domingo, 22 de junho de 2014


Entrevista com o escritor Fernando Farias

“Nossa população não tem hábito de leitura, se escreve pouco e ainda se pensa que cabe aos governos comprar livros e fazer leitores”.

Escritor Fernando Farias / Foto: Divulgação
  
O escritor Fernando Farias concede entrevista ao DCP e fala sobre a Oficina de Criação Literária ministrada por Raimundo Carrero, sobre a sua produção literária, a importância do incentivo à leitura nas escolas e o atual cenário da literatura em Pernambuco.

Fernando Farias radialista de profissão, 56 anos, natural de Caruaru é escritor contista. Atualmente se dedica a realizar palestras e oficinas literárias em escolas. Foi aluno da Oficina Literária de Raimundo Carrero e de Marcelino Freire, tendo publicado, em 2005, o seu primeiro livro de contos “A Morte Trágica da Patinha”; Depois lançou a coleção de cinco livros, em formato bolso, recheados de contos: Vermelho, Laranja, Azul, Verde e o Amarelo. Já vendeu mais de oito mil livros pela internet para todo Brasil.


DCP – O representou a Oficina de Criação Literária de Raimundo Carrero na sua formação como escritor?

FF - Raimundo Carrero é um mestre. Ele ensina segredos, técnicas e ensina a ler, ensina a se fazer arte. Eu não acredito em escritores que não fizeram oficinas literárias. Em todas as artes se exige anos e anos de estudo, de pesquisa de erros e acertos, aprendizagem. Um cantor, um músico, um dançarino leva anos para se tornar um artista. Acho que a literatura exige muito mais tempo. Escrever e publicar um livro é muito fácil. Difícil é aprender a fazer uma obra de arte, literatura. Eu ainda estou tentando aprender.


DCP – De onde vem à matéria prima de seus contos?

FF - Não vem. Tudo já está na vida. O escritor apenas reproduz. Antigamente se acreditava que havia uma inspiração divina ou uma espécie musa que inspirava.  Primeiro se acha um tema ou uma ideia de uma história. Leva uns 15 segundos. Depois dias de muito trabalho. Angústias, reescrever dezenas de vezes os parágrafos, corta, joga fora, começa novamente, desiste, retoma. Há dois anos que não publico um livro apesar de ter mais de 300 contos na gaveta, na espera, todos os dias me dedico a escrevê-los novamente e fazer minhas revisões. Espero que até o final do ano eu possa selecionar alguns para publicar e me livrar deles.


DCP – Como foi sua formação enquanto leitor? Como este gosto pela escrita resultou em produção literária?

FF - A imagem mais antiga que guardo em minha mente é uma grande estante cheia de livros e um rádio na sala de minha casa. Eu devia ter uns 4 para 5 anos. E todas as noites eu via meus pais sentados no sofá estampado lendo e falando das histórias. Minha mãe já tinha lido quase tudo para mim quando comecei a ler. Saltei rápido da história em quadrinhos para os livros. Sempre estive filiado a uma biblioteca. E não me lembro de nenhum período em minha vida, que não estivesse lendo os dois livros da semana, um na cama e outro no ônibus. Esta semana estou devorando “A Queda” de Alberto Camus. Mesmo assim a vontade de escrever só veio tarde, já perto dos 50 anos.


DCP – Atualmente você desenvolve oficinas literárias nas escolas. O que mais motiva este trabalho?

FF - Há cerca de cinco anos recebi um convite da professora Lurdinha, que era diretora da escola Rodolfo Aureliano, para fazer umas oficinas entro do programa Escola Aberta. No começo foi uma desgraça, mas as minhas cobaias adoravam. Era aos sábados e eu não recebia nada por isso. Depois comecei a receber 60 reais por mês. Fui tomando gosto. Tive que estudar muito. Não é fácil falar duas horas e sair com 100 textos de alunos por semana para revisar e apresentar as sugestões. Trabalhar com crianças não era tão simples como eu tinha aprendido nas oficinas com o Raimundo Carrero ou o Marcelino Freire. Mas fui aprendendo com a meninada a aplicar as técnicas não só da arte de escrever, mas também da criatividade e da santa paciência. Quando comecei a receber convite de outras escolas, do SESC e finalmente da então Secretária de Educação de Jaboatão, Mirtes Cordeiro, para fazer nas escolas municipais. Hoje a coisa flui mais fácil. Mas sempre aprendendo mais com as crianças do que eu ensino. O importante agora, com estes jovens, é estimular o gosto pela leitura.


DCP – O acesso à internet contribui para formação de público leitor?

FF - Não. Pelo menos ainda neste momento. A internet nos desvia dos livros e da leitura. Nenhum jovem se senta num computador para ler um livro. Nem os adultos. E não se deixe enganar, o livro digital ainda não foi inventado de verdade, por isso é melhor ler no livro do que na tela.


DCP – O cenário atual no estado é animador para a literatura?

FF - Não. Nada a se animar. E é um problema nacional. Porque nossa população não tem hábito de leitura, se escreve pouco e ainda se pensa que cabe aos governos comprar livros e fazer leitores. Escritores escrevem e publicam para os amigos e uns poucos leitores. Em nosso estado temos hoje uns três mil escritores, só uns cinco são reconhecidos e vendem livros em livrarias. Na verdade, nem temos editoras de fato, mas apenas gráficas que vendem papel em formato de livros. As poucas livrarias que temos não querem as obras de pernambucanos. Financeiramente é inviável publicar um livro. E escritores são péssimos vendedores de livros, publicam e ficam com as caixas de livro em casa e não vão atrás dos leitores. Está muito ruim.


DCP – O que se pode fazer para mudar esta realidade?

FF - Criar redes e clubes de leitura. Envolvendo os leitores, professores e escritores que tenham consciência e queiram mudar desta realidade. Para isso é preciso ir às escolas, faculdades, feiras livres e até campo de futebol. Já vendi livros até em velório. Criar encontros semanais nas comunidades, fazer o que em política se chama de “trabalho formiguinha”. E, para isso, esquecer as livrarias, editoras e órgãos públicos. A tarefa é formar leitores entre os jovens e nos bairros das cidades. 



Um comentário:

  1. Parabéns a Fernando e ao DCP pela entrevista.

    Abraços,
    Adriano Marcena

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima