domingo, 17 de julho de 2016


OS PIRATAS – TOMO VI




Os Piratas: Olga Savary, Paulo Azevedo Chaves,
Almir Castro Barros, José Mário Rodrigues e Antonio de Campos






SATURNAL
Olga Savary*

Paraíso é essa boca fendida de romã
— bagos de vida,

paraíso é esse mistério de água ininterrupta
fluindo do terminal das coxas,

é a vulva possuída-possuindo
violáceo cacho de uvas,

é esse dorso de vinho navegável
atocaiado para um crime.


*Nasceu em Belém do Pará, em 1933. Escritora, poeta, contista, novelista, crítica e ensaísta, tradutora, jornalista. Muitos de seus vinte livros mereceram prêmios, inclusive o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, foram objeto de teses, adaptações e musicada por compositores eruditos e da MPB, em discos e CD. Reside no Rio de Janeiro.




A GIOCONDA (OU MONA LISA)*
Paulo Azevedo Chaves

Dizem que a Gioconda
era na verdade um varão
e que seu velado sorriso
tem prosaica explicação:
sob a seda e o brocado,
uma súbita ereção.


*Do livro digital Os ritos da perversão e outros poemas



DO CORAÇÃO
Almir Castro Barros

Tudo inicia
Com os sins multiplicados
Na luz das retinas.

Virão os penhascos
Convertidos em bosques
No conhaque do beijo.

Depois é o silêncio
A mendigar em pergaminhos.

E o amor faz do coração
A pátria da agonia.



A SOLIDÃO E SEU CORPO
José Mário Rodrigues

Toda solidão tem o seu corpo
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.

Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.

Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.



MEUS DIAS EM TORVELINHO
Antonio de Campos


Torvelinho de meus dias
já de mim ausentes
e tão distantes
como a luz das estrelas

e os apitos dos loucos ferryboats
que passam na noite
de minha insônia

Réstia dolente
das setas da pedra da lua,
pesada âncora sem raízes

nem cabelos em sua calva
polida pelo desgaste do tempo
desde o Big-Bang




ORAÇÕES PARA VAGALUMES – PARTE 3 (CONTO DE FERNANDO FARIAS)




Apresentamos ineditamente a última parte do excelente conto Orações para vagalumes do nosso colaborador Fernando Farias. Esperamos que vc tenha curtido este fantástico conto, apresentado aqui em três partes. Uma boa leitura a todos!



ORAÇÕES PARA VAGALUMES – Parte 3
Fernando Farias


                                      
     
  Img.: reprodução google



Os dias foram passando e os doentes anunciando livres das dores. Voltavam para casa com saúde. Poucos, os mais graves ainda ficavam. Eu orava e contava para as freiras que eu tinha curado aqueles miseráveis. E elas debochavam.

A madre chamou os médicos e enfermeiros. A situação estava grave. Era preciso adoecer as pessoas. Os doentes estavam curados e o hospital perderia as doações e até o governo ameaçava cortar o apoio financeiro. Culpou a equipe de médicos pelo desastre. Era preciso manter os doentes ativos.

Senti-me culpada. Eu tinha provocado aquele desastre? Pensei em dizer que eu tinha feito as curas, mas tive medo. Afinal sem as pessoas doentes fecham-se os hospitais.

Mas eu tinha falado demais. E algumas freiras acreditaram em meus poderes.

Naquela noite fui estuprada. Cabos de vassouras. Cerca de vinte freiras me surravam. Queriam o hospital cheio novamente. Disseram que eu atuava por força do demônio. Maldita hora que me aceitaram. Só quem podia curar era Jesus.

Fui levada para uma clínica que atendia mulheres vítimas da violência, desta vez para curar de minhas próprias feridas. Tia Benildes me apareceu revoltada. Reclamou de eu ter dito que fazia rezas. A cidade grande não acreditava nestas coisas das crenças do povo do interior, coisa de gente antiga. A partir de agora nada seria mais dito. Um segredo silencioso.

Acordei na madrugada, entendi que eu agora acreditava em rezas. Compreendi o poder. Não era um dom divino nem as orações ditas. Mas uma palavra de três silabas que ela tinha me ensinado, emitida mentalmente por três vezes, como um cântico, junto com a ideia força do bem e da cura. A ideia força de que o bem será feito. Ou o mal.

Eu até pensava que era ilusão de minha tia, quando ela dizia ser a palavra perdida dos sacerdotes egípcios que as rezadeira guardam em segredo durante séculos.

Naquela madrugada fui até a janela e pela primeira vez pronunciei aquela palavra. Gritei a palavra perdida por três vezes com todo ódio. A terra tremeu. Vi milhares de vagalumes cobrindo o antigo hospital de caridade.

Acordei com a notícia nos corredores de que um grande incêndio atingiu o hospital, que dezenas de freiras morreram queimadas. E as plantas carnívoras.

Ainda levei um mês para sair da clínica. Agora vestida de enfermeira. Passei a me apresentar para as pessoas como a enfermeira que escapou do incêndio do hospital das pobres caridosas irmãs religiosas.

Passei dez anos sem ver minha tia, trabalhava entre os enfermos e vendo vagalumes. Sem cobrar nada. Sempre ficando desempregada por falta de doentes e hospitais fechados para revolta dos médicos.

Até que numa noite tia Benildes voltou. Estava num corpo de criança, parecia um anjinho de procissão. Pediu-me para voltar para a casa do interior, cuidar da família e da lavoura, deixar de rezar. Minha missão estava terminada.

Ainda tento me lembrar qual era a palavra perdida para dizer a vocês. Mas esqueci. Agora cuido de galinhas e falo com as almas das árvores.  E não é que parece que os homens foram à Lua mesmo?


fim




DCP COMPLETA 05 ANOS

Por acreditar na força da poesia!
Mais de 1 milhão de visualizações! Além do Brasil, o DCP tb é visualizado nos seguintes países: Alemanha, Estados Unidos, China, Austrália, Moçambique, Cingapura, Emirados Árabes Unidos, Angola e Dinamarca.








domingo, 10 de julho de 2016


OS PIRATAS – TOMO V



Os piratas: José Luiz de Almeida Melo, Janice Japiassu,
Montez Magno, Odile Cantinho e Paulo Gustavo




HISTÓRIA SUI-GÊNERIS*
Jose Luiz de Almeida Melo

Um dia, eu ia bêbado e ensimesmado
pelas ruas de uma cidade estreita,
eu ia estreito e de coração estreito
a mal formular uma ventura,
quando, um cadáver viajante,
esquálido e parecendo um fantasma
de um dos contos de Edgar Poe,
vendeu-me um botão, um botão,
um incasual botão,
redondo, parecendo uma lua cheia,
quatro olhos, quatro bocas, quatro orelhas,
a mangar de todo o mundo que passava.
Como o meu paletó, ocasionalmente,
nenhum botão tinha, casas vazias,
eu enchi uma casa de botão
e, hoje quando olho,
anêmico, pálido em meu peito,
vejo igualzinho meu retrato:
pernas presas, braços amarrados
e o pescoço enforcado a vida inteira.

*do livro Proibições e impedimentos, Edições Pirata, 1981.



A VERDADE E SUA SOMBRA
Janice Japiassu

A verdade é como uma flor
Ou como um fruto maduro
Povoado de sementes

É simples e natural
Clara, fecunda, viçosa
Alimenta a vida
E é muito cheirosa
E, para seus amantes,
Prazerosa

A mentira é obscura
Gritante, repetitiva
E é também multimídia
Cheia de artefatos
De intrigas
Palavrosa
Redundante
Sem clareza
Só se constrói nos vazios
E se alimenta de medos
Jamais perceberá a beleza
De um arabesco
Ou de um algarismo
Igual a si mesmo
Ou do riso
Quando é preciso
Ou do sexo
Sem ser explícito


OS GIRASSÓIS DE VAN GOGH
Montez Magno

O peso do sentir, a glória de viver,
a dupla mão percorrida
pelos campos contemplados
presos em molduras de madeira
os girassóis de Van Gogh
à venda em qualquer mercado.

À espera do vento em breve hora
dobrar os lírios brancos tardios,
anúncio e perda da forma
desgaste do musgo nas hastes
no entardecer longo e vazio.

Que ramo escolhe a flor no dia-a-dia?
Por onde anda o cheiro do seu pólen,
se vai além da sua medida,
ou se percorre a dimensão da sombra,
apenas um círculo que acende
o amarelo tingido em cada flor.


AXIOMA
Odile Cantinho

Sou a semente que se biparte
E se estufa
E cresce púbere para o devir
Sou a água que alimenta o grão
E se transforma em veículo do
Dar-se
Sou o sol que luta para chegar
E sopra o morno calor do aconchego
Sou o sinal de todos os tempos
Sou o sonho
Sou o reflexo
O grito
A fúria
O abandono
Sou o redemoinho que tudo recomeça
E tenta a luta e sabe que é
Nada.


MÃE
Paulo Gustavo

Mãe – dicionário de afeto
E de serviços,
Jardim do Éden
E oceano íntimo.

Quando a noite sobrevém, surgem de ti
                                           [velhos caminhos.


Mãe – o primeiro vinho.




ORAÇÕES PARA VAGALUMES – PARTE 2 (CONTO DE FERNANDO FARIAS)



Uma nova experiência que o site Domingo com Poesia traz pra você. Nosso colaborador Fernando Farias escreveu um conto que será apresentado em três partes. A cada semana um trecho do interessante ORAÇÕES PARA VAGALUMES. Realismo fantástico puro.  Não deixe de compartilhar e comentar aqui. Boa leitura.



ORAÇÕES PARA VAGALUMES – Parte 2
Fernando Farias


Img.: reprodução



Assim comecei a ajudar os doentes e a limpar mundo de gente ruim.  Percebi que, quando eu rezava, via que as pessoas boas têm uma nuvenzinha azul na cabeça. Só eu as via.  As más pessoas tinham uma nuvem marrom. Eu não curava pessoas ruins. Às vezes nem gente ruim não nascida. Eu via as nuvens marrons nas barrigas das grávidas.

Minha tia Benildes voltou do mundo dos mortos. Toda a noite vinha em meus sonhos, sempre arrastando os pés e a reclamar de minhas orações negativas. Para ela meu segredo era para ajudar as pessoas e não para matar.
Eu acendia velas para minha tia e fazia aumentar no cemitério as catacumbas pintadas de azul.

Anos depois a cidade não tinha mais gente doente. Os médicos não trabalhavam. As casas funerárias fecharam. Eu via uma nuvem azul sobre as ruas. Ninguém mais me procurava. Eu não via mais vagalumes, ninguém para enviar velas. Meu rabo de jacaré voltou a crescer.

Naquela noite, sonhei que voava com os pássaros para o Sul. Um deles com a voz de tia Benildes me avisou que estava na hora de ir para cidade grande.

Eu tinha juntado dinheiro das doações e numa mala com poucas roupas, umas fotos da família e o vidro de perfume de gardênia. Saí cedinho, no ônibus amarelo, sem me despedir. Cheguei à rodoviária com cheiro de tangerina e vômito. Uma cidade escurecida pela fumaça.

Perguntei onde tinha um lugar para ficar. Ensinaram-me que perto do porto havia pequenos hotéis que alugavam quartos para moças vindas do interior. 

Vi um navio pela primeira vez. Constatei que havia muita safadeza na cidade, marinheiros bêbados e música alta. A cidade grande cheirava a esgoto.

Os quartos das moças ficavam nos corredores de madeira.       Nem eu consegui dormir. Assustei-me com os gritos que pareciam de pessoas sendo enforcadas, gemendo e chutavam as divisórias de madeira. Depois riam e brigavam.

Eu precisava curar para diminuir meu rabo. Contei a um grupo de moças seminuas que eu rezava pessoas doentes. A notícia se espalhou. Deram para me chamar de a “cigana”.

As doenças aqui são diferentes do interior. Sofre-se de sífilis, cranco duro e saudades de casa. Os homens só falam línguas estranhas, como dizia o pastor.

Comecei a rezar. Sem cobrar nada para ganhar confiança e mostrar serviço. As doenças desapareciam e minha fama aumentou. Principalmente entre os marinheiros estrangeiros.

Passava dia orando, passando a folha de arruda nos pênis caídos, pingando pus, diante de homens desesperados e vagalumes.

Tempos depois descobri que a cidade era um imenso puteiro. Só agora descobri que eu morava numa bucetaria. Não havia moças direitas como lá no interior. 

Até que um dia a polícia fechou o hotel e fui presa. Fiquei numa cela com mulheres estranhas que se diziam condenadas pelo crime de pensar diferente do governador. Uma delas, a Mariana, escondia a foto de um homem barbudo, fardado e fumando um charuto. O homem era “El Comandante”, segundo ela.

No outro dia, Mariana voltou para a cela, estava em carne viva. Eles tinham arrancado seus mamilos com alicates. Rezei com a força de quem acredita na reza para curar as feridas. Ela se levantou sem dores, transparente, riu para mim, flutuou e atravessou o teto. Ficou apenas o resto de Mariana no chão cercada de sangue.

Não me levaram para tortura, bateram na cabeça até que eu fiz sexo oral com três deles e mandaram me soltar. Disseram que eu era feia. A polícia nem me revistou.

Era noite e eu estava do lado da cidade longe do porto. Ruas largas, cheia de carros e gente apressada. Precisava dormir para falar com minha tia. Apenas a mala e o pouco dinheiro. Ainda tentei dois hotéis, mas não me deixaram ficar, eu tinha cara de mulher suspeita. Esperei anoitecer e dormi num banco da rodoviária certa que voltaria para o interior.

Tia Benildes disse que não. Indicou-me procurar a diretora do hospital, uma religiosa, e pedir ajuda para trabalhar. Tia Benildes disse que eu devia fazer rezas para curar os doentes antes que o rabo crescesse.  Creio que, no sonho, vi a Mariana a lado de minha tia.

Foi fácil para eu ser aceita no Hospital da Caridade Cristã, só pela comida e uma maca enferrujada para dormir. Um prédio antigo, escuro, cheirando a urina, cheio de imagens de santos, onde as freiras administravam com desprezo. Nos jardins criavam plantas carnívoras alimentadas com restos de feridas dos doentes.  A velha madre escutou meu pedido sem tirar os olhos dos meus seios e da minha boca. Concordou em me dá aposentos em troca de meu trabalho.

A cara fechada da freira se abriu em gargalhadas quando contei que eu era rezadeira e que curava as pessoas doentes com minhas orações. Logo virei a rezadeira doidinha entre as freiras risonhas. Não acreditavam em orações.

Mas fiz o que minha tia mandou. Silenciosamente comecei a rezar. Minha tarefa era varrer e lavar o chão das enfermarias, entre os cancerosos, tuberculosos e amputados das usinas de cana.

As salas se enchiam de vagalumes e eu não via nuvens escuras na cabeça das pessoas. Mas havia nuvens marrons nas cabeças das freiras.


CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima