domingo, 5 de abril de 2015


CONTO DO DOMINGO

Mareia (conto) de Ducabellaflor

 Ducabellaflor é contista
e da Academia de Letras
do Jaboatão dos Guararapes
  
Contemporizando os passos, tropeçou os olhos por sobre o mar e avistou a sôfrega solidão que dentro de si era imensidão. Era ínfima perante as coisas que a rodeara, todas elas, sem exceção. Os matizes das ondas contemplavam suas faltas e ela ia vogando, concomitantemente ao passo da natureza, nas profundezas do oceano. Dia após dia era arrastada e levada escudada pelo cantar dos ventos.
         Enquanto ia deixando-se limpar pelo salgado encanto ardente que dali expurgara, depositava nas beiras das quebradas canoas as amarguradas habitações estrangeiras que lhe emprestara destreza nas ausências. Como era pequena- pensava.

         Com volátios suspiros, cada vez mais naufragava e se esvaia, imbricada por sob as espumas tenras que compunham o cenário mirífico litoral. Sol e Lua iluminavam em soslaio a metamorfose da vida que ali se dava e ela incansável se desfazia paulatinamente nas contrações que o mar ofertava.
         Embebedada de delitos dolosos e um tanto quanto inocentes, paradoxalmente foi se rendendo, se entregando e se oferecendo e dali nunca mais se apartou. Já não era dona de suas terras, agora; parte da esfera das águas cristalinas.

Até hoje, dizem, clama os olhares dos que descalços passam, consternados pela beleza do lugar. Não era Sereia, nem Semideusa, nem rainha da beleza, seu nome era Mareia- metade mar, metade areia- Deusa que serenava e sustentava as profundezas das águas salobras. 



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima