domingo, 15 de abril de 2018


I SARAU VIRTUAL



Participações
Júlia Lemos, Juareiz Correya, Luiz Manoel Siqueira,
Maria de Lourdes Hortas e Vernaide Wanderlei




JÚLIA LEMOS

“A Poesia para mim significa todas as palavras que, como artista, encontro, pois trabalho com suas renomeações. Dou outro nome às coisas, ao mesmo tempo em que trago a palavra como a coisa com que vou me reidentificando”. 


O OFÍCIO


Escrevo pelos que estando à frente da batalha
tiveram medo.

Carrego comigo a voz daqueles que se
viram impedidos.
Escrevo, afinal pelos distraídos,
os ausentes, os perdidos.

Acredito que um poema se faça necessário
naquela tarde em que as certezas se esvaem todas
e pelas rimas pode-se ver a história por outro prisma.

Ordinariamente escrevo com alegria,
minhas palavras não murcham como as flores
diante da tristeza.

Escrevo sobrepondo outra página
num desfecho que parecia irreversível.



JUAREIZ CORREYA

“A Poesia, de tudo e de todos - e não apenas os versos que escrevo -,
faz o meu coração ser melhor.  Acredito que a Poesia é a palavra 
mais humana da existência.” 


SÓ OS POETAS TÊM LÍNGUA

“Minha Pátria é a minha Língua”
(Fernando Pessoa)

Tua Pátria é a Língua Portuguesa,
Fernando Álvaro Alberto Ricardo Pessoa.
A minha é a Língua Brasileira
com tudo de português e índio e negro que nela há.
Só os poetas têm Língua,
tu sempre soubeste disto.
A maioria dos homens não sabe nem quer saber
o que é uma Língua
(nem o valor que a Pátria tem).
Os doutores têm as suas Ciências
- o que não é uma Língua.
Os analfabetos não têm credo nem nada
- o que não é uma Pátria.

Só os poetas têm Língua
e os homens que só escrevem
- mas não escrevem versos –,
escrevem em qualquer língua
mas não escrevem a sua pátria.

Outra língua identifica qualquer homem
mas não identifica um poeta:
só a sua própria Língua
revela o poeta e a sua Pátria inteira.

(Do livro inédito POEMAS DO NOVO SÉCULO)



LUIZ MANOEL SIQUEIRA

“Poesia é procura. Interpretação da vida. Escultura de signos. Linguagem cósmica. Poesia é uma provocação de jardim.”


ESCOLHA

Exatamente por ser feio
exatamente por ser sujo
exatamente por ser pobre,
esquecido, caramujo.

Exatamente por ser triste
completamente solitário
por ser sempre negativo
evasivo, imaginário.

Exatamente por ser claro
perfeitamente cristalino
diferente, do contrário,
perigosamente lindo.



MARIA DE LOURDES HORTAS

“Penso que a poesia é, antes de tudo, um dom, um talento,  uma forma de ver o mundo, algo que  já  nasce com o poeta. Estão aí os grandes poetas populares que atestam isso.  O poeta é, ou não é. Não se aprende a ser poeta. As oficinas podem lapidar aqueles que já tenha em si aquilo que Drummond chamou de "o sentimento do mundo". Mas não lhe darão o poder de registrar a essência e  a atemporalidade do ser.”


LITURGIA*

Eu vos agradeço, ó deuses, este luar
agridoce
ardência de vinho maduro tinto
sobressalto
rio solto
despencando sobre matas e abismos.
Eu vos agradeço, ó deuses
por me terdes deixado cair em tentações:
seja feita a vossa vontade
assim no céu
como no chão.


*In: Fonte de pássaros



VERNAIDE WANDERLEI

“Talvez fosse simples assenhorar-me de alguma teoria literária existente sobre poesia/poema. Não vou por aí! No máximo, poderia dizer junto com Alberto Cunha Melo, no prefácio de meu 1º. livro: “Poesia é algo borbulhando, é mão e músculo na massa quente da vida!” Mais precisamente, encaro a poesia como um belo e sagrado ofício! Como a forma de comunicar-me com o espaço dos homens - universal, país e aldeia. No plano mais íntimo, a poesia é a forma aproximada de entender as múltiplas e facetadas mulheres que me habitam e delineiam minha visão de mundo!”

Recife, 19/03/2018


RESPEITO À VOLTA*

Voltar,
quando o portão é rosto amigo
as avenças um tempo que cresceu
ou quando mangas já fizeram
visgo na rosa que ficou

Voltar,
sempre poder voltar,
por mais que essa distância
seja um sol de muitas léguas
ou alfinetes que brotaram

Voltar,
voltar e nunca mais ter medo
da velhice encostada nos birôs
ou que as saídas de vidro hoje
sejam grades quase foscas

Voltar,
presa apenas no mormaço
das copas em leque feitas
e desentulhar as prateleiras
com o brilho que se trouxe

*inédito, "Poesias Reunidas"
















domingo, 25 de março de 2018


ZOOM




As notícias passam aqui, dê um zoom




“POESIA COMPLETA” DE ALBERTO DA CUNHA MELO


Fotos: Márcia Cordeiro
College: Natanael Lima Jr.


No último 6 de março de 2018, na Livraria Cultura, no Auditório Eva Herz, no bairro do Recife Antigo, aconteceu o lançamento do livro  “Poesia Completa de Alberto da Cunha Melo”. A programação contou com um painel com as participações dos escritores Hildeberto Barbosa Filho (PB), Nelson Patriota (RN), Luis Manoel Siqueira (PE) e Cláudia Cordeiro. Contou também com a arte de Newton Messias e de Myriam Brindeiro, acompanhada ao violão de Antonio Guedes, da lira paulista representada pela poeta Nilza Azzi, no auditório, um público seleto formado por amigos e simpatizante da poética do nosso poeta. (Texto extraído da página do poeta Alberto da Cunha Melo: https://www.facebook.com/albertodacunhamelopoeta/ )
Acompanhe mais notícias sobre o lançamento acessando o site oficial do poeta Alberto da Cunha Melo: http://www.albertocmelo.com.br/




“A EXPOSIÇÃO DOS SÓIS” (POEMAS), DE JÚLIA LEMOS




O novo livro da escritora e poetisa Júlia Lemos “A exposição dos sóis” (poemas) já está nas principais livrarias da cidade. Editado pela Penalux e com o apoio da “Casa” – Agenciamento literário e projetos culturais. A obra é prefaciada pela escritora Maria de Lourdes Hortas, com depoimentos da pesquisadora Bete Gouveia e do poeta e editor Juareiz Correya. A coletânea de poesias autorais nós dá a possibilidade de um rico encontro de referências por tudo que se move e que se banha da luz solar! Mais informações: https://www.facebook.com/autorajulialemos/posts/15324250968675933



ESCRITA LITERÁRIA



‘A Escrita Literária’ é a oficina que será ministrada pelo escritor Sidney Nicéas. A metodologia constará de aulas interativas, vídeos, encenações, análise textual e produção escrita. A oficina iniciará em março (24) e irá até junho/2018. Maiores informações através do fone: 3241-2959



REVISTA CONTINENTE INDICADA AO PRÊMIO ABCA




Publicação da Cepe Editora foi apontada na categoria difusão nas artes visuais na mídia em 2017 pela Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA)
A Revista Continente, publicação mensal da Cepe Editora, foi indicada ao prêmio da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) na categoria difusão nas artes visuais na mídia em 2017.  “Um prêmio é uma presença, um prêmio é um presente”, declara a jornalista, professora universitária e editora da Continente, Adriana Dória Matos. Para ela, “estar entre as indicações ao prêmio de difusão das artes visuais na mídia da ABCA significa que estamos nos fazendo presentes numa área de produção artística no Brasil tão forte e significativa e, ao mesmo tempo, carente de público, de compreensão e apreço num escopo mais amplo que o do público assíduo e especializado”, observa.
No mercado editorial desde 2000, a revista concorre com outras duas finalistas - Dasartes e Rádio USP - ao Prêmio Antônio Bento, cujo vencedor será conhecido no dia 18 de abril, e a cerimônia ocorre dia 22 de maio, em São Paulo, com entrega de troféu confeccionado pela artista Maria Bonomi.
Segundo a ABCA, os prêmios são atribuídos a partir de votação de 150 associados em nível nacional. Essa votação é feita em cédula rubricada após a indicações já haverem sido aprovadas. Já a apuração dos resultados é realizada por uma comissão de associados, incluindo a participação da diretoria.

*Texto enviado pela assessoria de imprensa da Cepe



PANAMERICA LIVRARIA



A Panamerica Livraria anuncia sete novos lançamentos em 2018: Antologias Poéticas da Mata Sul e do Recife, Pequenas Histórias de Atlântica, de Juareiz Correya, O poeta e o seu ofício, Paulo de Carvalho, Poesia reunida, de Vernaide Wanderlei, Fragmentos, de Cynthia Cisneiros e Poesia reunida, de Lourdes Sarmento. Informações: Juareiz Correya “Panamerica Nordestal Editora/ Panamerica Livraria” (www.panamericalivraria.com.br)



CEPE LANÇA EDITAIS DE PRÊMIOS LITERÁRIOS NACIONAIS



A Companhia Editora de Pernambuco – Cepe reforça o incentivo à produção literária com os Prêmios Nacionais de Literatura Infantil e Juvenil e de Literatura, que contempla as categorias de Romance, Conto e Poesia.
Para a categoria Infantil serão aceitas obras voltadas para leitores iniciantes e em processo (a partir de 6 e 8 anos, respectivamente). Já a categoria Juvenil, serão aceitos trabalhos voltados para leitores fluentes ou críticos (a partir dos 10 e 12 anos, respectivamente). As obras poderão pertencer a gêneros narrativos ou poesia desde que voltados para o público previsto no edital. 
Poderão participar dos prêmios literários da Cepe brasileiros, residentes no país ou no exterior, bem como estrangeiros naturalizados residentes no Brasil. Os interessados poderão inscrever apenas uma obra inédita (original não publicado parcial ou integralmente), escrita em português e com tema livre.

Tenha acesso aos editais aqui: http://bit.ly/Editalpremios



CIDADE DOS KARIANTHOS



Cidade dos Karianthos é o décimo livro do escritor Valdir Oliveira. Trata-se de um romance para crianças e jovens, com uma versão impressa e uma versão em áudio.  Vinte e cinco atores participam do audiolivro cujas gravações aconteceram em 2017. O processo começou com o trabalho de preparação do elenco e criação de trilhas sonoras e efeitos especiais. O Incentivo é do Funcultura.

SINOPSE
Cidade dos Karianthos tem como personagem central Kauy, que conduz a história narrando a jornada em primeira pessoa.  Ele não imaginava que sua tia e seu padrasto fossem capazes de tramar tantas maldades por pura ganância. Mas os planos começam a ser ameaçados quando Lâmpada, um objeto falante, o encontra nas redes sociais e revela que deveria sair em uma grande jornada até Karianthos, para encontrar seus pais que ainda estariam vivos, mas não em formas humanas. Um mistério que Kauy só poderá desvendar na companhia de Luane que o acompanha numa aventura de amor e de muito perigo em dois mundos completamente diferentes: o real e contemporâneo e o fantástico caminho da misteriosa Cidade dos Karianthos.

VERSÃO IMPRESSA e ILUSTRAÇÕES

A versão impressa da obra leva o selo da editora Escrituras, de São Paulo, que fica responsável pela distribuição do livro em território nacional. O livro tem  três partes: A FRUTA DA VIDA INFINITA, O SEGREDO DAS ÁRVORES E GARTANTA DA SERPENTE. As ilustrações e capa são de Bruno Gomes. Bruno já ilustra para várias editoras do país e além das ilustrações de abertura das três partes do livro, também preparou várias vinhetas que serão distribuídas nos capítulos.

AUDIOLIVRO
Elenco
Também foi produzido audiolivro com interpretação dos personagens centrais pelos atores Tatto Medinni, (Kauy) e Melissa Baraúna (Luane). No elenco também estão nomes conhecidos como Marília Mendes (Dona Aufânia), Roberto Vasconcelos (Sr. Deodor), Beta Ferralc (Dona Bambuzeira), Adriano Cabral (Sr. Melan), Renata Phaelante (Sra. Karianthos), Washington Machado (Sr. Karianthos), Ismael Holanda (Lâmpada), Luiz Bringel (Rato Kiut), Silvia Delange (Sra. Atineia), Marcos Araújo (Sr. Arturo), Janilson Puran (vendedor de canetas), Valdir Oliveira (Sr. Lingardo) entre outros.
O livro está à venda Online nas principais livrarias do Brasil. Nas livrarias SBS (Unicap) e Ponta de Lápis (Olinda) o preço com incentivo do Funcultura é de de 20 reais.

Contato:
Valdir Oliveira
(81)96623403
www.valdiroliveirasantos.blogspot.com






DJANIRA SILVA E SEUS JARDINS DE VERSOS



Por José Luiz Mélo






Escritora Djanira Silva
Foto: reprodução



Deparei-me com o nome Djanira Silva pela primeira vez, quando na Cultura Nordestina, templo das letras e das artes desta nossa cidade do Recife, eu vinha serpenteando entre suas estantes e tropecei, (e este é o verbo que devo usar, com o sentido de alguém que vem desatento e súbito um obstáculo, ou neste caso, uma forte emoção lhe faz parar e voltar ao real, ou ao imaginário), num livro, humildemente postado, quase de joelhos, entre outros imponentes volumes de uma estante.

Na lombada do livro, impresso: “Sonetos”. Tomei-o nas mãos, uma encadernação em capa dura; para fazer vis ao carinho de sua edição, letras douradas; sobranceiro o nome “Djanira Silva”, da autora, em gótico florido e logo abaixo, traçado numa caligrafia bem pautada, também em dourado, o nome do livro: “Saudade Presa.”

Aberto o livro, o que dizer? – a repetição daquele momento que se apresenta cada vez em que nos colocamos diante da beleza, do milagre da criação, e nos sentimos nas planuras vendo mil horizontes em nossa frente e ao mesmo tempo, em todos eles.

Os sonetos de Djanira em nada são tecidos em vestes abotoadas e cerzidas no relevo do verso. Parecem-nos muito mais versos soltos, desapegados do universo da métrica e da rima, entretanto métrica e rima que cabem tão naturalmente nos seus sonetos como membros nativos de um corpo: Braços, pernas, dor, amor, coração.

No preâmbulo do livro, no lado oposto da 1ª. Página, esta belíssima invocação:

Se é para dormir
Que venha o sono
Se é para acordar
Que venha o sonho


REALIDADE

Livros, sapatos, roupas espalhadas
Da porta da cozinha até o portão
Sobre as camas toalhas encharcadas
Marcas de pés molhados, pelo chão
Todas as salas são desarrumadas
A mãe impaciente ralha, em vão
Crianças correm rindo às gargalhadas
Sem darem ouvidos à reclamação
Passado o tempo a casa se esvazia
E a mãe sente saudade a cada dia
Daquela antiga desarrumação
Convive com a dor da realidade
Nas cadeiras vazias a saudade
Casa arrumada pela solidão.


MISTÉRIO ABISSAL

Se nascer e morrer é só um instante
A mesma chama que acende, apaga
Da roda viva o homem itinerante
Num gesto crucial que agride e afaga
Assim a vida em mutação constante
É sempre triste no final da saga
Se nascer e morrer não é o bastante
A moenda da vida nos esmaga
Aqui chegamos sem querermos vir
Daqui partirmos sem querermos ir
Sequer sabemos aonde estamos indo
Este mistério abissal, profundo
Nos faz chegar chorando a este mundo
De onde ninguém jamais saiu sorrindo.


Bem, mas devo seguir:
Foi quando, meio de 2017, comecei a frequentar a enorme sala de estar, (ou terraço?), onde encontramos pessoas sentadas dos mais diversos locais de um mundo que sequer imaginamos existir, e que entre si trocam suas vivências, construindo uma existência plural que se intersecciona e relaciona, superando as diferenças de linguagem e culturais, formando um mundo mais unitário, − o Facebook.

Neste novo ambiente, entre outras pessoas voltadas ao culto das letras, dos sentimentos e da poesia, reencontrei a Djanira.

Desde então, além dos poemas que publica regularmente, tomei conhecimento de crônicas de sua autoria, histórias de vida contadas com tanta leveza que se não sabe onde a vida e a fantasia.

Começo do ano, Djanira publicou algumas destas crônicas, num belo volume denominado de “O Sorriso da Borboleta.”

É deste livro, onde se vê que o encadeamento das histórias é parte também de sua história de vida, que revelo o lírico enredo da tia Celina e sua sobrinha Djanira.


TIA CELINA

Djanira Silva


Levei a sério minhas leituras. Com o tempo transferi os livros para o meu quarto. Neles viajei por muitos mundos. Conheci pessoas de todos os tempos. Amei almas grandiosas que me ensinaram a caminhar entre sonho e realidade, representantes de um passado do qual já começo a fazer parte e a descobrir que não é bom estacionar no agora. Voei nas asas da imaginação sustentada pelas lembranças.

Minhas vivências levaram-me a escrever. Falo pouco de tristezas porque cada um tem as suas, não vão precisar das minhas, assim aprendi com tia Celina que não se cansava de repetir: ninguém quer saber de gente triste.

Minha avó dizia que ela carregava num corpo maduro uma alma menina. Era brincalhona, encrenqueira e boa. Bom humor e presença de espírito não faltavam nas suas conversas.

Um dia fui para o internato e nas férias soube que ela tinha ido para casa de uma irmã no Rio de Janeiro. A princípio mandava notícias, notícias que com o tempo deram lugar ao silêncio.

A presença de tia Celina foi muito importante na minha vida. Ela e suas histórias. Algumas que ouvira, outras que inventava. Tinha um jeito especial de contá-las. Fazia gestos, imitava gente e bicho e nos divertia quando engrossava ou afinava a voz. A figura elegante e o sorriso debochado, jamais sairão de minha lembrança assim como as frases chistosas e a irreverência. Meu pai, extremamente conservador não aceitava seu comportamento. Pediu-lhe, várias vezes para se conter diante das visitas, pedido que ela ignorava. Em almoço oferecido ao prefeito, em nossa casa, no final de sua gestão, ela se superou. No discurso de agradecimento o homenageado, entre outros assuntos, enumerou as obras realizadas na cidade durante o seu mandato. Falando para ser ouvida, ela comentou − não fez mais do que sua obrigação.

Não podia ir a enterros. Acometida por crises de riso, não podia se conter. Não sabia o porquê daqueles acessos.

A catarata a tornara quase cega. De vez em quando dizia: vem cá, menina enfia essa linha na agulha que eu estou com preguiça.

Debochava da velhice – Não é coisa boa mas a gente tem que encarar, dizia rindo e fazendo careta, deixando à mostra os poucos dentes que lhe restavam, amarelados pelo fumo. E acrescentava, a gente nasceu para andar para frente. Ninguém tem dedos no calcanhar.

Eu imaginava como seria tia Celina se tivesse estudado.


DJANIRA SILVA

Vida literária

Iniciou-se nas letras em Pesqueira, nos jornais A Voz de Pesqueira e a Folha de Pesqueira. No Recife colaborou com o Diário de Pernambuco, Jornal do Comércio, Diário da Noite e Folha da Manhã.

Bacharel em Direito

Tem 13 livros publicados, o 1º. deles, em 1980, “EM PONTO MORTO”, poesia, e o último, em 2018, “O SORRISO DA BORBOLETA”, crônicas.

Participa ativamente da vida literária, fazendo parte de várias instituições no Recife, Olinda e Pesqueira. É sócia efetiva da Associação de Imprensa de Pernambuco

Detentora de 9 prêmios literários, 7 dos quais nos gêneros ficção, ensaio e poesia outorgados pela Academia Pernambucana de Letras, dos quais o último, prêmio Edmir Pires de 2014, pela publicação do seu livro “Saudade Presa”

Participa, ainda, ativamente de jornais, revistas e blogs literários.





O MÍSTICO E O ERÓTICO EM BANDEIRA – Parte II



Por Natanael Lima Jr.







Eros e Psiquê
Img. Reprodução




O pernambucano Manuel Bandeira é considerado um dos mais brilhantes poetas modernistas brasileiros, abordou os mais variados temas em sua poética, desde questões sobre o nacionalismo, vida, morte, passando por reminiscências da sua infância, amores, fatos do cotidiano e o erotismo.  Na sua obra encontraremos vários poemas nos quais o místico e o erótico se fundem numa síntese primorosa. Observemos o poema Unidade, cujo título muito bem caracteriza esta comunhão entre o corpo e a alma, entre o místico e o erótico. 


UNIDADE

Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi Verão
O Verão com as suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sôfrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo

Foi então que minh’alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da unidade.


Davi Arriguci Jr., professor universitário, crítico literário, estudioso da obra do poeta Manuel Bandeira, ressalta que, “em Libertinagem, Bandeira une ostensivamente transgressão formal e erotismo” (1990, p. 163). Encontramos também no estudo sobre “Análise semiótica do poema Vulgívaga”, do professor e pesquisador da USP, José Ferreira de Lucena Júnior, o qual aponta que “o sujeito narrativo, no poema, quer estar em conjunção com o gozo físico fornecido somente por um ‘mundo sexual’ não considerado adequado pelos padrões sociais, quer estar em conjunção com a transgressão”. Vulgívaga vem do latim “vulgivagus”, que significa inconstante, vagabundo, que anda por toda parte; que ou quem se avilta ou se rebaixa; que ou quem se prostitui.


VULGÍVAGA

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos.

Fui de um… Fui de outro… Este era médico…
Um, poeta… Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.

Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos, o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie.
Que inspira… E aos tímidos – o orgulho.

Estes, caçôo e depeno-os:
A canga fez-se para o boi…
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!
E todavia se o primeiro
Que encontro, fere a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo… dou dinheiro…

Se bate, então como o estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas quebrada
Do seu colérico arremesso…

E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas…

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico


Assim como Eros apresentara várias faces, Bandeira não foge a nenhuma delas, focalizando-as através da expressão “corpo e alma”, numa tangível unidade entre os corpos:


A ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.





A POESIA ORTOPÉDICA DE FERREIRA GULLAR



Por Frederico Spencer






Img: reprodução




Segundo Aristóteles: “poesia é a arte da imitação da realidade”. Então, segundo o filósofo, todo poeta imita, cria e fantasia a realidade baseado em objetos do seu cotidiano. Sendo assim, Fernando Pessoa joga ainda mais lenha nesta fogueira quando afirma: “todo poeta é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a fingir que é/dor/a dor que deveras sente”.

No caso da poética de Ferreira Gullar, penso eu, existe uma grande interseção entre o que é “real e fantasia” e a “realidade” extraída de seus poemas. Acho que Ferreira com sua poética busca aquilo que é a essência das coisas: tudo que é mais duro e elementar para transformar vida em poesia e assim, acontece nestes dois poemas que escolhi para exemplificação da “verdade” de Aristóteles. Para Gullar ossos são matéria para poema como também são para a vida de todos nós. Vamos à leitura para ver nosso esqueleto como aquilo que realmente somos, será?:


EXERCÍCIO DE RELAX*


Pé direito, meu velho, relaxa,
esquece a inflação,
quero contigo iniciar
esta lenta descida do sono...
Mergulha nele, perna
minha, até o joelho...assim...
e agora,
pé esquerdo,
você também, que nunca fez um gol na vida,
que só topadas deu,
adormece,
afrouxa esse feixe de tendões e ossos e te abre
à paz.
Joelhos meus, pensem
nos oitizeiros
da Avenida Silva Maia
e durmam,
e que as águas do sono subam pelos músculos da coxa
aductor longus, quadríceps femoris
e pelo fêmur
e pelo ânus
e pelo pênis
e me cinjam a cintura.
Deitado, já metade de mim desceu na sombra. A outra
metade
sofre ainda a crise do petróleo.
Relaxa abdômen, que está tudo sob controle, músculos
do peito e dos braços,
abandonem-se,
para que a paz escorra até a palma da mão:
a esquerda anônima, a direita
tão conhecida de mim quanto meu rosto
e que, como ele, mais disfarça
o que eu somos
o que eu sonos
mas que, dentre as hostes celestes, me reconheceria
pelo caralho?
Cala-te, boca,
silencia, maxilar arcaico,
apaga-te, arco-voltaico
do que o verso não diz.
E agora, tu, cabeça,
dura cabeça nordestina,
dorme,
dorme, revolta,
sociedade futura pátria igual,
poema que iluminaria a cidade,
dorme
onde me sonho
(caixa de flores)
E donde espio o mundo
por duas órbitas
e duas pálpebras
que finalmente
se fecham
sobre mim.

*Poema extraído do livro: “Barulhos”, pág. 10



RELEXÕES SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA*


A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também
como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura
ativa de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva
sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio
é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura
têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
e esvanecer-se
para deixar no pó da terra
o osso
o fóssil
futura
peça de museu
o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?

*Poema extraído do livro: “Em alguma parte Alguma”, pág. 31




  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Natanael Lima Jr, Frederico Spencer e José Luiz Mélo