domingo, 28 de janeiro de 2018


AS FACES DO AZUL NA POESIA DE CARLOS PENA FILHO

Imagem: Reprodução




Por Frederico Spencer







No “blues” – estilo musical criado pelos negros que trabalhavam como escravos nas fazendas dos Estados Unidos, a “blue note” marca e define como gênero essas canções, advindas dos cânticos de saudade da terra e da amada que ficaram no além mar.

Além de dar o compasso do andamento da música, a “blue notes” cria o ambiente nostálgico e triste dessas canções. No caso da poesia urbana, em alguns poetas, conseguimos identificar estes vestígios; a solidão dos grandes centros tecida na fragilidade das relações humanas, impostas por um modo de vida: o vazio, decantado no ritmo sincopado de seus versos.

Na poesia do poeta do azul, Carlos Pena Filho, podemos identificar as várias faces desta solidão e de seus ritmos, como fosse música: a “blue note”, que nos serpenteia o dia a dia. Escolhi alguns sonetos tentando mostrar estas faces:



TRÊS POEMAS DE CARLOS PENA FILHO




FAZENDA NOVA*


É como se fossem ruínas,
mas não de muros ou casas.
São ruínas de terra antiga
que o tempo estraga.

Vistas de longe, essas pedras
de irregulares tamanhos
são lembranças renascidas
de abandonados rebanhos.
Mas, quando vistas de perto,

a ideia que a gente faz
é a de que aquilo é somente
lavoura de Satanás.
Apenas o sol se move

nessa paisagem sem bois,
sem cabras e sem ovelhas,
sem antes e sem depois.
Ainda mais duas coisas

pode esse campo lembrar:
um cemitério sem corpos
ou um leito de mar, sem mar.



SONETO PARA O DEDO ANULAR*


Inúteis as ausências prometidas
e os cães de lodo resguardando a praça,
seremos sempre estátuas de fumaça
plantadas sobre o chão das avenidas.

Eternamente a olhar pra trás pendidos
como galgos do céu ali tombados,
murmuraremos pedras e recados
que nunca chegarão para os ouvidos.

Viveremos de avanço e retrocesso
e, quando nos sentirmos desmanchados
dentro de nossos corpos pelo excesso,

comporemos silêncios entre as frias
manhãs, onde veremos espantados
que inventamos um tempo além dos dias.



SONETO*


O quanto perco em luz conquisto em sombra
e é de recusa ao sol que me sustento.
Às estrelas prefiro o que se esconde
nos crepúsculos graves dos conventos.

Humildemente envolvo-me na sombra
que veste, à noite, os cegos monumentos
isolados nas praças esquecidas
e vazios de luz e movimento.

Não sei se entendes: em teus olhos nasce
a noite côncava e profunda, enquanto
clara manhã revive em tua face.

Daí amar teus olhos mais que o corpo
com esse escuro e amargo desespero
com que haverei de amar depois de morto.


*Poemas extraídos do Livro Geral




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