domingo, 13 de março de 2016


O DELICADO ESSENCIAL (CONTO DE ANDREA FERRAZ)


Andrea Ferraz/Foto: Divulgação



Uma mulher beirando os quarenta toma banho de riacho. Aperta os olhos, inclina o ouvido. Nenhum barulho de carro, nenhuma máquina trabalhando, os passarinhos já́ haviam amenizado a futricagem. Apenas um grito de seriema, um canto de acauã̃ ou de casaca-de-couro, apenas essas interferências tinham o poder de desconcentrar Virgínia, fechar um instante as cortinas da imaginação. Olha com insistência para o nada, mas não era nada. Havia uma mancha azul de céu cercada de nuvens por todos os lados, os ares ainda frescos de luz leitosa da manhã.

O sol subiu por inteiro, incendeia, agora, os baixios, uma rajada de vento encrespa a superfície das águas.

Virgínia aqui acolá aparecia. Chegava e se acocorava nas calçadas esperando que dessem alguma coisa. Parece que não andava só́. Era um falatório, um bodejado desconexo. O povo não via, mas ela sim.

O profundo dos olhos de Virgínia era divino e não se acanhava da própria nudez diante dos companheiros invisíveis, pedia até licença:

– Vou ali à cerca estender esse pano.

Nua em pelo, os seios apontando para frente, a barriga firme, a bunda sorrindo, a pele das coxas brancas.

Vagava pelo mundo como se a alma vivesse fora do corpo, escandalizando pela simples aparência, mas ali, sem os andrajos imundos, cabelo pingando água, fazendo tudo que é penoso desaparecer, esparramada em cima do lajedo tendo sobre si apenas uma farta moita pubiana, era uma mulher tão atraente quanto qualquer outra. Ali, agora, não havia história, nem cargas, nem compromissos, nem bondade e nem malicia.  
O sol secou os cabelos de Virginia, ela caminhou até a cerca sentando primeiro a ponta do pé́, pisando com cuidado nos espinhos.

Puxou o pano, sacudiu, cheirou, sorriu, o olhar, os gestos, outra mulher. Juntou os cabelos e passou o lenço na cabeça. Vestiu os trapos e a cara de sempre. Vestiu-se de Virgínia, voltou à sombra da árvore, uma caraibeira.

Enquanto isso, lá́ do riacho, os meninos assistiam à saída de Virgínia que passou com uma rodilha na cabeça, a cesta de cipó́ de caititu em cima.

Como era possível que há dez minutos estivessem excitados por causa dela?

Virgínia segue mulher, mas nem sabe mais o que é ser isso porque só alcança liberdade sendo louca, invisível, no mundo onde apenas a nudez pode revelar quem são as pessoas.



2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Andréa Ferraz, apesar de ser uma jovem escritora,já é impressionante, pois é boa romancista(haja vista o seu " a sutileza do sangue"),contista(haja vista o conto de agora e outros...)e poetisa(haja vista os seus versos guardados na gaveta)...o conto "o delicado essencial", impressiona já pela beleza do título, pelo lirismo do texto e a sabedoria dos grande escritores:" Virgínia segue mulher,mas nem sabe mais o que é ser isso porque só alcança liberdade sendo louca,invisível,no mundo onde apenas a nudez pode revelar quem são as pessoas".De olho nesta escritora.Ela já é e será muito mais.

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