domingo, 26 de abril de 2015


O MILAGRE DA LEITURA*

por Salete Rêgo Barros



Img: reprodução
  

Muito se tem falado sobre o poder da oração – é através da prece que o nosso espírito acessa os que estão no Céu. Os milagres almejados vão dos financeiros aos de recuperação da saúde, passando pelos de ordem sentimental. No entanto, estamos sujeitos à competência do santo, que faz a intermediação entre nós e o Ser Supremo.

A meu ver, o caminho mais eficaz, por prescindir de intermediários, é o da leitura que tem o poder de oferecer uma visão crítica de mundo aos seus leitores, dando-lhes autonomia para exercer a cidadania em toda sua plenitude, dispensando, dessa forma, os milagres convencionais.
Através dos livros viajamos sem sair do lugar, sonhamos, conhecemos o pensamento de grandes autores, vida e obra de pessoas exemplares que marcaram época. Tempo e espaço tornam-se barreiras transponíveis através do exercício da leitura.
 
No início do século passado, Monteiro Lobato consegue imprimir sua visão de mundo, através dos livros, dando início à literatura dedicada às crianças, futuros adultos que deverão ocupar posições decisivas na construção de um mundo melhor.

Famoso por escrever livros onde se pudesse morar, Lobato criou o Sítio do Pica-pau Amarelo recriando o mundo ao seu redor, a partir de coisas do cotidiano; criou um universo para a criança, enriquecido pelo folclore; buscou o nacionalismo na ação das personagens, que refletiam na brasilidade, na linguagem, comportamento e na relação com a natureza. O Sítio possui traços de um brasileiro indignado com a exploração do petróleo. Logo depois, escreve O Poço do Visconde, que conta a história da descoberta do precioso óleo nas terras do Sítio. Não podendo se expor, criou personagens fantásticas, que dizem tudo o que ele pensa sobre a descoberta, entre elas Emília, que representa sua voz.

Através do imaginário, Lobato conscientiza com a sua literatura denunciadora, que envolve fatos políticos, econômicos e sociais. A obra literária para crianças é a mesma obra de arte para o adulto, diferindo, apenas, na complexidade de concepção-o que não a torna menos valiosa –, da mesma forma que há obras literárias simples para adultos, e que são consideradas obras-primas. Essa simplicidade de concepção deve criar a simplicidade da linguagem, na qual a literatura deve ser uma fonte repleta de sensações, emoções, imaginações que tocam a criança fazendo-a viajar e sonhar, ao tempo em que a prepara para a vida. Este é o milagre produzido pela leitura, e que só depende de nós para ser concretizado.



*Comemorando o Dia Mundial do Livro, 23 de abril




POEMAS DO DOMINGO

A poesia de José Terra*




Meu poeta

        para Juareiz Correya


No meio de tanto classicismo e marginália
Meu mestre cria sua página sideral
E escreve os mais belos poemas de amor à cidade



Notícias da poesia

Sabem o que foi que a adolescente pediu ao poeta ?
- Faz paz no meu ouvido,
  Beija meus seios na aurora e escreve tua canção nas minha nádegas

Sabem o que foi que a lésbica pediu ao poeta ?
- Dar tua inspiração para minha amada
  E elogia o êxtase das nossas entranhas a Deus

Sabem o que foi que a adulta disse ao poeta ?
- A rosa do meu sexo é tua, meu Homem

Sabem o que foi que a coroa pediu ao poeta ?
- Entrega-me teu corpo à meia-luz
  Com a elegância de um Casablanca

E sabem o que foi que a idosa pediu ao poeta ?
- Com céus e infernos me despindo
  Enlouquece a minha transcendência
  Escrevendo e publicando teus poemas



Mensagem elegante para a mulher amada

Pelo teu sorriso,
Desperdiço a manhã
A música do mar, a presença da infância
O êxtase do campo, a bem-aventurança do vinho
E a candura de todas as árvores

Pelo teu corpo,
Desperdiço a tarde
A sensibilidade do outono, as perfeitas fragrâncias
O domingo de futebol, o Brasil
E os segredos de todos os olhos

E Pela tua alma,
Desperdiço a noite
A elegância do inverno, a poesia dos grandes poetas
A ternura dos amigos, a riqueza
E os clássicos do batom e do vestido
Em todas as outras mulheres



*José Terra nasceu em Palmares e reside em Recife desde 1996. É poeta e editor do blog literário “José Terra – blog de poesia”.




CONTO DO DOMINGO

Os invisíveis (conto) de Fernando Farias

Foto: arquivo pessoal do autor


Um corpo de uma mulher nua apareceu enforcado. Pendurado por cordas no topo do maior edifício da cidade. Multidão curiosa agitada e engarrafamentos. Quando a policia o retirou viu que era um desses manequins de loja de roupas. Os responsáveis pelo atentado comemoram com chá de camomila.

Moravam ao lado da estação de tratamento sanitário. A casa pintada de um azul cemitério e iluminada por velas. Móveis de antiquário que faliu.  Acendiam velas para acalmar os gases que emanava de onde os esgotos se encontravam. As janelas fechadas quase que limitavam o cheiro de merda. 

A rala aposentadoria permitia a vida simplória e se protegiam das goteiras e dos olhares indiferentes que os tornavam translúcidos. Poucas vezes alguém lhes dava passagem ou um lugar para sentar. Tinham que se desviar nas calçadas ou seriam derrubados. Nem eram assaltados. Quando a moça da padaria falava com eles gritava com se fossem surdos.

No passeio de mãos dadas na praça, para um banho de sol, escutavam as mães dizer para as crianças, pare de chorar ou chamo aqueles velhos para te pegar.

Andavam como seres que perderam a hora da morte. Suas roupas anacrônicas como se fossem adquiridas numa feira de mortalhas usadas.

Só quando conseguiam um banco para sentar podiam conversar sem se cansar das caminhadas de passos curtos. A cada prédio, a cada loja, em torno da praça não relatavam o que viam. Era como estar em dois tempos. A padaria naquela época era uma vacaria onde as crianças tomavam leite tirado na hora dos peitos das vacas. Viam a galeria de lojas modernas e ao mesmo tempo o casarão dos tempos em que tudo ali era um engenho.  O conjunto de apartamentos agora cobria a imagem dos casebres da senzala.

Não, discordava ele, as árvores não são mais as mesmas, Aquelas antigas caíram por causa da rede elétrica.  Ela insistia em dizer que as palmeiras atrás do supermercado eram as mesmas imperiais. Para ele as árvores eram atávicas como aquelas pessoas que ali passavam, mesmo com suas roupas estranhas de cooper, podiam-se ver os mesmos rostos. Vejam estes negros, tiveram suas bisavós estupradas pelos mesmos herdeiros brancos. As gerações se esquecem.

Maristela se calava e voltava no tempo em que era jovem. Era uma bunda esclarecida que balançava ao sabor dos ventos que lhes faziam ondinhas na pele. Cabelos aloirados com cerveja e fixados com vaselina perfumada. Naqueles tempos não podia ver um homem, que Maristela ficava toda emocionada. Já teria comprimido milhares de pênis ao longo dos 89 anos. Os seios duros que ameaçavam furar os olhos dos que se aproximavam. Agora são destes que ameaçam saltar até os joelhos.

Dizem que os animais se parecem com os donos. No quintal da casa criava uma galinha e doze galos reprodutores...

Sentados, de mãos magras juntas, coração e pulmões habituados ao mesmo ritmo, emanando cheiro de perfume de alfazemas. Caducos mergulhados na memória.

Voltavam para casa. Um arrastando o outro. E antes de dormir trocavam ideias, faziam os planos para as ações do dia seguinte. E dormiam em suas redes nordestinas à luz das velas.

Godofredo roncava mais. Faltava uma semana para os 87 anos.  Gordo, baixinho, careca, pele avermelhada, pênis atrofiado por falta de uso. Ainda usava as gravatas vermelhas do tempo do partido.  Foi no festival se seresta que se conheceram. Aposentou-se como professor de teologia. Ela se fez antes de desinteressada e lhe deu atenção enquanto ele pagava as bebidas. Apresentou-se como advogada trabalhista enganando a ele e a vocês leitores. Desde que chegou do interior de Caruaru era prostituta. Mas agora isso não importava mais. Percebeu logo pelo analfabetismo e o vocabulário arrastado de poucas palavras. Tinha com quem dormir na rede e lhe fazer sopas todos os dias. Do passado não se faz perguntas.

Discutiram. Godofredo queria modernizar as dez pragas do Egito na cidade. Mas Maristela achava impossível fazer as águas dos rios ficarem vermelhas ou provocar um blecaute na cidade sem causar feridos e mortos. Brincar é uma coisa, matar gente é outra.

Naquela noite, não teve sopa. Comemoraram o falso enforcamento de uma boneca que agitou a cidade e o aniversário de Maristela com um bolo de laranja e suco de goiaba. Chá de camomila.

O dia amanheceu, acenderam novas velas sete dias, tomaram o resto da sopa, ouviam-se barulho a cada chupada na colher. Recapitularam o plano, não anotavam nada, e repetiam as informações sobre os locais da ação.  Ela conferiu que os trinta caranguejos, vermelhos como ele, estavam vivos e divididos em duas caixas.

Conheciam bem o terreno. Naquela hora da manhã as pessoas faziam filas. Como combinaram, subiram até o último andar em elevadores diferentes, deixaram as caixas, esperaram um pouco e desceram. Os porteiros atentos aos jornais e a jovem de vestido curto.

Ao chegar ao térreo os caranguejos assustados mal conseguiam correr entre as pernas Uma senhora estava desmaiada. Uns tentavam esmagar os crustáceos. Alguém gritava pela polícia. Quem estaria criando caranguejos num prédio de escritórios? Só podia ser um atentado comunista contra as empresas daquele edifício, dizia ao vivo um repórter de rádio.

Voltaram para casa à tarde após saber que a policia prendeu quatro pedreiros e vinte nove caranguejos. Um deles poderia estar numa bacia sanitária do banheiro masculino.

Nos dias seguintes voltavam para casa e ficavam escutando o rádio. Felizes como crianças brincando na lama em dias de chuva.

 Noticiava-se que a policia atribuía as ações a uma quadrilha de jovens sabotadores. Um deputado acusou o Exército de provocar atentados para criar clima para um golpe militar. O pastor falava do fim dos tempos. Um taxista acusou os mulçumanos. Os bandidos estavam soltos e este governo de merda não faz nada.

Seguiram-se o caso das abelhas no trem do metrô. Muitos feridos, mas nenhum morto. Sopa de feijão à noite. Fogos de artifício na porta da maternidade. Tomaram sopa de verduras. Pó de mico no shopping. Sopa de lentilhas. Sapos na merenda escolar. Sopa de tomates. Fuga de macacos de um circo. Caldo verde. Sinais de trânsito apagados. Sopa de cebolas. Bancos da catedral sujos de peixe e atacados por formigas na hora do casamento. Sopa de repolho. Sepulturas abertas e ossadas encontradas nas arquibancadas no dia do jogo. Sopa de abóbora. Centenas de galinhas atiradas no desfile de moda verão. Neste dia só podia ser canja.

Agora o plano era repetir os caranguejos num desfile de escolas de samba.

A polícia investigou até as imagens das câmeras de segurança que mostram a presença de um casal de velhinhos. Porém, eram apenas velhinhos.


Para a frustração dos jornalistas os atentados pararam. O último caso foi o fogo numa casa da periferia. Velas que provocaram um incêndio e matou apenas centenas de caranguejos.



domingo, 19 de abril de 2015


ENTREVISTA COM A ESCRITORA TACIANA VALENÇA*

*Entrevista concedida a Frederico Spencer, editor do DCP


“Acho que os blogs têm uma grande importância no cenário literário. Claro que, como tudo na internet, existem aqueles irresponsáveis, que não tem os cuidados com as informações e, além disso, detonam a nossa língua, sem maiores preocupações, desrespeitando o público leitor”.


 Taciana Valença
Foto: reprodução


Taciana Valença concede entrevista ao DCP e fala sobre sua produção, a produção literária feminina, as políticas públicas de literatura, no âmbito do estado, a sua atuação como editora, entre outros assuntos.  

Taciana Valença é poeta, editora da Revista Perto de Casa e também edita o blog Ensaiando Poesias.



DCP – Esposa, mãe, blogueira, produtora cultural, editora de uma revista e atleta de natação, onde a poesia entra na sua vida?

TV - A poesia para mim sempre foi um refúgio, um esconderijo, uma válvula de escape. Comecei a escrever poesias aos 11 anos. Não fui uma criança falastrona, nem exagerada. Era tímida e discreta (aliás, detesto exageros e pessoas que gostam de chamar a atenção). Na época, afogava todos os sentimentos na natação e nas poesias, escritas em cadernos diversos (coisas que faço até hoje).


DCP – Segundo Gilberto Freyre, Recife é uma cidade masculina, como você vê a produção literária feminina na cidade?

TV - Sim, sempre “O Recife” dos arrecifes, dos poetas do Savoy, cujas reuniões viajaria no tempo apenas para poder presenciar. Já escrevi uma crônica sobre isso e vez por outra afirmo, sou um poeta reencarnado em mulher, uma das cujas quem tanto proferi. Devo ter sido um daqueles boêmios que ficava em mesas de bar, rabiscando poesias e procurando respostas no fundo dos copos. Mas existem as ilhas, lindas e femininas que se banham nas águas mornas e se gabam da imensidão do mar e rios a lamberem seus pés. São elas, as três partes femininas do macho Recife, que para mim não tem sexo, excluindo-se a regra do artigo pela formação da palavra, como a boa literatura também não o tem. A produção literária feminina avança, conforme avançam todas as conquistas da mulher. Pela primeira vez uma mulher está no comando da Academia Pernambucana de Letras, a escritora e antropóloga Fátima Quintas. São avanços significativos para uma sociedade, ainda, predominantemente machista. Tenho feito trabalhos incríveis com escritoras e poetisas da cidade. Jogamo-nos de corpo e alma. Esse sentir nos invade de forma diferente e não são todas que se deixam levar. Mas sei, as que se jogam, carregam outras e outras, saltando dessas ilhas cheias de segredos, sentimentos e magias. A literatura é contagiante.


DCP – Onde sua poética se misturam a paixão pelo mar e a praia de Piedade?

TV - Passei minha infância e adolescência convivendo com o mar. Primeiro em Boa Viagem, depois em Piedade, onde só saí quando casei. A praia de Piedade era praticamente minha casa, portanto, minha comunhão com o mar é algo que nem mesmo consigo explicar, daí também a paixão pela natação.  Aliás, sinto-me à vontade com a água, que para mim é sinônimo de vida. E o mar é tudo isso junto, vida, imensidão e mistério. Minhas primeiras poesias foram feitas em Piedade e todos os sentimentos são assim, jogados a ele, como oferendas. Tudo cabe nele: amor, desilusão, angústias, alegrias e tristezas. Lembro que numa época da minha vida me vi muito triste e corri para chorar na beira do mar, como se naquele momento apenas ele me entendesse. É estranho, é um pouco “viajante”, mas é assim que sinto. Poesia, mar e Piedade, o princípio de tudo.


DCP – Nos versos: “Quem sabe encontraria a ampulheta/E deste feito saberia então/Quantos grãos de areia restam/Para que te conheça nesse nosso tempo”. Há uma desventura no ato de amar?

TV - De certa forma sim. Amar é uma felicidade que dói. Dói quando não sabemos por onde ir, exatamente, para tocar a quem amamos, nem o que fazer para ajudá-lo. E ajudando, ajudarmos a nós mesmos. Não é assim?  E o tempo para mim é essa agonia, esse vão onde estamos e onde devemos resolver tudo o que nos cabe, antes que termine, pois nosso tempo aqui é muito curto. Indubitavelmente teremos que levar tarefas não cumpridas para outras dimensões, mas, nesse caso, prefiro não contar muito como o desconhecido. Talvez isso me deixe um pouco ansiosa.  A ampulheta representa essa angústia.


DCP – Qual a sua opinião sobre as políticas públicas na área de literatura no Estado de Pernambuco?

TV - Ainda estamos muito longe de uma política pública adequada no que diz respeito à literatura. A sensação é de que as coisas andam um pouco soltas. O acesso é para os privilegiados, que podem comprar os livros que desejam e desfrutar de ambientes agradáveis para tal. As bibliotecas públicas tem muitas carências e a impressão que dá é que tudo fica pelo caminho. Para execução de projetos ao público, contamos com o Funcultura, uma opção onde o Estado dispõe de verbas para execução de sites, livros e revistas, porém, que, ao longo dos anos, tem tido falhas diversas, como os atrasos na divulgação dos resultados. Alguns escritores que conheço já desistiram de colocar seus projetos por dizerem que nunca são aprovados.  Bem, mas neste ponto devo considerar os critérios de corte, que são vários e sobre os quais não tenho maiores conhecimentos. É sim, um bom incentivo do Estado, mas ele está pagando para esses eventos culturais (todos eles, em áreas diversas).  Acho que o Estado deveria tomar para si algumas grandes responsabilidades, como as bibliotecas públicas e investimentos na cultura de um modo geral.


DCP – Como fazer uma revista trimestral, resistência ou estratégia?

TV - Ambos. Começar uma revista com um esboço e esperar pacientemente, visita após visita, edição após edição, que as pessoas acreditem e confiem em seu trabalho é algo que exige muita paciência e determinação. Em maio a Perto de Casa completa sete anos de circulação e posso afirmar que, mesmo sendo administradora por formação, a paixão vence a estratégia. Não é fácil manter a revista. O custo é alto e o trabalho é de formiguinha. Mas hoje, creio que carrega nossa cultura, desbravando artes, artistas, literatura, turismo local e tantos outros assuntos voltados para o público que conquistou ao longo dos anos. Tendo como parceira a própria Prefeitura do Recife, de certa forma, mostra que andei caminhando certinho, dentro do meu propósito.


DCP – Qual a sua opinião sobre o papel dos blogs no atual cenário literário?

TV - Acho que os blogs tem uma grande importância no cenário literário. Claro que, como tudo na internet, existem aqueles irresponsáveis, que não tem os cuidados com as informações e, além disso, detonam a nossa língua, sem maiores preocupações, desrespeitando o  público leitor. Mas isso, creio que os internautas já estão aprendendo a reconhecer. O leitor sério, claro, que deseja uma ferramenta segura de informações. Portanto, blogs como o Domingo com Poesia, que sabemos por quem são feitos e o nível de responsabilidade, só tem a acrescentar aos admiradores literatura.


DCP – Como você vê o crescimento da produção dos e-books no mundo, uma ameaça aos livros impressos ou mais uma forma de incentivo à leitura?


TV - Sem sombra de dúvida, apenas mais uma ferramenta de leitura. Não acho que seja ameaça aos livros. Eu sou uma daquelas que gosta de pegar no livro, deixar o marcador, sentir o cheiro, ir, voltar, riscar, enfim, acho que nada substitui esse contato. Porém, evoluímos e poder contar com e-books quando estamos viajando, parados num aeroporto, entre outras situações é magnífico. Quando surgiu o rádio, o jornal estava ameaçado, depois a TV ameaçaria o rádio e por aí vai. Estão todos aí e usufruímos de todos eles de acordo com nossas necessidades e situações do dia a dia. Já me disseram que o futuro da minha revista é ser virtual. Ela já é, também, virtual, está no site. Porém, sei que tenho leitores que, como eu, gostam de pegar, de guardar, de ter certas informações à mão. Os e-books vieram para ficar, mas não os vejo como ameaça.




POEMAS DO DOMINGO

Três poemas de Tereza Soares*


Tereza Soares é da Academia
Cabense de Letras
  

Enquanto o silêncio...

Enquanto o silêncio,
Eu quero o grito
Que diz ao mundo do amor que mim resiste
Enquanto o paralelo, eu, horizonte
Onde tudo é caminho e a chegada chama

O tempo é engano de quem se estabelece

Vencendo o eterno, voando em sonho
Enquanto sombra, eu, sóbria mente
Sorrindo alegrias de verdade e cores

Graças, não ao que me entorpece
Mas a divindade que em mim responde
E enquanto o sono
Acordo em águas calmas
No rio de travessia lenta
Que me leva ao amor maior.


Im(perfeição)

O Universo é im(perfeito)
Nisso repousa a divindade
Quem nunca se dividiu para tornar-se inteiro?

A dualidade é ponto de partida
Mas se no meio não houver saída,
estaremos no redemoinho que nos joga e devolve circular

No furação, o olho, sem nada, tem tudo,
pois acolhe a verdade dos olhos fechados

Só a música tem ondas que fazem flutuar corpo e alma e uma metafísica quase chegando lá...

Lá onde o vento também canta e o pássaro acompanha até as oitavas

Seja lá como for, quero ir...

Ir e vir sonoramente dançando em degraus as escadas do tempo
Quem parafraseou algum dia, disse, sem querer dizer ao certo, mas tentou...


Se queres saber

Se queres saber o que sinto
Desprende-te de qualquer olhar mundano
Chega perto com humildade
Pra encontrar o ângulo certo de me ver

Se queres saber o que sinto
Observa o estremecimento que tua voz me provoca
Atenta para o desejo meu da tua boa
Acalma-te para o prazer do nosso encontro

Se queres saber o que sinto
Dispõe-te a me escutar com todos os sentidos
Aprende a saborear a fruta inteira
Vomita logo essas palavras desesperadas

Se queres saber o que sinto
Encontra-te comigo em pensamento
Atravessa-me com teus olhos ciganos
Ouve a minha música de sereia.



Tereza Soares é poeta, jornalista e da Academia Cabense de Letras. Esboçou suas primeiras tendências poéticas aos nove anos de idade. Ganhou prêmios em concursos de poesias no Colégio Salesiano, no Recife. Sua poesia galgou espaços na música com composições inscritas em festivais dos anos 80. Publicou poemas em folhetos do Cabo de Santo Agostinho e do Recife. A trajetória como recitadora levou-a a participar de atos públicos em defesa da mulher, da cultura afro, de causas educacionais e a favor da paz. É integrante do movimento literário do município do Cabo de Santo Agostinho desde 1977, participou ativamente do encontro “Celina de Holanda de Poetas Recitadores” realizado por quatro anos no Teatro Barreto Júnior do Cabo de Santo Agostinho. Participou de recitais poéticos do Recife e região metropolitana, em atos públicos e em programas de cultura. Participou no Movimento dos Poetas Independentes de Pernambuco e publicações nos Fanzines Só(l) de Versos, Boca do Lixo, Balaio de Gato, Poesia & Cia, Esquina. Publicou poemas em Jornais sindicais – Jornal do Sinpro - e em coletâneas como ‘O Poeteiro’ e ‘Poesias e Crônicas de Uma Terra de 500 Anos’.



  • a literatura em sua rede

    ano III


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima