domingo, 23 de novembro de 2014

ESTÃO TODOS CEGOS OU DORMINDO*

por Raimundo Carrero

O romance de Fernando Monteiro realiza uma grande metáfora irônica

Fernando Monteiro
Foto: Divulgação

Uma metáfora que ironiza os escritores contemporâneos ou uma advertência severa e firme. Esta parece ser a advertência mais imediata do romance O livro de Corintha, do escritor Fernando Monteiro, vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura e publicado agora pela Cepe – Companhia Editora de Pernambuco -, escrito com um grande apuro técnico, com habilidade na criação de cenas e de cenários, além de cuidadosa elaboração de personagens. Basta lembrar que o nome Corintha é a metáfora do desenvolvimento das artes porque a região de Corinto representou o florescimento de áreas artísticas na Antiguidade e cujo povo deu nome aos Coríntios a quem São Paulo dirige cartas exemplares, conforme está na Bíblia. Tudo em oposição a Methódio, o escritor acadêmico metódico, meticuloso, gentil, de quem se espera uma obra conservadora e burocrática. Está aí a metáfora mais imediata de Fernando Monteiro. Se continuarmos com nossa literatura conservadora, emotiva e espontânea, estamos condenados a desaparecer. Os que estão dormindo ainda podem acordar, e os cegos continuarão cegos pelo resto da vida.

Assim é que o escritor chama a atenção para o fato de que a literatura é feita pelo cérebro e não pelo talento, vocação, inspiração ou intuito. É preciso investir na elaboração, no artesanato e na reflexão para construir uma obra capaz de atingir o leitor na sensibilidade e na estética. No campo da arte a emoção é estética porque o compromisso da literatura é com a beleza e não com a frivolidade de beijos e abraços. Isso é coisa para novela de TV. Pertence ao campo da diversão, do entretenimento, do passatempo. Parece verdadeiro que este é o compromisso do Livro de Corintha. Se é que a literatura tem algum compromisso, até mesmo com a beleza.

A palavra compromisso chama a atenção, em certo sentido, para o conteúdo, e o conteúdo não faz parte da literatura. Um dos motivos de preocupação com o regionalismo é justo fato de que o regionalismo é conteudístico, com destaque para a sociologia e a antropologia. Ou seja, a literatura deveria voltar-se para os costumes, um jeito de andar, um jeito de vestir, um jeito de viver, tudo com pouco ou nenhum compromisso com a estética, com o grau de beleza que deve ter, obrigatoriamente, toda obra de arte. É elementar.

Fernando Monteiro não é apenas um romancista por vocação. É um romancista porque estuda e aprende, porque tem uma visão mais ampla da literatura e das suas inúmeras vertentes. Daí porque estamos seguros de este Livro de Corintha é muito mais do que um romance. É um desses livros antecipadores, que nos jogam para o Alto e para o Belo, para a maravilha da arte, para o compromisso com a Beleza. Com a vantagem de que é um livro de leitura agradável, já não digo de leitura fácil como se costuma dizer por aí, mas um livro prazeroso pela linguagem, pela montagem, pelo desenvolvimento, pelos personagens.

Grandes autores usaram o enredo como elemento de sedução do leitor, mas o enredo funciona como uma espécie de rima no poema, engana e diverte mas não transforma o poema em obra de arte. Por isso é que Autran Dourado, um dos teóricos de maior importância, dizia que o enredo engana enquanto o autor rouba a carteira do leitor. No livro de Fernando, o autor significa dizer que em primeiro plano está a condição humana com seus conflitos e suas crises -, o que significa dizer que a Arte é o elemento superior que provoca a alma. Mas não lirismo e romantismo como é feito entre nós, mas com equilíbrio e competência.

O equilíbrio estético, afinal, é o que move a obra de arte desde Aristóteles. Só para não deixar de falar nele. Para o grego, a beleza é o resultado dos elementos internos em equilíbrio, embora o nosso tempo goste muito de desequilíbrio e desarmonias. No mais, Kant resolveu equacionar o assunto.

De propósito falei rápido em enredo porque enredo é coisa de passatempo, de diversão, de divertimento. Quem aposta em enredos lê E o vento levou ou acompanha novelas televisivas, que são fartamente oferecidas. Aqui temos diante de nós um romance que se lê com a certeza de que o autor conhece e domina a intimidade da narrativa. Na companhia de Corintha e de Methódio podemos descobrir os movimentos que levam, com certeza, à Grande Arte.


*Publicado no Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, nº 99 – Maio 2014 – www.suplementopernambuco.com.br



A POESIA REGIONAL DE MAURO MOTA

Mauro Mota era chamado pelo
sociólogo Gilberto Freyre de
“poeta poetíssimo”

O Domingo com Poesia faz mais uma homenagem a um importante poeta pernambucano, desta feita a Mauro Mota. Poeta, jornalista, professor, contista e memorialista, falecido em 22 de novembro de 1984, aos 73 anos de idade. Membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Pernambucana de Letras, vencedor de vários prêmios como: Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, foi premiado pela Academia Pernambucana de Letras por suas Elegias (1952), além dos Prêmios Jabuti e Pen Clube do Brasil (1975) ambos com o livro Itinerário.

Mauro Mota nasceu na cidade de Nazaré da Mata, em 16 de agosto de 1911. Passou a residir em Recife onde estudou e formou-se em direito. Como jornalista foi secretário e redator-chefe do Diário da Manhã. Trabalhou no Diário de Pernambuco, chegando ao cargo de diretor, em 1956. Dedicou-se ao suplemento literário, abrindo caminho para as novas gerações.

Foi também superintendente do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, entre 1956 e 1970. Foi também diretor do Departamento de Documentação e Cultura da Cidade do Recife e do Arquivo Público Estadual de Pernambuco, de 1972 a 1984.

Como poeta, destaca-se por suas Elegias, publicadas em 1952. Nessa obra figura também o "Boletim sentimental da guerra do Recife", um dos seus poemas mais conhecidos. Sua poesia é de fundo simbólico, versando sobre temas nordestinos, retratando dramas do cotidiano em linguagem natural e espontânea.

Os editores



Três poemas de Mauro Mota


O Guarda-Chuva

Meses e meses recolhida e murcha,
sai de casa, liberta-se da estufa,
a flor guardada (o guarda-chuva). Agora,
cresce na mão pluvial, cresce. Na rua,
sustento o caule de uma grande rosa
negra, que se abre sobre mim na chuva.


Mudança

Não ficaram na mudança nem o pé de sabugueiro e o cheiro dos cajás,
os passos da mãe no corredor, a noite,
o medo do papa-figo, as sombras na parede.
A casa inverte a missão domiciliar, sai da rua.
A casa agora mora no antigo habitante.


A Chuva Cai Sobre o Recife

A chuva cai sobre o Recife devagar,
banha o Recife, apaga a lua, lava a noite, molha o rio,
e a madrugada neste bar.
A chuva cai sobre o Recife devagar.
A chuva cai sobre o telhado das casinhas de subúrbio,
canta berceuses a doce chuva. É a voz das mães
que estão no canto de onde a chuva agora veio.
A chuva cai, desce das torres das igrejas do Recife,
corre nas ruas, e nestas ruas, ainda há pouco tão vazias,
agora passam, de capote, transeuntes
do tempo longe, esses fantasmas de mãos frias.




FRAGMENTOS DO DIÁRIO DIAGONAL DE VALDIR OLIVEIRA

Capa: Divulgação

FRAGMENTO 1
O que conto a partir de agora não é fato que ocorra ou tenha ocorrido com algum estranho ao meu convívio. Mas trata-se de uma pessoa estranha nos gestos e atitudes, assim percebida por alguém que a considera fundamental no processo de compreensão do sentimento humano.  Falo de mim mesmo na perspectiva de uma dualidade: eu e Dario, esse ser solúvel, que tenho que conduzir ao longo da minha vida e que às vezes me decepciona, mas também me surpreende. Em alguns momentos é torpe, noutros é uma fonte de pureza, de bondade, de luta, e, acima de tudo, de contradições e anseios.

FRAGMENTO 2
Dario, essa pessoa de quem falo é um ser de carne e osso e eu, apenas a voz silenciosa do personagem que me tem como par e, em algumas circunstâncias, cúmplice de seus atos. Ainda que, por vezes, a minha verdade fosse ou seja dizer não, como não me cabe julgar a dicotomia do meu ser, então apenas escrevo este texto, a partir do meu diário, em um relato que me parece imparcial. Parece.

FRAGMENTO 3
Eu não tenho resposta para qualquer questionamento sobre meus desejos. Aliás, não se trata de desejo. Necessito da proteção de uma bolha, de um vácuo entre mim e qualquer homem ou mulher que habite este planeta. Cheguei ao limite. Já não suporto a ilusão, ela imbeciliza o ser. Não tenho resposta para o sorriso que camufla o veneno dos incautos. Não tenho palavras para responder aos que apenas provocam com suas indagações.  Não tenho mais suor ou sangue para derramar pelos acomodados. Cada um vá à luta. Eu fui, mas agora preciso descansar trabalhando apenas com a perspectiva da ausência no mundo das multidões e trilhando um caminho sem acostamentos. Eu vou por esta trilha que talvez me conduza a um assento sólido ou, quem sabe, a um vácuo infinito.

FRAGMENTO 4
- Já não existe qualquer dúvida. Sou um homem apaixonado.
- O que em mim te apaixona?
- Os teus sentimentos.
- Será por estarem impregnados de paixão?
- Vejo que me copiam. Percebe que nossos sentimentos duelam para descobrir em qual de nós é mais intenso?
- Disputa desnecessária, Dario. Meus sentimentos são mais abundantes. Por ti eu disponho a própria vida.
         - Também a minha vida é menor do que o que sinto por ti, Berenice.
         - Removes desconfianças e assim me comoves.
- Então posso tocá-la ainda mais?
- Sim, toca-me. Posso ser o teu violino ou teu flautim. Como quiseres, toca em mim.
- Em ti farei sinfonia.

FRAGMENTO 5
         - Sempre que olho seus olhos me vejo pelo avesso.
         - Mas como assim? No começo dizia que eu era bela!
         - A mesma beleza impera tal qual a flor, frente e verso. Vejo-me pelo avesso porque me descubro outro. Impregnado de desejo, tomado pela astúcia e tão misterioso, tal qual aquela pergunta pra qual não se tem resposta: quem veio primeiro, a galinha ou o ovo?
         - Também me vejo assim, completamente você. Se perguntares por mim numa hora como essa, se há limites entre nós dois, confesso, amor, resposta não saberei encontrar, porque quando amamos ficamos tão diluídos, tal qual a cópula fluida do rio chegando ao mar.
         - Então por que conversamos gastando nossas palavras?
         - Palavras como bem sabes, são formas bem alinhadas de aumentar o prazer.
         - Sei, e não sei por que te pergunto. Mas é também o silêncio que nos permite avançar e, neste amor oceano, desejo mais me adentrar.
- Calemos um pouco agora para ouvir o silêncio.
- Escuto neste silêncio meu fôlego acelerando, e igualmente percebo que respiras com veemência.
- O que percebo é que não tenho de santa nenhuma cota sequer. Assim, como estou agora, me sinto toda mulher, me sinto a mais amada, arrebatada, tragada, como açúcar em café.
- Vamos então nos calar, eu peço tal qual você. Me beije como te beijo, deixemos nosso desejo nos suplantar de prazer.

FRAGMENTO 6
Os soldados voltaram em fila, trincheira armada para debelar sentimentos e sonhos. Tropeços, quedas, rasteiras. Na esteira de asfalto havia gente sangrando, havia sangria planejada e os jovens, adultos e idosos, com o semblante alvejado, olhavam pros lados, avessos a pedidos de clemência. Humilhar-se seria curvar-se às pretensões do algoz.
- Nos matarás com prazer?
- Seremos apenas lei. E a Lei que impera é a do silêncio. A fala é uma sentença assinada por quem se expressa.
As palavras do soldado não surtiam efeito de recuo. Nenhum dos homens se esquivou do avanço. A marcha foi adiante e os coturnos no rastro. No fim daquela revolta, eu, Dario, sobrevivi.

FRAGMENTO 7
Caminhos e diferenças, indiferenças também, são tantas as controversas e os tecidos que engilham! Nem sempre o ferro tem o ponto do quente para desmanchar as vigas e as intrigas. E os tecidos, amarrotados, vão cada vez mais desfigurando, perdendo a cor como foto exposta ao tempo inclemente. Tal qual se faz com objetos, também ocorre com gente. Berenice, bela, faceira, a primeira que seria única, talvez até fosse mesmo se o mesmo fosse eterno. Eu também curvei-me às tentações do prazer. Refiz a vida por vezes, mas diante de outro olhar não consegui suportar e projetei-me no vácuo, no vão, em vão.
- Dario, você me ama?
- Amar eu sempre amei.
- E ama, além da cama?
- Amor incondicional.
- Seria o ideal se sério para mim falasses.
- Mas sempre falo a verdade.
- Mentes mais uma vez.
- O que está se passando? Explique que não entendo.
- Está passando o tempo, você virado, eu sofrendo. Não sei como teve a astúcia de se tornar homem vil. Por todos os anos juntos devia ter me procurado, conversado e assim definiríamos um rumo.
- Até tentei resistir, mas fui tragado eu sei.
- Então confessas, Dario, que foste aos braços de outra.
- Pensei que só uma vez, mas tudo foi muito intenso...
- Crápula, covarde, ignorou minha entrega com tanta força, tanta paixão. Dizia que lhe bastava a chama que incendiava nosso ato, o nosso gozo. Poderia ter sido claro, aberto, sincero se não mais me amava.
- Mas eu a amo ainda.
- Mas eu não.
- Não me amas? E todas as juras que fizeste?
- Eu fiz em tempos passados. Se buscastes o teu consolo em outro lado, então também te confesso, eu fiz o mesmo Dario. E hoje sei plenamente que no começo era amor o que eu sentia por ti, depois virou uma farsa, fumaça, impalpável, inconsistente. Melhor assim, vai aos braços de tua nova amada e eu serei a estrada de um novo caminhante.
- Berenice, não vá, eu a amo, amor.
- Vou, Dario. Não quero viver na dor.
        
FRAGMENTO 8
Parecia uma passeata como outra qualquer. Os coturnos andavam nas ruas, os rifles se emparelhavam, os tanques conduziam a guerra, o povo se dispersava. Mas a dispersão estava contida em pretensão mais profunda, feito maré que inunda a área circunvizinha. Por mais que se dispersassem, os rebeldes se reagrupavam e resistiam aos disparos. Eu vi atônito quando Diógenes, mais uma vez, foi acuado e posto de joelhos diante de armas, como um ser sem valor.

FRAGMENTO 9
- Dario, meu filho, está chegando o meu fim, mas vejo como coisa natural. Quando chegar o seu, também perceba assim. A dor diminui.
- Mas a senhora tem a grandeza de ser mãe. Eu não tenho esse dom de acreditar que tudo é tão perene.
- Você é cabeça dura, e isso não é de agora. Por mais que alguém lhe diga você entende ao contrário. Entenda, Dario, os ratos não roubam queijo se os gatos estão vigiando. A ponte é necessária para transpor o obstáculo. A reta encurta o caminho. A morte aponta um norte.
- Qual é o norte da morte? Pra qual estrada ela aponta?
- Aponta pra outra vida que seja menos sofrida. É isso o que espero neste momento em que se aproxima a partida.
- Eu a admiro cada vez mais, minha mãe. Mas eu não sou a senhora. Naquilo que acredito não falam as escrituras. Talvez a minha história seja apenas sinopse.
- Mas tanta coisa já fez! Até se apaixonou! Sua vida rende um romance.

FRAGMENTO 10
Quando converso, dialogo comigo mesmo, locutor e interlocutor. A voz que fala é a do meu pensamento, a que responde é a da minha memória. A que fala, provoca, a que ouve, invoca soluções mínimas e tenta fazer do incerto uma prática. Convicção plena de que a linha tênue é o gume de uma navalha na qual a vida busca seu equilíbrio.



domingo, 16 de novembro de 2014

ENTREVISTA COM A ESCRITORA LYA LUFT

‘Viver deve ser avançar’, diz Lya Luft, que participou da abertura da Fliporto 2014*

 

Autora abordou o valor da vida em palestra na Basílica de São Bento.
Lya começou a carreira como tradutora e já escreveu mais de 20 livros.


Escritora gaúcha de 76 anos falou sobre o seu mais
recente livro na feira, 'O tempo é um rio que corre'
(Foto: Divulgação)

Conhecida e admirada por suas opiniões marcantes, Lya Luft tem mais de 20 obras publicadas, entre romances, coletâneas de poemas, crônicas, ensaios e livros infantis. No seu livro mais recente, “O tempo é um rio que corre”, lançado este ano, a escritora gaúcha de 76 anos trata a passagem do tempo como um aspecto saudável e necessário. Esse foi um dos assuntos abordados pela autora na palestra de abertura da Fliporto 2014, nesta última quinta (13), na Basílica de São Bento, em Olinda (PE). O DCP veicula nesta edição a entrevista concedida ao Portal G1. Lya fala sobre sua vida literária e opina a respeito do tempo, da vida e da morte.


G1 - Você iniciou sua vida literária nos anos 1960, como tradutora de obras em alemão e inglês, e já traduziu para o português mais de 100 livros. O que mais te fascina na tradução?

Lya Luft
 - Certamente tem a ver com minha paixão por literatura e linguagem, e cultura em geral, pois traduzi ficção, biografias e vários ensaios. É um jeito de estar sempre lidando com linguagem, com palavras, enfim, escrevendo. De certa forma convivendo com colegas estrangeiros, vivos, mortos.


G1 - O que te inspirou a começar escrevendo poesias e o que te inspira até hoje?

Lya Luft -
 Não sei se se trata de inspiração, mas de prazer. [Isso] alegra, gosto de ter nascido para isso, além da prosa. Comecei com poesia, na verdade. Meu primeiro livro foi fruto de um prêmio num concurso estadual de poesia, e publicaram “Canções de Limiar” quando eu tinha uns 24 anos. Logo comecei a fazer crônica de jornal, mas a poesia nunca saiu de minha vida, mesmo depois de ter publicado vários romances e ensaios. Em 1972, saiu “Flauta Doce”, e com os anos publiquei “O Lado fatal”, “Mulher no Palco”, “Para não Dizer Adeus”, etc. Além disso, nos últimos anos abro cada capítulo de um livro com um poema, quase uma introdução, em geral escrito nessa mesma época. Penso que sempre continuarei escrevendo poemas, eles vêm ao natural.


G1 - Quanto à ficção, como ela entrou na sua vida?

Lya Luft -
 Desde criança adorei ler livros de história e inventava e contava histórias para mim mesma. Porém nem eu sei por que, só aos 40 anos, em 1980, escrevi e publiquei, então pela Nova Fronteira, do Rio, meu primeiro romance, “As Parceiras”. Depois vieram muitos mais, além de um livro de contos, “O Silêncio dos Amantes”. Enfim, demorei a realizar o sonho de infância, de inventar personagens e tramas, mas na maturidade consegui. Tudo sempre foi muito natural e sem dramas. As coisas acontecem na sua hora, desde que a gente esteja aberta a elas sem aflição.  


G1 - Você já declarou que não concorda com imposições e estereótipos sociais. Em que medida a literatura pode ser um instrumento nessa luta contra as fórmulas ditadas pela sociedade?

Lya Luft -
 Não gosto de alguns estereótipos que nos tornam fúteis, sofrendo por bobagens, como eterna beleza e eterna juventude, por exemplo. Mas nunca pensei na minha obra como mensagem, instrumento. Eu simplesmente escrevo porque nasci para fazer isso. Porém é possível que a leitura de um livro, um poema, um artigo de revista, possa levar alguém a pensar ou repensar, a se ver melhor, a contestar alguns ditames da sociedade, e isso será bom. Mas não tenho nenhuma intenção pedagógica.


G1 - No romance "Ponto Cego" o tempo é um personagem. Outro livro seu é intitulado "O tempo é um rio que corre". Esse é um tema recorrente nas suas obras. Qual sua relação com o fluxo do tempo? Por que você acha que as pessoas têm tanto medo de envelhecer?

Lya Luft -
 Realmente o tempo sempre foi tema de meus livros, e às vezes personagem, como no “Ponto cego”, pelo qual tenho especial carinho porque realizei o velho desejo de uma criança narrando coisas de sua família neurótica. Minha convivência com o tempo que passa é bastante natural, quase bem-humorada. Nada a fazer senão pegar leve com ele. Como diz o menino do “Ponto Cego”, a gente tem de fazer do tempo nosso bichinho de estimação, ou ele nos devora. Possivelmente o terror que em geral temos diante da passagem do tempo tem a ver com, de um lado, a consciência da nossa finitude; de outro lado, a pressão esmagadora da nossa cultura, sobretudo brasileira, bastante superficial, onde amadurecer e envelhecer é “feio”, e temos de ser sempre jovens. É preciso nadar contra essa correnteza para não sofrer com o inevitável, e até curtir as coisas boas da maturidade e da velhice.


G1 - A morte também é um dos temas recorrentes nos seus textos. Você concorda quando dizem que você “poetizou” a morte?

Lya Luft -
 Concordo, eu mesma digo isso, brinco que fiz um “fotoshop” na morte nesse último livro. Mas ela também é terrível em vários outros [livros]. Sempre de certa forma poetizada, pois faço literatura, com metáforas, analogias, etc.


G1 - A vida também é tratada de muitas maneiras nos seus livros e será tema de sua palestra, em conjunto com o seu marido, Vicente, na abertura da Fliporto 2014, em Olinda. Como vocês abordarão o valor da vida nessa palestra?

Lya Luft -
 Vamos falar cada um de seu livro, na verdade eu desse atual, “O Tempo é Um Rio que Corre”, e Vicente, de “Ensaios sobre a Embriaguez”, sobre adição, e talvez sobre o livro dele deste ano, “Transportes, sua especialidade”.  A mediadora excelente será a Leda Nagle, que já nos entrevistou em seu programa, Sem Censura, várias vezes, e nos conhece e a nosso trabalho. Tanto o problema da adição, do alcoolismo, quanto a consciência de que viver deve ser avançar, não se deteriorar, têm muito a ver com como e quanto valorizamos a vida e a nós mesmos, e queremos ser felizes (do meu ponto e vista, em certa harmonia conosco mesmos, o outro, o mundo...). Estamos muito animados com esse encontro na Fliporto.

*Portal G1 – Pernambuco: notícias, em 13/11/2014


Acesse o link abaixo e assista o vídeo de  abertura do Congresso Literário da Fliporto


A abertura do evento aconteceu nesta quinta (13), no Mosteiro de São Bento com a palestra "O Valor da Vida", da escritora Lya Luft, que falou aos convidados junto com o seu marido, o também escritor Vicente Britto Pereira. A jornalista Leda Nagle mediou o encontro.



POEMAS DA SEMANA

A poesia de terra de Manoel de Barros

Manoel de Barros (1916 – 2014)
Foto: Reprodução

  
Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) em 19 de dezembro de 1916, e viveu a maior parte de sua vida em Corumbá (MS), para transforma-se em advogado, fazendeiro e numa das maiores expressões da poesia brasileira. Faleceu no último dia 13 do corrente mês, deixando uma obra de mais de 30 livros de onde a natureza brotava através de versos de rara beleza, qual a terra que o cercava e o encantava para encantar a todos.

Escreveu seu primeiro livro aos 18 anos: “Nossa Senhora de Minha Escuridão” que não foi publicado. Fato pitoresco é que este livro o salvou de ser preso, havia feito uma pichação numa estátua da cidade: “Viva o comunismo!”, sendo descoberto pela polícia, o policial foi recebido pela dona da pensão que informou que ele havia escrito um livro, este pediu para ver o livro, ficou com a brochura e soltou o rapaz.

Seu primeiro livro foi publicado no Rio de Janeiro: “Poemas concebidos sem pecado”, com uma tiragem de vinte e um exemplares, os quais foram distribuídos para vinte amigos, sobrando um único exemplar para o autor.

O poeta recebeu vários prêmios como: o “Prêmio Orlando Dantas” em 1960, conferido pela Academia Brasileira de Letras. Em 1969 recebeu o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal, em 1997 recebeu o Prêmio Nestlé, de âmbito nacional e em 1998, recebeu o Prêmio Cecília Meireles (literatura/poesia), concedido pelo Ministério da Cultura e ganhou o Prêmio Jabuti por duas vezes, em 1990 e 2002.

Sobre sua obra, o poeta dizia: "Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo 'lugar de ser inútil'. Exploro há 60 anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações.

Os editores



Três poemas de Manoel de Barros


O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
 Meu quintal é maior do que o mundo.
 Sou um apanhador de desperdícios:
 Amo os restos
 como as boas moscas.
 Queria que a minha voz tivesse um formato
 de canto.
 Porque eu não sou da informática:
 eu sou da invencionática.
 Só uso a palavra para compor meus silêncios.



Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
 Meu fado é o de não saber quase tudo.
 Sobre o nada eu tenho profundidades.
 Não tenho conexões com a realidade.
 Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
 Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
 Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
 Fiquei emocionado.
 Sou fraco para elogios.



Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.

A minha independência tem algemas.



O CONTO DA SEMANA

Fogo (conto) de Cícero Belmar

Img: Reprodução


A filha de Teté morreu em chamas. Tomou um banho com um litro de Querosene Jacaré e riscou um fósforo nas vestes. Era a moça mais bonita de toda Bodocó, no sertão de Pernambuco.

Em meados da década de 1950, a moça deu um passo errado. E aquela cidade era uma corda bamba para quem se atrevesse a satisfazer os desejos. Qualquer pisada em falso era fatal. A moça apaixonou-se por um caminhoneiro, engravidou, teve o filho e foi condenada à solidão dos ousados.

Velha e triste, Teté agora relatava, com a voz entrecortada pela emoção e pela falta de ar crônica que contraiu com a dor. O caminhoneiro cumpriu o destino de viajar. Os amigos, do abandono. A vida, da aridez. A filha, o de consumir-se em fogo.


*Transcrito do livro Mosaico. Recife, 2013. Edições Interpoética.



PANORAMA LITERÁRIO

Academia de Letras do Jaboatão na Fliporto 2014
  
Arquivo: DCP

Sintonizada com os debates que circundam as novas discussões, a Academia de Letras do Jaboatão – ALJG participou ontem da Fliporto, no espaço FOCCA/UBE, em Olinda.


Os acadêmicos Natanael Lima Jr, Frederico Spencer e Almésio Nascimento participaram neste sábado (15) da mesa: “Literatura e as Interfaces das Mídias Sociais”, no auditório da FOCCA. 

Após o proveitoso debate envolvendo a literatura e seus desdobramentos no cyber espaço, os palestrantes abriram para perguntas da plateia. Os presentes se posicionaram favoráveis às possibilidades que a Internet oferece quando o assunto é acesso à literatura. Contudo, os palestrantes deixaram claro que o objetivo do mercado editorial é oferecer livros que pretendem apenas entreter contribuindo, desta maneira, para a desumanização da literatura. A mesa teve a mediação do publicitário e produtor cultural Alberto Amaral.

Já o presidente da ALJG, escritor, historiador e dramaturgo Adriano Marcena, falou da sua obra dramatúrgica, com a mediação do professor Adilson Jardim (Faesc), na parte da manhã.



Viver promove “Sarau Reflexivo Literário”

Foto: Divulgação

Nos dias 18 e 20 de novembro de 2014, o Viver Colégio e Curso, localizado em Candeias, Jaboatão dos Guararapes, estará vivenciando o SARAU REFLEXIVO LITERÁRIO com grande celebração cultural, envolvendo alunos do 8º e 9º anos, do Ensino Fundamental e 1º e 2º anos do Ensino Médio.

A programação deste ano contemplará diversas manifestações artísticas realizadas pelos alunos, enfatizando a reflexão de temas como o amor, a vida, a depressão, o preconceito e a amizade.

A proposta inclui peças de teatro, recitais poéticos, com poemas de grandes nomes da literatura brasileira e de autoria dos alunos; além de música, dança e da entrega dos certificados aos alunos Campeões da Leitura.

Para a professora Helenize Furtado, coordenadora do evento, “o Sarau Reflexivo Literário abre oportunidades para o aluno demonstrar seus talentos, seus dons artísticos, fazer o que de fato gosta. O evento fará doações aos alunos de diversos livros doados pelas editoras que apoiam o Sarau, como FTD, Melhoramentos, Construir, Ática, Saraiva e Moderna. Nosso objetivo é incentivar o aluno ao bom e importante hábito da leitura”, esclarece.

Adriano Marcena, Presidente da Academia de Letras do Jaboatão dos Guararapes, estará presente ao Sarau. Para ele, “ações desta natureza valorizam, não apenas o senso crítico desenvolvido pela leitura de bons livros, mas, também, cria-se possibilidade dos alunos manterem contato mais íntimo com a arte, principalmente a literatura”.

Serviço:

Evento: SARAU REFLEXIVO LITERÁRIO
Local: Viver Colégio e Curso
Data: 18 e 20 de novembro de 2014
Horário: 08h ás 12h - 14h às 18h



IV Prêmio Solano Trindade de Literatura Afro-Brasileira

Inscrição é feita com um poema inédito e o autor terá que recitá-lo durante o concurso. Os três primeiros colocados serão premiados


Visando contribuir para a descoberta de novos talentos da literatura pernambucana, a Prefeitura do Jaboatão dos Guararapes (PE) lança o IV Prêmio Solano Trindade de Literatura Afro-Brasileira do Jaboatão dos Guararapes. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até 5 de dezembro, na sede da Secretaria Executiva de Cultura e Patrimônio Histórico, na Rua Antonio Ferreira Campos, 4787, Candeias, ou através do e-mail culturajaboatao@gmail.com
Os três primeiros colocados receberão prêmios de R$ 3 mil (1º lugar), R$ 2,5 mil (2º) e R$ 2 mil (3º). Além disso, todos os participantes receberão um certificado de participação. O poema deve ser inédito e da autoria do candidato, que deverá ser firmada através de declaração. Cada autor participará com um poema e os 20 finalistas deverão recitá-los em performances de até 5 minutos. As apresentações ocorrerão nos dias 20 e 21 de dezembro. 



domingo, 9 de novembro de 2014

A BELA E INCENDIÁRIA POESIA DE ARNALDO TOBIAS

Arnaldo Tobias fez parte
da Geração 65

Se estivesse vivo o poeta Arnaldo Tobias estaria completando 75 anos. Poeta, ficcionista, contista, editor, artista gráfico, nasceu em Bonito, cidade do agreste pernambucano, em 15 de novembro de 1939. 

Foi integrante da Geração 65 e atuou ativamente na cena literária do Recife, onde faleceu em 2002. Seu primeiro livro Pomar (1979), Edições Pirata, reúne uma série de dez poemas escritos sobre frutas com uma ampla gama de significados, com ilustrações de vários artistas da sua geração. O segundo, Passaporte, em 1981, também pelas Edições Pirata, agrupa poemas escritos entre 1964 e 1982. Nos dois livros é evidente a aproximação do poeta com os movimentos de vanguarda instaurados no país, sobretudo o movimento Concretista e o da poesia Praxis. Aproximação menos acentuada no caso da poesia Processo. Tobias, no entanto, não segue, nem nunca seguiu à risca os mandamentos de nenhuma dessas vanguardas.

Arnaldo Tobias também publicou os livros: Nu relato (1983), Tenda proibida (1987), O ditador e outros contos (1991), O gavião e a coruja (1993), O ratinho órfão (1994), Quem sou eu? (1995). Editou, de 1981 a 1995, o alternativo poético Pró-Texto. Publicou, na imprensa pernambucana, vários poemas com características do “Poema Processo”, alguns deles reunidos no livro póstumo Singular e plural (2003).

Segundo o poeta Alberto da Cunha Melo, "Arnaldo Tobias é bem um poeta de seu tempo: um homem cercado de autoexpectativas, procurando atender um compromisso por ele mesmo formulado com o mundo. (...) Quer ser apenas, como diria Cassiano Ricardo, "um homem que trabalha o poema com o suor do seu rosto, um homem que tem fome como qualquer outro homem".

Os editores



Dois poemas de Arnaldo Tobias


BREVE BIOGRAFIA (IM)PESSOAL
PARA CADASTRO NO INQUÉRITO

eu fui o perfil
de fuzis e baionetas
para cumprir campos
e trincheiras
e não cumpri

eu fui o sentinela
feito de muralha
para impedir flâmulas
e bandeiras
e não impedi

eu fui o soldado
de atalhos e travessias
para entender de rumos
e fronteiras
e não entendi

eu: estatura mediana
(um metro e sessenta e sete
de altura e solidão
peso avaliado
em balanças de agonias
identidade: 352.526
cor: pardo
como todos os gatos à noite
tipo sanguíneo: "A" Positivo
profissão: poeta e boêmio
olhos: de sol e penumbra
cabelos: de neblina e luares
sinais particulares:
um poema tatuato na língua)

que quis ser nas fileiras
o soldado inicial
para morrer por Luísa
a guerrilheira

e não morri



SEM TÍTULO*

Pelo que bem pareça
uma palafita
não é uma embarcação
segura
é uma canoa furada
(encalhada)
de porco na lama
não é uma arca
feito a de Noé
muito embora
embarque
a bordo (pro/lixo)
pessoas como bichos

em suma:
uma palafita
é o esqueleto
e o féretro
do seu arquiteto.


*In Singular & Plural, 2003, p. 120



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    ano III


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima