domingo, 29 de junho de 2014


A poesia vigorosa de Marcus (Moraes) Accioly

 
O poeta Marcus Accioly/Fliporto 2009

O DCP nesta edição traz a poesia de mais um importante poeta pernambucano: Marcus (Moraes) Accioly. Nasceu em 21 de janeiro de 1943, no engenho Laureano, município de Aliança, Estado de Pernambuco, onde passou sua infância. "Minha poesia vem de onde eu venho. Aprendi alguns bichos e sei de outros pássaros, gosto do cheiro da terra e da cantiga dos rios. Sou dos canaviais que já nasceram das mãos de minha família e agora crescem dos pés”, afirma o poeta no seu livro Guriatã: um cordel para menino. Sua poesia já foi traduzida para o espanhol, francês, alemão. Possui poemas musicados por Capiba, Cussy de Almeida, César Barreto, Arnaut Matoso, entre outros. Além de Íxion – uma tragédia grega – teve livros adaptados e encenados, como peças de teatro, em São Paulo, Bahia e Pernambuco. Foi lançado por César Leal no Suplemento Literário do Diario de Pernambuco, em 1967. Publicou quatorze livros e possui dez inéditos. Recebeu doze Prêmios Literários. Pertence à Geração-60 que, no Recife, é denominada de Geração 65.

Quatro poemas de Marcus Accioly

Martelo agalopado (fragmento)

- Sobre as cristas das pedras pousam anjos
  Para ouvir estes rudes desafios
  Que só hão de cessar ao sol-nascente
  Pois que a noite tem cantos como os rios.
  E estes cantos são notas, são arranjos
  De violas, rebecas e pandeiros
  Que, marcando o compasso do repente,
  Fazem os passos da noite mais ligeiros.
  Porque o dedo da gente quando esfola
  O aço firme e sonoro da viola
  Que parece chorar enquanto canta,
  Eu, lembrando Catulo quando falo,
  Ouço a lua cantar dentro do galo
  Que carrego por dentro da garganta.


Galope à beira-mar (fragmento)

- Quando eu chamo os ventos não há calmaria
  No porto, na vela, nas ondas do mar,
  Na ilha, na praia, na noite, no dia,
  No som da viola que sabe tocar.
  No barco, na pesca, no arrasto, na linha,
  No lance, na rede, no peixe, no anzol,
  No homem que desce na água marinha
  E traz entre os dedos o covo do sol.
  Cantor que me enfrenta retira o chapéu
  E, ouvindo as sereias cantar seus lamentos,
  Apanha as estrelas que chovem do céu,
  Mas quando eu começo não posso parar,
  Pois minha viola tem cordas de ventos,
  Um búzio na boca e um canto de mar.


A fonte

A fonte límpida canta
O canto das águas puras
Nascidas na manhã clara
Do parto das rochas duras.

O salto das águas vivas
Faz imóveis movimentos.
Na boca fresca da fonte
Bebem os lábios dos ventos.

Segue no corpo das águas
A liquidez transformada
Do ventre das rochas feitas
De branca areia lavada.

A voz que a fonte derrama
Tão leve sai da garganta
Que quando bate na pedra
Parece que a pedra canta.

A força que impele o eco
Das águas em seu redor,
Fere os ouvidos das rochas
Onde o silêncio é maior.

O próprio silêncio às vezes
Vindo de muito distante,
Bebe, cansado e sedento,
O canto limpo da fonte.


Fiz viagem de amor (fragmento)

Fiz viagem de amor pelo teu corpo
e (sem sair do quarto nem ficar
em mim) eu ancorei (em cada porto)
nos lábios da vagina deste mar
de fogo (ó água-ardente) onde à paisagem
eu fui (Ginsberg ou Burroughs) procurar
“definitiva droga” (como o yage)
para das outras drogas me curar
da fissura do amor no mundo e (Jack – estripa/dor das trips – Kerouac)
eu pus o Pé na Estrada sobre o dorso
desta fera que (em Uivo/s tão feroz/es)
   abafou minha voz sob mil vozes
   que respiravam dentro do gozo



0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima