domingo, 6 de dezembro de 2015


A POESIA DE CÍCERO MELO*


Cícero Melo/Foto:divulgação




A TERCEIRA PELE
Procuro a carne da palavra adusta,
Aquela que insorvida se consome,
Aquela cujo selo cai à fronte
Das palavras irmãs e se incrusta
Nas pedras da razão, no verbo nômade,
No dedilhar de febres e de angústias,
No delírio senil da sombra rústica,
Longa noite de sal e medo insone.
Procuro a carne da palavra augusta,
Aquela que se eleve e se prolongue
Em mistério sutil, sedosa e onde
Repouse mar, celebração e bússola.
Procuro a carne da palavra morta
Que se aviva, me bate e me conforta.


A MOTIVAÇÃO ROSA
O que motiva essa rosa
além da acesa ternura,
senão o rubro que dosa
minha paixão e loucura?
O que teceu essa dor
que rosa essa rosa ativa,
senão os ventos do amor
em minha face cativa?
Casta rosa, que neblina
a rama de amar me tosa!
Vem cintilante assassina!
Rosa rosa rosa rosa!


PSIQUÊ
Asas desnudas, sempre ao som do outono,
lasciva à sombra, tecelã sem véu;
silvestre acende de fragrância, um céu
aos deuses ébrios, frenesi de sono.
Perfumes, poros, cortesãos sem dono,
O púbis plúvio, reiterado réu.
Eros inflama junto ao peito ao léu
os caminhos sedosos do abandono.
O botão da manhã enfarta a flor.
A alegria projeta a sombra rosa
nos doces sítios em que repousa amor.
E despertas, paisagem deleitosa,
os orgasmos finais de luz e ardor
da borboleta ao vento, incestuosa.




*Cícero Melo do Nascimento nasceu em União dos Palmares/Alagoas em 1952. Radicado no Recife desde 1980. Participou ativamente da vida cultural do Recife na década de 80 quando da existência do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco (MEIPE). Grande conhecedor de literatura contribuiu na década de 80 para formar uma fortuna crítica sobre a produção poética dos seus contemporâneos. Seus poemas encontram-se publicados em diversos fanzines e jornais do Brasil e exterior.



0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima