domingo, 17 de maio de 2015


POEMAS DO DOMINGO

A poesia de Isaac Luna*


Isaac Luna é poeta, acadêmico da ALJG e professor
da Faculdade dos Guararapes

  

O TROMBADINHA

A tarde que cai enfadonha
Anuncia outra noite gelada
O vento seco do outono
Derruba as folhas na calçada
Que mora aquele menino
E dorme na madrugada

O jornal que traz a notícia
Das verbas pra educação
E do fechamento de mais uma escola
Essa noite será o colchão
Daquele importuno menino
Que sonha chorando ou sorrindo
Com dias melhores que virão

O sinal já está fechado
E lá está o menino
Indo, voltando, pedindo
- uma esmola senhora...

O que mais faz o menino?
O que mais sabe fazer?
Com um pouco de atenção
Talvez aprenda a vender
Fetiches, drop’s e balas
E assim sobreviver

Mas os vidros continuam fechados
Afinal, meninos de rua são perigosos...

Vai acabando mais um dia
E o menino não vendeu nada
Vai lembrando a dureza
De outra longa madrugada

Assim retorna a calçada
Pensando no que fazer
Pra que talvez amanhã
Consiga o que comer

E ao chegar em seu leito
Sua cama de jornal
Adormece sobre a manchete
Do anseio nacional:
“Chega de compaixão
É hora da redução
Da maioridade penal!”.


PÓS-MODERNIDADE

Não sei se sou quem eu sou
Não sei se eu sou ou não
Não sei se sou a lógica
Ou a pura emoção

Não sei se eu sou feliz
Não sei se eu sou tristonho
Não sei se sou de verdade
Ou simplesmente um sonho

Nem mesmo sei de onde sou
Se daqui desse lugar
Se  eu sou filho da terra
Do fogo, da água ou do ar

Talvez seja tudo o que digo
Talvez também seja nada
Talvez seja a sombra do dia
Talvez a da madrugada

Quem sabe seja tudo isso
Quem sabe nada eu seja
Quem sebe apenas eu sou
Quem o mundo deseja

Também posso ser por ventura
Apenas mais um normal
Que vê futebol na tv
E gosta de carnaval

Porém talvez possa estar
Na tal anormalidade
Que enxerga o mundo as avessas
Em busca de outra verdade

Acho que já descobri
O que realmente eu sou
Apenas mais insano
Inquieto e sonhador.


UM LUGAR CHAMADO CULTURA

Perguntar não ofende
Está escrito na moldura
Principalmente se a pergunta 
É dirigida com candura
Então responda sem mas:
O que é que de fato se faz
Lá pra's bandas da cultura?

Essa pergunta sincera
Feita de supetão 
A um vivente da cultura
Que a leva no coração
Pode ser respondida
De forma desinibida
Com uma feliz gratidão 

Gratidão pela bela música
Que anima o nosso dia
Tocando o fundo da alma
Com a sua melodia
Provocando a reflexão 
Chamando a nossa atenção 
Com a mensagem que anuncia

O fascínio que nos toca
Com a coreografia 
Do espetáculo de dança 
Envolto em pura magia
Do passo da bailarina
Ou do sorriso da menina
Que requebra com alegria

É o frio que dá na barriga
E acende o fogo da paixão 
Quando no escuro do cinema 
A mão encosta a outra mão
Da pessoa desejada
Quem sabe até da amada
No enredo da sessão 

O exame sobre si mesmo
Que o inconsciente constrói
Na dramatização da obra
De Dostoyevsky ou Tolstoi
Na peça de Ariano
Que atinge o ser humano 
Anima, angustia e dói
O prazer visual que temos
Ao ver a arquitetura
Do prédio que foi construído
No tempo da escravatura 
Uma parte da nossa história
Preservando na memória
Períodos de amargura

Ainda o impacto da pintura
Da imagem sobre a tela
Que a sutileza do artista
Procura a forma mais bela
O traço, a sombra, a cor
Retratando o esplendor
Da sensibilidade singela

Festa, evento, espetáculo
Explosão de alegria
Réveillon e carnaval
Disciplina e anarquia
Iemanjá e São João 
O desfile e a procissão 
Essências dessa alquimia 

O boneco forjado a barro
Retratando o cangaceiro 
A estátua feita no gesso
Do padre do Juazeiro
A mais sublime escultura
Talhada na pedra dura
Com precisão e esmero 

Poemas que são escritos
Por menestréis letrados
Ou por sertanejos sofridos
Em seus cordéis retratados
O verso do trovador
Do apaixonado sofredor
E dos poetas não publicados

O baião na panela de barro
A tapioca e o mungunzá 
Que  é doce em Pernambuco
E salgado no Ceará 
Café pilado no pilão 
Buchada costurada a mão 
É a culinária a nos encantar 

O folclore que está na base
Da cultura popular
Saci-Pererê e Boto
Mil estórias pra contar
Cumade Fulozinha e sua brabeza 
E a Mula sem cabeça
Curupira e Boitatá 

Os cortejos populares
Como o maracatu rural
A dor do caboclo de lança
Cortando o canavial
O boi e o Caboclinho
Uma pedra no caminho
E o pastoril no natal

A história da humanidade
Contada na literatura
A herança da tradição
Para a geração futura
Eis aqui alguns exemplos
Do que se tem feito nos tempos
La pra's bandas da cultura...

A cultura é o espelho
Que reflete a identidade
Dos grupos mais diversos
Que povoam a humanidade
É o sagrado e o profano
A certeza e o engano
É a dura realidade

É o sonho de felicidade
As asas da imaginação
A esperteza de João Grilo
E a força de Sansão
É tudo que se imagina
É a certeza cristalina 
Dos mistérios da criação 

É a dimensão simbólica 
O orgulho de ser o que é 
O coração do guerreiro
E a alma da mulher
A epopeia da verdade
Um sopro de liberdade 
É tudo que se quiser!

Voltando então ao começo 
Da questão que foi suscitada
O que se faz na cultura?
Muita coisa?
Quase nada?
A resposta vai depender
Do coração de quem ler
A resposta apresentada.



*Isaac de Luna Ribeiro é poeta, advogado, professor universitário e membro fundador da Academia de Letras do Jaboatão dos Guararapes. Nasceu na cidade de Barbalha, região do Cariri cearense, no sopé da Chapada do Araripe, onde durante toda a infância conviveu com repentistas, violeiros e poetas populares. Em terras pernambucanas há mais de duas décadas, tornou-se bacharel em Direito, especialista em Ciências Políticas e mestre em Sociologia do Direito. Foi presidente da Comissão Especial de Prevenção e Combate à Corrupção da OAB/PE e atualmente exerce o cargo de secretário executivo de Cultura e Patrimônio Histórico do Jaboatão dos Guararapes (PE). No campo literário apresenta trabalhos que navegam entre a produção e publicação de textos acadêmicos e poéticos, sempre marcados pela transversalidade dos conteúdos que envolvem os temas centrais da sua formação, quais sejam: direito, cultura e democracia. Nessa esteira são exemplos da sua produção, dentre outros, a coautoria nos Livros Direito e Literatura (Editora Juruá) e Norberto Bobbio: Democracia, Direitos Humanos e Relações Internacionais (Editora da UFPB)além de folhetos de literatura de cordel publicados em escala regional e nacional, como os livretos Bullying Escolar: A peleja da covardia com a senhora educação A Justiça em Cordel.  É filho de Antonio Joaquim Ribeiro e Antonina de Luna Ribeiro, casado com Wellida Valois Alves e pai dos pequenos Artur e Marília bem como do Eduardo, que chega em julho a esse mundo.



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