domingo, 5 de abril de 2015


POEMAS DO DOMINGO

Poemas de Jaci Bezerra, Ivan Marinho, Juareiz Correya, Vital Corrêa de Araújo e Cícero Melo



Doando sem cessar dentro de mim
Jaci bezerra

Tecendo a estrela madura
e a cor íntima das romãs

Escrevo a canção mais pura
para os olhos da minha mãe

À luz de sua janela
folheio velhos carinhos

Sabendo que igual a ela
estou no mundo sozinho

À sombra dos seus cuidados
em que transversal ficou

Cada vez mais arruinado
o menino que ela criou?

Há uma mágoa contida
nos seus olhos de faiança

Quando ela nota que a vida
magoou sua criança

A cadeira de balanço
embala manso meu sono

E eu descubro, quando a alcanço,
que o meu é o seu abandono.

*In Linha d’água, pág. 108





Barroquilhas*
Ivan Marinho

Nas madrugadas insones
Sinto o tropel de chegada,
Sem ordem, desarrumadas,
De palavras, letras, nomes.
Balançam, saltam, deslocam
Sem ritmo ou direção
E de tanta inquietação
Algo parece que evocam.
Todas de tanto maduras
Encontram-se a se encaixar,
Assim como a despertar
Do sonho que se inaugura.
Conjuminado-se o ensejo
Com nosso anseio ancestral,
Nivelando ao animal
Nosso instintivo desejo.
E preterindo o futuro,
Faz da noite a luz do dia
Gira a esfera, por magia,
E amolece o papel duro.
Pois o papel do poeta
É deixar claro o escuro.

*Poema do livro Sortilégio Possível, Edições Bagaço, 2014



Não se vive por viver
Juareiz Correya

O que é uma existência
Sem caminhos e luz
De dias passados
E não construídos
De amanhecer sem horizontes
E anoitecer sem nada?

O que é um homem
Sem fantasia e sonho
Ou com a fantasia apenas
De ganhar dinheiro e aumentar lucros
E o sonho cotidiano seguro
De contabilizar os dias
Com o sangue da ganância
E o coração da sobrevivência?

O que é uma vida
Sem uma perda
Uma aventura inútil
Um salto no escuro
Um suicídio amoroso
Uma história não vivida
Uma emoção despertada
Em qualquer gesto
Palavra ou sorte?  

(Jardim Atlântico/Olinda, 
18 de agosto, 2005)



Poema dos seios*
Vital Corrêa de Araújo

Regatos,
Eu os sorvo

Milhos túrgidos,
Eu os debulho

Cordas violáceas,
Eu as vibro

Vibro, vibro
Vibro.

*In Poesia Pernambucana Hoje, pág. 44



A terceira pele
Cícero Melo


Procuro a carne da palavra adusta,
Aquela que insorvida se consome,
Aquela cujo selo cai à fronte
Das palavras irmãs e se incrusta
Nas pedras da razão, no verbo nômade,
No dedilhar de febres e de angústias,
No delírio senil da sombra rústica,
Longa noite de sal e medo insone.
Procuro a carne da palavra augusta,
Aquela que se eleve e se prolongue
Em mistério sutil, sedosa e onde
Repouse mar, celebração e bússola.
Procuro a carne da palavra morta
Que se aviva, me bate e me conforta.



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