domingo, 9 de dezembro de 2018


VI SARAU VIRTUAL



ORGANIZAÇÃO E EDIÇÃO: NATANAEL LIMA JR.



(Homenagem aos poetas Ivan Junqueira, Zeca Plech, Cecília Meireles, Torquato Neto, Bruno Tolentino, Arnaldo Tobias, Maximiano Campos, Francisco Espinhara, Samuca Santos, Erickson Luna, Cruz e Souza, Adélia Prado, Olavo Bilac, Vicente do Rêgo Monteiro e  Manoel de Brarros)


Nesta VI edição do “Sarau Virtual”, o DCP encerra as postagens de 2018, agradecendo desde já a sua companhia durante todo este ano. Reunimos nesta edição do "Sarau Virtual", mais cinco poetas contemporâneos que se destacam no cenário literário do estado. São eles: Alberto Lins Caldas, José Geraldo, Marco Polo Guimarães, Natanael Lima Jr. e Sidney Nicéas.




ALBERTO LINS CALDAS




“o poema, em toda sua grandeza épica, trágica, narrativa, carnal e dramática passou pela entrega ao nada de nada do suco de laranja. castrado, ele há muito tempo é só verso, poesia, performance”.

“*. a poesia fica com o verso, o poema se separa, retoma o velho caminho onde a densa “força da narrativa” advém em ser constitutivamente uma “narrativa da força”. o verso está irremediavelmente envolvido com o “eu”, com as perspectivas limitadas e tolas do eu, com os desejos, as ilusões, as minúsculas dores e ideias do eu (a poesia o verso foram raptados pela subjetividade servil, pela opinião, pela descritividade, pela confissão, pela apoliticidade, pela covardia). o poema é um enfrentamento político do horror, um enfrentamento do real – o poema é, antes de tudo, política, uma configuração do horror”. 

*(fragmentos sobre o verso o poema ● ensaio-manifesto)



na multidão um segundo


● era bela como uma estatua ●
● de jade com olhos de ametista bebendo cerveja ●
● negra e conhaque cheia de dor e medo ●
● olhando pra mim como se eu fosse um leopardo ●
● logo eu q tenho uma corda no pescoço ●
● logo agora q vão derrubar a cadeira onde tou ●
● um segundo meu pescoço se parte e sera tarde ●

● vira o inferno me fazendo esquecer ●
● a estatua de jade com olhos de ametista ●
● bebendo cerveja negra e conhaque me olhando ●
● como se eu fosse um animal faminto e q deseja ●
● logo eu q ficarei digerido no nada da morte ●
● posso mesmo inda gritar agora sera impossivel ●
● vc não se lembrara os leopardos voam logo ●

● as coisas podiam ser diferentes mas tudo muda ●
● agora giro gira giro e reluto em ficar gelado ●
● trinco dentes vendo girar uma estatua de jade ●
● com olhos de ametista bebendo cerveja negra ●
● e conhaque se voltar e sumir na multidão ●
● nada tenho ou posso dizer mas é uma pena ●
● essa escuridão invadir minha boca e nada mais ●



JOSÉ GERALDO*


“A poesia é calmante, ao mesmo tempo, revigorante existencial. Corrente que segura firme minha vida e me põe em equilíbrio emocional. Comunicação pacífica e generosa. Pote d’água e bandeja nutricional. Enfim, porto e âncora da minha alma.”


ESCOLHA

Enquanto eles
burlam,
iludem,
tripudiam,
conspiram
e tudo negam.

Prefiro ser poeta,
faço meu protesto
usando palavras,
qual um arco a
lançar  flechas e
na sua trajetória,
finque na linha mestra.

Arranque tacos,
fazendo frestas.
Que minhas palavras
firam as feras,
bando de roedores,
inúteis germes e,
nada o são que prestem.


*José Geraldo nasceu em 07 de fevereiro de 1951, em Arcoverde, Sertão do Estado de Pernambuco. Reside na cidade do Cabo de Santo Agostinho desde 1971. Formado em Administração de Empresas, atuou em várias áreas do comércio e indústria, sendo um dos primeiros a praticar o comércio híbrido em Recife. O contato com a literatura aconteceu a 15 anos atrás. Participa ativamente de várias atividades literárias promovidas pela Academia Cabense de Letras e pela Biblioteca Joaquim Nabuco. Em breve lançará o seu primeiro livro de poesia.  



MARCO POLO GUIMARÃES


  
“Quem nasceu primeiro, o poeta ou o letrista? E qual a diferença entre os dois? Meu nome é Marco Polo Guimarães e comecei a escrever poesia aos dez anos depois de ler o poema Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, que me fez descobrir o encantamento de ver tanta coisa dita com tão poucas palavras. Desde então, para mim, um poema é como uma semente onde já estão presentes as raízes, o tronco, os galhos, as folhas, as frutas e as flores de uma árvore. Está tudo ali concentrado, como todas as vitaminas, de A a Z, num simples comprimido. Um poema é a maior concentração de sentido no mínimo de palavras. Palavras que têm música e ritmo próprios, assim com também seus silêncios.

Me apaixonei pela música mais cedo, aos cinco anos, ao escutar uma moça tocar no acordeom um Noturno de Chopin que me levou às lágrimas de tanta emoção. Compus minha primeira música aos oito anos, criando um baião para cantar a letra de uma canção de cangaceiro cuja melodia eu não sabia. Passei a estudar piano, acordeom e violão sempre compondo. Mas só na adolescência comecei a compreender a diferença entre letra de música e poema. A letra precisa combinar com a melodia, a harmonia e o ritmo e a interpretação de quem a canta. Ela junta todos estes elementos num só, formando uma coisa diferente.

Desde então, entretanto, faço tanto uma coisa como a outra sem dar muita importância nas possíveis diferenças. O importante é que cada um, poema ou letra, sejam como um relâmpago na cara, a definição de Ferreira Gullar sobre o que é poesia. Uma luz tão forte que nos deixa momentaneamente cegos. Mas quando vamos recobrando novamente a visão, já vemos tudo com outros olhos. Percebemos que para além das vestes coloridas que a revestem é possível ver a carne nua da realidade em toda sua potência e beleza. A realidade por trás do cenário.”


STRIP-TEASE

À Marilyn Monroe

Vai começar o espetáculo
Na desnudação do corpo.
Recrutaram a república
Dos artistas para assistir
Teu strip-tease prostituta
Das causas e cousas perdidas.

Primeiro apareces completa
Vestida de carnes cartilagens
E matérias diversas.
Depois te despes
Com gestos cronométricos
(Correm rios de murmúrio
Ao fundo como música).

Tiras a cabeleira
Feita de espaço inútil:
Prisões de trança à carícia
Ou mesmo liberdade
Nos raios volúveis do vento
Ou ainda sossego de espuma
Tremebulindo na pedra.

Depois são os olhos
Que não mais serviam pois
Já tinhas visto
Tudo que te interessava
E olhos cegos de vida
São como secas bolas de vidro.

Vem agora o nariz
Ou melhor, vai, já que houve
Substituições nos perfumes do ar
Sendo o cheiro atual
Muito prejudicial à saúde
E a respirar para morrer
É melhor não respirar.

Jogas também a boca
Desgastada em beijos e batons
Boca de sorriso desgastado
Feito à feição dos dentes
Boca de sorriso ósseo
Imóvel e acadêmico
Mas de academias opostas
Às monas lisas.

Restam a face e o queixo
Que podem ser jogados fora
Com a cabeça. O queixo bronco
A face de formas várias
Retesada e engelhada
E a cabeça sem gema
Feita com casca de ovo.

O pescoço agora alicerce
Sem construção visível
É também inútil e
Urge lançá-lo fora.
Não abrigou nenhuma lâmina
Nem corda alguma o abrigou
Uma em busca do calor
Que há no sangue
A outra procurando evitar
Resfriações mortais e buscando
Contorções românticas.
(Há maneiras mais modernas
De assassinato e suicídio.)

Os seios.. Ah! Os seios
Não prestam mais
Seu leite sua carícia
Foram sugados
Pelos filhos e amantes
De tua maternidade estéril
E de teu amor estéril
São seios de cor estéril.

O ventre fede
Exala tuas fecundações
Urinárias.
O ventre deflorado
Não flora mais flor
De vida ou sangue
É um ventre de estátua
Liso e nulo divorciado
De sua real utilidade.
Urge desbastá-lo.

O tronco é (desde outrora)
Corpo de caixão
Madeira cortada à madeira
Do homem cujas seivas
Defecaste com os ossos
Que eram espadas de tua morte
E com o coração
Que era a morte de tuas espadas.

Amontoa-se no inferno
A salada dos pulmões
Fígado rins baço nervos.
Os nervos - cordas sobre que
Te equilibraste aramista.

Pernas e braços restantes
Não têm mais apoio
Em nenhum corpo
Não podem ficar eretos
Caem para os lados
Para baixo-cima
Em todas as direções
Como moinhos de vento
Enlouquecidos a vento enlouquecido.

Terminou o espetáculo
(Nada te resta) e
Estás curvada ante o cansaço
E nós julgamos que te curvas
Aos nossos inúteis aplausos
Estás despida e nós
Amargamente mergulhamos
Em tua nada-nudez.



NATANAEL LIMA JR.



“A poesia é matéria fluídica, gérmen de todas as artes, sêmen de um astro que se recusa a ser subterrâneo.”


PAISAGENS

I

A manhã
da cor de tempestades
floresce entre
luz e sombras

II

A tarde
da cor de névoas
sobre as lembranças
despe-se sem porto

III

A noite
da cor de luto
repousa entre musgos
sobre os trópicos



SIDNEY NICÉAS



“A poesia são os olhos da minha alma. Sem ela minha prosa seria murcha, minha vida descolorida, meus amores sem graça. Alerto sempre aos alunos nas minhas oficinas de escrita que todo escritor que quer mais precisa beber da inestimável fonte da poesia. E seguindo o conselho do mestre Vladimir Nabokov, o bom escritor é antes de tudo um mago. Não tenho dúvidas de que a poesia é o principal ingrediente para esse magístico que é a Literatura.”


NENHUM CORPO SEM ALMA ATRACA EM NOSSOS PORTOS-DESTINO!


Há sextas-feiras nos teus dias
De domingo a domingo, embutido
Minh'alma pisando pedras antigas
Desfilando vadia em teus umbigos
Meus passos dentro do teu paço
Meu corpo poesia em teus destinos.

De ponte em ponte, aponte
Viajo por séculos em teus casarios
Deslizando pelos trilhos dos bondes
Terra de concretos, mares e rios
Subo arrecifes e torres gigantes
Cidade de mangue e sonhos bravios.

Não mais ando, alço voo raso
Profundo nas margens do camuflado istmo
Centenas de anos agora as dividindo
Duas cidades de braços abraçados
Recife me entrego aos teus cuidados
Olinda me benzo sob teus sinos.

Sou morto-vivo velado
Sou vivo-morto despido
Minhas velas acesas, infladas
Meus olhos, desejo repartido
Rezo pelas irmãs de terra e aço
Em ladeiras e ruas sou cupido.

Nenhum corpo sem alma atraca em nossos portos-destino!






domingo, 11 de novembro de 2018


ESPECIAL DRUMMOND


11 de novembro de 2018 por Natanael Lima Jr. *





Foto: Reprodução. Carlos Drummond de Andrade



O Dia Nacional da Poesia é celebrado no dia do nascimento de Carlos Drummond de Andrade, um dos mais influentes poetas brasileiros do século XX, um poeta de alma e ofício.

Drummond nasceu em Itabira, interior de Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902. Foi além de poeta, contista, cronista, jornalista e tradutor de diversas obras de autores estrangeiros, entre eles: Marcel Proust, Molière, Balzac, Choderlos de Laclos, García Lorca e François Mauriac.

Drummond também merece nossa reverência por ter sido um dos ícones do movimento modernista brasileiro. Fundou um dos mais importantes veículos de informação para consolidação do modernismo no país tupiniquim, A Revista. Em 1930, ele publicou seu primeiro livro, Alguma Poesia.

Para os que desejarem conhecer mais a obra de Drummond, suas principais englobam Sentimento do Mundo, A Rosa do Povo, Claro Enigma, Poesia até agora, Antologia Poética, José e Outros, Corpo. Vários de seus livros foram traduzidos para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco e tcheco.

Drummond não integrou nenhuma Instituição Acadêmica para se tornar um dos mais prestigiados poetas do Brasil. O poeta faleceu em 17 de agosto de 1987, no Rio de Janeiro, aos 85 anos, deixando cinco obras inéditas: O avesso das coisas, Moça deitada na grama, Poesia errante, O amor natural e Farewell.



CINCO POEMAS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas


Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Canção Final

Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.


Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.



*Natanael Lima Jr é poeta e editor-fundador do site DCP






À LUZ DE UM SOL IMPURO, CONTO DE FREDERICO SPENCER*

Img: Recantodasletras.com.br



Ocupou a praça com seus soldados.

Havia uma estratégia nisto tudo; o porto e uma grande parte do comércio estava naquela área antiga da cidade. Havia também os jornais: o Diario de Pernambuco, o do Commercio e o Diario da Manhã. Também um coreto e um colégio estadual.

A praça se estendia por mais de quatro quarteirões, sitiada, disputava o espaço com o crescimento da cidade que já agonizava por mudanças urbanísticas. As árvores e o gramado ralo ofereciam um clima de festa para os pássaros. Os pombos, com seu caminhar solene, também faziam seu alvoroço; passara muitas tardes neste local, sempre acompanhado da mãe, enquanto a avó terminava os afazeres da casa.

Lembrou também das manhãs onde fazia este percurso com a professora de sua escola, que ficava numa transversal da Avenida do General Dantas Barreto – a rua de sua escola não existe mais, foi vencida pelo General, atendendo aos apelos do plano piloto da prefeitura para desafogar o trânsito da área. “Augusta” morreu e levou consigo as marcas da tabuada sobre a pedra negra arguida sobre o peso da palmatória.

Pouco a pouco traçava e delimitava os pontos de vigilância: colocava as sentinelas em seus postos. Pensara em ocupar o coreto e chamar a atenção de todos que passavam. Preferiu ficar quieto enquanto seus soldados se movimentavam para ocupar os postos sobre seu comando; inertes em suas posições aguardavam o ataque inimigo.

As horas se consumiam, havia no ar uma sensação de abafado. Os homens derretiam no suor daquelas horas. Parecia que no final da tarde os demônios tomavam conta do tempo. Pensou em São José e sua igreja mais à frente, havia se batizado lá e isto trazia-lhe um certo relaxamento.

Ouve barulhos – alguém se aproxima. É uma força-tarefa inimiga, há um confronto. Todo efetivo é utilizado. Uma batalha cruel, ganha depois de muita luta corporal. Em alguns momentos achava que toda aquela movimentação era realmente necessária, sentia prazer naquilo tudo e também um sentimento de dever cumprido.

Numa certa manhã acordou e viu todo seu efetivo nas ruas, os soldados agora haviam crescido de tamanho e se vestiam de verde-musgo. Ainda de pijama no terraço da casa não entendia como aquilo tudo havia acontecido: não estavam mais escondidos no mato. Invadiam as casas, roubavam os livros e levavam pessoas conhecidas. Havia caminhões e carros escuros e não sabia de suas existências.

Ouviu dizer que naquele dia seu pai não iria trabalhar; as escolas, os jornais, a loja da Ipam, não funcionariam, estava tudo fechado. Naquela tarde não poderia ir à praça Sérgio Loreto – avisou a mãe.

Correu para a caixa onde guardava seus soldados, ainda dormiam envolvidos no peso do chumbo, esperando suas ordens – entendeu que aquela guerra não era deles, deixou que o tempo os consumisse naquele sono estratégico.

*Do livro: O Olho do Rinoceronte, pág: 73







“FEBRE”, LIVRO DE ESTREIA DE TACIANA VALENÇA, UM PRESTIGIADO LANÇAMENTO


11 de novembro de 2018 por José Luiz Mélo*




Capa divulgação




Não fosse a poetisa Bernadete Bruto, quem escreveu o prefácio do livro de poemas “Febre” da poetisa Taciana Valença, onde informa que este é o primeiro livro que a autora publica, ao se ler o mesmo, a impressão que nos deixa é de que a mesma tem uma vasta obra publicada, face à intimidade que mostra com as palavras, suas devotadas servas na expressão dos seus sentimentos.

Confesso, achei maravilhoso o título que Taciana encontrou para sua obra-prima. “Febre”. Ele mesmo uma obra-prima de título que sintetiza em si a expressão maior que se podia dar ao livro/poema, título mais curto que um Haicai mas com a dimensão de um verso Alexandrino, não sezão, (febre intermitente), mas uma febre divina, de temperatura máxima, arrocho de calor que não cede aos antitérmicos mas, que nos pela a pele com sua intensidade de emoção e sentimento.

Gostei, muito, da maneira como Taciana dispôs os seus poemas no curso do seu livro. Com subtítulos que per si representam um poema e que retratam os segmentos dos tegumentos da sua vida, das efervescências e calmarias, mas sempre numa temperatura extrema: ”Onde a sociedade habita”, “O que não se explica”, “Poesias para se lambuzar de amor”, “Nas minhas inquietações”, “Eu por mim”, “E por falar em versos...”

As orelhas, foram escritas pelo Sidney Nicéas. O posfácio por Luiz Carlos Dias. Ainda o livro inclui uma análise magistral que penetra nas suas mais íntimas vicissitudes, da Acadêmica Fátima Quintas, que pela sua invulgar beleza transcrevo logo a seguir, e que sugiro à autora, se ainda não o fez, publicá-lo na sua prestigiada coluna nas 4as. Feiras no Jornal do Comércio.

A ARTE DO BELO NO DIZER POÉTICO

Folheio os versos de Taciana Valença com uma certa ansiedade; são imagens que se escondem para muito além do escrito. A sua poesia nasce do mergulho interior, alcança a metáfora do viver e se transforma em beleza pura, em simbologia plena, em renovação existencial. Assinala: Morrer então/ no infinito de mim, / de dor nem tanto assim, /para que nada tenha sido em vão.

Observa-se na leitura uma íntima ligação entre a forma e a musicalidade, expressão consistente, o que lhe confere a efervescência de um eu em plena ebulição. Dizer não basta, importa submergir no texto com vontade de desnudar-se; ir ao encontro de uma verdade desconhecida, procurando mistificá-la por entre sussurros e segredos daquele instante que jamais se traduz. A poesia, clímax da literatura, reclama escavações, arqueologias, ressignificações, nunca excesso de explicitudes, uma vez que a linguagem estética é reveladora de intimidades e de subterfúgios do âmago. Por conseguinte, exorta a alma nas mais profundas reentrâncias.

Há um grito silencioso que somente chega aos ouvidos quando de posse de intencionais e sedutoras entrelinhas. Taciana cautelosamente explode em murmúrios quase inaudíveis: Do abstraído ser/ que nem mesmo é, / continuando sendo/ até nem mais ser... Como se não bastasse a harmonia poética de um ser que duvida, a autora não usa o ponto final, busca as reticências nas interrogações do seu próprio existir. Vai além, atravessa planícies e montanhas, conhece os enigmas da existência, reserva-se, prossegue, segue a trilha do incógnito e deságua na difusa escultura da transfiguração.

O livro “Febre” traz no título a intensidade que o perpassa; não esmorece em momento algum; percorre os casulos de um corredor sinuoso e pleno de vivência; jamais se furta aos mistérios da criatividade, pelo contrário, excede-se em pujança e vibração ao expor versos que acompanham as circunvoluções do cotidiano. E repete a poeta: A gente ajeita, / conserta, refaz. / Pinta o que há de castigado. / Trabalha dia e noite. / Solto, apertado, / triste como um fado. A vida das coisas simples constitui o que há mais de impactante na poesia de Taciana. As horas, os minutos, os segundos são companheiros do pensamento em conflito. Se a letra ganha a distinção do falar, por que não maquiá-la para além do imensurável? Pois não há intervalos na cronologia oncológica: fatos se acumulam, sacramentando os impulsos de cada um. As alegorias prosseguem em tropos de interrogação.

O mundo se espraia em um tempo que não estanca — corre, segue, avança, até onde? As representações se manifestam de forma sequencial e pouco translúcida. E a existência se confunde com uma realidade que não tem nome. Melhor assim. Eis a poesia completa e ancha de recursos abstratos, filosóficos, humanos. Na metonímia da própria inquietação, tomo de empréstimo o poema “De repente” para nele debruçar-me com reverência: De repente essa vontade/ de nem ser, não estar./ Sair sem destino, / num desatino. / Fugir para o nada. / Pegar carona na vida que passa. / Ir lá fora, pegar as estrelas, / tocar o sol e o vento.

Ler os poemas de Taciana intensifica a complexidade das incertezas. Ainda bem. São verdadeiros anseios de transcendência. Respondem e não respondem à ambivalência que nos habita. Urge acompanhá-los com emoção e sentimento; sugá-los com prudência e cautela; amá-los na construção do recôndito.

Fátima Quintas
Recife, 19 de maio de 2018.




*José Luiz Melo é poeta e editor do DCP





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    desde 2011


Editores: Natanael Lima Jr, Frederico Spencer e José Luiz Mélo