domingo, 28 de junho de 2015


A ROSA DE TODOS OS TEMPOS II

Por Natanael Lima Jr.*



João Guimarães Rosa/Foto: Reprodução

  

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranquilos e escuros
como o sofrimento dos homens."

(João Guimarães Rosa)




João Guimarães Rosa foi um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos. Foi também médico e diplomata. Nasceu na cidade de Cordisburgo, MG, em 27 de junho de 1908. Tornou-se reconhecido mundialmente devido aos traços marcantes presentes em sua obra, com uma linguagem inovadora, popular, regional e a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos, invenções e intervenções semânticas e sintáticas. Os contos e romances escritos por Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no sertão brasileiro.

Primogênito de sete filhos, aos sete anos começou a estudar diversos idiomas, como francês, alemão, inglês, espanhol, italiano e esperanto. Além de conceituado escritor, ele se formou na faculdade de Medicina e chegou a exercer a profissão até 1934.

Em entrevista concedida a uma prima, estudante de jornalismo, ele falou de seu grande interesse no estudo de idiomas. “Eu falo alemão, francês inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.”

Após passar no concurso do Itamaraty, Guimarães Rosa teve como primeira função no exterior, o cargo de Cônsul-adjunto no Brasil em Hamburgo, na Alemanha, de 1938 a 1942. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele ajudou os judeus a fugirem para o Brasil ao conceder, ao lado da segunda esposa Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, mais vistos do que as cotas estipuladas. A ação humanitária lhe rendeu no pós-guerra, o reconhecimento do Estado de Israel.

Sua primeira obra foi Magma (1936), um livro de poemas, com o qual obteve um prêmio da Academia Brasileira de Letras. Estreou para o público, de fato, em 1946 com um livro de contos que se tornaria um marco em nossa literatura: Sagarana. Mas sua consagração definitiva viria dez anos depois, com o romance Grande Sertão: Veredas (1956), uma das mais importantes obras da literatura brasileira, elogiada pela linguagem e pela originalidade de estilo presentes no relato de Riobaldo, ex-jagunço que relembra suas lutas, seus medos e o amor reprimido por Diadorim.

Guimarães Rosa faleceu no dia 19 de novembro de 1967, no Rio de Janeiro, aos 59 anos. Três dias antes, ele havia tomado posse na Academia Brasileira de Letras, para a qual havia sido eleito em 1963 por unanimidade. Temendo ser tomado por uma forte emoção, adiou a solenidade por quatro anos. Em seu discurso, quando enfim decidiu assumir a Cadeira nº 2, em 1967, chegou a afirmar, em tom de despedida, como se soubesse o que se passaria ao entardecer do domingo seguinte: “... a gente morre é para provar que viveu.” Suas obras foram traduzidas para diversos idiomas.


*Natanael Lima Jr é poeta, pedagogo, produtor cultural e editor do DCP



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima