domingo, 28 de janeiro de 2018


O VOO DA ETERNA BREVIDADE

Imagem: capa divulgação






   Por José Luiz Mélo






“O Voo da Eterna Brevidade”, de José Mário Rodrigues, que chegou para os seus leitores no final do ano passado em primorosa edição da CEPE, com capa de José Cláudio, é um Livro de Poesias, mas, também uma obra de arte, daquelas que se veem nas mesas de centro das salas de estar, silenciosas e mudas em sua beleza nostálgica de damas antigas, bem-comportadas.

Nele, José Mário organiza os seus poemas em dez grupos que denomina de Livros. Deles, o primeiro, do original publicado ainda em 1973 na mais frondosa floração da Geração 65, a “Estação dos Ventos”, até sua penúltima obra catalogada na orelha da contracapa, “Trem das Nuvens”, publicada em 1997.

José Mário, na sua poesia, usualmente fala para alguém, na primeira pessoa, “uns grandes olhos me perseguem, veem onde estão minhas mãos”; ou ainda, impessoal: “o pecado sentado à mesa e me queria, eu queria o pecado”.

Vejo na poesia de José Mário, uma clareza quase geométrica das imagens na construção do verso, nunca afundam nem desaparecem por entre sombras enevoadas: “A estação dos ventos se alonga entre cavalos e bois que não pressentem o veneno das cobras e desconhecem os defuntos enterrados no descanso eterno das sombras.” “Sou um sino que envelheceu. Vim para escrever poemas que morreram inéditos em idiomas mortos.”




DOIS POEMAS DE JOSÉ MÁRIO RODRIGUES





A IMORTALIDADE


Oh! Minha paixão
pobre, insegura, desenfreada paixão
fique apenas mais um pouco.
Não há tempo a perder.
um reator atômico
vai desfazer nossas lembranças.
Dessa lagoa,
desses peixes
e do verde nada restará.
E quando tudo não mais estiver,
não existirá o caos
mas uma fumaça no ar.
E isso é o que vão chamar de imortalidade.



CONQUISTA


Acorda-me a voz do morto
e o falar desnecessário dos vivos
                                me faz adormecer.

Dá muito trabalho ser feliz.
Tiram-me o sossego esses abandonados:
ora avançam sobre os relógios
ora acomodam-se entorpecidos
                                 pelas calçadas.
Os assassinatos, os sequestros, os assaltos
não mudam apenas os destinos:
nos calam pelo espanto.
Por isso, agora,
o esquecimento é minha conquista.
Dá muito trabalho ser feliz.





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Editores: Natanael Lima Jr, Frederico Spencer e José Luiz Mélo