domingo, 28 de setembro de 2014

ENTREVISTA COM A EDITORA SALETE RÊGO BARROS

Salete R. Barros/Foto:divulgação

“O leitor pernambucano deve ser mais exigente, no que diz respeito à valorização dos autores da terra, abolindo de vez o chamado “complexo da casa-grande”, instituído desde a colonização”.


A editora Salete Rêgo Barros concede entrevista inédita ao DCP e fala sobre literatura, sua experiência como editora e o atual mercado editorial pernambucano, sobre as atividades que desenvolve na Cultura Nordestina Letras & Artes, além de outros temas ligados a cultura pernambucana.

Salete Rêgo Barros é escritora, editora da Novoestilo Edições do Autor e Produtora Cultural Executiva da Cultura Nordestina Letras & Artes. Nascida no interior pernambucano em 23 de novembro de 1952, no seio de uma família que cultivava as letras e as artes. Concluiu sua graduação em Arquitetura pela Universidade Federal de Pernambuco em 1977, passando, em seguida, a exercer a profissão. No entanto, em poucos anos optava por cuidar dos três filhos em tempo integral. Em 1995, iniciou-se como editora da Novoestilo Edições do Autor incentivada pela poetisa e escritora Ivanete Rêgo Barros, sua mãe, propondo-se, pioneiramente, em Pernambuco, a democratizar a arte literária através de pequenas tiragens, oferecendo aos autores a possibilidade de publicar os seus escritos de forma racional e ecologicamente correta, atividade que lhe proporcionou a oportunidade de desenvolver ações voltadas para a preservação e o resgate da cultura pernambucana.


DCP – Como foi seu primeiro contato com a literatura?

SRB - Foi desde sempre. Em casa, tínhamos uma biblioteca razoável e eu sempre recebia livros nos aniversários, no Natal, quando minha mãe chegava de viagem e quando meu tio vinha nos visitar. A literatura e o rádio eram as únicas janelas que eu tinha para enxergar o mundo que me encantava. A cena que não posso esquecer foi quando recebi, pelos Correios, uma caixa contendo vários livros – resultado de minha participação no sorteio da Rádio Clube de Pernambuco, para onde enviei uma embalagem do sabonete Gessy com a resposta, escrita de próprio punho, à pergunta: Qual o sabonete preferido pelas estrelas do cinema? Meus avós, achando que alguns daqueles livros não eram indicados para uma criança ler, cortaram em pedacinhos os de autoria de Jorge Amado, transformando parte de minha primeira conquista literária em um amontoado de papel picado.


DCP – O que a motivou ser editora?

SRB – O insignificante percentual que minha mãe recebeu de uma grande editora sediada em São Paulo, pela publicação de 8.500 exemplares de um infantojuvenil de sua autoria, lançado em todo o Brasil. O valor recebido, que se transformou em um lanche que nós duas fizemos na Confeitaria Confiança, na Rua da Imperatriz, no centro do Recife, motivou a minha decisão de editar e imprimir os outros livros dela. Deu certo. Surgia em Pernambuco, em 1995, um “novo estilo” de edições independentes, o das pequenas tiragens, de forma ecológica e economicamente correta.


DCP – Como você analisa o atual mercado editorial pernambucano?

SRB - Ainda temos grandes desafios a enfrentar, entre eles: a qualidade das edições e a preferência por títulos de autores estrangeiros e de outras regiões do Brasil. O leitor pernambucano deve ser mais exigente, no que diz respeito à valorização dos autores da terra, abolindo de vez o chamado “complexo da casa-grande”, instituído desde a colonização. Um exemplo concreto é o fato de a obra de Raimundo Carrero ser mais conhecida fora, do que dentro de seu próprio berço e, ao ser convidado para ministrar oficinas de criação literária em outros países e estados brasileiros, ser muitas vezes mais bem remunerado do que é em Pernambuco.


DCP - A Cultura Nordestina Letras & Artes promove regularmente oficinas e cursos para formação de novos escritores. Qual a importância deste trabalho?

SRB - A capacitação é fundamental para o exercício de qualquer atividade. O escritor não necessita, apenas, de inspiração e criatividade. Mais que isso: ele precisa da independência, que se dá através do conhecimento e da técnica. Para que ele entre e permaneça no mercado editorial, é indispensável que se atualize e domine a língua portuguesa em todo o seu dinamismo; que conheça técnicas de criação literária e a história da literatura através dos tempos; que desenvolva sua criatividade, também, através do exercício da escrita de textos dissertativos; que conviva com escritores mais experientes, entre outras coisas que o habilitarão a transmitir a sua narrativa de forma adequada.


DCP – Como produtora e ativista cultural, qual a sua opinião sobre as políticas públicas desenvolvidas em Pernambuco?

SRB - Pernambuco tem, reconhecidamente, um mercado promissor no que diz respeito à sua multiplicidade cultural. No entanto, para que se torne possível a concretização das produções, produtores e artistas precisam, cada vez mais, de capacitação para poder captar recursos, além do convencimento necessário para que empresas e cidadãos invistam mais em cultura através dos incentivos fiscais. No caso específico da literatura vejo, com pesar, que a verba destinada às produções literárias está muito aquém da sua importância para a preservação das nossas raízes culturais. Observo, também, que a meritocracia é substituída por interesses menores (leia-se particulares), quando se trata da aprovação de projetos. O fato subtrai da sociedade o direito assegurado pelo artigo 215 da Constituição, que prevê: O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes de cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. Afinal, o contribuinte renuncia a mais de um terço de seu salário, em forma de impostos, que deveriam ser revertidos para a sociedade, de maneira equilibrada.


DCP - O DCP tem priorizado a divulgação da produção literária de Pernambuco. Como você analisa este trabalho?

SRB - O trabalho que o DCP vem realizando é de importância fundamental para difundir a literatura produzida em Pernambuco, no Brasil e no mundo. As ferramentas que possibilitam essa divulgação (nunca antes imaginada) estão sendo utilizadas com competência pela equipe do portal, e o reconhecimento do fato se reflete através do número de acessos à página, da conquista, pelo segundo ano consecutivo, do prêmio Top Blog Brasil, do perfil das pessoas que acessam o DCP: estudantes, pesquisadores, professores, etc. Um fator relevante nesse tipo de divulgação é o incentivo à leitura – responsável pela formação de cidadãos capazes de se posicionar criticamente perante a sociedade. Empresas que apoiam a iniciativa, certamente, só terão a lucrar, pois associam as suas marcas a um projeto que privilegia o que existe de mais precioso para a preservação das raízes de um povo: a sua produção literária.

Agradeço, sensibilizada, a Natanael Lima Júnior e a Frederico Spencer, a oportunidade de participar do DCP, como colaboradora, e de poder, através desta entrevista, registrar o meu pensamento esperando contribuir, de alguma forma, para despertar a consciência dos que podem mudar a forma como a literatura vem sendo tratada pelas políticas públicas. 



O CONTO DA SEMANA

A senhora tem permissão para entrar aqui? (conto) de Paulo
Caldas*

Paulo Caldas/Foto:divulgação

A porta entreaberta incita a curiosidade de Morgana. As coisas que contemplava do corredor, mesmo que na penumbra, deslumbravam os olhos inquisidores. A grande mesa oval de madeira escura, a passadeira estirada sob a sopeira de porcelana oriental posto sobre o mármore de carrara. Que cenário deslumbrante. Cadeiras de espaldar alto, de ébano, talvez, assento e encosto de palhinha marfim. O piso de assoalho em tábuas de brilho farto se estendia ao ambiente até ser encoberto pela penumbra.
Os cristais dos lustres presos ao teto assumiam matizes tom sobre tom: róseas, lilás, violetas, ao refletir o lume tênue dos poucos apliques acesos. Quadros em óleo sobre tela, figuras desconhecidas, trouxe ânsia de vê-los de perto, decifrar personagens tão formais, um por um. Vou entrar.
A sensação de solicitude fez com que cedesse aos impulsos. Mais uma olhada para a porta do corredor foi o suficiente, o silêncio virou senha de acesso. Visconde de Tamataupe, barão de Tambaoatá, baronesa do Serro Azul. Quem será este? A legenda ao pé da moldura está em branco. Sei lá. Vou ver o que tem no primeiro andar. Resoluta, venceu cada degrau com passos decididos. Apenas um abajur da tímida claridade ao cenário.
Marquesão, poltronas estofadas em padrões florais, cortinas em tecido sóbrio ocultavam janelões voltados para o jardim, ocultando a beleza luminosa. Apoios em forma de colunas gregas suportavam jarras de porcelana chinesa, estatuetas em bronze. Nas paredes opostas às janelas, a pintura comum dava lugar ao revestimento ou papel acetinado.
Na parte lateral apenas uma foto. Uma mulher de meia idade, cabelos em coque presos com marrafas de madrepérolas, olhos escuros, nariz e lábios finos postos sobre a pele alva e rosto oval. Colo desnudo pelo decote ousado. No pescoço, um colar de couro com pedrinhas brilhosas, tal os que se vendem nos dias de hoje nas feiras de artesanato.
Por um momento Morgana teve reiterada impressão que a senhora da foto lhe sorria. Só pode ser impressão, muitos sentem isso ante a Monalisa. Mas, o medo lhe deteve o ímpeto. No meio da escada, com passos inseguros, é contida.
A senhora tem permissão para entrar aqui? Não. Por favor, queira me acompanhar à sala da secretaria.
Como se tivesse cometido algum pecado, olhos de culpa fixos no preto e marfim do assoalho, em silêncio, limitou-se a seguir os passos severos do vigilante.
Com licença, dona Marta, encontrei esta senhora no Salão dos Ancestrais. Desculpe senhora, fui seduzida pela beleza do lugar. Entrei aqui na Academia de Letras apenas para tomar informações sobre os saraus das quintas-feiras. Mas, compreenda, a porta da galeria estava aberta e não resistir. Desculpe a ousadia. Meu nome é Morgana, sou amante da literatura, espero não ter causado transtorno.
Não leve a mal, minha querida. Sou Marta Carneiro Vitela, secretária da casa. Qualquer pessoa de bom gosto se encanta com nosso acervo. Mas permita uma pergunta, você tem certeza que a porta estava aberta?
Sim, senhora Marta, como poderia ter entrada?
O senhor pode explicar isso, senhor João de Deus?
A porta estava fechada, dona Marta, a chave está aí na sua gaveta. Não sei como foi possível, mas ela entrou na área reservada.
Desculpe mais uma vez, mas fiquei fascinada pelo retrato daquela senhora de cabelos prateados.
- Ah! A marquesa Morgana Cavalcanti de Albuquerque.
- Que coincidência. Temos o mesmo nome. Engraçado, no quadro ela usava um colar igual a este meu.
- Mas você não traz colar ao pescoço, Morgana.


Paulo Caldas é escritor pernambucano, graduado em economia e jornalismo. Caldas publicou dezenas de livros, alguns deles adotados em escolas. 



PANORAMA LITERÁRIO

Seis escritores pernambucanos na final do Prêmio Jabuti 2014*

Delmo Montenegro foi um dos vencedores
do I Prêmio Pernambuco de Literatura


Uma bela notícia para a literatura pernambucana! Foram divulgados nesta terça-feira (23), os finalistas do Prêmio Jabuti 2014. A lista – uma das mais concorridas da cena literária nacional – traz alguns nomes que têm orgulhado a recente produção literária pernambucana: Marcelino Freire (Nossos Ossos), Everardo Norões (Entre Moscas), Ana Arruda Callado (Antonio Callado Fotobiografia), Hugo Monteiro (Emilio ou Quando se Nasce com um Vulcão ao Lado). Na categoria de Gastronomia, Maria Lecticia Monteiro Cavalcanti também é finalista do Prêmio.
Completa a lista o escritor Delmo Montenegro, com o livro de poesias “Recife, No Hay”, obra contemplada no I Prêmio Pernambuco de Literatura, promovido pelo Governo de Pernambuco, através da Secult-PE, Fundarpe e CEPE.

*Postado em: Cultura.PE – 23/09/2014



Prêmio Portugal Telecom anuncia seus finalistas 


No total, oito brasileiros e quatro portugueses concorrem ao troféu final

O Prêmio Portugal Telecom anunciou os escritores que concorrerão à final de suas três categorias: romance, poesia e conto/crônica. Entre os doze finalistas, selecionados de um grupo de 64 livros da semifinal, estão oito brasileiros e quatro portugueses. Na categoria romance, foram escolhidos Gonçalo Tavares, com Matteo perdeu o emprego (Foz); Carlos de Brito e Mello, com A cidade, o inquisidor e os ordinários (Companhia das Letras); Verônica Stigger, com Opsanie swiata (Cosac Naify); e Sérgio Rodrigues, com O drible (Companhia das Letras). Entre os poetas, estão na final Guilherme Gontijo Flores, com Brasa enganosa (Patuá); Gastão Cruz, com Observação de verão seguido de fogo (Móbile); Zuca Sardan, com Ximerix (Cosac Naify); e Ana Luísa Amaral, por Vozes (Iluminuras). Os eleitos na categoria contos e crônicas estão Luís Henrique Pellanda, com seu Asa de sereia (Arquipélago); Everardo Norões, com Entre moscas (Confraria do Verbo); Antonio Prata, com Nu de botas (Companhia das Letras); e Alexandra Lucas Coelho, com Viva o México (Tinta-da-China). O vencedor de cada categoria receberá R$ 50 mil como prêmio. Entre eles, será escolhido o ganhador do Grande Prêmio Portugal Telecom, que receberá mais R$ 50 mil.

Fonte: O Globo - 25/09/2014 – Redação



 Último romance de Saramago chega às livrarias portuguesas

No Brasil, a obra será publicada pela Companhia das Letras

Escritor José Saramago (1922-2010)/Foto:divulgação


Quatro anos depois da morte de José Saramago chegou esta terça-feira às livrarias portuguesas o romance que o Nobel deixou inacabado Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas. Mesmo antes de acabar de escrever o livro, Saramago sabia com que frase queria terminar aquele que seria o último romance em que trabalhou e deixou inacabado. No dia 16 de setembro de 2009, nas notas que ia escrevendo no seu computador, o escritor anotou: “O livro terminará com um sonoro ‘Vai à merda’, proferido por ela. Um remate exemplar." [No Brasil, o livro será publicado pela ‘Companhia das Letras’].

Fonte: PublishNews



Intervalo aberto (eBook Kindle), de Fred Caju

Capa:divulgação

Entre a desconexão e a cornubação: assim estão os poemas de “Intervalo Aberto”. Quintilhas, haicais, trovas e monósticos compõe a obra — múltipla em temática, rígida em estrutura.

Serviço:
 Castanha Mecânica, 2014
Poemas, 102 páginas
eBook Kindle, R$ 8,00



domingo, 21 de setembro de 2014

ESCREVER – A VOCAÇÃO PARA O AVESSO DAS COISAS

por Alexandre Coslei*

O que denuncia um escritor? O que revela a sua inclinação para a literatura? O poeta Rainer Maria Rilke dizia que a vocação é a confissão íntima de uma necessidade irrefreável e vital. Para Rilke, o escritor é aquele que se sente obrigado a escrever. Para muitos, escrever é apenas a arte de sentar-se numa cadeira. Para mim, é trazer à luz o avesso do mundo.

Img. Reprodução


O escritor é o avesso - desde a adolescência foi como defini esse personagem mergulhado no vácuo, buscando na própria dissolução construir com as palavras um universo que sempre revela a alma daquele que escreve. Alguns escritores se apressam em dizer que não fazem da prosa ou da poesia um confessionário, quem diz isso é um mentiroso, porque todo escritor mente sobre suas reais intenções. Não há literatura sem algum tipo de confissão, que venha ela criptografada, envernizada ou camuflada. Talvez, escrever seja dizer a sua verdade fingindo que é a verdade do outro.

“O poeta é um fingidor” - sentenciava Fernando Pessoa.

E foi com Pessoa que eu vivi a primeira epifania literária. Adolescente, de férias num sítio em Petrópolis, puxo à revelia um livro da biblioteca e me deparo com quatro versos que agiram em mim como a Pedra Filosofal. Transformaram meu infantil pensamento de jovem burguês numa avassaladora consciência crítica. A implosão de um mundo ilusório deu lugar às ruínas que formam a realidade.

“Os Deuses vendem quando dão,
 Compra-se a glória com desgraça,
 Ai dos felizes, porque são
 Só o que passa!”

Versos clássicos que constam em “Mensagem”. Por anos a fio essa estrofe me assombrou, dela desabrochou uma incurável inquietação. Todo o sentido fugaz que a vida parecia ter na juventude desapareceu diante da desconstrução abissal que a poesia é capaz de causar. Fernando Pessoa me apresentou ao avesso e foi a primeira vez que sonhei a pretensão de ser escritor.

Escrever parecia simples, parecia fácil no início. Na primeira página em branco descobrimos que é preciso adestrar a emoção pela razão, que é crucial domar a palavra. Quando nascem as primeiras linhas, os primeiros parágrafos, o texto ganha o efeito de um espelho nos impondo o sentimento de uma obra incompleta, incapaz, simplória. É sincero quem diz que escrever é cultivar a dor. Mas por que escrevemos? Porque algum livro, num período qualquer, nos convenceu. Quem escreve vicia no isolar-se em si mesmo, habitua-se ao silencioso deslizar da caneta ou ao tique ritmado do teclado costurando nossos fragmentos para nos ampliar em narrativas, versos ou em outros fragmentos que almejam nos trazer sentido. Quem escreve escolhe existir no avesso das coisas que Drummond exaltou.

Acredito que todo escritor nasce de um Big Bang íntimo, sucessivas implosões que o capacitam a criar as maquetes impalpáveis que se erguem nos livros.
A minha segunda implosão viria quando conheci um escritor de fato: Víctor Giudice, pai de um querido amigo. Víctor era a antítese do que eu imaginava de um escritor. Carismático, divertido, um magistral contador de histórias. Éramos um grupo de amigos, todos muito jovens, e passávamos horas ouvindo entusiasmados os causos do Víctor. Meu primeiro contato com a sua obra foi a leitura de um conto chamado “O Arquivo”, uma fantástica jornada ao avesso de um homem.

Até conhecer o Víctor eu pensava em fazer Biologia, depois de conhece-lo fiz o vestibular para Letras. Ao ser aprovado, foi o Víctor que me levou para conhecer o campus da UFRJ. Este episódio me recordou um filme americano, repleto de clichês, intitulado no Brasil como “Encontrando Forrester”, Sean Connery fazia o papel de um escritor que tutelava um rapaz talentoso, mas em conflito com sua aptidão. Existem pessoas que podem fortalecer nossa opção por um caminho que hesitávamos seguir.

A terceira implosão veio com duas frases que iniciam a “Hora da Estrela”, de Clarice Lispector.

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida”.

Foi quando disse sim e confrontei meu avesso. Que eu seja simplório, inacabado, incompleto, mas literatura remendaria meus retalhos, escrever anunciava a única redenção possível.

Escrever é estar no extremo de si mesmo – ensina João Cabral de Melo Neto.
Antes da Internet, dos Blogs e das Redes Sociais, a leitora mais dedicada de um aspirante a escritor eram as gavetas. Hoje temos o privilégio que muitos não alcançaram e podemos compartilhar, sem fronteiras, os textos que produzimos. Uma benção. Às vezes, uma tragédia.

“Chego, agora, ao inefável centro de meu relato, começa aqui meu desespero de escritor. Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartem; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que minha temerosa memória mal e mal abarca?” (O Aleph – J.L.Borges)

Jorge Luiz Borges trouxe o meu desespero, na grandeza absoluta e inquestionável da sua narrativa. O Aleph me mostrava a distância entre escrever e ser escritor, o abismo entre o gênio e o medíocre. O Borges cego, que germinou numa biblioteca, me fez aceitar o inalcançável, mas também me convenci que o único patrimônio de uma vocação é a insistência.

“Muitas vezes pensei quão interessantemente podia ser escrita uma revista por um autor que quisesse – isto é, que pudesse – pormenorizar, passo a passo, os processos pelos quais qualquer uma de suas composições atingia seu ponto de acabamento. Por que uma publicação assim nunca foi dada ao mundo é coisa que não sei explicar, mas talvez a vaidade dos autores tenha mais responsabilidade por essa omissão do que qualquer outra causa.” (A Filosofia da composição, de E.A.Poe)

No século 19, Poe reclamava do egoísmo didático dos autores eméritos. No século 21, escritores de talento questionável ganham dinheiro ensinando banalidades com seus métodos pasteurizados. Sim, o tempo muda os hábitos e precisamos saber se há benefício nisso. Recebo como afronta quando alguém afirma, com gesto largo e orgulhoso, que faz literatura comercial. Como? A língua é legado e a palavra é um patrimônio, jamais pode servir ao mercado ou à vaidade, a natureza da palavra é partilhar.

Pois termino aqui meus devaneios com a única máxima que me faz desejar aprender e ir adiante: escrever é seduzir.

Alguém poderá me censurar quando eu disser que nunca me interessei em aprender a escrever dissecando formalmente as obras dos grandes mestres.
“O que tem de bom na galinha assada é que ela não cacareja” – esclarecia Quintana em Poemas para a Infância.

A leitura eficiente não quer radiografar o método, quer saborear os temperos e assim decifrar a receita. Não tenho fé em nenhum bom escritor que negue ter brotado de leituras honestas e vastas. Os legítimos escritores foram persuadidos a escrever por algum livro que os arrebatou. Fiz Letras sem nunca me apegar a erudição cirúrgica da autópsia literária.

“A primeira condição de quem escreve é não aborrecer” – me avisa, somente agora, Machado de Assis.

*Alexandre Coslei é jornalista carioca, agregando formação em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ




*Nota da editoria:
A partir desta postagem o jornalista Alexandre Coslei integra a equipe de colaboradores do DCP.



POEMAS DA SEMANA

Poemas de Ângelo Monteiro, Cícero Melo, Marcelo Mário de Melo, Frederico Spencer e Natanael Lima Jr



DISCURSO SOBRE O VAZIO
Ângelo Monteiro

Dura necessidade
de invocar os objetos,
como se dependêssemos
deles para existir.

Como se o seu vazio
fosse menor que o nosso:
nós que usamos palavras
por medo do silêncio.



O GOLEM
Cícero Melo

Guardo o poema da Criação
E as faces dos deuses
Em minha memória de argila
E nudez primogênita.
O primeiro vento deu-me o espaço,
com corpos celestiais,
e uma casa.
O segundo, o tempo e o nada.



POESIA E MEIA
Marcelo Mário de Melo

Lambendo fios de luz
bebendo água de fogo
surfando ondas em chamas
olhando rosto de nuvem
roçando seio de rosa
tirando saia de estrela
cavalgando a meia lua
nadando na lua cheia:
vida com poesia e meia.



POEMA WEB
Frederico Spencer

Procuro-me
no google encontro
quem sou, realmente?
esta grafia perpassada
pelo tempo, salvo na rede
nos arquivos
das nuvens
nas teias
das conexões
por um fio, permaneço
sem chegar, a lugar nenhum
dado às digitais
além do corpo
lá fora. Nada além
nesta solidão, desfio.



PREMONIÇÃO
Natanael Lima Jr.

A cidade aflita deixa existir:
o caos, o medo, o pânico
em mim.

O medo prometeu
embora (ainda) acorrentado
transgredir o fim.

dezembro/2009




PANORAMA LITERÁRIO

Concurso literário para servidores do Jaboatão dos Guararapes


Até 2 de outubro, funcionários podem se inscrever no 1º Concurso de Produção Textual. Os trabalhos devem abordar o tema "Discriminação de gênero e raça/etnia no ambiente de trabalho: problemas e soluções"
  
Servidores ativos e aposentados do Jaboatão dos Guararapes (PE) podem se inscrever, até o dia 2 de outubro, no 1º Concurso de Produção Textual, promovido pela Secretaria de Políticas Sociais Integradas. São três modalidades -  texto dissertativo, poesia e cordel  - e o trabalho deve abordar o tema "Discriminação de gênero e raça/etnia no ambiente de trabalho: problemas e soluções”. Cada servidor pode escolher apenas uma opção.
As inscrições podem ser feitas na própria secretaria, em Candeias.
A lista dos vencedores será divulgada no dia 14 de novembro, nas mídias oficiais da gestão municipal e blogs parceiros. A solenidade de premiação será no dia 28 do mesmo mês. A primeira edição do concurso é uma realização da Secretaria de Políticas Sociais Integradas e do Comitê Institucional de Promoção da Igualdade Étnico-racial e de Gênero (Ciger).

Serviço:

Secretaria de Políticas Sociais Integradas
Endereço: Rua José Brás Moscow, nº 56, Candeias
Telefone: (81) 3343-1051




Concurso Cepe
Literatura infantil e juvenil
  

A Companhia Editora de Pernambuco - Cepe abriu as inscrições para o V Concurso Cepe de Literatura Infantil e Juvenil, no período de 18 de agosto a 15 de outubro de 2014. As obras selecionadas pela comissão julgadora serão premiadas com um total de R$ 32.000,00.
O regulamento está disponível no portal www.cepe.com.br



Sarau da Boa Vista
10ª edição
  

No próximo dia 27 de setembro será relizado a 10ª edição do Sarau da Boa Vista. O evento contará com a participação dos poetas: Pollyanne Carlos, Isabel Sougaret, Chicão, Jetro Rocha, Ivan Maia, Dudé Levino, Thaynnara Queiroz, Carlos Carlos, entre outros.

Serviço:

Dia: 27/09/14
Local: Buena Vista Pizzaria, Pátio de Santa Cruz, Recife (PE)
Hora: 20h



VIII Workshop de História e Geoagrafia
  

Acontecerá nos dias 25 e 26 de setembro, das 14h às 18h, o VIII Workshop de História e Geografia. O evento é uma realização do Instituto Histórico de Jaboatão – IHJ. Serão realizados debates, palestras e mesas redondas sobre temas ligados a história, geografia, cultura, educação e literatura. Dentre os nomes convidados estão: Cláudia Cordeiro, Eduardo Côrtes, Isaac Luna, José Luiz Melo, Frederico Spencer, Raimundo Carrero, Natanael Lima Jr, Gildo Carício, entre outros.

Serviço:

Dias 25 e 26 de setembro, das 14h às 18h
Local: Auditório do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Jaboatão – SINPROJA, Rua Alice Azevedo, 91 – Centro – Jaboatão dos Guararapes.



Romance ensaístico “O cinema sonhado”
  

O Cinema Sonhado é um romance ensaístico escrito por Josias Teófilo sobre o avô, o cineasta e inventor Pedro Teófilo Batista (1929 – 1989). O livro, financiado pelo Funcultura através do Edital do Audiovisual, tem a tiragem de 1200 exemplares e foi lançado na última quarta (17), no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco.
O livro sai pela Editora Lavra, recém criada por Wagner Carelli – criador das revistas República e Bravo! e da editora W11, que publicou os livros de Paulo Francis. Carelli foi também publisher de algumas das principais editoras do país.
O título se refere ao cinema sonhado por Pedro Teófilo, ou seja, os filmes por ele idealizados, ou ao Cinema Olympia, arché (princípio) da família, sonhado pelo autor no seu resgate, ou aos filmes que fazem parte da memória afetiva da família, como um sonho ancestral coletivo. O livro trata do cinema como forma criadora do imaginário.

Serviço:

O Cinema Sonhado, Editora Lavra, R$ 20,00.

*A CASA Agenciamento Literário e Projetos Culturais tem orgulho de ser gestora da carreira do autor Josias Teófilo e de seus projetos literários. Conheça os demais autores e projetos através do www.facebook.com/CASAagenciamentoliterárioeprojetosculturais



Termina hoje a 1ª Feira do Livro do Vale do São Francisco

Na programação, Raimundo Carreiro, Ronaldo Correia de Brito, Galeno Amorim, Elvira Vigna


A 1ª Feira do Livro do Vale do São Francisco termina neste domingo (21). A abertura aconteceu nesta última quinta (18), no Centro de Convenções Senador Nilo Coelho, em Petrolina (PE). A programação de encerramento está prevista para iniciar às 15h com a Oficina Clarice Lispector para crianças, ministrada por Georgia Alves e às 17h30 Galeno Amorim fará palestra sobre “Leitura Digital e Empréstimo de Ebooks: a revolução na palma da mão”. Quer  conferir a programação completa, acesse aqui:  http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2014/09/17/internas_viver,529600/feira-do-livro-do-vale-do-sao-francisco-comeca-nesta-quinta-feira-em-petrolina.shtml



domingo, 14 de setembro de 2014

ENTREVISTA COM O AGENTE LITERÁRIO LÍVIO MEIRELES CAPELETO

Lívio Meireles Capeleto, Diretor Executivo da CASA
Agenciamento Literário e Projetos Culturais


O DCP traz nesta edição entrevista exclusiva com Lívio Meireles Capeleto, Diretor Executivo da CASA Agenciamento Literário e Projetos Culturais. Nesta entrevista Lívio fala sobre a importância e as atividades desenvolvidas pelo Agente Literário, bem como os serviços oferecidos pelo Agenciamento.

Lívio Meireles Capeleto é jornalista e radialista de formação com Pós Graduação e MBA em Marketing. Atuou como gestor de comunicação e marketing das Livrarias Saraiva e Siciliano, Diretor Executivo da Editora Carpe Diem e Coordenador da Feira Internacional do Livro de PE na Fliporto – Festa Literária Internacional de Pernambuco. Atualmente trabalha como o 1º agente literário do Nordeste e produtor cultural na área literária com a CASA Agenciamento Literário e Projetos Culturais sediada em Recife/PE e com representantes em Fortaleza, Salvador e João Pessoa.


DCP - Por que o escritor precisa de um Agente Literário?

LMC - Ele precisa de alguém que o ajude nas questões burocráticas, comerciais e de comunicação e marketing. Hoje temos um grande problema:  um autor é antes de tudo um autor e não um homem de negócios, um executivo do mercado literário ou um RP de si mesmo. No momento de assinatura de um contrato devemos pensar e analisar para onde vamos, com quem vamos e qual o caminho que seguiremos. Muitos autores esquecem estes pontos importantes justamente por que o foco do autor não deve ser essa avaliação: um autor deve estar livre para escrever, para produzir e após isso poder estar tranquilo para se relacionar com o seu público-leitor. Como fazer isso e cuidar de todo o macro ambiente que o envolve? É impossível! O agente tenta minimizar os possíveis erros dividindo as responsabilidades de gestão da carreira do autor.


DCP - Quais as principais atividades que são desenvolvidas pelo Agente Literário?

LMC - Basicamente um agente literário deve desenvolver UMA principal atividade: Tentar de todas as formas fazer com que o autor que ele representa erre menos ou não erre ao assinar um contrato com uma editora! Deixo bem claro e de maneira objetiva que não estou aqui colocando na berlinda as editoras ou mesmo os autores! Não seria justo nem honesto de minha parte! Os dois são o que move a cadeia editorial, porém sempre precisamos estar atentos, pois um contrato deve ter um equilíbrio entre direitos e deveres! Além desta atividade principal tudo que se relaciona ao autor e sua produção literária deve ser levada em conta como atividades do agente: Como está a obra do autor? Quais os livros editados? Quais estão fora de catálogo? Quais precisam de reedições? Existem contratos com editoras? Quais?  Onde os livros estão sendo vendidos? Como estão as vendas? Como está o feedback e prestação de contas da editora com esse autor?  Existem edições produzidas diretamente pelo autor? Como estão sendo distribuídos? Existem eventos literários onde um determinado autor do escritório se encaixa? (Podemos sugestionar os curadores com o nome do autor) Como está o relacionamento entre o autor e seu público-leitor? E com os jornalistas e críticos da área literária.


DCP - Serão oferecidos outros serviços além de Agenciamento Literário?

LMC - Além do próprio ato de representar autores junto a editoras, editores, livreiros, distribuidores, curadores de festas e encontros literários espalhados pelo Brasil e América Latina a CASA ainda apresenta os seguintes serviços aos autores: Consultoria, Produção e elaboração de Projetos Culturais na área literária para organismos públicos, privados e do terceiro setor; Leitura Crítica de textos; Assessoria de Imprensa especializada para lançamentos; Consultoria em Curadoria e Planejamento de produção para Bienais, Congressos, Festas e Encontros Literários; Agenciamento de Ilustradores para projetos literários; Representação de autores e obras no processo de transposição de seus textos e/ou sua obra para projetos na área teatral, musical, vídeo e foto e online.


DCP - Existe algum diferencial da CASA Agenciamento Literário para os demais escritórios de agenciamento no país?

LMC - Na realidade temos bons diferenciais que exponho agora para os leitores do DOMINGO COM POESIA: Preocupação com a distribuição do livro/livros dos autores associados ao escritório: É fato que um dos maiores problemas para quem edita livros no Nordeste é o fator distribuição. Nós da CASA Agenciamento Literário nos debruçamos e analisamos o problema dos vários pontos de vista (autor, editora, distribuidor, varejista, leitor) e entendemos as demandas e as particularidades do processo de distribuição de um livro e temos hoje a melhor experiência e prioritariamente devo deixar anotado que tenho o maior respeito pelos grandes agenciadores do mercado brasileiro. Gente com grande experiência que abriu caminho e rompeu paradigmas trazendo um verdadeiro amadurecimento ao mercado literário e as relações entre autor, editoras e público-leitor e ajudou muito na construção de uma melhor imagem do que produzimos no campo da literatura, imagem essa vista hoje, com bons olhos tanto pelos nossos pares do mercado brasileiro e sul-americano quanto pelo mercado internacional. Mas a CASA hoje têm uma visão que vai além disso! Existe um mundo novo para o autor se relacionar que se chama internet! Ninguém fala nisso e aí que temos um grande diferencial: Somos especialistas em análise das mídias sociais e isso se tornou vital para um autor se colocar para o seu público! Mas como esse autor deve dialogar nas redes sociais? Como ampliar e utilizar de maneira correta as mídias sociais para um maior diálogo com o seu público? Sim, não adianta pensarmos ao contrário! O público leitor está nas redes sociais e as utiliza cada vez mais e o autor deve saber dialogar neste ambiente! Como fazer isso? Nós da CASA Agenciamento Literário sabemos como! Este é, ao meu ver, o grande diferencial entre os agentes que hoje estão no mercado e a CASA.


DCP - Como os autores podem entrar em contato com o seu escritório de Agenciamento Literário?

LMC - Através dos vários canais de comunicação da empresa tais como:
Fones: 81. 92097858/ 95770757/Email:livioprojetosculturais@gmail.com
Facebook:https://www.facebook.com/CASAAgenciamentoLiterarioeProjetosCulturais?fref=ts






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