domingo, 1 de novembro de 2015


A POESIA DE PEDRO AMÉRICO DE FARIAS*


Pedro Américo de Farias/Foto: Divulgação




ARVOREDO

                 Um galo sozinho não tece uma manhã
                 João Cabral de Melo Neto



Uma árvore não desenha a primavera
e o outono veste-se com incontáveis
                                           folhas mortas
sozinha não abre a flor sem a luz do sol
que aquece a pedra o solo a raiz
o pardal devora o grão e o semeia
sempre em companhia de outros pardais
cantam em coro sabiás e sanhaçus
                                        inhambus e juritis
voam em nuvens borboletas
                                                     gafanhotos
orquestra-se dessa forma tudo que é imóvel
e ainda o inanimado e o semovente
é assim com a flor, a flora na floresta
assim é com toda a fauna, a humana até
trilhões de seres a viver e reviver
trilhões de árvores a florir, frutificar
que uma só árvore na desenha a primavera
e o outono veste-se com incontáveis
                                                       folhas mortas.





PARALELEPÍPEDRO

                        Canto pedregoso em terça rima


Nasci Pedro, assim me encaixo
Pedregulho entre pedreiras
Rolando penhasco abaixo
cresci pedra por ladeiras
açudes, roças e rios
fui trempe para fogueiras
sofri febres, calafrios
senti no couro chibatas
meus ais viraram assobios
sonhei sonhos em cascatas
neles cacei capivaras
vivi com nefelibatas
habitando nuvens raras
caí que nem bendengó
amassando algumas caras
mas hoje sou pedra-mó




DANÇA, CLARICE

Canta e dança, Clarice!
que afora isso
só a topada nos leva
canta, Clarice
que além disso
o gesto nos traduz
e a fala nos anuncia
dança, Clarice
que o corpo malhado
pelo sim pelo não
desperta melhor
a cada manhã
dança e canta, Clarice!



*Pedro Américo de Farias nasceu em Ouricuri (PE). De origem camponesa, filho de pais cearenses, nono entre catorze irmãos. Gradou-se em letras e pós graduou-se em educação, foi professor no ensino médio, livreiro-sebista, dedicou-se aos estudos literários e trabalhou na Fundação de Cultura Cidade do Recife.



Fonte: Coisas: poemas etc / Pedro Américo de Farias. Linguaraz Editor, Recife, 2015.



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