domingo, 19 de outubro de 2014

VINÍCIUS DA ETERNA PAIXÃO

Vinicius de Moraes
(1913 – 1980)

O DCP vem nesta edição celebrar o dia do nascimento do diplomata, dramaturgo, jornalista, compositor e poeta, Marcus Vinitius da Cruz e Melo Moraes (nome de batismo), ou simplesmente do “poetinha” Vinícius de Moraes, contrariamente ao que o apelido pode demonstrar, este se deu por motivo do lirismo de seus belos sonetos.  Dono de uma obra vasta, onde circulou pelo cinema, teatro e pela música, afirmava, contudo, que a poesia era sua verdadeira vocação.

Dentre sua produção literária, destaca-se o seu primeiro livro O caminho para a distância (1933), que surpreendeu os críticos devido seus 19 anos; o livro de prosa/poesia Para viver um grande amor (1962); e o Livro de sonetos (1967), reunião de sonetos escritos ao longo de 30 anos pelo poeta. Ganhou grande visibilidade na música popular no tempo da bossa nova, quando fez parcerias com Tom Jobim, Chico Buarque, Toquinho e outros. Inquieto por natureza, José Castello, autor do livro “Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão - uma biografia” nos diz que “o poeta foi um homem que viveu para se ultrapassar e para se desmentir”.

Desta forma o poeta Carlos Drummond de Andrade, falava sobre o poetinha: "Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural", "Eu queria ter sido Vinícius de Moraes". Diferente de outros poetas, Vinícius de Moraes, não fincava raízes, escorria pela vida, através do Uísque da fumaça de seu cigarro e os braços de suas amadas. O escritor Otto Lara Resende o definia desta maneira: “Vinícius é um poeta em paz com a sua cidade, o Rio. É o único poeta carioca”, mas ele dizia nada mais ser que “um labirinto em busca de uma saída”.

Os editores



Dois poemas de Vinícius de Moraes

 Pátria Minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”


Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.



POEMAS DA SEMANA

Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen, Henriqueta Lisboa, Flávia Suassuna, Abigail Souza e Taciana Valença



O mar nos olhos
Sophia de Mello Breyner Andresen

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes.. 
e calma


Não a face dos mortos*
Henriqueta Lisboa 

Não a face dos mortos.
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.
 
Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.

Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.

*In A face lívida (1945)


Desabrigo
Flávia Suassuna

Meu rosto
é um espelho
de tudo.

Cada ruga
conta o que houve.

Não ter explicações
é o pior.
E todos os encontros
são também despedidas.

Se soubéssemos,
haveria abrigo.

Mas ele é só
uma palavra.


Metro quadrado
Abigail Souza

Entro, sento
armas são dispostas:
à direita - pensamentos
à esquerda – cruzadas
como não mais se vê.

De arma em punho
                        - traço
Devaneios e tristeza
lado a lado.

A lâmina fria consome
a calamidade dos fatos
em olhos de terror
num quadrado
                   de imagens.
No amarelo borbulhante
sorvo a tensão dos dias
d e r r a m a d o s.
Até os dedos correrem
ávidos na tela
                  - o silêncio.


A um amigo
Taciana Valença

Houve um tempo
Em que a praia era nossa -
A vida nos sorria e o vento
Secava a água em nossas costas

Houve um tempo
Não muito longe,
Em que os sorrisos se esbarravam,
E as palavras tinham sabor de vida

Houve um tempo
Em que nem chovia -
Os pés corriam, afundados na areia
E as ondas eram risos desafios

Houve um tempo
Dos sonhos d'um destino
Que reluzindo ao longe
Brilhavam nos olhos do menino.



PANORAMA LITERÁRIO

IV Prêmio Solano Trindade de Literatura Afro-Brasileira

Inscrição é feita com um poema inédito e o autor terá que recitá-lo durante o concurso. Os três primeiros colocados serão premiados


Visando contribuir para a descoberta de novos talentos da literatura pernambucana, a Prefeitura do Jaboatão dos Guararapes (PE) lança o IV Prêmio Solano Trindade de Literatura Afro-Brasileira do Jaboatão dos Guararapes (PE). As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até 5 de dezembro, na sede da Secretaria Executiva de Cultura e Patrimônio Histórico, na Rua Antonio Ferreira Campos, 4787, Candeias, ou através do e-mail culturajaboatao@gmail.com
Os três primeiros colocados receberão prêmios de R$ 3 mil (1º lugar), R$ 2,5 mil (2º) e R$ 2 mil (3º). Além disso, todos os participantes receberão um certificado de participação.
O texto para inscrição deve ser um poema feito individualmente, inédito e da autoria do candidato, que deverá ser firmada através de declaração. Cada autor participará com um poema e os 20 finalistas deverão recitá-los em performances de até 5 minutos. As apresentações ocorrerão nos dias 20 e 21 de dezembro, no Cineteatro Samuel Campelo, em Jaboatão Centro.

Fonte: Jaboatão Notícias – 14/10/2014 – Por Juliane Menezes



Começa mais uma edição do AquaSesc Verão 2014!


As atividades começaram nesta sexta (17) e irão até o dia 25 de outubro, Jaboatão dos Guararapes (PE) recebe o AquaSesc Verão 2014. O projeto realizado pelo Sesc Piedade, traz uma programação diversificada de esportes, saúde, educação e cultura, com campeonatos e torneios esportivos, além de ações de saúde, apresentações musicais, cultura popular e oficinas. A entrada é gratuita para a maioria das atividades, em algumas são cobrados 2 kg de alimento não perecível. 
Outros destaques da programação do AquaSesc Verão 2014 é a Maratona de Ginástica, de Hidroginástica e o Triathlon Indoor no sábado (18), a Corrida e Caminhada AquaSesc, a Caminhada Sedução com orientações sobre o meio ambiente e o show da Banda MiniRock no domingo (19), e a II Oficina de Produção Textual – A Construção do Texto Dissertativo/Argumentativo, ministrada pelo professor Natanael Lima Jr, na próxima terça (21). Confira a programação completa aqui: http://sesc-pe.com.br/hotsites/2014/aquasesc/programacao.php


  
60ª Feira do Livro de Porto Alegre
  

31 de outubro a 16 de novembro de 2014 Porto Alegre realiza a sua 60ª Feira do Livro. Um dos destaques da programação é a volta das discussões sobre a liberação das biografias. Dia 07/11 reúne três autores censurados: Paulo César Araújo, biógrafo de Roberto Carlos; Domingos Pelegrini, de Paulo Leminski; e Toninho Vaz, também de Leminski. Confira aqui a programação completa: http://www.feiradolivro-poa.com.br/ 



Bienal de Minas abre venda antecipada de ingressos

Entradas para o evento literário já podem ser adquiridas pela internet



A quarta edição da Bienal do Livro de Minas, que acontece entre 14 e 23 de novembro, acaba de abrir a venda antecipada de ingressos para o evento literário, que podem ser adquiridos pela internet. O objetivo da organização, é garantir o máximo de conforto para os 250 mil visitantes esperados, facilitando a participação e agilizando a entrada no evento. Os ingressos estão sendo vendidos a R$ 10 (inteira) e R$ 5 meia-entrada (benefício concedido aos maiores de 60 anos, estudantes de ensino fundamental, médio ou superior da rede pública ou particular de ensino e pessoas com necessidades especiais). A programação da Bienal por ser acessada aqui: http://bienaldolivrominas.com.br/



domingo, 12 de outubro de 2014

O COLAPSO DA CRIATIVIDADE

por Alexandre Coslei*


Img: Reprodução

Observando o cenário nacional e focando nos jovens escritores, o que vemos é um painel que nos remete ao século 19, quando os importados da língua francesa e inglesa trouxeram as primeiras sementes de fertilidade para os autores brasileiros. O que testemunhamos hoje são aqueles mesmos romances adocicados, moralizantes (alguns, com viés evangélico), a exacerbação do sentimentalismo, o didatismo e a fantasia gótica. Os que fogem das velhas receitas enveredam por temas subversivos que flutuam no superficial, limitando-se a meras apologias devido a uma abordagem precária – nessa categoria se encaixam os romances que versam sobre violência gratuita e decadência da sociedade.
Há outros dois modelos em voga, um existencialismo maçante e um erotismo tacanho que tem muito a aprender com o Marquês de Sade. O romance, como gênero literário, involuiu. Há uma tendência retrógrada que se enraizou, apesar do irresistível convite que nos oferece este admirável mundo novo.
No Brasil, a incapacidade autoral para espelhar de maneira autêntica e profunda os novos tempos evoca como causas o esfacelamento do sistema educacional, a mutilação da cultura e a submissão das editoras à colonização intelectual imposta pelo estrangeiro. O número de consumidores de livros cresceu desde a consolidação do romance no país, mas a qualidade dos escritores e leitores sofreu uma implacável erosão. A crescente comercialização de livros, paradoxalmente, não incide no aumento da quantidade de leitores, fato comprovador da tese que afirma que livros se tornaram objetos de colecionador, firulas decorativas. Livros deixaram de ser formadores da consciência crítica.
É preocupante quando constatamos que uma das peças mais pulsantes e revolucionárias da nossa literatura continua sendo Memórias póstumas de Brás Cubas, escrito em 1881. Sob o pretexto do lucro, instalou-se a lógica mercantilista dos nichos literários que movimentam as vendas e impõe rédeas curtas à criação.

A leitura e a escrita exigem a imersão absoluta dos seus apóstolos, atitude que afronta o imediatismo ruidoso e consumista dos dias correntes. O século 21 escolheu a velocidade, a dinâmica, as mudanças e a constante evolução. Na contramão, a literatura quer fabricar calhamaços, cultivar a estagnação, teima em ser arcaica. Como essa arte que venera o anacrônico pode sobreviver entre indivíduos que amanhecem ansiando pisar no futuro? Passado é vocábulo morto e o presente é peça de museu num universo onde se vive no amanhã.
A supremacia fotográfica da TV e do cinema fizeram a indústria dos roteiros prosperar. Séries americanas são cultuadas por estarem em sintonia com as expectativas do homem coletivo gerado pela internet. Já os romances, excetuando-se os best-sellers, ganham mais visibilidade quando são adaptados para o cinema ou TV, justamente pelo processo em que são lapidados, num modelo de narrativa ágil e objetiva.

Não é à toa que o conto recuperou o fôlego como gênero literário. Forma breve que transmite histórias, imagens e pensamentos numa configuração que consegue acompanhar as necessidades da prosa moderna. No hiato do ciberespaço a poesia também se reergue com sua índole intrépida, navegando por mares inexplorados.
Editoras que atuam em nosso solo, antes importadoras de títulos estrangeiros, mantêm diretrizes caducas quando condicionam recrutar apenas escritores brasileiros que estejam dispostos a produzir os velhos romances sobre mocinhas. É curioso que novos conceitos se vendam como razão social para a ressurreição de exercícios estéticos bolorentos. Definitivamente, o romance brasileiro não somente estagnou, ele retrocedeu ao abdicar das virtudes retóricas daqueles que fundaram as suas bases estilísticas.
Na verdade, é possível que o século 19 fosse até mais avançado na motivação à criatividade. Gabinetes de leitura, bibliotecas, livrarias e uma fartura de jornais difundiam e propagavam obras literárias. Saraus preservavam o hábito da leitura em voz alta e faziam proliferar os círculos de ouvintes que, no final das contas, engrossavam o conjunto de leitores.
Na internet, as redes sociais e os sites se valem, prioritariamente, da palavra escrita. É do senso comum que a revolução tecnológica valorizou e disseminou o ato de escrever como nunca se teve notícia. No entanto, esse destaque não se expressou em níveis qualitativos; pelo contrário, o texto foi pasteurizado.
Por algum motivo, emerge uma intrigante sensação no espírito humano, relegamos ao esquecimento a nossa mortalidade. Com isso, anulou-se a urgência de registrarmos o que nos rodeia e as impressões que marcam as nossas vidas. Somos X-Mens, Vingadores, Super-Homens, seres mutantes em que se alastra a virulência da alienação.

Atribuem a Cervantes o título de precursor do romance moderno e em Dom Quixote de La Mancha consta um episódio de forte simbolismo na interpretação que Otto Maria Carpeaux expôs no artigo “Cervantes e o leão”. Dom Quixote, com lança em punho, ao cruzar com uma carroça que transportava bravos leões engaiolados, desafiou o carroceiro para que abrisse uma das jaulas. Receoso, o sujeito abriu a jaula e libertou o macho. O leão saiu, olhou em volta e retornou ao fundo da jaula, desprezando o atrevimento do cavaleiro da triste figura.

Carpeaux explica que aquele leão não é o símbolo da realidade triunfadora, é um bicho medroso e banal que prefere o conforto seguro do aconchego, mesmo que seja na jaula. Assim se comportam as editoras e os jovens autores que se submetem aos grilhões do mercado: desprezam a audácia em favor do bálsamo morno do óbvio e da vaidade. A vanguarda é para os ousados.
O filósofo húngaro Georg Lukács classificava o romance como uma epopeia burguesa e analisava com rigor o contraponto entre narrar e descrever. Para ele, a narrativa constrói o objetivo social do romance. Infelizmente, se considerarmos Lukács, somaremos outro ponto negativo para a literatura fabricada por nossos autores neófitos, sempre mais afeita às minúcias descritivas que compõem o quadro alienante.
Haverá os que acusarão este articulista de se empenhar numa crítica generalizada. O que se vê quando subimos ao alto de uma montanha? A paisagem que predomina ou os pequenos recantos camuflados? A regra obstrui as exceções. Importa ressaltar que o romance viveu diversos dilemas e a partir deles se renovou.
Que um Quixote se insurja entre a geração Blade Runner e traga à luz a obra que irá mapear o território cibernético do homem virtual. Que em um de nós, replicantes, haja o destemor capaz de romper o vácuo do status quo.


*Alexandre Coslei é jornalista carioca, agregando formação em Letras pela     Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ



O CONTO DA SEMANA

Sábado (conto) de Marilena de Castro*

Img: Reprodução


Na noite de meu aniversário, enquanto apagava a vela do bolo, a camisola esquecida no banheiro tornou-se chamas. Corri até lá e esbarrei com Eliza. Ela estava com um cigarro aceso e um sorriso manso. Nunca fomos amigas. O nosso relacionamento era através de Paulo. Suas visitas eram sempre para pedir receitas para ansiedade e depressão. Queixava-se muito de Carlos para Paulo.

Eu sempre fora cética em relação às reclamações de maus tratos sofridos por elas e pelos filhos – ceticismo que persistiria, se não fôssemos a um jantar no apartamento do casal. O prédio parecia mais velho do que era. Térreo sem cor janelas com grades grossas descascadas. Dentro o ambiente me despertou angústia mal iluminado e abafado. A mesa fora coberta com linho branco castiçal com velas acesas pães uvas outras frutas de época vinho e peixe. Nos cantos da sala livros amontoados, discos de vinil empoeirados, junto de uma velha vitrola, caixas vazias e cadeiras quebradas. E ao redor da mesa, os filhos varões usavam o quipá como se pesasse sobre a cabeça e o dono da casa, Carlos, lia um trecho da Torá. De olhos baixos, Eliza e as meninas tinham as cabeças cobertas com lenços brancos. Escutavam atentas e cansadas. Logo rezariam as orações do sábado. Tudo ali parecia transitório.

E a mulher de olhos azuis expressivos, mãe de quatro filhos, sem ar, desmaiara. Havia tanta tristeza em seus olhos como os matizes escuros de uma noite sem luar. Cigarro aceso, muita fumaça, pouco ar, vida sufocada, sem ar. Eliza vai morrer, dizia choroso Carlos.

O diagnóstico não tardou: era câncer no pulmão. Talvez tenha sido mais carinhoso com a morte do que com a vida.


*In Contos de Oficina, p. 37/38



PANORAMA LITERÁRIO


Ferreira Gullar é eleito para a ABL


Maranhense vai ocupar o lugar do poeta e tradutor Ivan Junqueira


Gullar é eleito para a ABL
Foto: Divulgação

  
“A minha entrada para a academia é uma grande transgressão comigo mesmo”, disse nesta quinta-feira (9) o poeta maranhense Ferreira Gullar, de 84 anos, após ser eleito para ocupar a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro. O titular anterior da cadeira era o poeta e tradutor Ivan Junqueira, que morreu em 3 de julho deste ano. Gullar obteve 36 dos 37 votos possíveis - houve apenas um voto em branco. Dezenove acadêmicos votaram pessoalmente e 18 enviaram sua escolha por carta. A cerimônia de posse deve ocorrer até o fim deste ano.

Fonte: Folha de S. Paulo - 09/10/2014 - Felipe Werneck



Relançamento do livro ‘O que há por trás das coxias?’
  

O relançamento do romance "O que há por trás das coxias?" de Fabiana Guimarães acontece nesta segunda (13), às 19h, no Caffè Trieste do Shopping Plaza (Recife), com apresentação do monólogo ‘Teatralizando Bandeira’, pela própria autora, em homenagem ao poeta, na data de seu falecimento. “A narrativa do romance tem como palco uma cidade chamada Pasárgada, onde o inimaginável acontece no decorrer da trama bem urdida. Cenas surpreendentes surgem das atitudes e reações dos personagens, que são muito bem construídos e alicerçados na complexidade do ser humano - uma crítica aos poderes constituídos.”



Escritor francês leva o Prêmio Nobel de Literatura


Patrick Modiano tem publicado no Brasil ‘Filomena Firmeza’, lançado pela Cosac Naify
  
Escritor francês Patrick Modiano
Foto: Divulgação


A Academia Sueca anunciou nesta quinta (09) o Prêmio Nobel de Literatura. O laureado é o novelista francês Patrick Modiano “pela arte da memória com a qual ele evocou os destinos humanos mais inapreensíveis e descobriu como se vive sua ocupação”. No Brasil, Modiano tem publicado o infantojuvenil Filomena Firmeza, pela Cosac Naify. Pela Rocco, lançou Ronda da noite (1985), Uma noite de Roma (1986) e Meninos valentes(2003), todos esgotados. 

Fonte: PublishNews



Pessoa em documentário


Filme cria retrato do escritor a partir de leitura de poemas

Cleonice Berardinelli e Maria Bethânia
Foto: Divulgação


Estreou na segunda-feira (6), no Festival do Rio, o documentário O vento lá fora um retrato do poeta Fernando Pessoa criado a partir da leitura de seus poemas pela imortal Cleonice Berardinelli, 98 anos, reconhecida como a maior especialista em Pessoa no Brasil, e pela cantora Maria Bethânia. Apresentada ao público uma única vez, na FLIP 2013, a leitura foi filmada no estúdio da Biscoito Fino durante dois dias pelo diretor Marcio Debellian. O roteiro do filme se constitui pela costura dos poemas com conversas sobre a obra do Pessoa, ressaltando aspectos da personalidade de seus heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.
  
Fonte: PublishNews



domingo, 5 de outubro de 2014

GERAÇÃO 65 ― RELICÁRIO DE LEMBRANÇAS

por José Luiz Mélo*


““Geração 65” refere-se aos autores e suas obras, surgidos antes e depois daquele ano, que no dizer de César Leal, poeta e crítico literário, foi um marco irreversível na história da cultura brasileira”.
  

Foto: 1963/Jaboatão – PE/Redatores do Jornal Dia Virá. Acima, da esquerda para a direita: Raul Gadelha, José Luiz Mélo, Severino Bernardino. Abaixo: Jackson Vieira, Alberto da Cunha Melo e Edivar Bernardino (Arquivo e foto cedidos por José Luiz Mélo).



Sou um sobrevivente. Próximo ano, desde sua natividade, a “Geração 65” completa os 50 anos. Considerando-se que a vida média dos homens brasileiros se estende aos 71 anos, eu, quem para o ano inteiro os 75 me considero um sobrevivente. E dou vivas por isto, pelo que pude testemunhar dos momentos de transbordamento que viveu nossa Província, se alongou pelo País e se não deu voltas ao mundo que é muito largo para isto, muitas jornadas fez pelo mundo afora, que não sou de prosa nem de contar histórias.

Próximo ano certamente se comemorará estas bodas. Sugiro para isto a mesma data da celebração dos 30 anos, assim teremos completa a data do natalício com dia mês e ano para os pósteros a celebrarem no futuro.

Dia 26 de setembro passado, o Instituto Histórico do Jaboatão, pelo seu Presidente Ivaldo Montarroios e equipe, realizou um workshop sobre a “Geração 65”, que contou com minha participação, do escritor Raimundo Carrero e da ensaísta Cláudia Cordeiro. Trago agora uma síntese de minha apresentação.

“Geração 65” refere-se aos autores e suas obras, surgidos antes e depois daquele ano, que no dizer de César Leal, poeta e crítico literário, foi um marco irreversível na história da cultura brasileira. O poeta e ensaísta Ângelo Monteiro, ainda, de uma maneira muito feliz, anota que a característica desta geração vem ser antes a diversidade de pressupostos estéticos do que a homogeneidade de princípios que costumam diferenciar uma geração de outra.

Um fato que favoreceu o surgimento da chamada “Geração 65” foi o espaço oferecido pelos suplementos literários do Diário de Pernambuco dirigido pelo Professor César Leal, e o do Jornal do Comércio pelo poeta pernambucano de Pesqueira Audálio Alves, os quais se não cansavam de promover novos valores, abrindo-lhes às páginas para que publicassem seus trabalhos.

Muitas vezes me perguntei que motivos levaram o Professor Tadeu Rocha definir 1965 como o ano símbolo desta Geração. Ele usou pela vez primeira a denominação “Geração de 65”, creio, na quarta edição do seu livro “Roteiros do Recife: Olinda e Guararapes” publicado em 1970, por conseguinte, cinco anos depois do ano de 1965 com o qual ele denomina a Geração. O Professor Tadeu lavrou o atestado de nascimento da Geração com as seguintes palavras: “A mais nova geração literária da metrópole do Nordeste – a geração de 65 –.”, que depois passou a se chamar de “Geração 65” modo como ficou conhecida e divulgada desde então.
        
Ora, foi em 23/01/ de 1966, ano seguinte ao de 1965, que se deu a 1ª. Publicação de poemas de Jaci Bezerra, no DP, os Sonetos da Procura, logo depois, no mesmo DP, foram publicados poemas de Alberto Cunha Mélo, um e outro ícones desta Geração. Ainda, em 1966, a Revista “Estudos Universitários”, também dirigida pelo Professor César Leal iniciou a publicação em separata dos novos autores. Naquele ano, publicou o “Círculo Cósmico” de Alberto Cunha Mélo. Ano seguinte o livro “Romances” do Jaci Bezerra; em 1968 o “Cancioneiro” de Marcus Accioly e em 1969 a “Oração pelo Poema” do Alberto Cunha Mélo.

Vê-se, portanto que todas estas publicações foram feitas após o ano de 1965, estabelecido pelo Professor Tadeu Rocha como marco da Geração.

Então, me pergunto, porque o Professor Tadeu Rocha chamou de 65 a nova Geração, quando assim a denominou pela 1ª vez?

Talvez, como um ponto de convergência dos autores que vinham de antes e dos que se seguiram depois, preferiu a escolha de um quinquênio, metade de uma década, para alongar a perspectiva da existência daquela Geração, ou ainda, para fazer contraponto a Geração Pós Modernista de 1945, vinte anos antes, dois números redondos para demarcar as gerações.

O ano de 1965 foi o ano anterior à minha formatura e casamento. Os afazeres dos últimos anos do curso médico nos afastavam do convívio diário. No entanto, apesar de com menor frequência, minha convivência com a Geração se estendeu por mais alguns anos, seja nas livrarias e bares do Recife, ou em minha casa, em Jardim São Paulo, bairro em que moravam Jaci Bezerra e sua musa, Rosa Matilde, aluna como ele do Colégio Rodolfo Aureliano em Jaboatão.

Lembro, naquelas tardes em Jardim São Paulo, do Jaci, Alberto, Domingos Alexandre, Almir Castro, Targino, do nosso entusiasmo quando ouvíamos um e outro recitar seus poemas.
                    
Passo agora para outro fato que me chama a atenção sobre a “Geração 65”.

Em relatos se lê que a mesma iniciou com o então chamado “Grupo de Jaboatão”. Este, constituído de alguns jovens poetas daquela cidade metropolitana, entre os quais me incluo e Alberto Cunha Melo, morávamos em Jaboatão Sede, enquanto  Jaci Bezerra e Domingos Alexandre moravam no distrito de Cavaleiro.

Fomos despertos para o encantamento do verso nas longas conversas ao largo da extensa mesa da sala onde morava o Professor Benedito, pai do Alberto, na Rua Barão de Lucena, onde hoje me parece funciona uma Loja Laser, nas noites mal iluminadas da cidade que o amigo comum, o alagoano de Murici Jaci Bezerra imortalizou num soneto de 1966 que não posso deixar de transcrever.


SONETO TODO AZUL EM JABOATÃO

Abro meu guarda-chuva na Avenida
Rio Branco. Não chove, quero apenas,
Passar devagarinho pela vida
Com minha roupa azul, sem causar pena.

A minha poesia indefinida
Ficará só. Não ofendi ninguém.
Nela deixo Minh ‘alma repartida
Com os amigos que me querem bem.

Gediael, Alberto, Zé Luiz!
Não esqueçam seu velho camarada
Quando a Noite vier, eu não a quis!

Mas não precisam ficar tristes, não.
Hei de vir acender a madrugada
Nas ruazinhas de Jaboatão.


Este belíssimo poema o coloquei no preâmbulo do meu livro, “Proibições e Impedimentos” publicado pelas Edições Piratas” em 1981.

Volto, após esta digressão, a falar sobre o chamado Grupo de Jaboatão e a Geração 65.

Divergindo do que ouço dizer eu não considero que a “Geração 65” tenha sido iniciada por nós, de Jaboatão. De nossa parte não houve intenção, ou propósito. Então, poucos anos antes de 1965 nosso mundo era o Romance, o Parnaso, os simbolistas, o soneto escrito com apuro. Nosso Jornal, o “Dia Virá”, do qual nosso amigo, Jackson Vieira, fundador do IHJ foi Presidente, onde publicávamos nossos versos, nossas crônicas, Alberto, sob o pseudônimo “Joseph de La Rue”, encantava todos em sua coluna “Coisas da Vida”. O nosso Universo era as nossas paixões, um desejo quase anárquico de contestar os valores estabelecidos, quaisquer valores, naqueles anos conflagrados de 60, e nossas musas, que nos enchiam a alma de poesia e de perfume nossos versos.

Digo que a “Geração 65” não iniciou conosco de Jaboatão, apenas estávamos lá, naquele momento e nos juntamos aos que vinham de antes, aos que chegaram depois, naquele ponto de encontro que nos reuniu a todos naquele vento que redemoinhava e espanava salpicos de luz pelos cantos, no que se chamou de “Geração 65”.

Éramos nós, então, em Jaboatão, iguais outros milhares, milhões de poetas anônimos em nossas cidades, nas capitais, nas cidadezinhas situadas nos sertões mais distantes, escrevinhando seus versos num alvoroço de almas, ansiosos pelo aplauso que esperavam no afã de ser, no dizer de Drummond, “Poeta Municipal,” para publicar seus versos no periódico mensal de sua cidade, que outro lugar não sonhavam mais alto no Olimpo da Poesia.

Quem sabe qual o destino dos jovens de Jaboatão, se os sonetos deixados no Diário de Pernambuco por Jaci Bezerra, um dos nossos, encabulado e contrito ao entrar naquele Templo onde se julgava indevido de penetrar, lá não estivesse o Poeta César Leal. É possível que os versos deixados por Jaci na redação do Diário, amarfanhados de tanto terem sido lidos e relidos, não seriam vistos, possivelmente depositados no ostracismo de uma gaveta mal fechada ou mais facilmente sepultados na cesta destinada aos entulhos dos não apadrinhados.

Nós, de Jaboatão, naquela época, apenas nos juntamos à Geração até então inominada, que vinha de antes. Mar crespo onde se não lhe divisavam as cristas interiores, mergulhamos nele, e deixamo-nos levar.

Entretanto, na condição de jaboatonense que vivi aqueles anos, devo recordar para os conterrâneos, trazer para os de fora, em rápidos traços como se com receio de me faltar tinta para a pena, lembrar lugares, pessoas, fatos que continuarão para sempre na saudade independente dos trens do tempo que passem sobre nós.

Deste modo, venho, neste espaço que me ofereceu o “Domingo com Poesia” como relicário de lembranças dos jovens que na época, 60 anos passados, nas ruas e praças de Jaboatão, em suas noites e madrugadas, experimentavam da vida o seu sabor mais vasto, e dela, da vida, faziam argamassa para sua caminhada.
 
Para não me alongar nestas divagações e enfastiar quem me lê, vou me cingir a recordar pessoas que nos influenciaram, fizeram-nos despertar para o encantamento dos versos, o encanto com as palavras.

No centro de Jaboatão, onde hoje se encontra a praça com o busto do saudoso Juiz, Dr. Luiz Regueira, tínhamos o bar que durante muitos anos dominou a vida boêmia da cidade, o chamado “Chapéu de Barreto”, de forma oval, e em torno do qual os ônibus azuis da Viação União giravam no seu entorno de volta pela Av. Barão de Lucena para o Recife.

Lá, todas as tardes, estavam os poetas da época, que nos despertavam respeito, o desejo de se encontrar entre os mesmos, dos quais nos acercávamos para ouvir-lhes os versos, em silêncio, numa veneração.

Raphael Peixoto, Josa Vilella, Dr. Vadinho Neves, Heraldo Ramos, José Gomes, o poeta vaqueiro, Alberes Cunha, entre outros frequentavam àquela mesa que Manoel, o garçom e gerente servia solicito a tarde inteira.

Então, as formas preferidas dos poetas, eram o soneto e as quadras, como trovas, das quais, “As trovas e trovoadas”, do Professor Benedito são lembradas até hoje.

Não recordo o Professor Benedito frequentando “O Chapéu do Barreto.” Passava o dia no Ministério do Exército onde trabalhava. Nas tardes, quando de volta, se dedicava a ministrar aulas de português aos alunos que o procuravam em sua casa.

De Moreno, cidade vizinha, lembro Enéas Alves, exímio sonetista, de quem guardei de lembrança um soneto na primeira vez que o li, e que também quero aqui registrar.

Deu ao soneto o título de “Mulher”, ele Enéas, com oitenta anos, encontrou a forma perfeita para descrever o ser de nossa devoção, seja mãe, filha, amante, esposa.


MULHER

Tem a rosa em seu íntimo a envolvê-la,
Qualquer coisa mirífica qualquer
Cunho divino, albor de rosicler,
Perfume d’alma, despertar de estrela.

Mas se a rosa, contudo não quiser
Ver beleza maior surpreendê-la
Claridade capaz de escurecê-la
Não se exiba em colo de mulher.

Mulher, lírio de paz, obra mais bela
Que o estrelário eternal que o céu constela
Do mundo iluminando os mil abrolhos

Quando morrer de Minh’ alma a angústia arredo,
Se uma voz de mulher rezar-me o credo
Se dois dedos de mulher fechar-me os olhos.


Nossa primeira experiência literária, adolescentes em Jaboatão na época, foi o convívio no “Grêmio Lítero Recreativo dos Estudantes do Jaboatão”. Depois, após a efêmera vida do Grêmio, passamos a nos encontrar na casa do Professor Benedito, o pai do Alberto.  Na sala da frente, a larga mesa, as conversas se estendiam noite adentro, poesia era o mote, Cruz e Souza, Jorge de Lima, Raimundo Correa, entre muitos, eram os vultos que habitavam àquelas paisagens.

Então, o modernismo, os novos, não chegavam até nós, e as primeiras notícias que nos vieram não nos agradaram por transgredirem a forma, a métrica, a rima que venerávamos e sem elas, então, não acreditávamos haver poesia.

Naqueles anos tortuosos, começo dos anos 60, efervescia o caldo social no País. Passeatas dos camponeses; as greves na Portela; o Pe. Paulo Crespo, pároco da cidade e sua prédica social. Na mesa do Professor, debaixo dos seus olhares entusiasmados, nascia o “Dia Virá”, um jornal de estudantes em cuja redação rivalizávamos na busca de uma manchete mais incendiária.

No jornal, dois precursores do Grupo que veio chamar-se “Grupo do Jaboatão. Alberto e José Luiz, e mais Jackson, Paulo José, Severino e Edward Bernardino, Ivo Oliveira, Raul Gadelha, Lucia Nadalete.

Com a quartelada de 1964, o Grupo do Dia Virá se desfez, no entanto, na mesa do Professor Benedito, outros vieram a sentar, logo, logo, na busca daquela seara que a messe pródiga tinha muito que colher.

Domingos Alexandre, Jaci Bezerra, Pedro Virgulino, estudantes do Colégio Rodolfo Aureliano, se incorporavam na mesa, como se sempre estivessem ali, desde o começo para todo o sempre.

Interessante, quase não me lembro de frequentarmos o “Chapéu do Barreto”, templo que tanto sonhamos alcançar um dia.

Nosso refúgio era outro, mais modesto, o “Bar do Toinho”, que ficava aberto até às altas horas, esperando os boêmios retardatários para o último trago, aquecer a alma, de volta a casa.

Pedro, perseguido pela repressão saiu do Estado. Continuamos os quatro, Alberto, Jaci eu e Domingos Alexandre em nossas tertúlias, escrevendo nossos versos, lendo os suplementos literários dos jornais do Recife, conhecendo os novos autores, os modernos, aceitando e admirando-os, no entanto ainda reclusos em Jaboatão.

Foi, quando Jaci, em janeiro de 1966, levou seus sonetos e deixou-os para que César Leal os conhecesse, esquecido no entanto em deixar seu endereço, obrigando César Leal convidá-lo pelo jornal . Depois, todos sabem o que aconteceu, e que Luci Alcântara conta muito bem no seu longa,― “Geração 65, foi àquela coisa toda”.

O resto da história, que não tem um começo, meio ou fim, deixo para Cláudia e Carrero contarem. Antes, porém, quero lembrar uma face da poesia de Alberto que me parece ele não quis tornar conhecida. Falo dos seus sonetos. César Leal, em uma de suas “Resenhas” publicadas no Diário de Pernambuco, em 1966, sob o título “Dois Poetas Novos”, assim se refere ao falar do soneto: “O soneto, desde que foi inventado no fim da Idade Média, não há grande poeta, em todos os séculos, que o não tenha cultivado: Dante, Petrarca, Camões, Shakespeare, Goethe, Lorca, Cummings, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade”. E conclui: “Não será isso uma demonstração da sobrevivência do soneto através dos tempos?”

Os sonetos de Alberto, pelo que me parece, estão esparsos. Alguns publicados no “Dia Virá”, outros, certamente, em velhos manuscritos desbotados pelo tempo. Trago para Cláudia a sugestão de resgatá-los. Dentre eles, escolhi um. No seu último verso, na chave de ouro, inscreve a síntese da paixão e ciúme que incendeia os corações enamorados.


SEPARAÇÃO

Eu disse apenas que você mentia,
Que mentia ao dizer que me adorava;
E só disse, meu bem, porque queria
Medir o coração que me ofertava.

Subestimando o amor que me trazia,
Sem querer esse amor eu afastava
E, querendo aumentá-lo num só dia.
Num segundo, talvez, ele acabava.

Tive culpa do fim, mas, certamente
A lição que nos deu a mocidade
Servirá nesse mundo a muita gente:

Dois corações que se amam de verdade
Podem, juntos, amar-se intensamente,
Mas não amam com a mesma intensidade.



*José Luiz Mélo, jaboatonense, é médico e poeta, pertence a “Geração 65”



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