domingo, 28 de fevereiro de 2016


UMA VIAGEM COM CELINA DE HOLANDA

 por Ivan Marinho*


Celina de Holanda
Foto: Divulgação



A poeta Celina de Holanda Cavalcanti de Albuquerque nasceu no engenho Pantorra - fundado antes da invasão holandesa -, no Cabo de Santo Agostinho, a 19 de junho de 1915.

Segundo a Doutora em Estudos Literários na Universidade de Paris VII, Luzilá Gonçalves, “Enquanto ela era viva, a poesia dela não recebeu a atenção que devia. Apesar de termos outras grandes poetas mulheres, ela, junto com Deborah Brennand, é uma das duas maiores de Pernambuco”. “Celina nos ajuda a ler o mundo e a nós mesmos, seu olhar sobre as coisas, lúcido e crítico é, entretanto, pleno de simpatia e ternura humana. A poetisa alcançou e nos transmite aquela ‘clara simplicidade de existir’ que buscava Alberto Caeiro”.

Aldálio Alves, jornalista, advogado, bacharel em letras e poeta diz que “nela o sopro elegíaco se inicia com a publicação, em 1976, do seu livro A Mão Extrema, onde, pela proximidade do calendário anímico, condicionador do nosso canto, a sensibilidade de Celina nos dá a dimensão que o seu verso poderá assumir no decorrer da frase iniciada”.

João Bigotte Chorão, escritor, publicista, crítico literário e ensaísta português declara que “em As Viagens, de Celina de Holanda, fui às fontes de sua poesia, uma poesia líquida e mansa, apesar de sua violência subterrânea. Por todo o livro se houve uma música tão íntima que parece composta de palavras que mal pousam no papel”.

O jornalista e poeta, eleito membro da Academia Pernambucana de Letras em 2014, José Mário Rodrigues, defende que “os poemas de Celina de Holanda são precisos. Difícil escolher o melhor. Mais difícil ainda retirar uma palavra. Cada palavra sua é uma estrutura firme, uma coluna mestra. (‘um Deus reina comigo’).

O advogado e bacharel em letras, membro da Academia Cearense de Letras e eleito, em 1985, príncipe dos poetas cearenses, Artur Eduardo Benevides, declara: “É uma poesia que dói, que comunica muita coisa bela e encerra confidências de longo espectro filosófico: ‘Necessariamente sou a lágrima de outro’. O livro todo é assim, rico em conteúdo, de substância, de fluidez lírica, de transparência e leveza.

Já Armindo Trevisan, doutor em filosofia pela Universidade de Fribourg na Suíça, diz que “seu estilo é simples – a maior qualidade de estilo. As palavras possuem uma limpidez que encanta. Não há superficialidades em Celina de Holanda. A emoção vem de dentro, das profundezas, como esses fios de água que atravessam pedras e folhas”.

Por fim, Carlos Drummond de Andrade arremata: “Não sei de muitas vozes poéticas femininas que se equiparem à sua, pela limpidez do sentimento reflexivo e pela discrição da palavra”.

Fiz questão de introduzir este artigo com declarações de notórios conhecedores do gênero poético, a fim de que possamos nos aproximar da dimensão alcançada pela poetisa cabense. No entanto, o que mais impressionou aos que conviveram com Celina, foi seu desejo de encontro, com as pessoas e com a palavra! Neste sentido, e por ter tido o privilégio de provar um pouco da doce relação com aquela que se alegrava em ser chamada de Cecé, assumo a responsabilidade de tentar expor seu perfil, no aspecto de maior relevância em seu discurso poético, o afetivo. Para isto, conto, declaradamente, com a memória afortunada de Andréa Mota, sobrinha-neta da poeta, Alberto da Cunha Melo, admirador e admiração de Cecé, e Manoel Constantino, discípulo apaixonado.

Andréa, como se sondasse o germe poético que revelaria o gênio de Celina, nos encanta com a bela história de seu ancestral Filipe Cavalcanti, egresso de Portugal por causa de contendas com os Borgeas. Entrara em Pernambuco com as Bandeiras, em busca de ouro, tendo seu grupo capturado e devorado por aborígenes canibais. Filipe, grisalho e de olhos azuis, virou objeto de admiração da filha do cacique Arcoverde, que o pediu como animal de estimação (Andréa nos relata isto com um largo sorriso). Apaixonaram-se, formaram família e deram origem a arvore brasileira que frutificaria Celina de Holanda Cavalcanti.

No Engenho Ipiranga, ainda criança, perdeu sua mãe, e foi levada pelos avós, com sua irmã e seus dois irmãos, para o Engenho Pantorra. Aos 10 anos de idade contraiu Poliomielite, da qual conseguiu se curar, mas, por alguns anos, dependeu de uma muleta para se deslocar. Ressaltando sua vontade de viver, sua resiliência e sua vontade de superação, sua sobrinha-neta conta que, após enfrentar viagens de Pantorra à praia de Gaibu, em comboios de carros-de-bois e de, limitada pelos movimentos, ser tolhida nalguns jogos, usava a muleta como alavanca para se destacar nas corridas feitas na areia.

No Engenho Pantorra aprenderia o gosto pela leitura, motivada pela prática familiar e incentivada por seu avô, Manoel Clementino Cavalcanti de Albuquerque, um humanista que cultivava uma farta biblioteca com muitos clássicos e que se dava à vida social, ao ponto de vir a governar a cidade do Cabo. Aprenderia também os valores afetivos da gente simples na luta pela sobrevivência, o que viria a influenciar sua adesão às ideias do Concílio de Puebla e a opção da Igreja pelos pobres. Na direção do Vaticano II, foi confidente de Dom Hélder Câmara na arquidiocese de Olinda e Recife e do Pe. Romano Zufferey na ACO (Ação Católica Operária), pela qual, graças à sua sensível habilidade, cortou e pintou cabelos de muitos perseguidos políticos para disfarçá-los nas fugas. No entanto, mesmo optando abertamente pela liberdade e justiça, não se denominava esquerda ou direita, e transitava, socialmente, em ambos os lados, de forma que era aconselhada por Maria do Carmo Barreto Campelo de ter cuidado para não ser presa por suas amizades e poemas. Conviveu, também, talvez pelo viés religioso, com o Pe. Melo no Cabo de Santo Agostinho, com certeza sem saber que este representava a CIA (Agência Central de Inteligência Norte-americana). No Cabo, também, transitava em companhia de Lúcio Monteiro e Murilo Lages, dois ilustres representantes políticos da esquerda no município.

Celina de Holanda realizou suas primeiras publicações poéticas nas páginas do Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco, mas tornou-se realmente notável quando, junto a Alberto da Cunha Melo e Jaci Bezerra, criou as Edições Pirata, editora que utilizava a gráfica do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, atual FUNDAJ, durante as madrugadas, para imprimir livros de escritores praticamente inéditos, oportunizados pela abertura política propiciada pelo fim da ditadura militar. Reproduzidos no IJNPS, os livros recebiam acabamento na casa de Míriam Brindeiro, do qual Alberto era responsável por serrá-los para a colagem ou costura, tudo de forma absolutamente artesanal. Mas a editora precisava de um endereço e, para isto foi franqueado o da poetisa cabense, que era no bairro do Derby.

Graças à divulgação deste endereço, Rua Betânia 10 / 102, impresso nas capas dos livros, Cecé passou a receber muitos escritores em sua casa e, com portas e braços abertos, orientá-los no processo de criação e edição de seus livros. O escritor Luis Manoel Siqueira, em crônica intitulada CELINA DE HOLANDA: UMA RECEITA DE PERFUME, nos presenteia com o seguinte texto: “A casa de Celina não era apenas o centro de convergência natural da Pirata. Ela representava também uma referência de princípios e valores éticos e humanos, que tinha em pensadores como Padre Romano Zufferey, Leon Bloy, Theillard de Chardin e Dom Hélder Câmara, os pontos cardeais de um socialismo moldado nos valores daquele cristianismo primitivo e submerso. Essa presença cristã diferenciada permeava toda a poesia de Celina e também de outros poetas daquele tempo. O amálgama surgido com os perfumes da redemocratização e os ideais da Teologia da Libertação de Puebla, resultavam numa fraternidade real, que "rodava a mesa"  montando as páginas de centenas de livros de poetas pobres e marginalizados”.

Comumente vestida com kaftas coloridas e muitos colares confeccionados com sementes ou papel machê, feitos pelas próprias mãos, Cecé recebia escritores com uma alegria e atenção que marcaram sua história. Pedia para ouvir pela voz do próprio autor, seus textos e, com afago e faca, como nos relata Manoel Constantino, aconselhava os cortes e exaltava as qualidades, sem conseguir esconder o desejo de motivar e fazer feliz quem batesse à sua porta. “Recebia os poetas indiscriminadamente e a todos dava atenção, orientando sobre a arte poética, cortando os excessos e dizendo da busca da palavra exata”, nos diz Constantino. A casa, com aura de formalidade, ilustrada por uma mobília clássica, não impunha distância, mas aproximação, aconchegava, deixava a vontade quem nela era recebido e, apesar da busca profunda transmitida pelos escritos de Celina de Holanda, tantas vezes associada a uma violência subterrânea, sua aparência é desarmada, atrativa, leve, assim como o foi a poeta. Andréa Mota rememora uma conversa que teve com sua tia-avó: “Por que em Alberto consigo compreender o poema e nos seus, encontro dificuldades?”, ao que Celina, amante e conhecedora que era da poesia de Alberto, afirmou: ‘Minha filha, o difícil é ser simples!’”.

O POETA VAI À LUTA

Quando a palavra é muito pouco
Para o amigo
E minhas mãos estão vazias,
Sua urgência dói
Como nervo exposto ao frio,
A dor, esticando o fio,
No espanto de vê-lo erguer-se
Silencioso e partir
Com sua lança tão frágil
Vergando na ventania.
        
Além do gosto pela eufonia, constatado na necessidade de ouvir os poemas, Cecé cultivava um olhar perscrutador para a atmosfera das cores. Conta-se que, nas viagens, ela fazia, vez por outra, uma observação sobre o estado cromático das paisagens.

PASSEIO NO PARQUE

(óleo sobre tela de Seurat)
Neste parque imutável
Até hoje passeiam
Estes homens de escuro
E estas frágeis mulheres.
Até hoje as flores, os cristais
E as toalhas
São sem mácula
Nas salas de esperar
O amigo, o amado
Ou a chuva passar. Nada
De apocalipse
A terrível besta e poços
Insondáveis. Nada
A relembrar o abismo
Que somos.

Mas o que movia este espírito inquieto transformado nesta alma serena? Segundo seu grande amigo, Alberto da Cunha Melo, Celina era de um “cristianismo guerreiro”, primitivo, onde a palavra se fazia carne, capaz de, ao tempo que se encantava com a atitude do pai que, com uma faca bem afiada, cortava finas fatias de laranja para por no litro de cachaça de cabeça que, com o tempo, exalava um odor de licor perfumado, interpunha-se entre a chibata do feitor e seu querido cão que descobriram sangrando as ovelhas. Perante a violência do Estado Brasileiro, o desparecimento e prisões de amigos, a poeta fortalecia suas convicções fixando nas paredes e cultivando em seus poemas pensamentos como os de Leon Bloy, confeccionados em madeira e pendurados no quarto, que diziam “A verdade vale a vida! A justiça vale a vida!”. E tão apaixonada era pela fé que a sustentava, que duvidava de sua existência sem esta fé, como nos traduz no poema intitulado AOS QUE ME QUEREM COMO ELES:

Não sei de outro
Mas daquele
Que ordena a beleza
À vida
Rege o amor
Pelos ciclos da lua
Faz crescer os ovários
Dos ouriços do mar.

Se apago esta paixão
Talvez me apague.

Poema este, que nos faz lembrar Alberto Cunha Melo em seu poema retranca ERGONOMIA:

O grande trabalho é do amor
sem bronzes, sem assinaturas,
no ar do espaço, na hora do tempo,
pólen de Deus nas criaturas,

a palavra quase sem eco
a injetar humos no deserto,

mãos de Franciscos, de Terezas,
que repartem, ocultamente,
suas migalhas sob as mesas,

ou energia sem fronteiras,
que acende todas as estrelas.
        

A escritora, poeta maior que tanto nos orgulha, segundo Luis Manoel Siqueira, afirmava convicta que “antes de tudo, um escritor precisa coincidir com aquilo que ele escreve, para não virar um mero malabarista de palavras - figueira sem frutos”.

Deparei-me com a poesia de Celina de Holanda em minhas visitas à Biblioteca Joaquim Nabuco no Cabo de Santo Agostinho. Seus livros repousavam nas prateleiras e, para minha surpresa, todos oferecidos, com muito afeto à sua terra mãe. Menos de um ano antes de seu encantamento, realizei, no Teatro Barreto Júnior, quando diretor do departamento de cultura no município, o Encontro de Poetas Recitadores, com participação de vários poetas independentes e marginais, convivas meus e de Cecé, como Jorge Lopes, Erickson Luna, Miró, Samuca, Valmir Jordão, Manoel Constantino, Chico Espinhara, Tuninho de Olinda, Tereza Helena, Vilma Lessa, Eunápio Mário, França, Miró, Lara, Antunino Júnior, Gerson Santos... em homenagem a Celina de Holanda, em 1998. O vice-prefeito do Cabo, a presenteou com uma pintura do artista plástico Flávio Rufino, que ela recebeu com muita alegria e elogios, afeita que era à pintura. Mas um episódio se destacou naquele evento: Percebendo a ausência de Alberto da Cunha Melo, quis saber qual o motivo.

Expliquei que Alberto justificou que se sentia fraco para viajar até o Cabo e que, na expectativa de que ela dissesse que era mais idosa, disse que ele se estragara mais por conta do cigarro e da bebida. Ela silenciou e, durante o evento, bebeu vinho, fumou e me chamou do lado: “Diga a Alberto que eu vim, com 84 anos, bebi e fumei!”. O Encontro foi encerrado com uma apresentação do músico Maciel Melo. Alberto da Cunha Melo sorriu emocionado ao ouvir o recado da amiga e compareceu ao segundo Encontro, que incorporou o nome da poeta já encantada, Celina de Holanda de Poetas Recitadores. Nesta ocasião o apresentei a Lirinha, que viria, no futuro, a gravar o Canto dos Emigrantes de nosso poeta maior.

POEMA
(A Alberto da Cunha Melo)

Era uma galeria de espelhos
Onde me via e ouvia repercutida.
Em tua morte, pacífica e diária,
O meu nome escrito.

Assim era e agora
Receio que tenhas ido, horizontal e anônimo
(frente ao medo, mais alto que o meu grito)
Dessa casa de mortos, dessa casa
                                  Desonrada e sem ódio.


Atualmente, na cidade do Cabo de Santo Agostinho, o nome da poetisa Celina de Holanda Cavalcanti de Albuquerque destaca-se como patronesse da Academia Cabense de Letras e como nome da biblioteca do Espaço Cultural Mestre Dié, no distrito de Ponte dos Carvalhos, porém o Encontro Celina de Holanda de Poetas Recitadores, que se realizara em quatro versões, não encontrou mais incentivos para sua realização.





*Ivan Marinho é economista da cultura, artista plástico, poeta e membro da Academia Cabense de Letras



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