domingo, 17 de maio de 2015


O POETA DO AZUL

por Frederico Spencer*



Carlos Pena Filho, o poeta do azul
Img: reprodução
  

O DCP celebra neste domingo (17) a data de aniversário de um dos poetas mais importantes de Pernambuco, que se vivo fosse completaria 86 anos de idade, Carlos Pena Filho, o poeta do azul. Sua poesia é considerada pela crítica como uma das mais importantes depois de João Cabral de Melo Neto.

Carlos Pena Filho militou intensamente na política universitária e também atuou em campanha eleitoral, sempre atento aos problemas da cidade do Recife, como também do estado. Além de poeta foi também compositor, fez parceria com Capiba e foi também autor de letras de músicas como “A mesma rosa amarela”, gravada inicialmente por Maysa, e depois por outros artistas como Vanja Orico, Tito Madi e Nelson Gonçalves.

Dono de uma poética carregada de musicalidade e de um lirismo profundo, suas poesias trazem um forte apelo ao visual e ao plástico. Escrevia como se estivesse pintando um quadro. Seus versos redesenham as palavras, impregnadas de cores e luzes. Foi premiado pela Secretaria de Educação e Cultura de Pernambuco, com o livro “A Vertigem Lúcida” em 1958 e com o “Livro Geral” no ano de 1959 recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro.

 
*Frederico Spencer é poeta, editor e produtor cultural





Dois poemas de Carlos Pena Filho


SONETO DO DESMANTELO AZUL

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembrarmos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul: Azul.



SONETO

O quanto perco em luz conquisto em sombra.
E é de recusa ao sol que me sustento.
Às estrelas, prefiro o que se esconde
nos crepúsculos graves dos conventos.

Humildemente envolvo-me na sombra
que veste, à noite, os cegos monumentos
isolados nas praças esquecidas
e vazios de luz e movimento.

Não sei se entendes: em teus olhos nasce
a noite côncava e profunda, enquanto
clara manhã revive em tua face.

Daí amar teus olhos mais que o corpo
com esse escuro e amargo desespero
com que haverei de amar depois de morto.



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