas vendas para o governo. No entanto, prefiro acreditar nos muitos paranoicos que reverberam sobre as estratégias equivocadas das editoras e da própria configuração corporativa do nosso ambiente literário. É a teoria da conspiração.
A literatura no Brasil sempre brotou de feudos, um hábito desenhado desde o século 19 e institucionalizado com a criação da Academia Brasileira de Letras. Não imagino como o velho Machado reagiria se pudesse ver no que a ABL se transformou – se cairia em prantos ou sorriria satisfeito. Quando lemos a magnífica biografia escrita por Luís Viana Filho (A vida de Machado de Assis, ed. José Olympio) e olhamos para a correspondência trocada entre o bruxo do Cosme Velho e outros tantos escritores (neófitos e consagrados), nos salta aos olhos o intenso carinho solidário e a humildade visceral que transborda das cartas. Havia um amor pulsante pela arte literária que fugia à vulgaridade do glamour pessoal. Os antigos eram simpáticos às novidades, fomentavam talentos nascentes e abraçavam os que se arriscavam nas letras. Ao mesmo tempo em que existiam as panelas, destacava-se a vontade de incluir. O amor à arte superava o amor próprio.
Com o tempo, os valores se inverteram. Em nossos dias, a extrema mercantilização da palavra descaracterizou o objetivo estético e social da arte; a persona sobrepõe-se ao trabalho. O escritor foi caracterizado como vendedor e vende-se o vendedor antes de se vender a obra. Um artifício muito semelhante ao usado por estelionatários, que vendem a própria imagem antes de venderem um conteúdo que não existe e que caracteriza o golpe.
Hoje, há um círculo, um country club, onde só penetram jornalistas, atores de grandes redes de TV, intelectuais de Ipanema e figuras com algum tipo de status social que desperte a admiração das massas. A elitização da fama. A obra como coadjuvante do autor e a veneração pública como fator comercial nos dão espelhos em troca do nosso ouro. O hiato da colonização e de algumas ditaduras nos fez carentes de referências, nos inoculou o vício de idolatrarmos ídolos de barro.
Camadas profundas
Por outro lado, a política das editoras contemporâneas, que aos poucos vão se entregando a um sistema que beira o monopólio, não discrimina gêneros literários, mas promove uma pasteurização dos estilos. É uma tática sutilíssima e perniciosa a serviço do lucro. As silenciosas exigências para a publicação abriram espaço para um novo profissional, o coach para escritores: ele ensina fórmulas e molda o autor para que seja aceito mais facilmente por alguma casa editorial.
Com uma caneta, um caderno e uma ideia podemos fazer literatura? Não. Podemos escrever sobre linhas incertas, mas a literatura (que pressupõe leitores) se tornou um ofício que exige infraestrutura promovida por quantias indigestas de dinheiro. Por conta dessa personalização da arte literária, o escritor só é escritor se estiver apoiado num bom marketing pessoal, talvez com assessoria de imprensa, que o conduza às poucas mídias que divulgam o livro. Não há mais romantismo na escrita; o poeta sem dinheiro e suporte editorial não enxerga nem a Lua.
No cenário de castas do nosso universo literário, ficam visíveis somente aqueles que encontram a oportunidade de se acomodarem sob os dispendiosos holofotes midiáticos. O resto é resto, uma legião de figurantes que orbita o vácuo. Sim, existem as trincheiras, pequenas editoras que se empenham na resistência, que publicam a periferia e arrebatam prêmios para os anônimos. Nomes que surgem como vitoriosos nessa guerrilha, raras exceções que, além de editoras, poderiam ser consideradas entidades filantrópicas. Infelizmente, qualquer exceção está longe de alterar o rumo da realidade cultural da literatura brasileira.
No meio desse imbróglio de vaidades, os promotores de eventos choramingam quando perdem a verba governamental para realizarem jornadas e festivais de literatura. Minha ignorância pragmática não cessa de me perguntar: o que é preciso para um encontro literário, além de um caixote para dispor os livros e uma tenda de lona para nos proteger das intempéries? Um pouco de boa vontade e espírito franciscano valem muito mais do que o financiamento estatal, o que nos leva a crer que esses subsídios públicos acabam servindo para promover os próprios promoters.
O capital que rege o sistema de publicação de livros no Brasil vem se revelando um tiro pela culatra, restringem as preferências, adestram os leitores, depreciam a qualidade dos textos e o resultado do lucro rápido reflui na ameaça do prejuízo. Lemos o que querem que leiamos, mas a natureza nos ensina que o reflexo reluzente boiando à luz do sol na superfície das águas é somente o dejeto que não afunda. A vida brota nas camadas mais profundas, onde a inteligência desenvolve luz própria e evolui porque insiste.


*Alexandre Coslei é escritor, crítico literário, jornalista, agregando formação em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e colaborador do DCP



  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima