domingo, 22 de abril de 2012


Intertextualidade na Poesia (II): Paráfrase e Paródia

Natanael Lima Jr*

















“A literatura é um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes a vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a”.
(Antonio Cândido)


Vimos no texto anterior que a intertextualidade é um recurso tão importante e tão recorrente que podemos afirmar que nenhum texto se produz no vazio ou se origina do nada; ao contrário, alimenta-se, de modo claro ou subentendido, de outros textos.

Agora começaremos a conhecer mais sobre a paráfrase e a paródia, que também são formas de intertextualização.

A paráfrase origina-se do grego “para-phrasis”, que significa repetição de uma sentença. Assim, parafrasear um texto, significa dizer que é recriá-lo com outras palavras, porém sua essência, seu conteúdo permanecem inalterados.

Segundo o crítico Gilberto Mendonça Telles, o conceito da palavra paráfrase, retirado de Bakhtin (1987), pode ser entendido como um discurso que se constrói  ampliando outras ideias já existentes. Em outras palavras, podemos supor que se um determinado autor criar uma obra com as mesmas informações expressas na obra de outro autor, de forma que a obra proposta seja maior que a anterior, teremos então uma obra de paráfrase.

Ao parafrasearmos um texto, estamos atribuindo-lhe uma nova “roupagem” discursiva, embora mantendo a mesma ideia contida no texto original.

Já a paródia é uma forma de contestar ou ridicularizar outros textos, há uma ruptura com as ideologias impostas e por isso é objeto de interesse para os pesquisadores da língua e das artes. A voz do texto original é retomada para transformar seu sentido, leva o leitor a uma reflexão crítica de suas verdades incontestadas anteriormente, com esse processo há uma indagação sobre os dogmas estabelecidos e uma busca pela verdade real, concebida através do raciocínio e da crítica.

A paródia é um exemplo de recriação baseada em um caráter contestador, às vezes até utilizando-se de uma certa dose de ironia e sarcasmo. Este recurso foi muito utilizado pelos poetas modernistas com o objetivo de criticar os “moldes” de outras escolas literárias.


Vejamos alguns exemplos:

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. [...]
(
Carlos Drummond)

Até o Fim

Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim.

Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim [...]
(Chico Buarque)

Canção do Exílio

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá,
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
(Gonçalves Dias)

Europa, França e Bahia

Meus olhos brasileiros se fecham saudosos
Minha boca procura a ‘Canção do Exílio’.
Como era mesmo a ‘Canção do Exílio’?
Eu tão esquecido de minha terra…
Ai terra que tem palmeiras
Onde canta o sabiá!
(Carlos Drummond de Andrade)

Este texto de Gonçalves Dias, “Canção do Exílio”, é muito utilizado como exemplo de paráfrase e de paródia, aqui o poeta Carlos Drummond de Andrade retoma o texto primitivo conservando suas ideias, não há mudança do sentido principal do texto que é a saudade da terra natal.

Canto de Regresso à Pátria

Minha terra tem palmares
onde gorjeia o mar
os passarinhos daqui
não cantam como os de lá.
(Oswald de Andrade)

O nome Palmares, escrito com letra minúscula, substitui a palavra palmeiras, há um contexto histórico, social e racial neste texto, Palmares é o quilombo liderado por Zumbi, foi dizimado em 1695, há uma inversão do sentido do texto primitivo que foi substituído pela crítica à escravidão existente no Brasil.


*Natanael Lima Jr é poeta, pedagogo, membro da Academia de Estudos Literários e Linguísticos (Anápolis – GO), da Academia Cabense de Letras (Cabo de Santo Agostinho – PE) e editor do blog “Domingo com Poesia”.





POEMAS DE FREDERICO SPENCER, ANTONIO DE CAMPOS, CYL GALLINDO E JUAREIZ CORREYA

Tudo para depois
Frederico Spencer

Agora, não
posso deixar tudo para o depois; nada
escapa
nem mesmo a tentação do amor, preso
nas gavetas, destroços dos dias
minhas pinturas, maquiagens revisadas
no vermelho desses lábios, suspiros
no fio da solidão tênue
roçando uma lâmina fria
o medo das paixões novas ou antigas, tanto faz
as bandeiras que finquei por metros, a fio
nas minhas fronteiras há uma prontidão
velada como quem cuida de seus mortos.
Por isso quando chegares
que chegues devagar, sem alvoroços
não quebres esse silêncio
morno. Agora, não.
Deixemos tudo para depois.


Solidariedade
Antonio de Campos

Canto as armas e o homem,
assim começa a Eneida.
Canto o homem e suas armas,
trova Aragon.

Eu canto o homem sem armas,
canto a arma que o tempo não muda:
saúdo o Sonho
e bebo ao Ideal.

Canto os campônios:
o que da baioneta fez arado
e esperou ansioso
as sementes brotarem,

como o que fecundando
o campo arado duma mulher,
sentiu o crescimento
da agricultura semeada.

Quando os homens
não mais precisarem de defesa,
uns aos outros eles próprios dirão:
Só cantamos nossa humanidade!

Eu canto o homem
sem armas. A mais humilde bala,
eu não canto, não!


Visão completa
Cyl Gallindo

De repente
a gente vê
que não pode ver
o que tão lindo e sólido
vira ontem.

Fecham-se os olhos:
a gente vê
que pode ver
tão lindo e nítido
como nunca.

Petrolina/1992


Plenitude*
Juareiz Correya

eu te pertenço como não me pertenço
sempre sei o que eu sou em tuas mãos
e gosto de ser assim o teu querer
sono e sonho toda hora é teu prazer
tudo sabe meu corpo e se renova
e se amplia mais, a carne orientando,
porque animais a vida como quem me cria,
a tua posse me completa, perfeita harmonia
de quem me inaugura em paz e alegria

*do livro “Americanto Amar América e Outros Poemas do Século 20”




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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima