domingo, 5 de abril de 2015


O HOMEM, A MÁQUINA E O SONHO

Alberto da Cunha Melo é considerado
um dos mais importantes poetas
de nossa língua.
Foto: reprodução
  
O DCP vem nesta edição celebrar o aniversário de nascimento de um dos maiores poetas brasileiros: Alberto da Cunha Melo, nascido na cidade do Jaboatão dos Guararapes (PE) em 08 de abril de 1942, completaria nesta data 73 anos de idade. Neto e filho de poetas, estreou na literatura em 1966 com o livro Círculo Cósmico.

Vários poemas seus foram publicados no Diario de Pernambuco na coluna Panorama Literário, editada pelo poeta César Leal. Juntamente com outros poetas como Jaci Bezerra, José Luiz Melo, foi um dos principais articuladores do movimento, batizado pelo jornalista Tadeu Rocha, como a Geração 65, um dos mais importantes movimentos literários ocorridos no pais.

Como sociólogo trabalhou na Fundação Joaquim Nabuco e como jornalista foi editor do Commercio Cultural do Jornal do Commercio e da Revista Pasárgada. Foi também colaborador da coluna Arte pela Arte, do Jornal da Tarde de São Paulo, e da coluna Marco Zero, da Revista Continente Multicultural. Nos anos 1980 foi um dos maiores incentivadores do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco.

Atualmente Alberto da Cunha Melo é considerado como um dos maiores poetas de nossa língua, tendo sido reconhecido por profundos conhecedores da arte poética como o professor  e ensaísta Alfredo Bosi e pelo poeta Bruno Tolentino. Seu nome consta na obra Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século, organizada pelo poeta, escritor e jornalista José Nêumanne Pinto.

Os editores



Poemas de Alberto da Cunha Melo


Poemas

Moro tão longe, que as serpentes
morrem no meio do caminho.
Moro bem longe: quem me alcança
para sempre me alcançará.
Não há estradas coletivas
com seus vetores, suas setas
indicando o lugar perdido
onde meu sonho se instalou.
Há tão somente o mesmo túnel
de brasas que antes percorri,
e que à medida que avançava
foi-se fechando atrás de mim.
É preciso ser companheiro
do Tempo e mergulhar na Terra,
e segurar a minha mão
e não ter medo de perder.
Nada será fácil: as escadas
não serão o fim da viagem:
mas darão o duro direito         
de, subindo-as, permanecermos.

                 *

O céu parece revestido
de uma camada de cimento:
deixo as marquises porque sei
que esta chuva não passará.
Se esperasse um tempo de paz,
nem meu túmulo construiria.
Começo e recomeço a casa
de papelão em pleno inverno.
Um plano, um programa de ação
debaixo de uma árvore em prantos,
e voltar à primeira página
branca e ferida pela pressa.
A poesia já não seduz
a quem mais forte ultrapassou-a,
libertando um pouco de vida
e luz, da corrente de estrelas.
Toda renúncia nos convida
a recomeçar outra busca,
porque algo a inocência perdeu
no chão, para arrastar-se assim.

                *

Cai um silêncio de ondas longas
e sucessivas como a chuva.
E que silêncio será esse
que cai assim antes de mim?
Fauna marinha, gestos lentos
de anjos calados golpeando
um polvo em fúria que me espera
(sob os sonhos). Há quanto tempo?
Poucos amigos, tudo salvo,
ainda temos nossas raivas
e uma esperança ilimitada
nos setembros. Mas, até quando?
Caem livros silenciosos
das prateleiras: baixa a luz
morna e abundante sobre as capas.
Que foi feito de tanta noite?
A esperança nova se agarra
entre as barreiras e as ossadas
de nossos morros. E por que
morremos antes de salvá-la



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima