domingo, 27 de maio de 2018


SPENCER LANÇA “O OLHO DO RINOCERONTE” (CONTOS)



“O OLHO DO RINOCERONTE” (CONTOS)




O poeta pernambucano Frederico Spencer lança o seu primeiro livro de contos, no próximo dia 06 de junho, às 18h, no shopping The Garden Open Mall, em Piedade. O evento também contará com um bate papo com o autor e com as participações do livreiro e editor Tarcísio Pereira e o poeta Natanael Lima Jr.
Spencer reúne neste seu livro 28 contos inéditos, todos muito bem trabalhados, marca registrada das suas obras já conhecidas e publicadas.








O PEQUENO CONTO DE UM REINO, DE FREDERICO SPENCER


Capa: Divulgação
O olho do rinoceronte (contos)




Quatro reis

Um do Norte, as terras se estendiam até parte do leste da planície costeira, banhada pelo Atlântico; um do Sul e dois do Sudeste, que dividiam a parte mais rica daquele império.

O primeiro, tímido e servil destinava sua produção e seus guerreiros em troca da pele e dos ossos dos animais dourados que viviam nos campos minados dos outros reinos.

O do Sul, sonhava ser estrangeiro, vivia parado e quieto olhando suas fronteiras remontando uma nova língua para seu povo – distante e febril – dançava e queimava a carne de seus bichos em noites de lua cheia.

Os dois restantes comiam e bebiam, maquinavam elevar taxas, cortar créditos e decretar uma festa que durasse o ano inteiro. Por causa da pouca reserva de água em suas terras, embriagavam-se com um líquido escuro e viscoso que brotava do mar onde se formavam praias, cobertas por alvenaria e naves aquáticas – esperavam uma guerra. Vez em quando estranhos seres invadiam suas ruas, encobertos por nuvens de fumaça, alucinados cantavam e dançavam empunhando armas de fogo.

Os quatro reis não temiam a morte nem as cortes. Com as cartas nas mãos apostavam num mês de março, que sempre vinha com o ranço dos cajus misturados com aguardente. Naquele império todos dormiam cedo e sonhavam.

Esperavam a batida final para continuar o jogo.




*Do livro: O Olho do Rinoceronte, pág. 57





MAIAKÓVSKI, O POETA OPERÁRIO



Por Natanael Lima Jr.*





Vladimir Vladimirovitch Maiakovski
Foto: Reprodução




Vladimir Vladimirovitch Maiakovski nasceu em julho de 1893, em Bagdádi, na Georgia. Em abril de 1930, aos 36 anos, em Moscou, URSS, deu um ponto final a sua vida com uma bala no peito. Ficou conhecido mundialmente como o “poeta da revolução”, mas foi, sem dúvida, um exímio “poeta operário”, considerado um dos mais influentes do século XX, ao lado de Ezra Pound e T.S. Eliot.

Maiakóvski foi o mais ousado renovador da poesia russa de todos os tempos, um dos primeiros poetas a utilizar um vocabulário urbano, cotidiano e destituído de recursos estéticos, contudo soube utilizar brilhantemente ricas metáforas em seus poemas. Foi o poeta que libertou o verso da rigidez estética e alargou a esfera do lirismo.

Em 1918, Maiakóvski escreve o poema O poeta-operário, “talvez ninguém como nós ponha tanto coração no trabalho”. O poeta é um verdadeiro operário, é aquele que trabalha a palavra, que retorci e a transforma. O poeta é um trabalha/dor, que se entrega totalmente à sua produção, que trabalha com dedicação e afinco a palavra. Por isso, ele tinha como opinião de que o artista revolucionário deve encarar-se como um trabalhador, um operário das artes, “a esculpir a tora da cabeça humana e a pescar gente viva”.



*Natanael Lima Jr. é poeta, pedagogo e editor do DCP




O poeta-operário*

Grita-se ao poeta:
“Queria te ver numa fábrica!
O quê? versos? Pura bobagem!
Para trabalhar não tens coragem”.
Talvez
ninguém como nós
ponha tanto coração
no trabalho.
Eu sou numa fábrica.
E se chaminés
me faltam
talvez
sem chaminés
seja preciso
ainda mais coragem.
Sei.
Frases vazias não agradam
Quando serrais madeira
é para fazer lenha.
E nós que somos
senão entalhadores a esculpir
a tora da cabeça humana?
Certamente que a pesca
é coisa respeitável.
Atira-se a rede e quem sabe?
Pega-se um esturjão!
Mas o trabalho do poeta
é muito mais difícil.
Pescamos gente viva e não peixes.
Penoso é trabalhar nos altos-fornos
onde se tempera o ferro em brasa.
Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas
com a lixa do verso.
Quem vale mais:
o poeta ou o técnico
que produz comodidades?
Ambos!
Os corações também são motores.
A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.
Camaradas dentro da massa operária.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
somente juntos recomeçaremos o mundo,
fá-lo-emos marchar num ritmo célere.
Diante da vaga de palavras.
levantemos um dique!
Mãos à obra!
O trabalho é vivo e novo!
Com os oradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos
que façam mover-se a mó!


*Coleção a Obra – Prima de Cada Autor
Maiakóvski – Vida e Poesia
Tradução dos poemas – Emílio C. Guerra e Daniel Fresnot
Editora Martin Claret, 2006








POESIA DE MARIA DE LOURDES HORTAS


Por José Luiz Mélo*




Maria de Lourdes Hortas
Foto: Arquivo DCP




Devo lhe chamar assim, lhe define melhor do que Poeta ou Poetisa.

Isto porque você e os seus versos são de tamanha espiritualidade que não posso imaginá-la gente, à nossa semelhança, nem de matéria, as imagens dos seus poemas que de tão inervadas de sentimento, transcendem ao que estamos habituados que os nossos sentidos percebam e julguem real.

Há alguns dias você tem publicado, com admirável formatação do José Carlos de Abreu, as “Carta à Minha Mãe” nas páginas do Face. Resgate do seu Livro: “Rumor de Vento”, publicado em 2009 pela Panamérica Nordestal, do Juarez Correya.

Estas cartas, que nos revelam os estágios mais elevados a que se pode atingir o espírito, humaniza a saudade tornando-a palpável, sentida, real; traz-nos de volta e eterniza enquanto perenes e eternos nossos seres que se não apartam porque juntos continuamos juntos, apenas até você, não sabíamos como dizê-lo.

Sugiro que estas Cartas sejam publicadas agrupadas, talvez numa plaqueta, ou numa única postagem no face e em outras mídias, de modo alcançar a todos que procuram um modo de expressar suas saudades sem conseguir fazê-lo.

Hoje, trazemos “As cartas à minha Mãe”, para publicação no nosso “Domingo com Poesia”, onde partilhamos com os nossos amigos o que de mais belo se tem escrito em nossa terra.


*José Luiz de Mélo é poeta e editor do DCP




CARTAS À MINHA MÃE





Aos poucos a hera sobre as pedras
Vira pedra (...)

WALLACE STEVENS





Capa do livro “Rumor de Vento”, publicado
em 2009 pela Panamérica Nordestal





I.

Quando quase menina, comecei a
escrever eras sempre a primeira
leitora.
Se gostavas, dizias: “Fiquei arrepiada. Isso
é bom!” Se não gostavas, o arrepio não
vinha.
Aconselhavas-me: “tenta outra vez...”

Depois que partiste, Mãe, naquele
agosto cinza, A poesia calou-se dentro
de mim.
Hoje ocorreu-me a causa do meu silêncio:
tanta coisa para te dizer e não consigo...
Certamente por conta da ausência do
barômetro, teu arrepio.

Por isso resolvi escrever estas cartas:
quem sabe assim conseguirei demolir o
silêncio que vem aprisionando o meu
coração?

Minha querida Mãe,
Quando receberes esta, de onde
estiveres, como te for possível por
favor envia-me um sinal de que a carta
chegou.
Pode vir numa sonata de
chuva na visita de beija-
flor no arrepio de
vento...


II.

Minha alma regressa esta
noite: Seu retorno dói.
Dou-me conta de que
não sou de pedra.
À noite o silêncio da casa parece
levedar como crescia a massa do
pão sob dobras de linho nos
mistérios da infância.

Mal escurece pressinto teus
passos riscando o corredor.
O coração acelera-se
prelúdio na penumbra da
sala dissonância no piano
ausente.


IV.

No sonho
ultrapasso o
portal secreto.
Meus dedos
resvalam pela
seda lilás do teu
vestido.


V.

Esta madrugada liguei
para ti: Chamou,
chamou e ninguém
 atendeu.
De repente veio a
chuva dialogar na
vidraça. Do retrato


VI.

antigo escapou o
teu sorriso.


VII.

Agora que dormes sob a
pirâmide no vértice do
tempo sabes o
que diz o vento
quando passa
assobiando pela estrada.


VIII.

Na casa onde vivias
murcharam as violetas
todavia chuvas e
ventos ainda
conversam na varanda
onde rezavas voltada
para o mar.

O quarteto de pássaros
teus amigos visitantes
pontuais pela madrugada
e ao entardecer não
entenderam porque
emudeceu tua presença
azul alumiando o sol.


IX.

O rio da tua
vida passou a
ser meu
afluente
enquanto rio eu
for.


X.

Depois de mim
quem colherá tuas
águas?


XI.

A porta da tua
casa cerrou-se
para sempre
quando
fecharam a
porta da caixa
onde apenas
coube teu
corpo frio.


XII.

...livro aberto na
mesinha de
cabeceira porta-
jóias caixa de
música xícara sobre
a mesa vidro de
perfume anel
retrato vestido
sobre a cama
coisas tantos e
tantos signos da
engrenagem da
vida gestos
expostos emoções
à deriva espalhados


XIII.

na pressa da
partida.


XIV.

Inviolável cofre tua vida
tornou-se ontem para
sempre. Impossível
reverter a rocha lava
fria.


XV.

Agora tua casa
se entrelaça nas
casas daqueles
que ainda por
aqui se demoram
mais um pouco.

No retrato antigo sorris e
esperas: é véspera, Mãe.


XVI.

Quando te cobriram
com a mortalha de
terra a vida pesou
sobre mim, órfã.


XVII.

Um portal se
fecha a tristeza
me cobre: crepe
negro e molhado
terra soterrando o
cofre que te
enterra. 


XIX.

Implacável eclipse o
da morte
transformando em
bronze a que viaja
mares de terra a
dentro.

A ressonância do
pranto não atinge o
biombo que te
oculta.


XX.

Menina adormecida
dentro do barco
sonhas com a eira
ao relento do luar.
Para essa geografia
viajas ao encontro
dos que vivem na
aquarela antiga.


XXII.

Ficaram teus recados
inscritos na tarde
lilás de um agosto de
chuva. Fábulas
cifradas nas folhas
de chá depostas na
porcelana fria. 











quinta-feira, 17 de maio de 2018


II SARAU VIRTUAL



PARTICIPAÇÕES

JOSÉ TERRA, LÁZARA PAPANDREA, IVAN MARINHO, FLÁVIA SUASSUNA E TACIANA VALENÇA



JOSÉ TERRA

“Escrever é saber ver Poesia em todo lugar e trabalhar em cima dos detalhes. Sou perfeccionista e Poesia é alimento para mim. Ser Poeta é um desafio em qualquer parte do mundo. É contribuir com participação e respeito na existência de outras pessoas.”



O PRINCÍPIO É A MULHER

Tudo que é lírico
Tem a sensibilidade em forma de mulher
É quando a pétala feminina
Anuncia a nossa humanidade
Em qualquer hora do dia
Na língua do fogo
Para além do Poema


A HUMILDADE DE JESUS

Quando lancei minha Poesia no ar
Com a mão direita do vinho e a mão esquerda da rosa
Todos (sem exceção!) pegaram meus poemas :
Loucos, Lúcidos, Poetas, artistas em geral...
Rainhas Camponesas, Princesas Urbanas,
Mães de todas as épocas...
Putas, Gays, Alcoólatras, Drogados, Todos os marginalizados...
Lobos, Porcos, Cachorros, Gatos...
Só restou um Poema!
Jesus veio à Terra e pegou o meu Poema
Para proclamá-lo no Novo Sermão da Montanha
E no Recital de Poesia do Céu



LÁZARA PAPANDREA (MG)*


“A poesia para mim é caminho e descaminho, ponto de chegada e partida, lugar de não estar, do qual recolho abismos e rosas.”


UM TEMPO DE:

Quisera um tempo sem chuvas
onde as luvas do dia caíssem feito sol
nas abóbadas do ar sem precisar
desse intento de nãos nas faces da tarde
Sem precisar esses disfarces sombrios
abraçando as montanhas
Quisera um tempo
onde as entranhas da terra gemessem
um estranho vento de luz
E um fogaréu de azuis se estendesse
pelo céu como um manto de virgem louca
costurado à boca das eras
Um tempo onde as megeras do sol
montassem os esplêndidos cabelos do vento
e afugentassem as sombras cavernosas da noite que chove
Um tempo onde as dores do mundo
estivessem de luto perpétuo e que o luto fosse luz e desapego
Um tempo.
Um tempo de.
Senão o que esperar do céu?


*Lázara Papandrea, natural de Pouso Alegre, MG. Publicou o livro de poemas " Tudo é Beija-Flor", Editora Penalux. Escreve regularmente no blog www.vestesdepalavras.blogspot.com 



IVAN MARINHO


“Vejo a poesia mais como voo, do que asa”.


GUERRA E PAZ

Forjar o ferro e fazer o fuzil
Que apontará na sua direção.
Obedecendo a lei tão cegamente
Que as flores cruzarão sua janela.

As velas continuarão acesas
E, abertos, olhos permanecerão
Vidrados na esquife que emoldura
Toda imobilidade do silêncio.

Ou rasgará com uma faca de fogo
E as velas com o vento apagarão,
O sangue fertilizará o solo
Que se dará ao corte do arado.

Entre o que grita e o que se cala

Vagando pela mão e a contramão,
Semeada a poesia sobre a terra,
Sem saber se o fruto é um dom da paz
Ou se ela, a paz, fruto da guerra.



FLÁVIA SUASSUNA


“Escrevo para entender e para explicar. Quando a clareza é boa, uso a prosa; quando as coisas estão confusas e apenas intuo compreensões, escrevo poemas, que são a tecnologia de ponta de uma língua. Ou seja: quando a gente não sabe, escrevendo poemas, a gente vai devagar descobrindo. A poesia é isto: uma ferramenta de elaboração das novas compreensões.”



DAMASCO


Também
já houve em mim
usança de silêncio:
fui tarântula vã
que tecia o nada
no extravio da seda.

Concebia fendas
tecia grotas
arrenegava o fio
que me urdiria o ser.

Tarântula ou ostra:
engendrava a pérola
que se perdia
de guardada.

Mas me cansei de morrer.

Preciso ser tarântula
para compor
o tecido que me faz;
careço lavrar, na seda,
o desenho
que me cria.

Minha voz agora
me faz
me descortina
me lança
me mata
de ventura.

Porque nasci tarântula
nasci para tecer:
segrego a seda
e com ela
teias são tecidas.

Não importa
o indizível:
tanto urdirei
contra ele
que se estiolará.

Minha palavra
ou minha teia:
seda e vazio
que concebo
que me concebem
para além
de meu destino
de inseto.



TACIANA VALENÇA

“A poesia está em mim por toda uma vida. Eu amo poesia, é um carinho para minha alma, uma terapia, um ato de expurgo do que entala, move, mexe e explode em linhas que, de alguma forma, me deixam mais leve e feliz.”



MAR MANSO

Salvaguardar a tranquilidade
no vazio do esquecimento.
Mar manso nas mãos,
dominadas pela ilusão.

Não se anseia no perene,
arco-íris além mar,
distante tão distante
sabe-se lá onde vai dá.

Cinzas jogadas sobre as águas,
delicadamente descansam,
quem sabe sobre estrelas
que às sereias encantam.

E que se ouça seu canto
no baile triste do desencanto,
ecoando aos ouvidos aturdidos,
verdadeiro motivo do mar manso.




  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Natanael Lima Jr, Frederico Spencer e José Luiz Mélo