domingo, 13 de abril de 2014

Abril de Poesia

Foto: Alberto e Bandeira


 

O Domingo com poesia homenageia nesta edição dois grandes poetas pernambucanos, Alberto da Cunha Melo e Manuel Bandeira que tem a data de seus nascimentos neste mês de abril, dias 08 e 19 respectivamente.

Alberto da Cunha Melo nasceu em Jaboatão dos Guararapes, foi sociólogo e jornalista, neto e filho de poetas, estreou na poesia com o livro Círculo Cósmico em 1966. Fez parte do grupo de Jaboatão que mais tarde constituiu a Geração 65 de escritores pernambucanos.  Como sociólogo trabalhou na Fundação Joaquim Nabuco. Foi editor do Commercio Cultural do Jornal do Commercio (PE) e da Revista Pasárgada, além de colaborar nas colunas do Jornal da Tarde (SP) e também com a Revista Continente Multicultural.

Dentre os fatos que marcaram a sua intensa atividade cultural, destacam-se a sua atuação nas Edições Piratas (1979 a 1984), movimento editorial alternativo, criado por poetas pernambucanos que publicou mais de 300 títulos de autores novos e consagrados. Foi também o maior incentivador do Movimento de Escritores Pernambucanos. Foi criador e organizador do Prêmio Anual de Poesia Carlos Pena Filho (1982 e 1983).

Manuel Bandeira nasceu na cidade do Recife, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor. Iniciou na literatura, publicando o livro A Cinza das Horas, em 1917, numa edição de 200 exemplares, custeada por ele mesmo. Dois anos depois, publica seu segundo livro, Carnaval.

Em 1904 terminou o curso de Humanidades e foi para São Paulo, onde iniciou o curso de arquitetura na Escola Politécnica de São Paulo, o qual foi interrompido por motivo de uma tuberculose. Indo tratar-se no Sanatório de Clavadel na Suiça, conheceu o poeta Paulo Eluard que o influenciou.

Manuel Bandeira fez parte da geração de 22 da literatura moderna brasileira, onde seu poema Os Sapos, transformou-se num dos ícones da Semana de Arte Moderna ocorrida na cidade de São Paulo.  A Semana de Arte Moderna representou uma verdadeira renovação de linguagem, na busca da experimentação, da liberdade criadora através da ruptura com o passado.

Juntamente com os escritores João Cabral de Melo Neto, Paulo Freire, Gilberto Freyre, Carlos Pena Filho, Osman Lins, dentre outros, representam o melhor da produção literária pernambucana.

Os editores


Poemas da Semana

Poemas de Alberto da Cunha Melo, Manuel Bandeira, Jade Dantas, Lau Siqueira e Taciana Valença

Oração pelo poema
(Fragmento)
Alberto da Cunha Melo (1969)

    Alberto da Cunha Melo/Foto: Arquivo

XVI

Senhor, este poema sabe
o número certo de mortos:
acaba de ler os jornais
do dia, e não está contente.

Olha teus anjos, mas não perde
de vista as patrulhas que rondam
as alamedas do teu reino,
como disse, desencantado.
Entra furioso no templo
para pedir-te explicações,
e tocar os sinos mais altos
e provocar tua inocência.

Volta sem flores do mercado
(para não falar noutra coisa
que magoa a forma discreta
de acusar o tempo que passa).

Segue furtivo e camuflado
como um lagarto, pelas folhas:
Senhor, este poema sabe
de tudo, e não pode dizer.



Desencanto
Manuel Bandeira

   Manuel Bandeira/Foto: Arquivo DCP


Eu faço versos como quem chora
De desalento. . . de desencanto. . .
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente. . .
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

Teresópolis, 1912



Manifestação
Jade Dantas

    Img: Reprodução


sou hóspede perdida
na imensidão do tudo

visionária, procuro o infinito
além do meu percurso

já viajei em praias azuis
mergulhei em outros mares
foi inútil

não consegui caminhar
no ritmo que queria, só amarras

procuro os caminhos das travessias
que sigam além do acomodado
além das covardias, além dos muros



Da imortalidade poética
Lau Siqueira

    Img: Reprodução


eternas mesmo
são as nuvens

essas dissonâncias
do infinito

eternas
e mutantes

mas a vida
e suas dobras
de estupidez e
coragem...

a vida é aqui
e agora

e é frágil
como uma caipora

é tão frágil a vida
que uma única morte
não basta

por isso sempre
amanheço um pouco
esta memória

o que está posto
poderia ser dito
numa oração

num tratado
numa tese
num conceito
reformado

mas eis aqui
um poema
besta

e hoje nem é sexta



Naufragando
Taciana Valença

    Img: Reprodução


Desconheço-me!
se estive onde dizes
traze-me a prova!

Recuso-me a esta prosa
que em vão vive
sem idas nem voltas!

Nunca estive
onde ousas dizer

Jamais saí daqui
donde vejo-te naufragando
num eterno entardecer...



O Conto da Semana

Garota de programa (conto) de Dalton Trevisan*

 Dalton Trevisan/Foto: Arquivo DCP

Puta, não senhor. Garota de programa. Não sei de nada. Só que fui presa. Fazia um lanche com minha amiga Jussara. O nome do bar não lembro. Fica lá na Riachuelo, não tem erro.

Mãe de duas meninas fofinhas que... Sim, já usei droga. Custou, mas me livrei. Bem um ano que to limpa. . O meu cara trazia da favela.
Tá preso por ladroagem, um tal de Edú.

Quando me prenderam tinha a grana certinha do celular da minha amiga Jussara. Tava sem a bolsa e pediu para que guardasse para ela. Eu ia pagar na farmácia 24 horas.  É minha vizinha e a gente anda junto.

Com droga nunca transei. Ligadona só na birita. Como vim parar aqui? De nada não lembro. E descobri que fui presa?  Só no dia seguinte. Tão bebum, sabe como é.

São duas filhas, duas boquinhas de fome. E tenho de sustentar, né? Naquele dia tava no bar. E chegam os tais senhores. Se apresentam como da polícia e vão logo me enchendo a cara de porrada.

Uma semana aqui na delegacia. Inchada e roxa, só olhar para mim. O chefia acha que se tivesse toda essa grana que falam eu ia ficar sete dias na cadeia?

Não conheço os caras que foram presos. Se lidam com droga isso é com eles. Olheira de traficante, eu? Imagina!

Comigo não tinha pó nem pedra. Pra dizer a verdade, só fumei um baseado e queimei uma pedra lá pelas cinco da tarde. Aí é que começo a beber. Mas nada sei de droga nenhuma. E provo pelo dono do bar. Viciada, euzinha? Só na birita.

Falar nisso, achei na bolsa a conta do telefone. Mas o dinheirinho contado sumiu, né? Vá saber quem pegou.

Pode me encontrar no Passeio Público. Lá no meu ponto de trabalho. Puta, não senhor.

Sou é menina de programa, às ordens.
Recados com a Jussara.
  

*(In O maníaco de olho verde, p. 73/74)


Eventos Literários

DCP entre os três melhores blogs literários do país


O TopBlog Brasil confirma o Domingo com Poesia entre os três melhores blogs literários do país. A Cerimônia de premiação acontecerá no próximo dia 25 de abril, no Auditório da Universidade Paulista (UNIP), na capital paulista.



Livro, Leitura e Literatura no Sertão


2º Clisertão vai unir fruição literária a debate acadêmico em Petrolina

Debater temas relacionados a todos os elos da cadeia do livro,
seja pelo viés acadêmico seja aproximando o público geral daqueles que fazem literatura contemporânea. Esse é um dos objetivos do II Congresso do Livro, Leitura e Literatura no Sertão – Clisertão.
O evento acontece entre 5 e 10 de maio, em diversos lugares de Petrolina e homenageia o cordelista e xilogravador J. Borges e o escritor petrolinense Antônio de Santana Padilha. Mais informações acesse: http://www.fundarpe.pe.gov.br/livro-leitura-e-literatura-no-sertao



Começou a II Bienal Brasil do Livro e da Leitura


Aqui no DCP você acompanha tudo o que acontece na II Bienal Brasil do Livro e da Leitura. O evento homenageia o escritor Eduardo Galeano e segue até o dia 21 de abril, trazendo escritores como a norte-americana Naomi Wolf, autora do recente Vagina, o chinês Murong Xuecun, o cubano Leonardo Padura, autor de O homem que amava os cachorros e a poeta são-tomense Conceição Lima, dentre vários outros. A programação conta com palestras, lançamento de livros, seminário, mostra de cinema, leituras dramáticas e exposições para revisar os 50 anos do Golpe Militar no Brasil, além de shows de artistas como Edu Lobo, Ivan Lins, Carlos Lyra, Grupo Tarancón e MPB4. A Bienal acontece na Esplanada dos Ministérios (Brasília – DF), das 10h às 22h, com entrada franca. Veja aqui a programação completa: http://www.bienalbrasildolivro.com.br/



A poesia de Cícero Melo invade novamente a França

A poesia de Cícero Melo invade novamente a França, agora com três poemas bilíngues. Acesse e confira aqui: http://issuu.com/l.artenloire/docs/lartloire_5


domingo, 6 de abril de 2014

Entrevista com a escritora e presidente da APL Fátima Quintas

“A literatura me encanta pela sua capacidade de transfigurar a realidade e de exortar sentimentos que devem aflorar através da palavra”.
  
Fátima Quintas/Foto: Arquivo DCP

A escritora e presidente da Academia Pernambucana de Letras Fátima Quintas concede entrevista exclusiva ao DCP e fala sobre a produção literária no estado, literatura, sua gestão e seu mais recente livro.


DCP- Que balanço você faria sobre a produção literária no estado?

FQ - Pernambuco é um estado que se distingue pelas suas Revoluções Libertárias, pela efervescência de escritores e pela tradição de excelentes poetas. Não há como olvidar a sua importância intelectual no quadro nacional. O movimento literário se faz intenso, com novos nomes sempre a surgir e uma solidez de ideias invejável. Há, sem dúvida, uma sede de criatividade que cresce a cada instante.


DCP - O que lhe encanta na literatura?

FQ - A literatura me encanta pela sua capacidade de transfigurar a realidade e de exortar sentimentos que devem aflorar através da palavra. Palavra grito, reveladora de interioridades e exterioridades, a depender do foco que se almeja abordar. O ato de ressignificar é subjetivo, daí a renovação que a Letra permite no processo de transformação. Escrever é descerrar a cortina de um palco fechado.


DCP - A literatura é um fazer solitário?

FQ - Sim, absolutamente solitário. E reclama silêncio, sigilos, entrelinhas... A escrita ficcional deve sugerir, nunca explicitar de todo os sentimentos em jogo. O não dito pode representar a força do texto.


DCP - Fátima Quintas: antropóloga ou escritora?

FQ - Sou aprendiz da vida. Uma observadora da minha alma e dos suspiros alheios. Não tenho rótulos. Eles pesam e me confundem.


DCP - Na sua gestão a APL abriu literalmente as portas para atrair o público para o centro das conversas sobre literatura. Que balanço você faria da sua gestão?

FQ - A APL é de Pernambuco e dos pernambucanos. A instituição tem um compromisso com a sociedade, o diálogo deve ser permanente, há um pacto que selo na minha gestão, o de fortalecer o pensamento interno, de modo a transbordá-lo num ir e vir contínuo.


DCP - Como foi colocar Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre face a face?

FQ - Um trabalho de pesquisa profundo e um prazer enorme de juntá-los simbolicamente.


DCP - O Domingo com Poesia tem promovido uma ampla discussão sobre a produção literária do estado e nacional. Como você observa esta iniciativa?

FQ - Parabenizo a iniciativa. É sempre louvável o estímulo à produção literária. Todo intercâmbio merece aplausos. Somente através de parcerias avançamos nos nossos objetivos. E, tenho certeza, que o Domingo com Poesia avançará sempre na direção de uma ciranda em ritmo crescente.


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