domingo, 26 de outubro de 2014

NO MEIO DO CAMINHO TINHA DRUMMOND

Drummond também escreveu contos e crônicas, 
mas se eternizou como poeta

Na próxima sexta (31), celebramos o nascimento do autor da pedra mais famosa da poesia brasileira, considerado um dos maiores poetas de todos os tempos.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, em Itabira (Minas Gerais). Cursou suas primeiras fases escolares em sua cidade natal. Seguindo seus estudos optou por formar-se em Farmácia, na capital mineira. Em 1928 começou sua carreira atuando como funcionário público, tornando-se chefe do gabinete do Ministério da Educação e, posteriormente, como codiretor do Jornal Tribuna Popular.

Notadamente, sua carreira literária ganhou força de expressão a partir dos anos 50, mais precisamente em 1962, quando se aposentou. Após uma vasta e significativa produção, veio a falecer em 17 de agosto de 1987, no Rio de Janeiro.

Drummond foi um poeta completo não por atingir a completude da poesia, mas a plenitude da humanidade. Sua produção poética teve muitas fases e muitas faces. Cada uma delas é composta por obras que nos permitem acompanhar a evolução de seus temas e sua visão de mundo.

Affonso Romano de Sant’Anna costuma estabelecer a poesia de Carlos Drummond a partir da dialética "eu x mundo", desdobrando-se em três atitudes: Eu maior que o mundo — marcada pela poesia irônica; Eu menor que o mundo — marcada pela poesia social; Eu igual ao mundo — abrange a poesia metafísica.

A obra de Drummond é vasta: são mais de 60 livros, entre poesia, conto e crônica. Assim como Machado de Assis, que é conhecido principalmente por seus romances, Drummond é famoso por suas poesias. Destacamos aqui, sete livros essenciais para você mergulhar no universo poético de Carlos Drummond de Andrade: “Alguma poesia” (1930), “Sentimento do mundo” (1940), “A rosa do povo” (1945), “Claro enigma” (1951), “Antologia poética” (1962), “José e outros” (1967) e “Corpo” (1984).

Alfredo Bosi (1994) afirma que “a obra de Drummond alcança — como Fernando Pessoa ou Jorge de Lima, Herberto Helder ou Murilo Mendes — um coeficiente de solidão, que o desprende do próprio solo da História, levando o leitor a uma atitude livre de referências, ou de marcas ideológicas, ou prospectivas”.

Drummond, reafirma seu compromisso com a realidade objetiva, ao mesmo tempo que nos chama a atenção para um traço fundamental de sua consciência estética: o de que não se deve desprezar o sentido imanente das palavras.

Os editores


Três poemas de Carlos Drummond de Andrade

Drummond é considerado o poeta mais
influente do Século XX

  
No meio do caminho*

No meio do caminho tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
tinha uma pedra 
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento 
na vida de minhas retinas tão fatigadas. 
Nunca me esquecerei que no meio do caminho 
tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
no meio do caminho tinha uma pedra 

*In Revista de Antropofagia, 1928/Incluido Alguma poesia (1930)



Poema de sete faces*

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo. 

*In Alguma poesia (1930)


Quadrilha*

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém. 

João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história. 


*In Alguma poesia (1930)



O CONTO DA SEMANA

Céu (conto) de Raimundo de Moraes

Img: reprodução

  
Com oito anos uma criança sabe que nada é para sempre. Mamãe e papai avisaram e nas festinhas as bolas de encher estouram quando menos se espera. Não existem pirulitos eternos, mas seria tão bom se existissem. As férias terminam e a gente fica querendo mais. E os hamsters? Por que vivem tão pouco?

Entrou na cozinha correndo. Mamãe, a gente pode amar uma pessoa para sempre? A mãe, filha de divorciados, tinha lá suas certezas. Às vezes sim, às vezes não. O amor acaba e as pessoas se separam. Se não é para sempre não é amor? Parou um momento, olhando para a água da torneira sobre o prato ensaboado. As pessoas mudam, filha. Os sentimentos também, sabe? Um dia você vai entender melhor. Quando eu amar? É, quando amar. Saiu pensativa.

Deitou-se na grama do jardim. Nuvens passavam, brisa nas acácias floridas. O amor também acaba, mamãe disse. Tirou do vestido um papelzinho dobrado em quatro. Letícia, vou te amar pra sempre. Dudu. Pra sempre? Suspirou. Queria juntar as nuvens, formar palavras, formar uma interrogação. Depois com as pontas dos dedos desenhar o rosto de Dudu.


*Transcrito de Mosaico (2013)



PANORAMA LITERÁRIO

IV Prêmio Solano Trindade de Poesia Afro-Brasileira

Inscrição é feita com um poema inédito e o autor terá que recitá-lo durante o concurso. Os três primeiros colocados serão premiados


A Secretaria Executiva de Cultura e Patrimônio Histórico de Jaboatão promove o IV Prêmio Solano Trindade de Poesia Afro-brasileira. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até 5 de dezembro, na sede da secretaria, na Rua Antonio Ferreira Campos, 4787, Candeias, ou através do e-mail culturajaboatao@gmail.com

Os três primeiros colocados receberão prêmios de R$ 3 mil (1º lugar), R$ 2,5 mil (2º) e R$ 2 mil (3º). Além disso, todos os participantes receberão um certificado de participação.
Acesse aqui e conheça o regulamento completo: Regulamento - Download


O Pernambucano Evaldo Cabral de Mello é o novo imortal

Sucessor de João Ubaldo Ribeiro foi eleito com 36 votos

Evaldo Cabral de Mello novo imortal da ABL

A Academia Brasileira de Letras elegeu na tarde desta quinta (23) o historiador, diplomata e escritor pernambucano Evaldo Cabral de Mello. A eleição foi folgada. Cabral de Mello teve 36 dos 37 votos possíveis. A data da posse será acertada entre o novo acadêmico e a ABL, mas especula-se que acontecerá entre março e abril de 2015. Cabral de Mello vai ocupar a cadeira de número 34, que pertenceu a João Ubaldo Ribeiro, morto no dia 18 de julho. Evaldo Cabral de Mello nasceu no Recife em 1936 e atualmente mora no Rio de Janeiro. Estudou Filosofia da História em Madri e Londres. Em 1960, ingressou no Instituto Rio Branco e dois anos depois iniciou a carreira diplomática. Serviu nas embaixadas do Brasil em Washington, Madri, Paris, Lima e Barbados, e também nas missões do Brasil em Nova York e Genebra, e nos consulados gerais do Brasil em Lisboa e Marselha. Evaldo Cabral de Mello é especialista em História regional e no período de domínio holandês em Pernambuco no século XVII, assunto sobre o qual escreveu muitos de seus livros, como Olinda restaurada (1975).

Fonte: PublishNews - 24/10/2014 - Leonardo Neto


Fórum das Letras receberá mais de 100 autores

Evento será realizado entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro, em Ouro Preto/MG


Com o tema Escritas em Transe, a cidade mineira de Ouro Preto se prepara para o Fórum das Letras, que será realizado entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro. Nesta edição, estão programados debates, apresentações teatrais e outras atividades gratuitas, que tomarão conta da cidade. A abertura terá a presença da cantora e escritora Adriana Calcanhoto, que apresentará um pocket show, seguido de debate. Ao longo de cinco dias, serão recebidos cerca de 100 convidados, que participarão de seis diferentes atrações: Programação Principal, Ciclo Jornalismo e Literatura, Fórum das Letrinhas, Ciclo de Debates e #DasLetras. Acesse aqui e confira a programação completa: http://www.forumdasletras.ufop.br/


Prorrogado o V Concurso Cepe de Literatura Infantil e Juvenil


A Cepe – Companhia Editora de Pernambuco - prorrogou o prazo para as inscrições da quinta edição do Concurso Cepe de Literatura Infantil e Juvenil. Os interessados podem acessar o site www.cepe.com.br e lá realizar seu registro até o próximo dia 31 de outubro.
Este ano, a Companhia Editora de Pernambuco oferece um total de R$ 32 mil em prêmios para as duas categorias e a publicação dos livros dos três primeiros colocados de cada uma. Os vencedores do concurso deverão ser anunciados no começo de 2015.


Recital Poético


Recital promovendo a diversidade de estilos, performances e temáticas da nossa literatura autoral. Na Livraria Cultura I Paço Alfândega - Recife/PE. O evento será realizado nesta quarta (29), às 19h e é aberto ao público. Participam do recital: Joel Marcos, José Terra, Raisa Feitosa, Sérgio Leandro e a participação especial de Juareiz Correya.



domingo, 19 de outubro de 2014

VINÍCIUS DA ETERNA PAIXÃO

Vinicius de Moraes
(1913 – 1980)

O DCP vem nesta edição celebrar o dia do nascimento do diplomata, dramaturgo, jornalista, compositor e poeta, Marcus Vinitius da Cruz e Melo Moraes (nome de batismo), ou simplesmente do “poetinha” Vinícius de Moraes, contrariamente ao que o apelido pode demonstrar, este se deu por motivo do lirismo de seus belos sonetos.  Dono de uma obra vasta, onde circulou pelo cinema, teatro e pela música, afirmava, contudo, que a poesia era sua verdadeira vocação.

Dentre sua produção literária, destaca-se o seu primeiro livro O caminho para a distância (1933), que surpreendeu os críticos devido seus 19 anos; o livro de prosa/poesia Para viver um grande amor (1962); e o Livro de sonetos (1967), reunião de sonetos escritos ao longo de 30 anos pelo poeta. Ganhou grande visibilidade na música popular no tempo da bossa nova, quando fez parcerias com Tom Jobim, Chico Buarque, Toquinho e outros. Inquieto por natureza, José Castello, autor do livro “Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão - uma biografia” nos diz que “o poeta foi um homem que viveu para se ultrapassar e para se desmentir”.

Desta forma o poeta Carlos Drummond de Andrade, falava sobre o poetinha: "Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural", "Eu queria ter sido Vinícius de Moraes". Diferente de outros poetas, Vinícius de Moraes, não fincava raízes, escorria pela vida, através do Uísque da fumaça de seu cigarro e os braços de suas amadas. O escritor Otto Lara Resende o definia desta maneira: “Vinícius é um poeta em paz com a sua cidade, o Rio. É o único poeta carioca”, mas ele dizia nada mais ser que “um labirinto em busca de uma saída”.

Os editores



Dois poemas de Vinícius de Moraes

 Pátria Minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”


Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.



POEMAS DA SEMANA

Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen, Henriqueta Lisboa, Flávia Suassuna, Abigail Souza e Taciana Valença



O mar nos olhos
Sophia de Mello Breyner Andresen

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes.. 
e calma


Não a face dos mortos*
Henriqueta Lisboa 

Não a face dos mortos.
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.
 
Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.

Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.

*In A face lívida (1945)


Desabrigo
Flávia Suassuna

Meu rosto
é um espelho
de tudo.

Cada ruga
conta o que houve.

Não ter explicações
é o pior.
E todos os encontros
são também despedidas.

Se soubéssemos,
haveria abrigo.

Mas ele é só
uma palavra.


Metro quadrado
Abigail Souza

Entro, sento
armas são dispostas:
à direita - pensamentos
à esquerda – cruzadas
como não mais se vê.

De arma em punho
                        - traço
Devaneios e tristeza
lado a lado.

A lâmina fria consome
a calamidade dos fatos
em olhos de terror
num quadrado
                   de imagens.
No amarelo borbulhante
sorvo a tensão dos dias
d e r r a m a d o s.
Até os dedos correrem
ávidos na tela
                  - o silêncio.


A um amigo
Taciana Valença

Houve um tempo
Em que a praia era nossa -
A vida nos sorria e o vento
Secava a água em nossas costas

Houve um tempo
Não muito longe,
Em que os sorrisos se esbarravam,
E as palavras tinham sabor de vida

Houve um tempo
Em que nem chovia -
Os pés corriam, afundados na areia
E as ondas eram risos desafios

Houve um tempo
Dos sonhos d'um destino
Que reluzindo ao longe
Brilhavam nos olhos do menino.



PANORAMA LITERÁRIO

IV Prêmio Solano Trindade de Literatura Afro-Brasileira

Inscrição é feita com um poema inédito e o autor terá que recitá-lo durante o concurso. Os três primeiros colocados serão premiados


Visando contribuir para a descoberta de novos talentos da literatura pernambucana, a Prefeitura do Jaboatão dos Guararapes (PE) lança o IV Prêmio Solano Trindade de Literatura Afro-Brasileira do Jaboatão dos Guararapes (PE). As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até 5 de dezembro, na sede da Secretaria Executiva de Cultura e Patrimônio Histórico, na Rua Antonio Ferreira Campos, 4787, Candeias, ou através do e-mail culturajaboatao@gmail.com
Os três primeiros colocados receberão prêmios de R$ 3 mil (1º lugar), R$ 2,5 mil (2º) e R$ 2 mil (3º). Além disso, todos os participantes receberão um certificado de participação.
O texto para inscrição deve ser um poema feito individualmente, inédito e da autoria do candidato, que deverá ser firmada através de declaração. Cada autor participará com um poema e os 20 finalistas deverão recitá-los em performances de até 5 minutos. As apresentações ocorrerão nos dias 20 e 21 de dezembro, no Cineteatro Samuel Campelo, em Jaboatão Centro.

Fonte: Jaboatão Notícias – 14/10/2014 – Por Juliane Menezes



Começa mais uma edição do AquaSesc Verão 2014!


As atividades começaram nesta sexta (17) e irão até o dia 25 de outubro, Jaboatão dos Guararapes (PE) recebe o AquaSesc Verão 2014. O projeto realizado pelo Sesc Piedade, traz uma programação diversificada de esportes, saúde, educação e cultura, com campeonatos e torneios esportivos, além de ações de saúde, apresentações musicais, cultura popular e oficinas. A entrada é gratuita para a maioria das atividades, em algumas são cobrados 2 kg de alimento não perecível. 
Outros destaques da programação do AquaSesc Verão 2014 é a Maratona de Ginástica, de Hidroginástica e o Triathlon Indoor no sábado (18), a Corrida e Caminhada AquaSesc, a Caminhada Sedução com orientações sobre o meio ambiente e o show da Banda MiniRock no domingo (19), e a II Oficina de Produção Textual – A Construção do Texto Dissertativo/Argumentativo, ministrada pelo professor Natanael Lima Jr, na próxima terça (21). Confira a programação completa aqui: http://sesc-pe.com.br/hotsites/2014/aquasesc/programacao.php


  
60ª Feira do Livro de Porto Alegre
  

31 de outubro a 16 de novembro de 2014 Porto Alegre realiza a sua 60ª Feira do Livro. Um dos destaques da programação é a volta das discussões sobre a liberação das biografias. Dia 07/11 reúne três autores censurados: Paulo César Araújo, biógrafo de Roberto Carlos; Domingos Pelegrini, de Paulo Leminski; e Toninho Vaz, também de Leminski. Confira aqui a programação completa: http://www.feiradolivro-poa.com.br/ 



Bienal de Minas abre venda antecipada de ingressos

Entradas para o evento literário já podem ser adquiridas pela internet



A quarta edição da Bienal do Livro de Minas, que acontece entre 14 e 23 de novembro, acaba de abrir a venda antecipada de ingressos para o evento literário, que podem ser adquiridos pela internet. O objetivo da organização, é garantir o máximo de conforto para os 250 mil visitantes esperados, facilitando a participação e agilizando a entrada no evento. Os ingressos estão sendo vendidos a R$ 10 (inteira) e R$ 5 meia-entrada (benefício concedido aos maiores de 60 anos, estudantes de ensino fundamental, médio ou superior da rede pública ou particular de ensino e pessoas com necessidades especiais). A programação da Bienal por ser acessada aqui: http://bienaldolivrominas.com.br/



domingo, 12 de outubro de 2014

O COLAPSO DA CRIATIVIDADE

por Alexandre Coslei*


Img: Reprodução

Observando o cenário nacional e focando nos jovens escritores, o que vemos é um painel que nos remete ao século 19, quando os importados da língua francesa e inglesa trouxeram as primeiras sementes de fertilidade para os autores brasileiros. O que testemunhamos hoje são aqueles mesmos romances adocicados, moralizantes (alguns, com viés evangélico), a exacerbação do sentimentalismo, o didatismo e a fantasia gótica. Os que fogem das velhas receitas enveredam por temas subversivos que flutuam no superficial, limitando-se a meras apologias devido a uma abordagem precária – nessa categoria se encaixam os romances que versam sobre violência gratuita e decadência da sociedade.
Há outros dois modelos em voga, um existencialismo maçante e um erotismo tacanho que tem muito a aprender com o Marquês de Sade. O romance, como gênero literário, involuiu. Há uma tendência retrógrada que se enraizou, apesar do irresistível convite que nos oferece este admirável mundo novo.
No Brasil, a incapacidade autoral para espelhar de maneira autêntica e profunda os novos tempos evoca como causas o esfacelamento do sistema educacional, a mutilação da cultura e a submissão das editoras à colonização intelectual imposta pelo estrangeiro. O número de consumidores de livros cresceu desde a consolidação do romance no país, mas a qualidade dos escritores e leitores sofreu uma implacável erosão. A crescente comercialização de livros, paradoxalmente, não incide no aumento da quantidade de leitores, fato comprovador da tese que afirma que livros se tornaram objetos de colecionador, firulas decorativas. Livros deixaram de ser formadores da consciência crítica.
É preocupante quando constatamos que uma das peças mais pulsantes e revolucionárias da nossa literatura continua sendo Memórias póstumas de Brás Cubas, escrito em 1881. Sob o pretexto do lucro, instalou-se a lógica mercantilista dos nichos literários que movimentam as vendas e impõe rédeas curtas à criação.

A leitura e a escrita exigem a imersão absoluta dos seus apóstolos, atitude que afronta o imediatismo ruidoso e consumista dos dias correntes. O século 21 escolheu a velocidade, a dinâmica, as mudanças e a constante evolução. Na contramão, a literatura quer fabricar calhamaços, cultivar a estagnação, teima em ser arcaica. Como essa arte que venera o anacrônico pode sobreviver entre indivíduos que amanhecem ansiando pisar no futuro? Passado é vocábulo morto e o presente é peça de museu num universo onde se vive no amanhã.
A supremacia fotográfica da TV e do cinema fizeram a indústria dos roteiros prosperar. Séries americanas são cultuadas por estarem em sintonia com as expectativas do homem coletivo gerado pela internet. Já os romances, excetuando-se os best-sellers, ganham mais visibilidade quando são adaptados para o cinema ou TV, justamente pelo processo em que são lapidados, num modelo de narrativa ágil e objetiva.

Não é à toa que o conto recuperou o fôlego como gênero literário. Forma breve que transmite histórias, imagens e pensamentos numa configuração que consegue acompanhar as necessidades da prosa moderna. No hiato do ciberespaço a poesia também se reergue com sua índole intrépida, navegando por mares inexplorados.
Editoras que atuam em nosso solo, antes importadoras de títulos estrangeiros, mantêm diretrizes caducas quando condicionam recrutar apenas escritores brasileiros que estejam dispostos a produzir os velhos romances sobre mocinhas. É curioso que novos conceitos se vendam como razão social para a ressurreição de exercícios estéticos bolorentos. Definitivamente, o romance brasileiro não somente estagnou, ele retrocedeu ao abdicar das virtudes retóricas daqueles que fundaram as suas bases estilísticas.
Na verdade, é possível que o século 19 fosse até mais avançado na motivação à criatividade. Gabinetes de leitura, bibliotecas, livrarias e uma fartura de jornais difundiam e propagavam obras literárias. Saraus preservavam o hábito da leitura em voz alta e faziam proliferar os círculos de ouvintes que, no final das contas, engrossavam o conjunto de leitores.
Na internet, as redes sociais e os sites se valem, prioritariamente, da palavra escrita. É do senso comum que a revolução tecnológica valorizou e disseminou o ato de escrever como nunca se teve notícia. No entanto, esse destaque não se expressou em níveis qualitativos; pelo contrário, o texto foi pasteurizado.
Por algum motivo, emerge uma intrigante sensação no espírito humano, relegamos ao esquecimento a nossa mortalidade. Com isso, anulou-se a urgência de registrarmos o que nos rodeia e as impressões que marcam as nossas vidas. Somos X-Mens, Vingadores, Super-Homens, seres mutantes em que se alastra a virulência da alienação.

Atribuem a Cervantes o título de precursor do romance moderno e em Dom Quixote de La Mancha consta um episódio de forte simbolismo na interpretação que Otto Maria Carpeaux expôs no artigo “Cervantes e o leão”. Dom Quixote, com lança em punho, ao cruzar com uma carroça que transportava bravos leões engaiolados, desafiou o carroceiro para que abrisse uma das jaulas. Receoso, o sujeito abriu a jaula e libertou o macho. O leão saiu, olhou em volta e retornou ao fundo da jaula, desprezando o atrevimento do cavaleiro da triste figura.

Carpeaux explica que aquele leão não é o símbolo da realidade triunfadora, é um bicho medroso e banal que prefere o conforto seguro do aconchego, mesmo que seja na jaula. Assim se comportam as editoras e os jovens autores que se submetem aos grilhões do mercado: desprezam a audácia em favor do bálsamo morno do óbvio e da vaidade. A vanguarda é para os ousados.
O filósofo húngaro Georg Lukács classificava o romance como uma epopeia burguesa e analisava com rigor o contraponto entre narrar e descrever. Para ele, a narrativa constrói o objetivo social do romance. Infelizmente, se considerarmos Lukács, somaremos outro ponto negativo para a literatura fabricada por nossos autores neófitos, sempre mais afeita às minúcias descritivas que compõem o quadro alienante.
Haverá os que acusarão este articulista de se empenhar numa crítica generalizada. O que se vê quando subimos ao alto de uma montanha? A paisagem que predomina ou os pequenos recantos camuflados? A regra obstrui as exceções. Importa ressaltar que o romance viveu diversos dilemas e a partir deles se renovou.
Que um Quixote se insurja entre a geração Blade Runner e traga à luz a obra que irá mapear o território cibernético do homem virtual. Que em um de nós, replicantes, haja o destemor capaz de romper o vácuo do status quo.


*Alexandre Coslei é jornalista carioca, agregando formação em Letras pela     Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ



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    ano III