domingo, 19 de junho de 2016


OS PIRATAS – TOMO III

Os piratas: Juareiz Correya, Maria do Carmo Barreto Campello
de Melo, Marcos Cordeiro, Luiz Manoel Siqueira e José Carlos Targino



Nesta edição o DCP traz a poesia dos piratas Juareiz Correya, Maria do Carmo Barreto Campello de Melo, Marcos Cordeiro, Luiz Manoel Siqueira e José Carlos Targino. CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA.



DIA DE CHUVA
Juareiz Correya

Faltam poesia e verdade
nos serviços de meteorologia
e nas comunicações
das moças do tempo
no rádio e na televisão.  
Todos os dias 
- masculinos por natureza  -
têm sua beleza,
como todas as fêmeas. 
Como se pode dizer
(e isso dizem sempre)
que um dia de chuva
renovando e fecundando
todo o útero da Terra 
é um dia de tempo ruim
e feio ?

(Olinda, julho / 2006)



LIÇÃO DE AMOR
Maria do Carmo Barreto Campello de Melo (1924 - 2008)

Não te direi de amor
assim como tu queres
pois não se faz o amor, amor existe
e permeia e transcende coração e mente
e dá se dando e dando inteiramente
que despojado é o amor, sem adereços
e a pele é a melhor das vestimenta

Não te direi
assim como o entendes
mas se eu disser de mim, direi do amor
que há quem não se dando já deu tudo
e visitou a face do teu ser impuro
e adormeceu à sombra dos teus sonhos.

Não
assim como desejas
só que me entrego à noite e ao desespero
e ferida de amor digo teu nome
e ele me cobre como uma vestidura.


SOBRE A TERRA, NOS CONFINS DO MOXOTÓ!
Marcos Cordeiro

As tuas mãos ao me tocar um dia
Também tocaram harpas e lanças.
E o meu desejo se fazendo mais ardente
Tocou ao longe oboés e trompas de prata
Em harmonia com o campo verdes,
Ali aos pés da Serra de Jabitacá.

- Ei-me aqui com o amor despido...

À passagem do caçador audaz
Em busca do amor mais fugidio
De fadas e princesas encantadas
Saídas dos livros de estórias,
As siriemas cantaram excitadas.
Seus solilóquios em tom maior:

- Ninguém nos ama! Ninguém nos ama!

Essas sopranos solitárias e tristonhas
Para mim doaram-se em recital
Executando entre lajedos e nuvens
Cantos agrestes e árias azuis.
Ao observá-las nessa tarde de estio
Eu encontrei a eterna primavera.

- Sobre a terra, nos confins do Moxotó!

(Olinda, 29/10/2013)



FEITIÇO
Luiz Manoel Siqueira


A claraboia dos seus olhos não esconde
um sonho triste do outro lado da vidraça
é como um tigre envolvido pela sombra
de um caçador que nunca encontra sua caça.

O circo inteiro já partiu de manhãzinha
sem perceber toda a tristeza do felino
a fera presa no jardim do seu vestido
era o meu sonho de amor quando menino.

Alguém de negro joga cartas sobre a mesa
a um marinheiro de gravata azul marinho
o rei de copas sai da carta e o tigre mata
e o marinheiro se transforma em passarinho.

Por muito tempo esse feitiço foi cumprido
e vem de noite arranhar a sua porta
como quem chora a perfeição desse destino
meio felino, marinheiro, gaivota.



A LUZ IMÓVEL
José Carlos Targino


Madre, não é assim que justificamos os mortos.
Percorri duas vezes aquele lugar:
eles estavam sobre a montanha,
um bando enorme, e recuei às pressas.
Venha, venham, disseram as crianças,
e nenhuma resposta irrompeu em seu mundo.

Madre, um espaço infinito
há de anular teu coração, o teu também.
Meu corpo então cederá silenciosamente,
e não sob o clamor de carvões
e pedras, como queria certo mestre.
Nem toda morte é igual.


(Lírica. Poemas de José Carlos Targino, 1968, p. 19)




LITERATURA E SEUS CONCEITOS

Por Frederico Spencer
frederico_spencer@hotmail.com 



Img: reprodução google


Como conceito, literatura é uma representação da realidade. Na sociedade existe vários tipos de literatura: a médica, a do direito, a do trabalho, das máquinas, enfim, onde houver atividade humana haverá um tipo de literatura para lhe dar a formalização dos métodos de uso e prática, ligadas às normas e padrões de comportamento.

No caso dos romances, contos, poesias e etc., estamos falando sobre uma literatura diferente, esta trata da condição humana inserida num contexto histórico e social, advindas de um modo de produção. Esta literatura, além desses elementos, está carregada das emoções do escritor vivenciadas no seu cotidiano.

A literatura artística é o retrato de uma época vista através dos olhos e dos sentidos do seu autor, neste contexto, podemos afirmar que ele se transforma em uma antena do seu tempo, que decodifica, através de sua vivência, suas “mensagens” e as transmite através dos seus sentidos.

Entendemos então, que a arte e a literatura se transformam através dos tempos, pois é o resultado da ação do homem sobre a natureza, e que elas se transformam na mesma velocidade que interagem com as relações humanas.

Também, o que difere uma literatura das outras é o tipo de linguagem utilizada. Existe uma linguagem formal e técnica, de conteúdo rígido, própria para as atividades profissionais as quais não admitem dubiedade de interpretação sobre aquilo que quer informar.

A literatura artística trabalha com uma linguagem não linear, sígnica, rica de sentidos, que cria as condições necessárias para a viagem que o autor precisa fazer para trazer à realidade as impressões de mundo que traz em seu espírito. O que importa neste trajeto, respeitando-se as normas gramaticais, é o conteúdo do abstrato, daquilo que está nas entrelinhas de sua visão cosmopolita.

Atualmente, esta literatura assume um papel determinante nas sociedades. A educação, ferramenta estratégica para o desenvolvimento humano, científico e tecnológico, serve-se da produção literária como meio de formatação de um conceito de humanização para o homem moderno.

Com o advento da rede mundial de computadores e as trocas rápidas de informações, abre-se um novo caminho para a humanidade e consequentemente para a literatura. Uma nova linguagem, própria das mudanças sociais começa a surgir, enfeitiçando a todos e abrindo também novos horizontes para um novo mundo que começa a surgir.


*Frederico Spencer é poeta e editor do DCP




PANORAMA LITERÁRIO

CONCURSO DE POESIA ‘CELINA DE HOLANDA’ É NOTÍCIA NA IMPRENSA PERNAMBUCANA





ACADEMIA DE LETRAS DO JABOATÃO COMEMORA 2 ANOS





Na última terça (14) a Academia de Letras do Jaboatão dos Guararapes realizou solenidade comemorativa aos dois anos de sua fundação e posse da nova presidenta e vice-presidente, Honorina Carneiro e Isaac Luna.
Na foto os acadêmicos: Anderson Paes Barreto, Nildo Barbosa, Natanael Lima Jr, Duca Bellaflor, Honorina Carneiro, Adriano Marcena, Abigail Souza, Eulina Monteiro, Frederico Spencer, Doralice Paz, Lenemar Santos e Isaac Luna.


CELINA DE HOLANDA E AS MULHERES DA TERRA: CD será lançado no Cabo e no Recife

 

 


Selo comemorativo ao centenário
da Poetisa Celina de Holanda, criado
pelo artista Ivan Marinho




A Panamerica Nordestal e Produções Culturais, em parceria com as Secretarias de Educação e de Cultura da Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho, PE, lançará, em breve, na cidade natal da poetisa e no Recife, o CD CELINA DE HOLANDA E AS MULHERES DA TERRA, com poemas selecionados da sua obra e recitados por 19 mulheres pernambucanas identificadas, na vida e na arte, com a poetisa homenageada.    



domingo, 12 de junho de 2016


OS PIRATAS – TOMO II


Os piratas: Vernaide Wanderlei, Domingos Alexandre,
Eugênia Menezes, Ângelo Monteiro e Esman Dias



Dando sequência a divulgação dos poetas que participaram do movimento editorial da Edições Pirata, o DCP traz nesta edição a poesia de Vernaide Wanderlei, Domingos Alexandre, Eugênia Menezes, Ângelo Monteiro e Esman Dias. CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA.



MUNDO REAL*
Vernaide Wanderley

Gosto desta casa
mais que daquela
quando criança

Gosto dos adultos mofados
dos móveis quebrados
dos quadros sem vida
da desarrumação das crianças
de todos os cantos
com pó e teias

Aquela outra casa
tem tudo de vida
da criança que fui

os duendes e fadas
os banhos de chuva
o cálice de vinho Celeste
a peia bem dada
o medo do bicho papão

Gosto muito mais
desta casa

*Do livro Tatuagem, Edições Pirata, 1982


PASSAGEM
Domingos Alexandre

Constelações anônimas
saúdam lá do alto
esse pobre mortal
que caminha de bolsos vazios
pelos trigais alheios
e sustenta em seus ombros
o peso dos anos
que passaram rápido
como segundos.
Por detrás de uma nuvem
a lua me acena
com a doce esperança
de outros mundos.


OFICINA
Eugênia Menezes

A luz incandesceu o verde das mangas
e amaciou o aço das espadas
para o corte das margens.
Pelas frestas das lombadas pousam réstias
sobre as folhas coloridas pelo mago,
unidas pelo visgo das resinas da serra
que joga pequenas plumas brancas
sobre os óculos de Miguilim.
No brinquedo de roda,
mãos se conjugam no laço de amor
formando feixes enfeitados de alegria
pelo toque das espáduas e espátulas.
Fardo de arte e fé,
embarcado pelos estivadores suados
a caminho da liberdade.


DISCURSO SOBRE O VAZIO
Ângelo Monteiro

Dura necessidade
de invocar os objetos,
como se dependêssemos
deles para existir.

Como se o seu vazio
fosse menor que o nosso:
nós que usamos palavras
por medo do silêncio.


ACTA EST FABULA
Esman Dias (1937 - 2015)

  
A Domingos Alexandre


Morre o poeta.
Morre, com ele, toda a luz do mundo:
o espaço do seu rosto, o mar profundo,
a aurora e um pôr-do-sol escandaloso.

Morre o poeta e morre o Ocidente.
E o Oriente. E os pontos cardeais.
Morrem as estrelas. Morre o firmamento.
Morrem as sombras do pântano e o arvoredo,
todos os santos, todos os escribas,
os dias da semana, a quarta-feira.

E o próprio tempo, imóvel, que agoniza:
foi-se o olhar que no relógio via
a marcha, alegre e triste, dos ponteiros.

Morre o poeta.
Morre a alegria.
Morre tudo o que flui: morre a poesia.

Morre o poeta.
E morre o mundo inteiro.




CHEIRO DO SOL (CONTO DE DOUGLAS MENEZES)


Foto: reprodução



Katharina falou que seu edredom cheirava a sol. Surpreso, achei a frase carregada de poesia e significado. Realmente o sol cheira a vida. Não à toa, as esperanças brilham e se tornam realidade nos dias de sol, quando a luz, por ser intensa, traz a energia que produz mudanças que podem revolucionar a existência. Por isso, a intensa alegria de rever pessoas, de olhar crianças, de achar mais beleza na época de sol intenso. Corpos na areia se lambuzando, salgando o mar com seu suor sensual. Intensidade dos sons tão audível como sem compreensão, comunicação bastante para enaltecer uma época. E essa vontade de correr correndo sem rumo que a claridade produz. Algazarra é própria dos dias de sol, onde o riso fácil fica estampado nas faces antes preguiçosas. Vontade imensa de cheirar a vida, com seus frutos bons e ruins. Mas assim mesmo, vida, cheirando a sol, como o edredom de Katharina.
Quantas canções, poemas mil, imagens, a tecerem loas a esse brilho que se nega a ser morte, ressuscitando coragem e vontades de fazer coisas diferentes, ou de refazer o que se fez mal feito. Pois aqui, o sol carrega, todo dia, uma primavera de jardins floridos. Sim, compreendo agora que tudo cheira a sol, como o edredom de Katharina.



  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima