domingo, 25 de outubro de 2015


ENTREVISTA COM ALEXANDRE FURTADO



Alexandre é doutor em Teoria da Literatura
pela UFPE

  


Nesta entrevista exclusiva ao DCP, Alexandre Furtado fala sobre a produção literária pernambucana, a transversalidade das artes, a internet e as novas tecnologias, o papel dos blogs, sites e portais literários, entre outros assuntos.

Alexandre Furtado é doutor em Teoria da Literatura pela UFPE, professor de Literatura Inglesa e Norte americana na UPE e da pós-graduação da FAFIRE e UNICAP. É editor cientifico da Revista Formação - UPE Campus Mata Norte e da Revista do Instituto Histórico. Escreveu o livro de poesia De ruas e itinerários, pela Cepe.



DCP - Que balanço você faria da produção literária do estado? Quem você destacaria neste atual momento?

AF - Tenho a impressão de que existe uma circulação maior de livros entre nós, estimulada não apenas por livrarias, redes sociais e sites, mas, sobretudo, pelos encontros, lançamentos, feiras, oficinas, inclusive pelas próprias escolas e universidades. Por outro lado, e sem querer reduzir o fenômeno literário hoje ao mero consumo, me pergunto se esse cenário aberto, diverso e estimulante garante realmente que haja um público leitor mais atento, crítico, ou talvez proporcional à visibilidade observada. Também, eu questionaria se nós pernambucanos, apesar de haver muitas, ou mais opções que antes, e fugindo de bairrismos, mas navegando nas águas da pergunta, se estamos realmente nos dando conta do que já foi é feito aqui, se estamos lendo e pensando mais sobre nós mesmos, considerando também o que é produzido em outros lugares. Não sei precisar. Arriscaria dizer, talvez na esperança, que de uma maneira geral, estamos lendo mais, e lendo mais a nós mesmos, brasileiros, pernambucanos. Com relação ao momento atual, poderia citar inúmeros autores, e  poderia esquecer de outros também, o que é arriscado, mas vamos lá: Pedro Américo, Adrienne Myrtes, Cida Pedrosa, Geórgia Alves, Cícero Belmar, Beto Azoubel, Raimundo de Moraes, Renata Pimentel, Luzilá Gonçalves, Raimundo Carrero entre tantos e tantos outros, além desses, não mencionados agora.


DCP - Há um bom e interessante debate sobre a transversalidade das artes. Onde cabe a literatura neste latifúndio?

AF - Eu penso que a literatura, por lidar com a palavra, essencialmente, seus significados e os sentidos, mobiliza uma quantidade enorme de relações com outros saberes e formas de arte, o Teatro, o Cinema, a Música. E, claro, existe uma relação ainda mais profunda, a do literário com a própria vida, que vai seguramente para além da representação, e toca a construção das ideias, do pensamento. Assim, conhecer um pouco mais das artes, sem dúvida, ajuda a entender, a ler e a interpretar melhor certos textos literários, quem sabe, estabelecendo relações que ajudem, durante a leitura da literatura, encantar mais, revelar melhor, não somente pela intertextualidade, pelas metáforas, pelas imagens. É bom lembrar que há uma tradição literária e ela dialoga de maneira relacional, transversal com filmes, pintura, ópera e peças de teatro.
 

DCP - Estamos vivendo uma intensa movimentação no país através de Bienais, Feiras e Festas literárias. A literatura virou moda ou negócio?

AF - É verdade, existe uma movimentação diferente, digamos, um outro-velho modus operandi, que produz arte e divulga, mas que flerta com o mercantil. Lembremos a famosa feira de Frankfut, com raízes medievais. Também sinto uma espécie de aceleração – às vezes, promovida pela tecnologia, pelos ritmos que nós estamos aceitando e/ou nos impondo. A resposta para sua pergunta depende muito de quem lê, ou escreve ou de quem produz. Conheço gente da área que pesquisa e ensina literatura, vai aos encontros, mas não se preocupa com o negócio da literatura, outros que apenas escrevem e leem, e nem aí para a moda, e outros mais que somente leem. Para a maioria, imagino, o entendimento desse negócio passa ao largo, talvez para aqueles que lidam diretamente com a indústria cultural, ou com a produção cultural, essa que transforma o livro em um best seller e depois em um filme e depois em jogo e tudo o mais, leia-se Harry Potter, sem estar aqui julgando a obra, mas percebendo-a em uma rede de produtos que é também um negócio e que pode fazer parte de uma moda. Para essas pessoas, a literatura é o negócio, só não sei se esse é o sentido dela, ou seja, se o sentido da arte é vender, trazer de lucro. É preciso dizer também que existem alternativas, mas mesmo assim, as lógicas da produção impõem um jeito próprio. Literatura como negócio? Para quem?  Boa pergunta, dessas que geram outros questionamentos...


DCP - A internet e as novas tecnologias contribuíram para este novo momento da literatura?

AF - Sem dúvida! Paremos de demonizar a tecnologia, pois há algo positivo nisso tudo, da mesma forma que há um desgaste de certos formatos ou maneiras de divulgar produtos, serviços, inclusive, para os que trabalham diretamente com o chamado “mercado da arte”, mercado editorial. Gosto de tecnologia, mas prefiro às vezes o silêncio e um bom livro na mão.


DCP - As políticas públicas do estado atendem aos anseios da literatura na região?

AF - Olha, há um avanço, é indiscutível, mas há também histórico difícil e uma crise, recente, que redimensiona tudo e que por não ser vista apenas como econômica. E isso toca também o universo das artes. Nesse contexto, vejamos os editais, os prêmios, enfim, todo o esforço para fortalecer a leitura e a literatura, na verdade, uma cadeia que é complexa – bem mais que somente o binômio produtivo-criativa. Enquanto professor, me preocupo com os leitores em formação. Talvez fosse interessante entender mais amplamente de quais anseios estaríamos falando, ou seja, considerando um estado como Pernambuco, o que poderíamos vislumbrar como anseios literários daqui? Então, eu incluiria – vejo agora os meus anseios, maior número de autores locais com programas de leitura nas escolas, acesso à educação de qualidade com formação dos professores e atividades voltadas à literatura, incentivo aos espaços de leitura, à produção e distribuição de livros literários e formas de ensino e aprendizagem.


DCP - Fale um pouco sobre o seu livro de poesia ‘De ruas e itinerários’.

AF - Um livro de poesia, que fala das ruas de uma cidade antiga como o Recife, de poemas sobre os lugares que marcaram minha vida, talvez de uma geração. Guarda certa saudade de um Recife que não existe mais. E digo isso, pois entendo que saudade é sinal de saúde. Acho que é um livro que traz uma reflexão acerca do tempo, da memória, sobretudo de meu pai.


DCP - Qual escritor da história da literatura brasileira você gostaria de bater um bom papo e tomar um café?

AF - Cheguei a ver de perto Jorge Amado, muitos anos atrás. Um mito. Lembro quando conheci o João Ubaldo Ribeiro, sorridente e bem humorado. Gosto quando converso com Luzilá Gonçalves, uma simplicidade que fala de coisas tão profundas. A generosidade de Ariano Suassuna. Não sei como me comportaria se um dia tomasse um café com Clarice Lispector, ou Guimarães Rosa. A poética de Manoel de Barros. Ver uma humanidade tão de perto. São tantos, e com eles aprendi que somos, de repente, e antes de tudo, seres humanos.


DCP - Como você vê o papel dos blogs, sites e portais literários?

AF - Todos os recursos midiáticos, tecnológicos e da web, para mim, são válidos quando divulgam e ajudam a (in)formar, educar, provocar, fortalecer conhecimento, principalmente o literário. Existem vários deles que leio, acompanho diariamente, e cheguei a contribuir com alguns. Gosto e acho muito interessantes. Um instrumento válido para muitos, leitores e autores.


DCP - Você lançará um livro de contos, Os mortos não comem açúcar, poderia falar dele?

AF - Claro. São 14 contos, que possuem intimidade uns com os outros, ou seja dividem detalhes que se entrecruzam, de certo modo, se integrando à pergunta, por que os mortos não comem açúcar? Tudo é passado na década de 70 no Recife. Os textos são interligados por um um segredo que se revela ao final, mas não é lendo o final que se conhece; Um livro que se enquadra melhor, digamos, nas fronteiras, pela maneira como está organizado. Uma época trazida pelas águas da observação, conversa, leituras, pesquisas e vivências, tanto minhas quando de outros. Em certa dose, cheias de erotismo, sutil, e crítica social. Também as questões de classes, dramas psicológicos e as contradições humanas, demasiadamente humanas, se é que realmente são contradições.


Img: divulgação




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