domingo, 29 de junho de 2014


O Conto da Semana

Amor de machão (conto)* de Dalton Trevisan

Dalton Trevisan/Foto: Divulgação

Essa história aí no papel não é verdade. Na época eu tive um caso com uma moça. Sentamos por acaso no mesmo banco da Praça Osório. Foi como tudo aconteceu.

O nome dela é Maria. Ficamos juntos num domingo e tal. Mais uns dias e a gente foi se encontrando. Já namoro sério. O amor, essa coisa, sabe como é.

Seis meses de paixão louca e a gente se amigou. Moramos nos fundos da casa de meus pais. Assim vivemos felizes quase um mês.

Daí ela contou que foi noiva de um tira. Ele queria voltar, ela não. Gostava dela. Só que machão: humilhava e batia. Ás vezes a esperava na saída do emprego. Insistia na reconciliação:
 - Se não é minha... de mais ninguém!

Foi quando esse tira Janjão apareceu lá na oficina. Me intimou para ir, sem falta às duas da tarde, até a delegacia. Só uns esclarecimentos.

Assim que entrei, ele e mais dois, nem pediram documento. Me recolheram nos fundos, já cobrindo de porrada. Mandaram tirar a roupa e continuaram a bater. Sob as ordens do tal, me fizeram comer sabão.

Deram sete choques elétricos nas partes. Gritei e pedi socorro. Você acudiu? Nem eles. Fui amarrado no pau-de-arara, apanhando com mangueira e borracha de pneu. Doía mais porque era um dia frio.

Ali de cabeça para baixo e na boca um pano ensopado de urina.

O Janjão batia com vontade:
        
- Tá gostando, tá?

E cada vez que eu gemia.

- Isso é só o começo!

No fim me levaram lá pro Umbará. Pendurado pelos pés, desceram por uma corda no fundo do poço. Afundaram minha cabeça na água gelada.

Três vezes.

Só na afoguei porque um deles mandou parar.

De volta deram esse papel para assinar. Você dizia que não? O tanto que apanhei, eu assumia até aquelas mortes lá na guerra. Sem mesmo ler.

Depois entraram com o tal careca. Esse eu conheci lá na delegacia. Antes nunca vi. O nome parece que Edu. Tinha feito um roubo numa loja. Com mais dois. Um deles acaso era eu.

Daí trouxeram as vítimas para o reconhecimento. Os cinco disseram que os ladrões estavam com máscaras. Logo não podiam saber.

Em seguida me trancaram numa cela. Foram até a minha casa e trouxeram a Maria. Falaram que eu era marginal conhecido e fichado. Ela devia me denunciar. Bastou se recusar e bateram nela também. Depois de apanhar bastante, soltaram a pobre. Com a promessa que nunca mais ia me ver.

Daí quiseram que eu assinasse mais um assalto a ônibus de turismo. Lá vieram outras vítimas. De novo não me conheceram. E não tiveram nenhum crime para me enquadrar.

Depois eu soube que o tal Janjão e esse Careca eram sócios. O ladrão trabalhava para o polícia. Tinha umas vinte passagens de roubo e tal.

Parece que deu um carro e quatro mil paus ao tira. Saiu faceio pra rua. Eu purguei lá, apanhando mais uma semana. E o tipo nem um dia ficou preso.

Pensei de acusar os dois ao delegado. Me disseram pra esquecer. Até a doutora Kátia, advogada de porta de cadeia, que me atendeu na época, fez um trato com o Janjão.

Antes de me soltarem, ele foi lá em casa. Ameaçou de morte o pai e toda a família se pensasse em denúncia.

Depois disso era fatal a separação. A Maria ficou com medo. Confesso que eu também. A sombra do maldito rondando sempre a casa.

Ela se despediu em lágrimas. E foi uma pena. A gente bem se gostava.

Mais tarde eu soube que voltou para o tal. Guardo até hoje as marcas de borracha na sola dos pés. Todos os choques elétricos e as porradas que levei? As maldades todas que ele fez?

Por ela é que tinha feito. Só podia ser amor de machão. Que nenhum outro podia lhe dar.

Foi o que Maria pensou. E pensou certo. Sempre judiada. Apanhando sempre. Tudo pela glória de passear de braço com esse bigodinho de merda.

Até o dia em que a deixou por uma carinha bonita qualquer. Bonita? Se você gosta de ruiva e sardenta e dentuça. Ah, nem de longe se iguala ao rostinho lavado e fresco da minha perdida Maria.

*Transcrito de O maníaco do olho verde, p. 25



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima