domingo, 13 de março de 2016


ACIMA DE TUDO HUMANA

por Douglas Menezes*





Mulheres operárias da indústria do vestuário de
Nova York (1909)/Foto: Reprodução



Um dia a mais, apenas, porque o dia delas é todo dia. Luta de séculos indo além de uma data. Não tenho, tão-somente, uma consciência feminina, pois penso na consciência humana atravessando as épocas todas da história dos gêneros. Acho pouco e deselegante celebrar um momento, numa espécie de proteção quase infantil. As guerreiras merecem mais. Dão o tom da existência naquilo que a vida precisa para, enfim, conceber a igualdade entre todos. São exemplos maiores na busca de uma justiça social que atinja as pessoas. Esse Socialismo tão utópico e, ao mesmo tempo, sonhado pelos corações e mentes de boa vontade como uma realidade possível de ser vivida um dia.

Deus testemunha de uma batalha sem tréguas. Da dominação instituída como verdade séculos afora, acrescentada por uma violência de um terminar nunca. Mártires do cotidiano opressor ainda hoje. Círculo vicioso quebrado nos tempos antigos, pelas cleópatras, marias bonitas, helenas, a algumas outras para confirmar a regra do domínio masculino.

Um dia houve o massacre. Cento e trinta, gravem bem esse número. Num tempo em que pedir justiça difícil era. Portas fechadas. Vida digna, horas mais justas no trabalhar, salário menos de fome. Guerreiras incendiadas, a meca do dinheiro já naqueles anos impondo seus tentáculos do mal. Gravem o ano, 1857, gravem a data 08 de março, gravem o local, Nova Iorque. O mundo não esqueceu a ousadia desse grito, tão intenso, tão emblemático, tão mulher, na fragilidade que é fortaleza.

Inda hoje a carência de confirmação das conquistas tão almejadas, tão gigantes são as batalhas que não cabem apenas nessa comemoração de somente um dia. Porque além disso vem a ternura, vem o materno, vem a sublimação de uma delicadeza tão natural que espanta, às vezes, a capacidade de se transformar em fera, na luta pelos direitos tão negados e que elas, exércitos sempre a avançar, se recusam a admitir um mínimo de retrocesso.

Noite densa, vivo agora, no silêncio de uma lua cheia, esse desejo, eu que não creio muito, de que Deus as proteja do cotidiano insano, das doidices do amor mal amado, das ruindades da vida, dos interesses menores que as humilham. Nessa noite densa de calor tão humano, eu olho as estrelas do céu e as acho bonitas, não porque são belas em si mesmas, mas porque são femininas.


03 de março de 2016











*Douglas Menezes é escritor e membro da Academia Cabense de Letras



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