domingo, 28 de janeiro de 2018


MARCUS ACCIOLY, UM POETA COM “P” MAIÚSCULO

Marcus Accioly
(1943-2017)
Foto: Divulgação







Por Natanael Lima Jr.






Numa entrevista concedida ao jornalista e poeta Mário Hélio, publicada na Revista Continente Multicultural (CEPE), em abril de 2001, afirmara Accioly, “A poesia é o meu instrumento, o único que disponho. Logo, eu sou o meu próprio instrumento. A poesia é uma voz e uma companhia. A poesia é a voz e a voz é poder”. Sua poesia foi e será uma poesia em voz alta. Toda a sua obra foi e será uma afirmação de fé na poesia.

Accioly faleceu aos 74 anos, em plena efervescência intelectual. Natural de Aliança, Mata Norte de Pernambuco, nasceu em 21 de janeiro de 1943. Era Bacharel de Direito e professor de Teoria Literária e Literatura Brasileira na UFPE. Foi integrante da Geração 65 e do Movimento Armorial. Membro da Academia Pernambucana de Letras, na qual ocupava a cadeira 19, deixada por João Cabral de Melo Neto e que tem como patrono Paulo Arruda. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco e Secretário Executivo do Ministério da Cultura durante o ministério de Antônio Houaiss, no mandato de Itamar Franco.

Publicou seu primeiro livro “Cancioneiro”, em 1968. Em 1972, recebeu o Prêmio Recife de Humanidades pela sua segunda obra, “Nordestinados”, publicada em 1971. Oito anos depois conquistou o Prêmio Fernando Chinaglia, concedido pela União Brasileira de Escritores, pelo livro “Guriatã”. O livro “Narciso”, publicado em 1984, recebeu o Prêmio de Poesia concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Artes e o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras. Ao longo de sua carreira, foram publicados 15 livros, sendo o último deles uma reedição de “Nordestinados”, em 2016. Deixa várias obras inéditas.


 

DOIS POEMAS DE MARCUS ACCIOLY




O SERTÃO*


A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.

E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.

Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.

Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.

E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.


*In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)

Nota: Poema integrante da série “A Pedra Lavrada - Canto I”. Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas compostas de 5 quadra.



ÉRATO*


"por detrás o prazer é diferente
do gozo pela frente" (diz) e a boca
suplica ("mais") aí toda a carne é pouca
para todo o desejo (pela frente
o amor no Próprio amor se satisfaz)
mas é diverso o coito por detrás
da fêmea (é como os animais copulam)
existe um cio por detrás (um jeito
de pegar os cabelos quando ondulam
suas crinas) que o gozo insatisfeito
precisa de mais gozo para ser
em sua plenitude ou gozar mais
(se uma só vez o amor acontecer
é preciso que seja por detrás)


*In: “Érato, 69 poemas eróticos e uma ode ao vinho




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