domingo, 29 de março de 2015


ORÁCULO

por Fernando Farias*

Img: reprodução


Entro apressado no Templo de Apolo, na antiga Grécia, onde há cheiro de rosas e bostas de vacas. Não há sinais de ruínas.

Aproximo-me de um dos altares, Uma chama a arder. A virgem da vestal, uma menina romana vestida de branco, caminha silenciosa, colocando pedrinhas verdes para alimentar o fogo e incensar o ambiente.

Vou até a jovem e pergunto onde posso encontrar o Oráculo. Ela sorriso, muito mais com os olhos do que com os lábios, aponta suavemente que devo seguir por um longo corredor iluminado pelas pequenas tochas que clareiam o mármore branco.

Chego a uma grande sala vazia, cheia de janelões, onde está uma senhora vestida de escarlate, sentada, na posição de lótus, sobre almofadas e, de olhos fechados, com as contas de japa nas mãos, entoando mantras sagrados.

Estranho a mudança do ambiente grego para aquele clima indiano. Ajoelho-me aos seus pés e baixo a cabeça em reverência.

“Que pretendes saber?” pergunta ela abrindo os grandes olhos negros e dando-me um susto.  “Que desejas deste oráculo sagrado?”.

Com a voz tremula, faço as perguntas que me perseguem por toda a vida:

“Quem é Deus? De onde ele veio? Para onde ele vai? Qual o sentido de sua existência?”.

A mulher levanta uma das mãos com a palma virada para mim e diz:
“Aguarde! Iniciando busca!”.

Ela respira e fica em meditação profunda. Em volta passa um elefante decorado com papel dourado.

“A linha está ocupada. Vou tentar novamente!”.

Borboletas amarelas voam em bando pelo teto.

“Sua busca terminou sem sucesso!”.

Escuto tambores e ela para meu desconsolo diz:

“Deus não pode atender. Deus parece estar off-line. Tente outra vez mais tarde”.

Eu, cabisbaixo, volto para casa olhando um arco-íris, refletido nas poças d’água.

Minhas dúvidas permanecem sem saber se Deus gosta da forma que o criamos a nossa imagem e semelhança...
  

*Fernando Farias é escritor e contista pernambucano. Coordena atualmente o projeto “Um escritor na minha escola”, em Jaboatão dos Guararapes.




POEMAS DO DOMINGO

Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria de Lourdes Hortas, Tereza Tenório, Lucila Nogueira e Flavia Suassuna


  
Praia
Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919 – 2004)

Na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços

A praia é lis e longa sob o vento
Saturada de espaços e maresia

E para trás fica o murmúrio
Das ondas enroladas como búzios.



Apassionata
Maria de Lourdes Hortas

De madrugada
andante
o vento
veio 
 assobiando
 para  anunciá-la.

Em surdina
mãos de anjos  abriram
a partitura :
acordes, arpejos
 tilintar de  candelabros.

Nos teclados  de julho
a sonata da chuva:

cascata de cristal
- apassionata.

(inédito, julho/2013)



Geografia da origem
Tereza Tenório

os litorais sonhados pelos pássaros
são os caminhos e fusos da Cidade
a sólida estrutura de calcário
cristais-de-rocha argila ferro mármore.

mais micro-organismos palpitantes
mercuriais nos veios dessas árvores
onde alguém soterrou os alicerces
dos santuários casario e chaves

das águas a afogar fósseis e ossais
repousando as marés ao som das âncoras
nos arrecifes Todos voltam ao cais
adormecido pássaro da sombra



Kamikase*
Lucila Nogueira

a Lourival Holanda


eu não quero entre nós as botas do silêncio
insônia em zigue-zague no café da manhã

você me quer ativa
e eu não sei se estou viva

poesia é kamikase
você me quer suspensa no alto de uma miragem
e eu vou desmoronar

*Do livro Mas não demores tanto, 2011



Décimo sétimo noturno*
Flávia Suassuna

Andaste
não só,
mas desencontrado
(naquele pesadelo
sem porta).

Desdobra
essa aurora
o mapa do teu lar.


*Do livro Trança – primeiro fio, 2013




CONTO DA SEMANA

Algum futebol na sala da família (conto) de Fábio Pacheco*

Foto: reprodução


Pediu à esposa que trouxesse um prato recheado com o amendoim descascado que havia comprado meia hora antes, no mercadinho próximo da sua casa. Estava começando mais um jogo do seu time do coração, pelo Campeonato Brasileiro. Silvinho, seu filho único, que tinha apenas oito anos de idade, estava ao seu lado. Ambos estavam sentados no maior sofá daquela pequena sala de estar. O pai lutava para convencer o menino a mudar o time que torcia, pois era o arqui-inimigo regional do seu. Tal gosto que o moleque recebeu da sua mãe e da sua avó, justamente a “querida” sogra do provedor da família: o Sr. Joaquim. “Hoje eu te convenço a virar a casaca, pirraio!”, disse o pai, dando-lhe um sorriso. O jogo começou, o time entrou com o padrão tradicional. Seu Joaquim beijou a camisa do seu time, que havia vestido para aquela ocasião. Fez questão de fazer isso diante do filho, para induzi-lo a pegar o gosto pelas cores do seu clube querido. O menino riu. O pai não gostou disso.

Transcorreu o primeiro tempo, o time de seu Joaquim não estava jogando bem e fechou os quarenta e cinco minutos perdendo de 1x0. Final do primeiro tempo; o menino riu novamente. “Vou fazer você engolir essa risada no final do jogo, seu moleque.” Começou o segundo tempo. O time do pai da família fez um gol logo no início. Seu Joaquim soltou uma gargalhada maquiavélica e o menino se encolheu como um gato assustado. No entanto, após alguns minutos, o time oponente fez dois gols seguidos e, assim, fechou a partida com 1x3. O pai, com um semblante desconsolado, olhou para o menino e implorou para que ele vestisse a sua camisa tricolor. O menino riu e disse: “Não, papai, nunca vou vestir essa camisa feia e azarenta.” Então, Silvinho saiu correndo para a cozinha, onde a sua mãe estava acabando de fazer o jantar. Seu Joaquim bufou, resmungou e, comendo uns grãos de amendoim, disse: “Sogra rabugenta, foi ela que botou o menino contra mim.”


*Fábio Pacheco é escritor ficcionista, poeta, contista e ensaísta pernambucano. Membro fundador e integrante da diretoria da Associação de Blogs Literários do Nordeste – ABLNE; Membro Correspondente da ABL e editor do blog literário “Alumbramentos – Prosa e Poesia”: http://escritorfabiopacheco.blogspot.com.br/



domingo, 22 de março de 2015


OLEGÁRIO MARIANO – O POETA DA BOA CAUSA

O DCP celebra nesta edição a trajetória de mais um importante escritor brasileiro: Olegário Mariano.



Olegário Mariano foi poeta, político
e diplomata.
Foto: reprodução


Olegário Mariano nasceu em Recife, em 24/03/1889, faleceu na Cidade do Rio de Janeiro em 28/11/1958. Foi poeta, político e diplomata. Membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a Cadeira nº 21. Filho de José Mariano Carneiro da Cunha e Olegária da Costa Gama, ambos, heróis pernambucanos da abolição da escravatura e da implantação da República.

Estreou na literatura aos 22 anos de idade com o livro “Angelus” em 1911. Sua poesia falava de neblinas, cismas e de sofrimentos, perfeitamente identificadas com os preceitos do Simbolismo, já em declínio. Foi conhecido como o “Poeta das Cigarras”, por causa de um dos seus temas prediletos. Foi Deputado e participou da Assembleia Constituinte em 1934 que elaborou a Carta Magna. Foi Ministro plenipotenciário nos Centenários de Portugal em 1940. Foi Embaixador do Brasil em Portugal. Foi delegado da Academia Brasileira de Letras na Conferência Interacadêmica de Lisboa para o Acordo Ortográfico de 1945. Após a morte de Olavo Bilac foi eleito pela crítica como o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”. Sua poesia era lírica com fundo romântico, pertinente à fase do sincretismo Parnasiano-Simbolista de transição para o Modernismo.

Principais Obras: Angelus (1911); Sonetos (1912); Evangelho da sombra e do silêncio (1913); Água corrente (1917); Últimas cigarras (1920); Castelos na areia (1920); Castelos na areia (1922); Cidade maravilhosa (1923); Bataclan (1927); Canto da minha terra (1931); Destino (1931); Enamorado da vida (1937); Poemas de amor e da saudade (1932); Cantigas de encurtar caminhos (1949); Toda uma vida de poesia (1957).
  
Os editores


Dois poemas de Olegário Mariano


Castelos na areia*

— Que iluminura é aquela, fugidia,
Que o poente à beira-mar beija e incendeia?
— É apenas a criação da fantasia: —
São castelos na areia.

Andam, tontas de sol, brincando as crianças
Como abelhas que voaram da colmeia.
Erguem torreões fictícios de esperanças...
São castelos na areia.

Ao canto de um jardim adormecido:
"Por que não crês no afeto que me enleia?
E as palavras que eu disse ao teu ouvido?"
— São castelos na areia.

E o tempo vai tecendo, da desgraça,
Na roca do destino, a eterna teia.
— "E os beijos que trocamos?" — Tudo passa,
São castelos na areia.

Coração! Por que bates com ansiedade?
Que dor é a grande dor que te golpeia?
Ouve as palavras da Fatalidade:
Ventura, Amor, Sonho, Felicidade,
São castelos na areia.

*Do livro Castelos na areia (1922)


Paganismo*

Sinto às vezes horror do modo diferente
Com que em louca emoção voluptuoso te espio,
Meu suave amor que tens a figura inocente
De um lírio muito branco, um lírio muito frio.

Ao meu olfato chega o perfume doentio
Do teu corpo mudado em corpo de serpente:
E através desse aspecto anêmico e sombrio
Meu desejo passeia alucinadamente.

Fauno, os olhos boiando em volúpias bizarras,
Quem me dera que tu viesses, na noite escura,
Minha fronte adornar de crótons e de parras,

E na calma do bosque onde o meu sonho medra,
Unisses para sempre, entre o amor e a loucura,
Os teus lábios de sangue aos meus lábios de pedra.


*Do livro Angelus (1911)




CONTO DO DOMINGO

Coceira no ouvido (conto) de Paulo Caldas
  
Escritor Paulo Caldas
Foto: reprodução

  

Pressentia quando a coisa começava a se manifestar. Coceira no corpo provocada pelo crescimento repentino dos pelos, o olfato aguçado, visão meio embaçada e excesso de saliva, até babava. Enquanto se mantinha consciente sentia-se apavorado, suado, tremia e optava pela solução de sempre: correr para mata.

A lua cheia, parceira fiel, cedia uma luz esmaecida sobre o seu corpo, ele agradecia com habituais uivos. Em seguida, perambulava pela vila, podo em fuga quem se atrevia a andar nas ruas nessas horas. Só uma pessoa o compreendia, seu sobrinho Beto da Globo.

Beto atirava ao longe um chinelo para que fosse buscá-lo e trazer de volta preso aos dentes. Depois, jogava um graveto e ele repetia a proeza com os olhos brilhantes e os caninos à mostra.

Passados esses momentos, retomada à lucidez, era o sobrinho que o acolhia ao mundo dos racionais.
E aí, cometi alguma doidiça?
Muito não. Botasse pra correr o filho do padeiro, que passava numa bicicleta, e desse um susto grande em duas raparigas que rodavam a bolsinha no posto de gasolina.
Ainda bem.
Mas teve uma novidade.
E o que foi?
Uma das vezes que joguei o chinelo pra você ir buscar, ouvi uns soluços e seu vômito sujou a reata, a sola e a palmilha.
Que merda. Mas agora já sei.
Sabe o quê?
Não como mais angu e buchada em noite de lua cheia.



  • a literatura em sua rede

    ano III


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima