domingo, 31 de julho de 2016


PISANDO O SEXTO ANO


5 anos de domingueira literária



Entre os 2 e os 7 anos de idade, segundo Piaget - em sua teoria do desenvolvimento humano, se inicia a função simbólica ou semiótica no sujeito, nesta fase dar-se o surgimento da linguagem. A caminhada do DCP na internet parece corroborar com a teoria do renomado estudioso.

O ato de falar, de se comunicar com o mundo, não deixa de ser um ato arriscado, um ato de fé, posto que aquele que transmite vai encontrar em algum lugar quem o escute e de alguma forma lhe preste atenção, sua voz não se perderá no oco do mundo.

Hoje completamos 5 anos de existência e de muita falação, os domingos passaram a ser o nosso percurso para a tela (ouvidos/olhos/mentes) daqueles que nos recebem. Todos esses dias, de tantas domingueiras, foram para nós editores deste site, os desafios que tivemos que vencer, independentes de olimpíadas, para fazer chegar em suas casas o melhor da poesia produzida neste estado.

A rapidez da rede mundial de computadores impele também uma corrida de igual tamanho para aqueles que fazem da rede seu caderno e nele se põem a construir textos para o deleite de tantos. E isto não deixa de ser um ato de fé cega, inebriada pela luz da telinha.

Durante todos esses anos de trabalho intenso, buscamos dar um sentido de verdade ao mundo cibernético, cheio de luzes e aplausos - mais um ato de fé e amor nestes 5 anos.

Agradecemos a todos os parceiros, leitores e colabores pela atenção e amizade, imprescindíveis neste caminhar. Vida longa ao DCP!


Os editores



VEJA ALGUMAS MENSAGENS QUE RECEBEMOS DOS NOSSOS COLABORADORES E SEGUIDORES



O Site Domingo com Poesia é um espaço de resistência cultural e tem colaborado de maneira compromissada com a difusão da literatura pernambucana e brasileira. Sei o quanto é difícil manter um espaço desses com fogo e imaginação. Já vivi isso enquanto uma das editoras do site interpoética. Por isso eu saúdo os cinco anos de existência com muito calor e admiração. Vida longa ao DPC e um agradecimento especial aos editores por nos fazerem tão bem e tornarem nosso domingo melhor.

Cida Pedrosa, poeta, advogada e militante cultural



Pingo de Luz

Muito já se falou sobre a expansão da “Galáxia de Gutenberg”, título de um livro de Marshall McLuhan, que aborda o impacto que a invenção da prensa móvel de Gutenberg teve na civilização durante mais de 600 anos. Hoje, os blogs e sites que foram descobertos nesta galáxia vêm expandindo as formas de acesso ao conhecimento, mudando inclusive a linguagem literária e humana. Este maravilhoso mundo novo ainda está se iniciando. Experimentos que se alteram a cada instante. Estamos na pré-história do livro digital. O Site Domingo com Poesia é um astro novo, com apenas cinco anos, um pingo de luz neste Universo. Contando a história atual da vida literária nacional. O tempo é curto. O espaço é grande. Um impacto semanal que muda nossas formas de pensar a arte literária. Vida longa para o Domingo com Poesia.

Fernando Farias, escritor e colaborador do site



No povoado de onde vim, domingo era dia de acordar com os sinos chamando para a missa. Hoje bem que eles poderiam tocar 5 vezes em homenagem ao aniversário do Domingo com Poesia, que tão pontualmente tem badalado novos e velhos poetas e contistas, do Nordeste para o mundo. Parabéns, gente boa. Sucesso, sempre.

Antônio Torres, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras    



Um lustro e um milhão de visualizações, no meio digital, são mesmo dignos de comemoração. Excelente plantio, bela colheita. Parabéns, Natanael Lima e Frederico Spencer, a cultura pernambucana e a arte poética agradecem.

Cláudia Cordeiro, ensaísta



De domingos e teimosos

Os anos 1980 e meus vinte anos mal haviam começado, quando num Domingo fui levado por Celina de Holanda ao apartamento de Alberto Cunha Melo. Depois das apresentações, entre um copo de cerveja com as sardinhas que Claudia cuidava de fritar, o poeta de Jaboatão olhou para mim e deu-me um conselho que nunca esqueci:

- Poeta, quando você quiser tomar sua cerveja em paz, vá num cabaré do Porto. Lá você escreve e toma sua cerveja em paz. Mas se você for sentar em mesa de escritor ou de intelectual no Recife, pode esperar que a facada virá pelas costas!

Celina e Claudia reclamaram dele. Mas eu levei a sério. Era tempo das Edições Pirata, e eu, pretenso poeta bissexto, comecei a conviver com eles todos, motivo maior de minha admiração, até por me aceitarem e acolherem com tanto carinho.

Dentre os que conheci através de Celina, Natanael Lima recebeu um livrinho meu e, Deus sabe por que, resolveu guardar. 30 anos depois o encontro com um site na internet, DOMINGO COM POESIA, onde ao estilo PIRATA, Natanael publica poemas, contos e informações sobre cultura e literatura com a mesma elegância e generosidade de antes.

Um site que, em cinco anos de existência possui um milhão de acessos, não precisa nem dos prêmios que recebeu para se justificar. Traz consigo a mesma genética daquele início singular, que fez até um José Mindlin encomendar toda a produção para guardar em sua Biblioteca. Que belo trabalho!

De tudo o que vivenciei e ouvi, ficou um lema repetido por todos: “Somente ao tempo caberia julgar o que era bom”. Mas nem sempre é assim que acontece na vida.  Existem as advertências de teimosos que não fazem o que aconselham. E aqueles que guardam por 30 anos, livrinhos de pretensos poetas bissextos.

Luis Manoel Siqueira, poeta e escritor
Serra Gaúcha, julho de 2016.



O Domingo com Poesia é genuinamente nosso. Pernambucano. Espaço consagrado da Literatura Pernambucana. E de outras vertentes. É dessas iniciativas que se consolidam e que nos fazem ter orgulho das manifestações da nossa terra. Não bastasse participar do portal vez por outra, ainda tenho a honra da amizade de Natanael e Spencer. Que estes cinco anos sejam só o começo (e que começo!) de uma longa história... Obrigado, DCP! Luz e letras!!!

Sidney Nicéas, escritor



Ganhamos todos nós com o esse trabalho levado com muita dedicação e sensibilidade pelos editores Frederico Spencer e Natanael Lima. Com o singelo nome Domingo com poesia, temos à nossa disposição uma proposta que se renova em talentos e estilos diversos. Sendo presenteados com a tradicional chamada domingueira para apreciarmos arte & poesia, todos nós, como leitores, colaboradores e/ou admiradores, nos tornamos participantes desse projeto que completa cinco anos de existência. Parabéns pra gente, parabéns pros editores.

Raimundo de Moraes, poeta



O tempero da vida dá sabor aos domingos

Estou falando da poesia, claro. Neste imenso universo virtual, onde é possível postar emoções e sentimentos, temas fundamentais à vida, embora tantas vezes ocupado por futilidades, existe espaços onde as redes sociais crescem em importância e aí habita publicações do nível do nosso Domingo com Poesia.

Paulo Caldas, escritor



Celebramos, pelo quinto ano consecutivo, a existência do Domingo com Poesia, portal que abre o ciclo semanal dos amantes da literatura trazendo o sentimento de transformação, que a arte nos proporciona, feito bálsamo necessário à continuidade de nossas jornadas. Posso dizer que esperar o www.domingocompoesia.com.br entrar no ar, aos domingos, tem o mesmo sabor de aguardar a hora de ir à missa na Matriz, nas manhãs de domingo de minha infância, quando encontrava as amigas para brincar de esconde-esconde na sacristia, e trocar gibis enquanto meus avós e minha mãe rezavam. Seremos sempre gratos a Natanael Lima e Frederico Spencer pela oferta deste deleite, que é fazer e apreciar a arte literária, como quem degusta um bom vinho, e pela certeza da continuidade e imortalidade de nossa obra – de Pernambuco para o mundo, por séculos sem fim.

Salete Rêgo Barros, editora, produtora cultural executiva e colaboradora do site



É assim que bem se faz a divulgação da palavra mais humana da existência, com carinho e respeito à palavra poética, em particular, com uma dedicação que só os poetas verdadeiros têm. A revista eletrônica DOMINGO COM POESIA (www.domingocompoesia.com.br), neste mês de julho/2016, completa "5 ANOS DE ATUAÇÃO NA REDE MUNDIAL DE COMPUTADORES". Tem de tudo para festejar, nos próximos anos, uma duas três décadas de sucesso na Internet!

Juareiz Correya / ABLNE - Associação de Blogs Literários do Nordeste



Para suprir a carência de espaços onde possam se expressar, sem suplementos culturais que divulguem o trabalho de escritores e poetas, o site Domingo com Poesia vem a cinco anos divulgando a literatura nacional, privilegiando, como é natural, os autores pernambucanos. De parabéns por este valioso trabalho, não só os seus organizadores, mas todos aqueles que, semanalmente, deixam a poesia fazer parte do seu domingo.
Maria de Lourdes Hortas, poeta, ensaísta e artista plástica



É uma luta muito grande manter um site literário, sem fins lucrativos, com atualizações periódicas. Passei por essa experiência quando editava o Interpoética (www.interpoetica.com), um site que ficou no ar de 2005 a 2016, sempre com participação colaborativa de poetas, escritores, jornalista, críticos etc.

Publicávamos tudo relacionado à literatura, principalmente a produzida em Pernambuco: poesia, contos, livros, entrevistas, resenhas, artigos, críticas literárias, vídeos, récitas, dentre outros.

Os editores do site Domingo com Poesia, Natanael Lima Jr., Frederico Spencer e Thiago Lima, e todos os seus colaboradores estão de parabéns pelos esforços de manter um site sempre com atualizações semanais.

Vale muito acompanhar as novidades literárias que o DCP nos entrega todos os domingos.

Parabéns pelos 5 anos de existência e que venham muito mais aniversários.

Abraço,

Sennor Ramos, produtor cultural



A importância da leitura literária hoje, mais ainda, da conversa a seu respeito, encontra acolhimento em Domingo com poesia, um espaço virtual de reencontros, um lugar para se ler. Aqui temos textos de autores locais e de outros estados. Fazer parte desse grupo, me traz alegria, satisfação, sobretudo, em proporcionar aos alunos e demais leitores fomentos para o pensar e para a beleza. Continuemos nesse trabalho lindo, que distribui democraticamente aos leitores de Pernambuco e de outros locais o que nos (co)move, a literatura.

Alexandre Furtado, poeta, crítico literário e colaborador do site



Há uns 2 anos fui convidado pelo querido Natanael Lima para ser colaborador do Domingo com Poesia, recebi o chamado como uma honra, um privilégio. O Domingo com Poesia é muito mais do que um site que divulga e homenageia a literatura, é um ato de idealismo e resistência. Converso com muitos escritores, com jornalistas, todos encontram uma imensa dificuldade em comum nos dias atuais: publicar. Isso mesmo, pois a dificuldade nesta era tecnológica não está somente em ser lido, mas também em encontrar canais visíveis para divulgar os textos produzidos. Os editores do Domingo com Poesia, com sensibilidade e visão, promovem um dos espaços mais democráticos da Rede.

A prova da receptividade cultural do site é a minha própria presença nele. Já publiquei artigos, crônicas, poesias, sempre abraçado com carinho pelos leitores que o frequentam. Enquanto outras plataformas virtuais querem domar o que escrevemos, adequando nosso pensamento a propostas pré-determinadas, o Natanael e sua equipe nos oferecem a inteligência original da liberdade e parecem preferir que seja assim.

Sou um novato entre medalhões que criaram um projeto que agora completa 5 anos de existência. Repito, muito mais do que um site, o que impressiona é o idealismo, a paixão pela arte e o desejo de agregar pessoas que compartilhem desse mesmo amor. Inevitável afirmar que é um lindo trabalho. O dia a dia atribulado ainda não me proporcionou a participação regular, mas é um desafio que pretendo perseguir. No entanto, saborear todas as semanas os colegas que escrevem e nos apresentam belos trabalhos expostos, disso não abro mão.

Parabéns pelos 5 anos do Domingo com Poesia e que ele continue abrigando a todos nós, leitores e autores tomados pela febre da expressão. Que seja uma fonte difundindo por toda a Internet a liberdade absoluta que a imaginação, concretizada na arte da escrita e da leitura, nos proporciona.

Alexandre Coslei (RJ), jornalista, crítico literário e colaborador do site  



Os 5 anos de sucesso do blog Domingo com Poesia mostra a permanente força da literatura brasileira. Calcado no trabalho dedicado dos amigos escritores Frederico Spencer e Natanael Lima, o blog ganhou prêmios importantes, ultrapassou as fronteiras nordestinas e hoje é uma referência nacional, destacando novos talentos e resgatando antigos valores, sempre balizado pela qualidade.

Parabéns, amigos!

Paulo Rocha, escritor e editor executivo do Jornal Gazeta Nossa



domingo, 17 de julho de 2016


OS PIRATAS – TOMO VI




Os Piratas: Olga Savary, Paulo Azevedo Chaves,
Almir Castro Barros, José Mário Rodrigues e Antonio de Campos






SATURNAL
Olga Savary*

Paraíso é essa boca fendida de romã
— bagos de vida,

paraíso é esse mistério de água ininterrupta
fluindo do terminal das coxas,

é a vulva possuída-possuindo
violáceo cacho de uvas,

é esse dorso de vinho navegável
atocaiado para um crime.


*Nasceu em Belém do Pará, em 1933. Escritora, poeta, contista, novelista, crítica e ensaísta, tradutora, jornalista. Muitos de seus vinte livros mereceram prêmios, inclusive o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, foram objeto de teses, adaptações e musicada por compositores eruditos e da MPB, em discos e CD. Reside no Rio de Janeiro.




A GIOCONDA (OU MONA LISA)*
Paulo Azevedo Chaves

Dizem que a Gioconda
era na verdade um varão
e que seu velado sorriso
tem prosaica explicação:
sob a seda e o brocado,
uma súbita ereção.


*Do livro digital Os ritos da perversão e outros poemas



DO CORAÇÃO
Almir Castro Barros

Tudo inicia
Com os sins multiplicados
Na luz das retinas.

Virão os penhascos
Convertidos em bosques
No conhaque do beijo.

Depois é o silêncio
A mendigar em pergaminhos.

E o amor faz do coração
A pátria da agonia.



A SOLIDÃO E SEU CORPO
José Mário Rodrigues

Toda solidão tem o seu corpo
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.

Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.

Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.



MEUS DIAS EM TORVELINHO
Antonio de Campos


Torvelinho de meus dias
já de mim ausentes
e tão distantes
como a luz das estrelas

e os apitos dos loucos ferryboats
que passam na noite
de minha insônia

Réstia dolente
das setas da pedra da lua,
pesada âncora sem raízes

nem cabelos em sua calva
polida pelo desgaste do tempo
desde o Big-Bang




ORAÇÕES PARA VAGALUMES – PARTE 3 (CONTO DE FERNANDO FARIAS)




Apresentamos ineditamente a última parte do excelente conto Orações para vagalumes do nosso colaborador Fernando Farias. Esperamos que vc tenha curtido este fantástico conto, apresentado aqui em três partes. Uma boa leitura a todos!



ORAÇÕES PARA VAGALUMES – Parte 3
Fernando Farias


                                      
     
  Img.: reprodução google



Os dias foram passando e os doentes anunciando livres das dores. Voltavam para casa com saúde. Poucos, os mais graves ainda ficavam. Eu orava e contava para as freiras que eu tinha curado aqueles miseráveis. E elas debochavam.

A madre chamou os médicos e enfermeiros. A situação estava grave. Era preciso adoecer as pessoas. Os doentes estavam curados e o hospital perderia as doações e até o governo ameaçava cortar o apoio financeiro. Culpou a equipe de médicos pelo desastre. Era preciso manter os doentes ativos.

Senti-me culpada. Eu tinha provocado aquele desastre? Pensei em dizer que eu tinha feito as curas, mas tive medo. Afinal sem as pessoas doentes fecham-se os hospitais.

Mas eu tinha falado demais. E algumas freiras acreditaram em meus poderes.

Naquela noite fui estuprada. Cabos de vassouras. Cerca de vinte freiras me surravam. Queriam o hospital cheio novamente. Disseram que eu atuava por força do demônio. Maldita hora que me aceitaram. Só quem podia curar era Jesus.

Fui levada para uma clínica que atendia mulheres vítimas da violência, desta vez para curar de minhas próprias feridas. Tia Benildes me apareceu revoltada. Reclamou de eu ter dito que fazia rezas. A cidade grande não acreditava nestas coisas das crenças do povo do interior, coisa de gente antiga. A partir de agora nada seria mais dito. Um segredo silencioso.

Acordei na madrugada, entendi que eu agora acreditava em rezas. Compreendi o poder. Não era um dom divino nem as orações ditas. Mas uma palavra de três silabas que ela tinha me ensinado, emitida mentalmente por três vezes, como um cântico, junto com a ideia força do bem e da cura. A ideia força de que o bem será feito. Ou o mal.

Eu até pensava que era ilusão de minha tia, quando ela dizia ser a palavra perdida dos sacerdotes egípcios que as rezadeira guardam em segredo durante séculos.

Naquela madrugada fui até a janela e pela primeira vez pronunciei aquela palavra. Gritei a palavra perdida por três vezes com todo ódio. A terra tremeu. Vi milhares de vagalumes cobrindo o antigo hospital de caridade.

Acordei com a notícia nos corredores de que um grande incêndio atingiu o hospital, que dezenas de freiras morreram queimadas. E as plantas carnívoras.

Ainda levei um mês para sair da clínica. Agora vestida de enfermeira. Passei a me apresentar para as pessoas como a enfermeira que escapou do incêndio do hospital das pobres caridosas irmãs religiosas.

Passei dez anos sem ver minha tia, trabalhava entre os enfermos e vendo vagalumes. Sem cobrar nada. Sempre ficando desempregada por falta de doentes e hospitais fechados para revolta dos médicos.

Até que numa noite tia Benildes voltou. Estava num corpo de criança, parecia um anjinho de procissão. Pediu-me para voltar para a casa do interior, cuidar da família e da lavoura, deixar de rezar. Minha missão estava terminada.

Ainda tento me lembrar qual era a palavra perdida para dizer a vocês. Mas esqueci. Agora cuido de galinhas e falo com as almas das árvores.  E não é que parece que os homens foram à Lua mesmo?


fim




DCP COMPLETA 05 ANOS

Por acreditar na força da poesia!
No próximo dia 31 de julho estaremos todos comemorando os 5 anos de literatura na web. A festa é sua! Participe enviando seu comentário através das nossas redes sociais.
Mais de 1 milhão de visualizações! Além do Brasil, o DCP tb é visualizado nos seguintes países: Alemanha, Estados Unidos, China, Austrália, Moçambique, Cingapura, Emirados Árabes Unidos, Angola e Dinamarca.








domingo, 10 de julho de 2016


OS PIRATAS – TOMO V



Os piratas: José Luiz de Almeida Melo, Janice Japiassu,
Montez Magno, Odile Cantinho e Paulo Gustavo




HISTÓRIA SUI-GÊNERIS*
Jose Luiz de Almeida Melo

Um dia, eu ia bêbado e ensimesmado
pelas ruas de uma cidade estreita,
eu ia estreito e de coração estreito
a mal formular uma ventura,
quando, um cadáver viajante,
esquálido e parecendo um fantasma
de um dos contos de Edgar Poe,
vendeu-me um botão, um botão,
um incasual botão,
redondo, parecendo uma lua cheia,
quatro olhos, quatro bocas, quatro orelhas,
a mangar de todo o mundo que passava.
Como o meu paletó, ocasionalmente,
nenhum botão tinha, casas vazias,
eu enchi uma casa de botão
e, hoje quando olho,
anêmico, pálido em meu peito,
vejo igualzinho meu retrato:
pernas presas, braços amarrados
e o pescoço enforcado a vida inteira.

*do livro Proibições e impedimentos, Edições Pirata, 1981.



A VERDADE E SUA SOMBRA
Janice Japiassu

A verdade é como uma flor
Ou como um fruto maduro
Povoado de sementes

É simples e natural
Clara, fecunda, viçosa
Alimenta a vida
E é muito cheirosa
E, para seus amantes,
Prazerosa

A mentira é obscura
Gritante, repetitiva
E é também multimídia
Cheia de artefatos
De intrigas
Palavrosa
Redundante
Sem clareza
Só se constrói nos vazios
E se alimenta de medos
Jamais perceberá a beleza
De um arabesco
Ou de um algarismo
Igual a si mesmo
Ou do riso
Quando é preciso
Ou do sexo
Sem ser explícito


OS GIRASSÓIS DE VAN GOGH
Montez Magno

O peso do sentir, a glória de viver,
a dupla mão percorrida
pelos campos contemplados
presos em molduras de madeira
os girassóis de Van Gogh
à venda em qualquer mercado.

À espera do vento em breve hora
dobrar os lírios brancos tardios,
anúncio e perda da forma
desgaste do musgo nas hastes
no entardecer longo e vazio.

Que ramo escolhe a flor no dia-a-dia?
Por onde anda o cheiro do seu pólen,
se vai além da sua medida,
ou se percorre a dimensão da sombra,
apenas um círculo que acende
o amarelo tingido em cada flor.


AXIOMA
Odile Cantinho

Sou a semente que se biparte
E se estufa
E cresce púbere para o devir
Sou a água que alimenta o grão
E se transforma em veículo do
Dar-se
Sou o sol que luta para chegar
E sopra o morno calor do aconchego
Sou o sinal de todos os tempos
Sou o sonho
Sou o reflexo
O grito
A fúria
O abandono
Sou o redemoinho que tudo recomeça
E tenta a luta e sabe que é
Nada.


MÃE
Paulo Gustavo

Mãe – dicionário de afeto
E de serviços,
Jardim do Éden
E oceano íntimo.

Quando a noite sobrevém, surgem de ti
                                           [velhos caminhos.


Mãe – o primeiro vinho.



  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima