CONTO DO DOMINGO
A filha da puta (conto) de Fernando
Farias
Fernando Farias
(Foto: arquivo do
autor)
Quando a minha mãe fechou as pernas e
virou-se de lado, penetrei no óvulo e deslizei pelas paredes do útero. Foi um
fim de tarde em que comecei a me multiplicar em bilhões de células.
Ela fechou os olhos sentindo o cheiro
da maresia e dos lençóis suados. Ficou indiferente ao marinheiro de aparência
asiática, que se vestia ao seu lado, olhando pela janela do terceiro andar, o
navio de bandeira coreana.
Deixou duas notas verdes ao lado da
bacia, saiu do quarto, divisórias de compensado, corredor escuro, escadas, e
tomou a rua, a tempo de encontrar colegas embriagados. Ele nunca mais voltou,
mas eu fiquei.
Fui assim crescendo. Diariamente
outros espermatozóides chegavam tentando encontrar em vão o óvulo. Em todos os
espasmos de gozos e contrações, seguiam-se sempre os mesmos movimentos de
fechar as pernas, deitar-se de lado e cerrar os olhos.
À medida que eu crescia minha mãe era
menos procurada. A barriga brilhava e incomo-dava. Mas atribuía a queda da
freguesia à mudança do nome da pensão de Hotel Esmeralda para Hotel Lusitano.
Explicava a superstição: não se muda os nomes dos navios e puteiros. Quando se
mudam os nomes, afundam. As mulheres mudam de sobrenomes quando se casam, por
isso que acabam os casamentos.
Ela nem foi ao médico. Acreditava que
eu nasceria cega pela sífilis. Também não quis o aborto, pois temia morrer de
hemorragia com as agulhas de tricô.
Entre cigarros, cachaças e boleros ela
preparou meu enxoval. Os lençóis e fraldas eram da cor azul. Queria um menino.
O primeiro filho teria que ser homem, para quebrar a sina de tantas putas na
família. Sonhava com um filho branco, comandante de um cargueiro, fudendo as
rapari-gas de todos os portos do mundo.
Minha mãe sempre estava enganada.
Ao amanhecer, numa quarta-feira de
cinzas, eu nasci. No mesmo dia em que a polícia começou a fechar as boates, por
ordem do prefeito.
Não nasci um menino branco e cego. Ela
nem imaginava que eu iria gostar apenas de mulher.
Logo tive que disputar seus seios. É
que se espalhou um boato de que leite materno era bom para tuberculose. Mamãe
ganhou muito dinheiro e eu comecei logo a tomar sopinhas.
Quando todos os puteiros da zona
portuária fecharam e a prostituição se espalhou nas escolas secundárias da
cidade, comecei a ser levada para missa na igreja, mamãe juntou-se com um
antigo cliente, um padre que logo seria cardeal numa outra cidade. Comecei a
ter medo dos castigos de Deus e descobri o que uma mocinha direita não devia
fazer. Mamãe dizia que era melhor ser puta de um só homem do que de muitos.
Nunca fui de nenhum.
Hoje, sou uma freira, virgem, adoro
sexo oral e encontro com minhas irmãs em quartos secretos nos antigos prédios
da Zona Portuária, onde na maioria funcionam os órgãos públicos. Posso aqui,
deste quarto onde fui feita, olhar pela janela do terceiro andar e ver os
navios que chegam e partem.
Quem sabe meu pai possa estar em algum
deles. Com os mesmos olhos asiáticos como os meus.
CONTO DO DOMINGO
Reviewed by Natanael Lima Jr
on
09:33
Rating:
Bom conto Fernando. Verdades ditas naturalmente, sem agressāo.
ResponderExcluirParabéns!
Bom conto Fernando. Verdades ditas naturalmente, sem agressāo.
ResponderExcluirParabéns!