domingo, 25 de maio de 2014


Poemas da Semana

Poemas de Paulo Leminski, Vital Corrêa de Araújo, Natanael Lima Jr., Juareiz Correya e Regina Helena Andrade Mendes
 
Foto: Paulo Leminski

Nomes a menos*
Paulo Leminski

Nome mais nome igual a nome,
uns nomes menos, uns nomes mais.
Menos é mais ou menos,
nem todos os nomes são iguais.

Uma coisa é a coisa, par ou ímpar,
outra coisa é o nome, par e par,
retrato da coisa quando límpida,
coisa que as coisas deixam passar.

Nome de bicho, nome de mês, nome de estrela,
nome dos meus amores, nomes animais,
a soma de todos os nomes,
nunca vai dar uma coisa, nunca mais.

Cidades passam. Só os nomes vão ficar.
Que coisa dói dentro do nome
que não tem nome que conte
nem coisa pra se contar?

*Transcrito do livro Toda poesia Paulo Leminski




Insônia do tempo*
Vital Corrêa de Araújo

Aprendi insônia no teu retrato
ouvindo vísceras, esculpindo os ossos do tempo
lentamente com astúcia
vendo através do teu rosto a anatomia da ternura
e do obstáculo.

Vi milênios de areia amontoarem-se
à sombra de tuas pálpebras sonâmbulas
vi a luz inacabando-se, as portas do éden
entreabrindo-se
para receberem as primeiras criaturas
               antes da aurora
vi olhos morrerem de temor do futuro.

Tudo. A insônia dos anos, as doenças da alma
os sedimentos do tédio
a continuação dos instantes
o amontoado de desenganos
as horas demorando, a sucessão dos enterros
a ininterrupta dor
as expostas vísceras das épuras, as fraturas
do tempo inconcluso, ferruginoso.

*Transcrito de Poesia Pernambucana Hoje – Volume I



Voz por toda parte*
Natanael Lima Jr.

um acordo fiz contra o acordo:
sangrar de vez a voz
e ser grito e lábios eternamente

um acordo fiz contra o acordo:
ser palavras qual extensão da vida
e ser mãos, olhos e alma

um acordo fiz contra o acordo:
jamais limitar os sonhos
e viver até desflorescer

um acordo fiz contra o acordo:
jamais ressuscitar a dor,
ser amor presente
e voz por toda parte

*Transcrito de À espera do último girassol & outros poemas



Intimidade
Juareiz Correya

eu gosto
do teu cheiro de dentro
de dizer que te mato
de prazer de cansaço
de perder os meus braços
navegando em teu mar

eu gosto
dessa carne que arde
mais cedo e mais tarde
pelos cantos da casa
de fazer minha rede
no vai-vem dessas pernas
(no aconchego das coxas)
de cair de cabeça
nos segredos da gruta

eu gosto
desse gosto mais doce
que o teu corpo oferece
de tanto gozar
do teu longo arrepio
dessas voltas do cio
desse amor sem parar



Decisão
Regina Helena Andrade Mendes


Estanco a mão sobre o papel
Decidida a não prosseguir.
Que as palavras continuem a guardar
Na redoma do abstrato
A inspiração que me faz companhia.
Que o silêncio brinde o êxito
Sorvendo a submissão das palavras
E o incensurável do não escrito.
Que deguste a consonância
Sentindo a pulsação da quietude
E a ausência da tinta.
Que espalhe cinzas sobre a branca folha
Sem aconselhar tristeza.
Que guarde na profundez do cuidado
A mudez perfeita
Como verdade que ganhou distância
E adormeceu nas trevas da memória.



0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima