domingo, 28 de junho de 2015


CONTO DO DOMINGO

Um cochilo depois do jantar (conto) de Gerusa Leal*


 
Gerusa Leal/Foto: Reprodução

  

Quando parava o que estava fazendo, percebia o quanto o apartamento era grande e silencioso àquela hora da tarde. Encaixou Autran Dourado entre Augusto dos Anjos e Balsac, imaginou o que pensariam os autores, das improváveis companhias a que a vizinhança na estante os obrigava. Depois ajoelhou no chão e acabou de organizar a prateleira de baixo da última estante.

Guardou o CD, colocou o último livro na prateleira. Queria tudo perfeito. Forrou a toalha branca, pôs o prato, o talher, a taça, o arranjo de flores. Passou na cozinha, conferiu o assado, foi para o chuveiro. Amanhã a poeira voltaria a se depositar, feito todos os dias. Mas não importava. Não a incomodaria mais.

Lembrou que não havia trocado o lençol da cama. Deixou para lá. Talvez ninguém passasse da sala mesmo.

Degustava o tender saboreando o contraste do salgado da carne e o agridoce do molho com cereja. O vinho aquecia por dentro. A luz das velas era suave e oscilante. Feito a da televisão no escuro da sala.

Chegou mais uma vez a gaveta dos documentos, todos os importantes estavam ali. Não queria dificultar a vida de ninguém. Sentou no sofá e começou a ver o especial, recostada nas almofadas. Logo cedo, a faxineira ligou para a filha da patroa. Não era notícia que ninguém gostasse de dar, principalmente numa manhã de Natal. Mas o que é que ela podia fazer? Pelo menos a patroa já estava no seu melhor vestido, o par de sapatos preferidos, bem penteada e maquiada. Ela de fato nunca gostava de dar trabalho a ninguém.

Era um bom emprego, ia sentir falta. Da patroa também, é claro.

  

*Transcrito do livro “Mosaico”, Edições Interpoética, 2013



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