quinta-feira, 17 de janeiro de 2019


DOMINGO COM POESIA COM NOVIDADES EM 2019










Olá pessoal,

O site Domingo com Poesia aporta em 2019 muito mais renovado para os desafios que haveremos de enfrentar. O DCP pisa firme nessa estrada de quase oito anos de produção e divulgação da boa literatura na web. Os dois prêmios nacionais (2012/2013), no “Topblog Brasil”, abalizaram o nosso site como um dos mais representativos do segmento em nosso estado e no Brasil.

As perspectivas são das melhores para o início desse ano, parcerias com outras plataformas, novos colaboradores, novos conteúdos e muito mais sobre o mercado editorial e a indústria do livro, eventos literários, dicas de leitura, livros digitais e muito mais.

Esperamos interagir com vocês pelas redes sociais, em outras plataformas, sites e blogs parceiros. Vocês podem também nos acessar através do: Twitter https://twitter.com/domingocpoesia, Facebook https://www.facebook.com/domingocompoesia , Google + https://plus.google.com/+DomingocomPoesiablog e em breve também no Instagram.

Um forte e fraterno abraço,

Natanael Lima Jr.
Editor-fundador




domingo, 30 de dezembro de 2018


VII SARAU VIRTUAL



ORGANIZAÇÃO E EDIÇÃO
Natanael Lima Jr. 


Com a edição do "VII Sarau Virtual”, o Domingo com Poesia encerra as postagens de 2018, agradecendo desde já a sua companhia durante todo este ano. Que 2019 possamos continuar cultivando bons sentimentos e perseguindo os sonhos que ainda não foram alcançados. Reunimos nesta edição do "Sarau Virtual", seis poetas contemporâneos que se destacam no cenário literário do estado e nacional. São eles: Fernando Matos, Luiz Alberto Machado, Neilton Lima, Paulo Caldas, S. R. Tuppan e Wilson Freire. 


(Homenagem aos poetas Olavo Bilac, Adélia Prado, Vicente do Rêgo Monteiro e Manoel de Barros)



FERNANDO MATOS*





“A poesia é uma história de recomeço, de luta, um grito na multidão, a poesia nesses 41 anos de escrita significa o renascimento e resistência de um Ser Humano chamado: Fernando Matos. Poesia é Iluminação.”


MEU NOME

Vim de longe
Além das letras
Chegando de carona
Na cauda do verso mais longo.
Misturo alegria, tristeza,
Melancolia, angustia,
Saudade, e eterno amor
Em poemasdegustados
Sabor de fel...

Sentidos apurados
Quando perdemos a visão do mundo.
Andarilho declamador
Admirado também pelos materialistas
Que teimam em viver apenas
Do que é real. Adorável vento que não tocamos.
Divirto-me com o brincante Ser que habita em mim,
Versos que trago
Dimensão chamada Verdade
Ao mundo transitório.

Sou de carne e osso...
Grande espírito viajante
Na busca do equilíbrio
Tendo minha cota
De responsabilidade
Com os meus iguais
Assim chamam-me... Poeta.


*Fernando Matos, pernambucano das artes, 41 anos de Poesia, membro da UBE/PE, União Brasileira de Escritores em Pernambuco e da Academia IPÊ (Academia Internacional de Poetas e Escritores de Enfermagem). Livro publicado: “Eu, a natureza e a vida”, em 1998. Participação em diversas Antologias Poéticas ao longo dos anos, com honra ao mérito ao trabalho literário. Participação na Bienal do Livro em Pernambuco/2017 com a Antologia: Chuva Literária (lançamento da obra). Últimas Antologias, “Unyversos” pela UNY Editora e Conexões Atlânticas pela In-Finita (Lisboa/Portugal). Agora tenho a honra de participar com outros Nobres Poetas da Antologia “Carrero com 70” / 2018 pela CEPE – Companhia Editora de Pernambuco.



LUIZ ALBERTO MACHADO*




“A poesia é a minha maneira de me sentir vivo.”


COLHENDO SONHOS NOS GALHOS DA VIDA


Ainda ontem semeava futuro tropeçando no presente.
Distâncias sem fim e o triz nas perdas do tempo que sangram escombros de agora.
Sou rios das terras que deixei e deságuam na minha solidão.
Mais que nunca a voz ao muro, como um pé na porta e a fuga do frio.
Há muito mais que olhar pros lados e ver apenas o que está visível.
Intenções ignoradas, afetos roubados, emoções escondidas, eu sinto mesmo pelas costas o abraço: da janela insone sou a chuva na madrugada.
É tudo o que tenho e me valho não ter outra opção.
Aponto adiante, passos de esperança como o dia que teima amanhecer.
Se não tem jeito, está feito, sou o que ficou de quem partiu entre estrelas, olhares, errâncias, entre lapsos e lembranças, coisas que esqueci e não,
Voo colhendo sonhos nos galhos da vida.


*Luiz Alberto Machado nasceu em Palmares, PE, e residiu mais de trinta anos em Maceió (AL). É ‘cantautor’, radialista e pesquisador nas áreas das Neurociêcias ligadas à Educação, Direito e Psicologia. É autor de livros publicados de poesias, infantis, ficção, literatura de cordel, peças teatrais e de pesquisa. Realiza shows, palestras, oficinas, recreações, contação de história e participa de grupos de pesquisa, debates e congressos nas áreas de atuação. É editor do blog Tataritaritatá:



NEILTON LIMA*



“Em tempos de caos ou temperanças, a poesia eleva, e nos traz, ao seu modo, alguma esperança; não que a Arte salve ou tenha tal missão, mas as palavras ditas, escritas nas águas, folhas ou telas, grita, nas vozes dos poetas, a liberdade de alguém em vida. Escrever, escreviver, criar frutos futuros, visões; simplesmente ter, rodeados de um vazio social, uma janela aberta: e dela contemplar uma possibilidade infinita. Eis a poesia (alma), o poema (corpo), as palavras (veias) que habitam em mim e que procuro transcender em sons, imagens e ideias.”


NOVENA

Estás vestido com a pele que a terra te ofereceu
Não crês no sagrado, mas não és ateu
Trazes nas veias uma larva incandescente
Magma, sangue, veneno de serpente
Chamam teu nome em cada canto do universo
Brotas dos frutos, das lágrimas no inverno
Não és folha, nem homem, nem poeta
Então por que segues por esta trilha incerta?
A procura na noite uma porta aberta
Em que o desesperado fim é a tua grande meta
Deixando o céu para conhecer o inferno
Colhendo espinhos e dentro de si sempre imerso
No reino tortuoso do inconsciente
Onde o medo é um ser crescente em ti presente
Despertas! Crê em ti e no que é teu,
Pois estás vestido com a pele que a terra te ofereceu. 



*Neilton Lima é Mestre em Teoria da Literatura (UFPE, 2007). Licenciado em Letras Português / Inglês (UFPE, 2003). Professor de Língua Portuguesa e Literaturas na FOCCA (Coordenador e Professor do Curso de Graduação em Letras); Revisor ortográfico da Revista Scientia Una; na São Miguel (Letras, T.I. e Fonoaudiologia); na FACOL (Pós-Graduações); na UBE (Coordenador de Eventos). Membro da Câmara Brasileira do Desenvolvimento Cultural. Poeta, Escritor. Publicações: Antologias: Mutirão de Poesia, RS (1997), Nova Geração da Poesia Brasileira, RJ (2002); Staccato, PE (2005); Áfricas de África, PE (2005), Revista Café com Letras, PE (2006), Em Pessoa PE (2007), Revista Scientia Una, PE (2009; 2010; 2014; 2015; 2016), Falo com Flauta & Poesia, Selma Ratis PE (2012), Poesia Pernambucana Hoje. Vol. 1. Vital Corrêa de Araújo PE (2013); Um Jeito Diferente de Filosofar, Martinho Queiroz, PE (2014); Dicionário Escolar da Diversidade Cultural Pernambucana, Adriano Marcena, PE (2014). Dossiê de Gustaff, Alexandre Santos, PE (2015); Raspando o tacho, Adriano Marcena, PE (2015). Além de poemas e estudos ainda inéditos.



PAULO CALDAS*





“A poesia é a síntese dos sentimentos humanos, "a soma do sumo", como ensinou Alberto da Cunha Melo.”


O SOL ALÉM DA MINHA RUA*

O sol além da minha rua
Espia entre folhas inibido
Conduz com luz de olhos claros
O amor pelas sombras escondido

Ilumina inquieta incita
Se espalha pelo mundo refletido
Nave de voo incandescente
Nos leva ao céu de amor tingido

Quando noite envolto em mistérios
Tristonho sonha sonhos mal dormidos
Na agonia das horas, insone espera
Se entregar ao amor amanhecido

*do livro “Cículo amoroso”, Bagaço, 2016.



*Paulo Caldas é um dos mais importantes escritores pernambucanos. Nasceu em Recife e iniciou a carreira em 1980, com a primeira versão de “No tempo do nosso tempo”, reunião de crônicas sobre a juventude recifense nos inesquecíveis anos de 1960, em parceria com o cronista Evaldo Donato, com o selo das Edições Pirata. Graduado em economia e jornalismo. Caldas publicou dezenas de livros, alguns deles adotados em escolas. Publicou em 2016, pela Bagaço, “Círculo Amoroso & outros poemas”. Atualmente ministra várias oficinas literárias. 



S. R. TUPPAN*





“A Poesia vem da Vida, com tudo o que nela há. A Arte Poética se concretiza no poema. As Artes, desde sempre, são multimediais (a Comunicação delas pega emprestada essa multimedialidade).”

  

A Canção dos Meninos Mortos


Sete meninos mortos
Nas calçadas do Brasil

Sete zil anônimos assassinados
Filhos da Pátria puta que os pariu

Sete zilhões de consciências
Entregues ao vício verde-amarelo-branco-azul anil

Sete zilhões de corações
Vezes setenta triviolações

Setecentas tantas outras
Formas de alienação

Sedentos vermes da morte
Cumprindo sua função

Sete vezes me alucino
Vezes sete digo não


* * *

Ser tão comum
Igualmente amoroso

Vê o vento da noite
Levar sua vida embora

Embora uma vida de cão
Flores setembra a Primavera


[Do livro ATINGUASSU, inédito]


*S. R. Tuppan - Poeta, Educador, Produtor, Editor, Comunicólogo. Criou e publicou o 'demo book' "ATINGUAÇU" (Poesia, Recife, 1995). Tem poemas publicados em jornais, revistas, fanzines, cartazes, antologias, coletâneas, blogues e sites na Internet. Aparece em programas de rádio e TV, vídeos e documentários audiovisuais. Editor-Fundador da Revista e Portal de Literatura e Artes POÉTICA XXI. Ministra a "Oficina da Poesia" (história, recital e preparação corporal). Ativo participante de movimentos artísticos e sociais, desde 1990 tem recitado em diversos eventos e ocasiões, em várias cidades e Estados do Brasil. Criador e Coordenador Geral do Alt Fest ! – evento de Literatura e Artes Integradas, paralelo à Fliporto, em Olinda (PE); atualmente, em reformulação.



WILSON FREIRE*





“Poesia pra mim. É o voo pássaro de um homem que não tem cachê pela vida.”



PREDADOR
- A Vida é macho ou fêmea?
PRESA
- É fême(r)a.

Das feridas de Frida,
A não pintada
É a mais dolorida.


*Wilson Freire nasceu em São José do Egito, Sertão de Pernambuco, em 1959, vive em Recife, é médico, escritor, compositor, cineasta, participou  das coletâneas “Novo Conto Português Brasileiro” PUTAS. Quasi Edições - Vila Nova de Famalicão/Portugal 2002, “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”. Coleção Cinco Minutinhos Ateliê Editorial – São Paulo 2004. Autor do Romance: “A Mulher que queria ser Micheliny Verunschk”. Edith - 2011. E do livro de haicais – “Haikaiando” – Candiero Produções – 2012. A Última Voz,  Novela- Mariposa Cartonera – 2015. Parceiro de ANTÔNIO NÓBREGA nos CDS: "Na Pancada do Ganzá" - Prêmio Sharp de Música 1997 (Melhor música e melhor CD); "Madeira que Cupim não Rói" 1998; "Pernambuco Falando para o Mundo" 1999; "O Marco do Meio Dia" 2000; "Lunário Perpétuo" 2002; “09 de Frevereiro” 2006 e 2007. Autor do conto "Conceição" adaptado para o cinema. Curta metragem com direção de Heitor Dhalia. Co-roteirista, com Heitor Dhalia, do longa-metragem "As Três Marias" (roteiro premiado pela Fundação  Hubert Bals - Roterdã - Holanda/2000). Roteirista e diretor do filme “Uma Cruz, uma História e uma Estrada”. Vencedor do concurso do DOCTV III – PE. Vencedor do festival de vídeo Eco - Amazônia – 2008 (melhor fotografia) Roteirista e diretor do filme “Miró: Preto, Pobre, Poeta e Periférico” 2008 – Documentário. Vencedor da Amostra Pernambucana de Vídeos Cine PE/2008. Vencedor do Festival de Vídeos de PE/2008. Vencedor do prêmio Melhor Documentário do 1º Festival de Cascavel PR/2008. Vencedor do Festival de Vídeo de João Pessoa/2008 (melhor documentário). Roteirista e diretor documentário do curta metragem “Zé Monteiro, O Homem que venceu as Cinco Mortes” – 2012 -  Melhor filme : Júri popular e oficial – Amostra Os Sertões festival de Triunfo – PE.

# Roteirista e diretor documentário  do longa metragem “Nelson Barbalho, o imortal do País de caruaru.” – 2014.




domingo, 9 de dezembro de 2018


VI SARAU VIRTUAL



ORGANIZAÇÃO E EDIÇÃO: NATANAEL LIMA JR.



(Homenagem aos poetas Ivan Junqueira, Zeca Plech, Cecília Meireles, Torquato Neto, Bruno Tolentino, Arnaldo Tobias, Maximiano Campos, Francisco Espinhara, Samuca Santos, Erickson Luna, Cruz e Souza, Adélia Prado, Olavo Bilac, Vicente do Rêgo Monteiro e  Manoel de Brarros)


Nesta VI edição do “Sarau Virtual”, o DCP encerra as postagens de 2018, agradecendo desde já a sua companhia durante todo este ano. Reunimos nesta edição do "Sarau Virtual", mais cinco poetas contemporâneos que se destacam no cenário literário do estado. São eles: Alberto Lins Caldas, José Geraldo, Marco Polo Guimarães, Natanael Lima Jr. e Sidney Nicéas.




ALBERTO LINS CALDAS




“o poema, em toda sua grandeza épica, trágica, narrativa, carnal e dramática passou pela entrega ao nada de nada do suco de laranja. castrado, ele há muito tempo é só verso, poesia, performance”.

“*. a poesia fica com o verso, o poema se separa, retoma o velho caminho onde a densa “força da narrativa” advém em ser constitutivamente uma “narrativa da força”. o verso está irremediavelmente envolvido com o “eu”, com as perspectivas limitadas e tolas do eu, com os desejos, as ilusões, as minúsculas dores e ideias do eu (a poesia o verso foram raptados pela subjetividade servil, pela opinião, pela descritividade, pela confissão, pela apoliticidade, pela covardia). o poema é um enfrentamento político do horror, um enfrentamento do real – o poema é, antes de tudo, política, uma configuração do horror”. 

*(fragmentos sobre o verso o poema ● ensaio-manifesto)



na multidão um segundo


● era bela como uma estatua ●
● de jade com olhos de ametista bebendo cerveja ●
● negra e conhaque cheia de dor e medo ●
● olhando pra mim como se eu fosse um leopardo ●
● logo eu q tenho uma corda no pescoço ●
● logo agora q vão derrubar a cadeira onde tou ●
● um segundo meu pescoço se parte e sera tarde ●

● vira o inferno me fazendo esquecer ●
● a estatua de jade com olhos de ametista ●
● bebendo cerveja negra e conhaque me olhando ●
● como se eu fosse um animal faminto e q deseja ●
● logo eu q ficarei digerido no nada da morte ●
● posso mesmo inda gritar agora sera impossivel ●
● vc não se lembrara os leopardos voam logo ●

● as coisas podiam ser diferentes mas tudo muda ●
● agora giro gira giro e reluto em ficar gelado ●
● trinco dentes vendo girar uma estatua de jade ●
● com olhos de ametista bebendo cerveja negra ●
● e conhaque se voltar e sumir na multidão ●
● nada tenho ou posso dizer mas é uma pena ●
● essa escuridão invadir minha boca e nada mais ●



JOSÉ GERALDO*


“A poesia é calmante, ao mesmo tempo, revigorante existencial. Corrente que segura firme minha vida e me põe em equilíbrio emocional. Comunicação pacífica e generosa. Pote d’água e bandeja nutricional. Enfim, porto e âncora da minha alma.”


ESCOLHA

Enquanto eles
burlam,
iludem,
tripudiam,
conspiram
e tudo negam.

Prefiro ser poeta,
faço meu protesto
usando palavras,
qual um arco a
lançar  flechas e
na sua trajetória,
finque na linha mestra.

Arranque tacos,
fazendo frestas.
Que minhas palavras
firam as feras,
bando de roedores,
inúteis germes e,
nada o são que prestem.


*José Geraldo nasceu em 07 de fevereiro de 1951, em Arcoverde, Sertão do Estado de Pernambuco. Reside na cidade do Cabo de Santo Agostinho desde 1971. Formado em Administração de Empresas, atuou em várias áreas do comércio e indústria, sendo um dos primeiros a praticar o comércio híbrido em Recife. O contato com a literatura aconteceu a 15 anos atrás. Participa ativamente de várias atividades literárias promovidas pela Academia Cabense de Letras e pela Biblioteca Joaquim Nabuco. Em breve lançará o seu primeiro livro de poesia.  



MARCO POLO GUIMARÃES


  
“Quem nasceu primeiro, o poeta ou o letrista? E qual a diferença entre os dois? Meu nome é Marco Polo Guimarães e comecei a escrever poesia aos dez anos depois de ler o poema Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, que me fez descobrir o encantamento de ver tanta coisa dita com tão poucas palavras. Desde então, para mim, um poema é como uma semente onde já estão presentes as raízes, o tronco, os galhos, as folhas, as frutas e as flores de uma árvore. Está tudo ali concentrado, como todas as vitaminas, de A a Z, num simples comprimido. Um poema é a maior concentração de sentido no mínimo de palavras. Palavras que têm música e ritmo próprios, assim com também seus silêncios.

Me apaixonei pela música mais cedo, aos cinco anos, ao escutar uma moça tocar no acordeom um Noturno de Chopin que me levou às lágrimas de tanta emoção. Compus minha primeira música aos oito anos, criando um baião para cantar a letra de uma canção de cangaceiro cuja melodia eu não sabia. Passei a estudar piano, acordeom e violão sempre compondo. Mas só na adolescência comecei a compreender a diferença entre letra de música e poema. A letra precisa combinar com a melodia, a harmonia e o ritmo e a interpretação de quem a canta. Ela junta todos estes elementos num só, formando uma coisa diferente.

Desde então, entretanto, faço tanto uma coisa como a outra sem dar muita importância nas possíveis diferenças. O importante é que cada um, poema ou letra, sejam como um relâmpago na cara, a definição de Ferreira Gullar sobre o que é poesia. Uma luz tão forte que nos deixa momentaneamente cegos. Mas quando vamos recobrando novamente a visão, já vemos tudo com outros olhos. Percebemos que para além das vestes coloridas que a revestem é possível ver a carne nua da realidade em toda sua potência e beleza. A realidade por trás do cenário.”


STRIP-TEASE

À Marilyn Monroe

Vai começar o espetáculo
Na desnudação do corpo.
Recrutaram a república
Dos artistas para assistir
Teu strip-tease prostituta
Das causas e cousas perdidas.

Primeiro apareces completa
Vestida de carnes cartilagens
E matérias diversas.
Depois te despes
Com gestos cronométricos
(Correm rios de murmúrio
Ao fundo como música).

Tiras a cabeleira
Feita de espaço inútil:
Prisões de trança à carícia
Ou mesmo liberdade
Nos raios volúveis do vento
Ou ainda sossego de espuma
Tremebulindo na pedra.

Depois são os olhos
Que não mais serviam pois
Já tinhas visto
Tudo que te interessava
E olhos cegos de vida
São como secas bolas de vidro.

Vem agora o nariz
Ou melhor, vai, já que houve
Substituições nos perfumes do ar
Sendo o cheiro atual
Muito prejudicial à saúde
E a respirar para morrer
É melhor não respirar.

Jogas também a boca
Desgastada em beijos e batons
Boca de sorriso desgastado
Feito à feição dos dentes
Boca de sorriso ósseo
Imóvel e acadêmico
Mas de academias opostas
Às monas lisas.

Restam a face e o queixo
Que podem ser jogados fora
Com a cabeça. O queixo bronco
A face de formas várias
Retesada e engelhada
E a cabeça sem gema
Feita com casca de ovo.

O pescoço agora alicerce
Sem construção visível
É também inútil e
Urge lançá-lo fora.
Não abrigou nenhuma lâmina
Nem corda alguma o abrigou
Uma em busca do calor
Que há no sangue
A outra procurando evitar
Resfriações mortais e buscando
Contorções românticas.
(Há maneiras mais modernas
De assassinato e suicídio.)

Os seios.. Ah! Os seios
Não prestam mais
Seu leite sua carícia
Foram sugados
Pelos filhos e amantes
De tua maternidade estéril
E de teu amor estéril
São seios de cor estéril.

O ventre fede
Exala tuas fecundações
Urinárias.
O ventre deflorado
Não flora mais flor
De vida ou sangue
É um ventre de estátua
Liso e nulo divorciado
De sua real utilidade.
Urge desbastá-lo.

O tronco é (desde outrora)
Corpo de caixão
Madeira cortada à madeira
Do homem cujas seivas
Defecaste com os ossos
Que eram espadas de tua morte
E com o coração
Que era a morte de tuas espadas.

Amontoa-se no inferno
A salada dos pulmões
Fígado rins baço nervos.
Os nervos - cordas sobre que
Te equilibraste aramista.

Pernas e braços restantes
Não têm mais apoio
Em nenhum corpo
Não podem ficar eretos
Caem para os lados
Para baixo-cima
Em todas as direções
Como moinhos de vento
Enlouquecidos a vento enlouquecido.

Terminou o espetáculo
(Nada te resta) e
Estás curvada ante o cansaço
E nós julgamos que te curvas
Aos nossos inúteis aplausos
Estás despida e nós
Amargamente mergulhamos
Em tua nada-nudez.



NATANAEL LIMA JR.



“A poesia é matéria fluídica, gérmen de todas as artes, sêmen de um astro que se recusa a ser subterrâneo.”


PAISAGENS

I

A manhã
da cor de tempestades
floresce entre
luz e sombras

II

A tarde
da cor de névoas
sobre as lembranças
despe-se sem porto

III

A noite
da cor de luto
repousa entre musgos
sobre os trópicos



SIDNEY NICÉAS



“A poesia são os olhos da minha alma. Sem ela minha prosa seria murcha, minha vida descolorida, meus amores sem graça. Alerto sempre aos alunos nas minhas oficinas de escrita que todo escritor que quer mais precisa beber da inestimável fonte da poesia. E seguindo o conselho do mestre Vladimir Nabokov, o bom escritor é antes de tudo um mago. Não tenho dúvidas de que a poesia é o principal ingrediente para esse magístico que é a Literatura.”


NENHUM CORPO SEM ALMA ATRACA EM NOSSOS PORTOS-DESTINO!


Há sextas-feiras nos teus dias
De domingo a domingo, embutido
Minh'alma pisando pedras antigas
Desfilando vadia em teus umbigos
Meus passos dentro do teu paço
Meu corpo poesia em teus destinos.

De ponte em ponte, aponte
Viajo por séculos em teus casarios
Deslizando pelos trilhos dos bondes
Terra de concretos, mares e rios
Subo arrecifes e torres gigantes
Cidade de mangue e sonhos bravios.

Não mais ando, alço voo raso
Profundo nas margens do camuflado istmo
Centenas de anos agora as dividindo
Duas cidades de braços abraçados
Recife me entrego aos teus cuidados
Olinda me benzo sob teus sinos.

Sou morto-vivo velado
Sou vivo-morto despido
Minhas velas acesas, infladas
Meus olhos, desejo repartido
Rezo pelas irmãs de terra e aço
Em ladeiras e ruas sou cupido.

Nenhum corpo sem alma atraca em nossos portos-destino!






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Editor-Fundador Natanael Lima Jr