domingo, 5 de agosto de 2018


ENTREVISTA COM EDUARDO CÔRTES, CURADOR DA FLIPORTO/2018


5 de agosto de 2018 by Natanael Lima Jr.*


Eduardo Côrtes nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 1949. Formado em Engenharia Civil, especialidade em Transportes Urbanos, trabalhou no Metrô-SP e Metrorec. Foi diretor geral do DER-PE. Aposentado em 2003, passou a fazer produção cultural. Criou a Fliporto em 2005 e o JazzPorto em 2007, além de participar de vários outros eventos de música, literatura, cinema, gastronomia, etc. Recebeu o “Título de Cidadão de Pernambuco” da Assembleia Legislativa PE em 2016.



Eduardo Côrtes, curador da 12ª Fliporto/
Foto: Divulgação



“A temática do contemporâneo é muito relevante e nosso objetivo na programação é dialogar sobre alguns temas do presente. Assim a internet, o empoderamento feminino, a ecologia, o problema das grandes cidades, entre muitos outros”.


O curador da Festa Literária Internacional de Pernambuco – Fliporto, Eduardo Côrtes concede entrevista exclusiva ao editor-fundador do site DCP, Natanael Lima Jr e fala sobre o retorno da Fliporto a Porto de Galinhas, as principais novidades do Congresso Literário, sobre o grande homenageado da Fliporto/2018, entre outros assuntos. Leia na íntegra abaixo a entrevista.


DCP – Depois de seis anos sediada em Olinda (PE), a Fliporto retorna a ser realizada em Porto de Galinhas, Ipojuca (PE). Qual a razão desse retorno?

EC - A Fliporto nasceu em Porto de Galinhas, onde fizemos cinco edições, de 2005 a 2009. Depois migramos para Olinda onde fizemos mais seis edições. Então nada mais natural essa volta ao famoso balneário, que há muito clamava por nosso retorno.

DCP – Quais as principais novidades nesta 12ª edição da festa?

EC - A principal novidade é o retorno festivo da Fliporto para o balneário. Quanto à programação, enxugamos sem perder a qualidade. Uma novidade para os jovens é a Fliporto Geek, muito atual. Outras atrações são a “Chuva de Livros” e o “Arrastão Poético”.

DCP – O poeta Marcus Accioly será o grande homenageado da Fliporto, qual a importância dessa homenagem?

EC - Marcus Accioly foi um dos escritores que mais estiveram presentes na Fliporto. Convidado, sempre aceitava e nos brindava com sua magnífica poesia e com declamações que só ele sabia fazer. A homenagem é justa por isso e por sua bela obra literária como um todo.

DCP – A 12ª edição da Fliporto debaterá o tema “Diálogos Contemporâneos”, qual o objetivo em trazer essa temática?

EC - A temática do contemporâneo é muito relevante e nosso objetivo na programação é dialogar sobre alguns temas do presente. Assim a internet, o empoderamento feminino, a ecologia, o problema das grandes cidades, entre muitos outros. Sempre dialogando com a literatura.

DCP – Quais os nomes já confirmados que participarão da programação literária?

EC – Em breve divulgaremos a programação completa numa coletiva à imprensa. Mas vou adiantar alguns nomes de destaque como o paulista mais carioca que conheço, Nelson Motta, o poeta, cantor e compositor ipojucano Nando Cordel e o mais premiado escritor pernambucano vivo, Raimundo Carrero, comemorando seus 70 anos e autografando sua tetralogia que vem lançando em todo Brasil.



A 12ª edição promete ser histórica, de volta ao berço da festa, Porto de Galinhas, de 10 a 12 de agosto/2018

*Mais informações acesse o site: www.fliporto.com.br














*Natanael Lima Jr é pedagogo, poeta e editor-fundador do site ‘DCP’




OS SONETOS NA POÉTICA DE ALBERTO DA CUNHA MÉLO



5 de agosto de 2018 by José Luiz Melo*




Alberto da Cunha Melo/Foto: Assis Lima



Diz-se que Alberto da Cunha Mélo desdenhava os sonetos que tinha escrito, como obra menor em sua monumental poesia. Uma ocasião, no Instituto Histórico do Jaboatão, quando nosso eterno Raimundo Carrero esteve presente para uma discussão sobre a Geração 65, dei meu testemunho sobre os sonetos que Alberto escreveu, sobre a beleza surpreendente dos seus versos que incandesce quem os lê.

Hoje, quando palmilho, persigo os signos do majestoso POESIA COMPLETA, do poeta, que somente o zelo o amor de Cláudia foi capaz de reunir, encontro em sua parte IV, GARIMPOS, sob o subtítulo, NASCENTES, na página 917, o belíssimo soneto “REVISTA IV” com a seguinte anotação de pé de página pela organizadora: “Original com rasuras e anotações do poeta, posteriormente publicado no Diario de Pernambuco, Domingo 12 de março de 1967”, portanto, quando a obra de Alberto já era reverenciada por todos, o que faz ver, também, que o mesmo reconhecia e não desdenhava os seus sonetos.

Diferente de Jaci Bezerra, que inaugurou a apresentação de sua poesia, nas páginas do mesmo DP, em 1966, com a publicação da sua surpreendente “COROA DE SONETOS”, que nos deixou a todos estarrecidos pela beleza de sua poesia; Alberto, ao publicar primeiras vezes no DP, já tinha feito sua “DECLARAÇÃO DE BENS”, nos versos de oito sílabas poéticas: ”Todavia, meu octossílabo,/ meu oitavo amor é o talho/ da foice no rosto da angústia,/a sílaba mais forte e funda./

Naquela época, 1966, tínhamos os três cerca de 24 anos, Jaci o mais moço entre nós.

Minha convivência com Alberto, estreita, próxima, íntima, nas madrugadas da cidade de Jaboatão, com a voz melodiosa do nosso menestrel Raul Gadelha, de saudosíssima lembrança, cortejando as estrelas; no recesso da sala onde éramos acolhidos pelo seu pai, Professor Benedito e brindados com o cafezinho fumegante de Dona Zézé, remonta nossos primeiros passos na poesia, quando nos fatigávamos a ouvir os poetas da Cidade declamando no Bar Redondo, o ponto de encontro, onde nós um dia almejávamos partilhar àquele Olimpo.

Então 15, 17, 18 anos de juventude, e com eles os primeiros e mais transbordantes amores que se mimetizavam nos primeiros versos, logo depois, nos primeiros sonetos.

Lembro bem, a paixão juvenil de Alberto, — Eugenia (Geninha), menina/moça, delgada e bela, estudante ginasial, nuvem fugidia, filha de família abastada que morava no bairro próximo da Estância e não concebia sua prenda namorando um poeta.

Desta época, colho estes dois sonetos, ímpares em sua densidade lírica que apenas um poeta como Alberto, em seus verdes anos, pôde conceber.


POESIA COMPLETA, EDITORA RECORD, ALBERTO DA CUNHA MÉLO.
  
FOI ASSIM*

Eu disse apenas que você mentia,
que mentia ao dizer que me adorava,
e só disse, meu bem, porque queria
medir o coração que me ofertava.

Subestimando o amor que recebia,
sem saber, este amor eu afastava,
e querendo aumentá-lo, num só dia,
num segundo, talvez, ele acabava...

Tive culpa do fim, mas, certamente,
a lição que me deu a mocidade,
servirá neste mundo a muita gente:

Dois corações que se amam de verdade
podem juntos amar-se intensamente,
mas não amam com a mesma intensidade!

*Jornal “Dia Virá”, número 14, Jaboatão 12 de maio de 1963.

DESENLACE*

Se levaste o sentido dos meus dias,
tu levaste, meu bem, o que fizeste.
Se minha alma ficou de mãos vazias
teve nas mãos somente o que puseste.

Se levaste os meus sonhos e alegrias
tu levaste, meu bem, o que me deste.
Eu nada tinha dessas fantasias
que ingenuamente um pobre amor nos veste.

Como bem vês, em nada fui roubado,
volto a ser o que fui no meu passado,
encontrei-me de novo, desta vez.

Continuo a viver sem esperanças...
continuas a rir como as crianças...
— Só se possui aquilo que se fez!

*Jornal “Dia Virá”. Número 12, Jaboatão 10 de março de 1963.

CERTO SERTÃO*


Quando a chuva vier, verás repletos
os buracos que tens nas tuas mãos
e só assim não mais, os teus insetos
se enforcam nas roseiras do sertão.

Esconde no teu corpo os indiscretos,
os caprinos anelos da evasão:
quando a chuva vier, verás quietos
e inúteis todos eles na estação.

Limpa dos homens, da semente, a cova
que um deus menor cavou disposta em cruz,
e aproveita da terra à luz nova,

Seus olhinhos de mato, seus umbus:
— que não demora o espaço que renova
seu orvalho, seu Pan, seus urubus.


*Republicado na edição especial “Geração 65, 50 anos”, da Revista do Instituto Histórico do Jaboatão, 6 de outubro de 2015.
















*José Luiz Melo é poeta e editor do DCP













AGOSTO DE LITERATURA



5 de agosto de 2018 by Frederico Spencer*


Agosto é o mês de nascimento de dois grandes poetas pernambucanos: Joaquim Cardozo, nascido em Recife em 26/08/1897 e Mauro Mota que nasceu em Nazaré da Mata na data de 16/08/1911. 



Joaquim Maria Moreira Cardozo


Poeta Joaquim Cardozo/Foto: Divulgação


Joaquim Cardozo teve como profissão a engenharia civil, dedicou-se também à poesia, foi contista, tradutor, crítico de arte, desenhista, professor universitário e também editor de revistas especializadas em arte e arquitetura.

Incentivado pelo poeta João Cabral de Melo Neto seu livro “Poemas” foi editado em 1947, o qual alcançou grande destaque na época, além deste, publicou mais 10 livros. Ocupou a cadeira 39 da Academia Pernambucana de Letras. Sua poética está encharcada pelas paisagens do Recife e do nordeste brasileiro, temas que se fixaram como natureza complexa que se mesclaram  entre a beleza natural destas regiões e a contradição da miséria social, encravada na alma do poeta.



Menina

Os teus olhos de água,
Olhos frios e longos,
Esta noite penetraram.
Esta noite me envolveram.

Bem querida madrugada...

Olhos de sombra, olhos de tarde
Trazem miragens de meninas...
Bundas que parecem rosas.

Sob o caminho de muitas luas
O teu corpo floresceu.


Poema

Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
Eu deixarei intato o teu ser a tua pessoa inviolável
Eu quero apenas uma parte neste prazer
A parte que não te pertence.



Mauro Ramos da Mota e Albuquerque



Poeta Joaquim Cardozo/Foto: Divulgação


Mauro Mota foi poeta, jornalista, cronista e professor. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a Cadeira nº 26. Dedicou-se sobretudo ao ensino, à literatura e ao jornalismo. Foi professor de história e geografia em vários colégios pernambucanos, entre eles a Escola Normal, na qual conquistou a cátedra com a tese “O Cajueiro Nordestino”.

Sua contribuição literária foi das mais importantes, tanto para a prosa como para o verso. Publicou "A Tecelã", "Os Epitáfios" e "O Galo e o Catavento". Em prosa destacam-se "Geografia Literária" e "Paisagem das Secas".

Recebeu vários prêmios literários: o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. Prêmio da Academia Pernambucana de Letras por seu poema Elegias, o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro e o Prêmio Pen Clube do Brasil pelo livro “Itinerário”.

Mauro Mota passou grande parte de sua infância na cidade de Nazaré da Mata, esta passagem de sua vida carregou sua poética de valores – as contradições de uma cultura canavieira, prestes à mudanças severas, estas questões enriqueceram sua visão de homem preocupado com as condições social e econômica de sua gente.


O Guarda-Chuva

Meses e meses recolhida e murcha,
sai de casa, liberta-se da estufa,
a flor guardada (o guarda-chuva). Agora,
cresce na mão pluvial, cresce. Na rua,
sustento o caule de uma grande rosa
negra, que se abre sobre mim na chuva.


Mudança

Não ficaram na mudança nem o pé de sabugueiro e o cheiro dos cajás,
os passos da mãe no corredor, a noite,
o medo do papa-figo, as sombras na parede.
A casa inverte a missão domiciliar, sai da rua.
A casa agora mora no antigo habitante.














*Frederico Spencer é sociólogo, poeta, contista e editor do DCP






AS VIAGENS GERAIS DE CELINA DE HOLANDA



5 de agosto de 2018 by Maria de Lourdes Hortas*




Celina de Holanda/Foto: Divulgação



Desde O Espelho e a Rosa (estreia,1970), até Afago e Faca ( inédito por vários anos e agora publicado na coletânea Viagens Gerais), a obra de Celina de Holanda vem se construindo sobre as premissas que lhe deram origem: a luz e a sombra, o jardim e o interior, o consciente e o inconsciente, a intuição e o conhecimento. Por outras palavras: sobre o universo mágico do Engenho Pantorra, onde viveu a infância, entre as histórias dos pretos velhos e os livros da biblioteca sempre atualizada da casa:

Chego às janelas da noite
Meus olhos buscam o que era (...)

O poema que serve de pórtico ao livro não poderia ter sido melhor escolhido, espécie de mapa que, à partida,, desvela ao leitor as gerais intenções das viagens:

Viajo pelos livros que faço
Mas sempre torno
Para escrevê-los
Onde a vida é uma menina
Chorando
Entre moitas.

A afirmativa da autora leva-nos a concluir que, para ela, o ato de escrever , mais do que um mecanismo lírico de regresso ás origens e ao antigo cenário bucólico, é a própria forma de subverter os limites cronológicos, recriação do antigo cenário bucólico (…) onde havia as águas caindo/ na rampa da cachoeira /parecendo lençol branco/ por entre espumas fugindo (...) passando rente na mata/ onde gritava o pavão (...) pág.95.

Nesse alumbramento das águas despencando em vertigem, abismo de espuma fugitiva, a poesia a tocou, escolhendo-a para a sina de dizer os sentimentos. Na verdade, a poesia chegou à vida de Celina com a naturalidade com que, pela manhã, chegavam os pássaros às varandas da casa da infância. Varandas que, de resto, também se abriam para o poço fundo das suas inquietações:

Um espelho e seus dois lados
Réptil e pássaro
O que somos. (...)
Para onde essas rotas de voo
Se abrem e se apagam?

Dessa vivencia e convivência telúrica com a zona da mata pernambucana, chão de barro plasmável onde moldou seus versos, ficou-lhe o gosto pelo simples e essencial:

Que tudo em si lembrava
Madressilvas
Malvas cheirosas
Verdes moitas
Manhãs
Frescor e orvalho.

Luminosa, com o despojamento e a grandeza das pequenas coisas, a poesia de Celina de Holanda brota com a naturalidade das fontes - espontaneidade que não é fácil alcançar. Um poeta espontâneo português, Manuel da Fonseca, confessa: ”Ser espontâneo dá-me muito trabalho”. Isso porque, a simplicidade do texto poético não se confunde com pobreza ou acaso. Na leitura desta recolha da obra de Celina, percebe-se que ela conseguiu harmonizar a sensibilidade e a percepção com um sexto sentido estético, equipamentos que, mesmo fazendo parte da bagagem genética do poeta, só se aprimoram com leitura e exercício da escrita, somados aos sábios filtros da vivencia e do tempo.

Quanto à temática da sua poesia, o título de um dos seus últimos livros já referido – Afago e Faca – é metáfora e síntese. Sem dúvida, a trajetória da poetisa tem se firmado sobre essas duas bem definidas vertentes. Solidários,

o tema social ( faca) e o tema afetivo (afago) se entrecruzam continuamente. Sem conseguir compactuar com a injustiça social, ou com o desconforto emocional diante de contextos que agridem os seus princípios cristãos, Celina toma a palavra, com energia e veemência:

Ouço o povo numeroso de Deus.
(...) Ouço as portas.
É o clamor do povo de Deus, abrindo-as. (pág.190)

Todavia, a meu ver, a grande força da sua poesia acontece nos poemas de tom elegíaco, onde cresce, se dilata e universaliza:

Tudo já aconteceu. Coloca a insígnia
(primado do sinal) sobre o meu peito
E um penso de amor sobre esta chaga.
Escuta o pássaro
Rolando
Como um jornal velho, rasgado,
A asa da ascensão cortada. Sua beleza
Guardarei sobre o meu corpo
Como um fruto
A que se tira a casca.
Mas
Dá-me um pouco da tarde onde ficamos.


Resenha sobre Viagens Gerais, Celina de Holanda/ poesia/Fundarpe/Cepe, Recife, 1995, publicada no jornal literário O PÃO, Fortaleza/Ceará, junho,1996)








*Maria de Lourdes Hortas é poeta, escritora, ensaísta e artista plástica. 





domingo, 15 de julho de 2018


III SARAU VIRTUAL




PARTICIPAÇÕES

FLORA FIGUEIREDO, LAÍS RIBEIRO, MÁRCIA MARACAJÁ, RAIMUNDO DE MORAES E VALMIR JORDÃO




FLORA FIGUEIREDO (SP)*












“A poesia é minha reserva ecológica, onde me adentro e respiro fundo. Procuro dividir esse ar puro com quem me lê. Tenho a sensação de que cada vez que um poeta planta um poema, ele revigora o planeta. Talvez seja um mero sonho, mas como não sonhar?”


BORBULHANTE
  
Guardei meu poema dentro de uma bolha de sabão.
Como não ficar seduzida
pela circunferência lisa e transparente,
onde o arco-íris passeia docemente
e morre de amores pela espuma colorida?

Acomodado na nova moradia,
o poema suspirou e adormeceu.
Quando acordou, já não mais me pertencia.

A bolha de sabão se deslocara
e o poema apaixonado que eu criara
descobriu, de repente, que era teu.


*Flora Figueiredo é natural de São Paulo. Poeta, cronista, tradutora e  compositora. Foi vice-presidente da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, membro da Women Association of Journalists and Writers, correspondente do Centre International d´Études Poétiques, na Bélgica, de cujo acervo constam suas obras. Durante três anos foi responsável pela última página da Revista Cláudia. Finalista do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Poesia, é membro da União Brasileira de escritores (UBE). A autora publicou as obras poéticas: Florescência (também lançado em Portugal), Limão Rosa, Amor a Céu Aberto, Estações, O Trem que Traz a Noite, Chão de Vento e participou de várias Antologias. Seus livros foram adotados pelas redes públicas de ensino. Tem trabalhos nas áreas publicitária e musical, com parceiros como Ivan Lins, Natan Marques, maestro Aylton Escobar e vários outros.




LAÍS RIBEIRO (PE)













“Poesia é fecundar o lirismo que transcende os limites lógicos da alma. É olhar, é sentir, é ser em versos, é estar em cadência e existir na verticalidade sentimental das personas que me compõe. Ela é para mim assim como sou para vida; existência. Somos um só organismo e fomos paridas pelo mesmo nó umbilical; vida.”


DISTOPIA

Pátria desolada
Quantos dos teus homens
Hoje são lágrimas?
Esperança sufocada
Queima os olhos
Nação roubada
Liderada pela desordem
E desgraça...

Patriotas monarcas
Quanto ópio...
Partidos democratas
Governam oligarquias
Ironias? Não, mandatos!
Democracia?
Escancara o verbo
No tribunal lotado
Sanguessugas
Pleiteia votos
Dizendo sim
Nonato estado
Governar...

A gente fica de plateia
Vendo o espetáculo
Dos reis que sabem
Roubar...
Votar é fácil
Difícil é aprender
As escolhas mudar 



MÁRCIA MARACAJÁ (PE)















“Um estado de espírito. Um desdobramento. Uma vazão. 
Uma cura. Uma luz. Um achamento. 
Epifania. Estranhamento. 
Ponto de mutação.”



BRADO SILVÍCOLA


(...)

Cuidado com a Literatura

que não está nos livros

com os artistas que não vão

para a televisão

e que não servem a um patrão

  
Cuidado com os poetas loucos

Cuidado com os gritos!

Com os famintos e os inquietos!

Com as degradadas

As PUTAS

As libertadas

E os amores invisibilizados


Cuidado, vocês,

que ainda não acordaram

para o sonho da insensatez

para a combustão do pensamento

Acelerado

Inquieto

Utópico

Manifesto

Marginal

Plural

Anárquico?!

Revolucionário?!


Avesso deste mundo paralelo

Em que os cegos se refestelam

Em meio a esta ilusão!!!


ONDE ÁRVORES SAGRADAS SÃO ARRANCADAS!!!

ONDE MONSTROS DE CONCRETO SÃO REVERÊNCIAS!!!

ONDE OS RIOS SÃO ATERRADOS

E A TERRA É LAVADA EM SANGUE

NEGRO!

BRANCO!

ÍNDIO!

Banhada em indecências


Onde os suicídios prosperam!

Onde o povo é apagado!

Onde a história é silenciada!

Onde a beleza existe pra turista ver...


VER O QUÊ?!

EU TE DIGO!

EU TE GRITO !!!



Ver o sinal da cruz

E ouvir a oração

A um Deus que nada pode fazer

Da ganância e egoísmo desses homens

Dessas mulheres

Que fecham os olhos antes mesmo de morrer!

Mortos-vivos!!!

E o zumbi herói, dele o que se há de fazer?!

  
A resistência de seu povo se perde

No cinturão da pobreza que engrossa

Na canção e embalo de sua glória que não se dança

Que não se sabe

Que não se lembra

  
Louvamos a quem?!

Se à natureza não devotamos amparo

Se não clamamos todo o nosso legado?


Eu sou as árvores assassinadas!

Eu sou as putas apagadas!

Eu sou as meninas estupradas!

Sou sangue negro, branco, índio!

Eu sou corpo, voz e espírito!

(...)


SOU A TERRA ONDE PISAM OS MEUS PÉS

O HORIZONTE ONDE MEUS OLHOS PODEM ALCANÇAR

EU SOU A VOZ QUE ME GRITA OUTROS GRITOS



E SOU TODO ESTE BRADO SILVÍCOLA!!!


*Poema editado. Parte do texto acima foi performatizado na 3ª Mostra PE da Produtora Nós Pós, entrando na Chegança Poética do Literânima, compondo a programação da Praça da Palavra no Festival de Inverno de Garanhuns (PE), ano 2014.



RAIMUNDO DE MORAES (PE)













“Usando as palavras do poeta mexicano Octavio Paz: A poesia revela este mundo: cria outro. A poesia é uma leitura do mundo real e uma criação de um outro mundo, cuja descoberta ocorre na interação texto/leitor/contexto.”



SEMENTE*

As nêsperas na mesa
         abrem-se fartas
de carne e suco
         E o violento temporal
vai dedilhar os poros
         revolver pedras
enxaguar
                                       raízes e vermes
afogar


        Teu fruto
(eu lembro) desfibrava fácil
         e a carne vinha mole entre os dentes
As enxurradas vieram
         como baladas rápidas de ávidos curumins
E os pássaros vieram sujos
         de Bering ou Marrakesh
As águas chegaram. Outra vez, perenes
         levando retratos, remexendo sulcos de discos esquecidos
evolando perfumes suaves de roupas e camas

          
          Ah por que entre os verões o manancial da tua boca?
          Por que esses perfis de narizes e lábios
          entre o abandono de girassóis que já não buscam mais?
          Por que a frase que tu queres e que não está em mim?


Pássaros e chuvas vão e vêm
          e redesenharão fantásticos infinitos
enquanto for grande a imaginação da Esperança
          Enquanto não pousarem no único fio retesado e melódico
E as fibras desse Verão venham entre os dentes
          como reescrevessem c o n t r a p o n t o s
de melodias e réquiens

*Poema do livro Tríade (Facform/Funcultura, 2010)
Prêmio Carlos Drummond de Andrade Sesc-DF, seleção 2008



VALMIR JORDÃO (PE)













“A poesia representa para mim, a beleza,
o respirar a vida na sua plenitude,
o senso crítico e a possibilidade de registrar
o cotidiano sem participar dos beija mãos dos sátrapas
e da vassalagem tão antiga e em voga nos dias atuais.
A poesia é a alma que permeia os sonhos, as aspirações
e as inquietudes do sentir-se humano, demasiadamente humano.”


em minha vida passa um rio


o dossel do rio se rompeu: as derradeiras baronesas
desprendem-se das úmidas entranhas dos barrancos.
precavidas, as ninfas já partiram.
doce Capibaribe, corre suave, até que meu termine.
o rio não suporta garrafas vazias,restos de comida,
lenços de seda, caixas de papelão, pontas de cigarros
e diferentes bugigangas em seu dorso,
e outros testemunhos das noites insones.
os ociosos herdeiros dos magnatas municipais,
partiram sem deixar vestígios.
às margens do Capiberibe sentei e lá chorei.
doce Capibaribe, corre suave, pois falarei
baixinho e quase nada te direi.
atrás de mim, porém numa rajada fria escuto
o insistente chocalhar de ossos na Cruz do Patrão,
e um riso ressequido tangencia o rio.
os lúgubres murmúrios da Emparedada da Rua Nova
ecoam no vento cruzando a terra estiolada.

o rumor das buzinas e motores não trarão
a rebeldia da Praieira, nem a libertária Confederação do Equador.
oh! cidade indomável. as vezes posso ouvir
em qualquer bar da Mamede Simões,
o álacre lamento de um bandolim,
e a algazarra que farfalha em bocas tagarelas.
o rio poreja vinhoto e poluição,
as barcaças derivam ao sabor das marés
onde os desportistas ao remo exercitam-se
sob os arcos das belas e infindáveis pontes.
e sua correnteza serpenteia a cidade
a convidar para o eterno renascimento.
rio das Capivaras, corre suave
até que meu canto termine.
cão sem plumas , pássaro fênix
a prolongar o nosso desencanto e alumbramento...




  • a literatura em sua rede

    7 anos

    desde 2011


Editores: Natanael Lima Jr, Frederico Spencer e José Luiz Mélo