domingo, 25 de maio de 2014


O Conto da Semana

Como matar um deputado (conto) de Paulo Rocha*

Paulo Rocha/Foto: Divulgação

  
No sítio de Zé Manhoso, ele já ido dos anos, reuniam-se os matadores nos finais de semana. Uma tradição que foi se construindo aos poucos. Antigo pistoleiro da coronelada, Zé Manhoso ganhou um pedaço de terra pelos bons serviços prestados a essa grande e produtiva classe brasileira. Ganhou o apelido pelas manhas e artimanhas usadas em seu ofício. Conta a lenda que serviçara pra mais de cem, nunca errara um, nunca deixara serviço sem fazer ou mal feito. 
– Encomendado meu nunca conheceu hospital por minha mão, ainda repete. Hospital não é lugar de homem. Se um dia eu estiver doente, eu faço o serviço em mim mesmo, mas pra mão de doutor, vou não.
Gostava de flores, ele. Sempre gostou, agora cuidava dos jardins e cultivava rosas, antes pro outro uso. Morto amanhecido com uma flor na boca era obra de Manhoso, todo mundo sabia.
Para o sítio este, nos depois das canas e dos montes, lugar escondido que vivente normal não conhecia e que polícia não tinha ordem de ir, eram encaminhados os matadores de aluguel de confiança, no necessário sumiço após uma morte encomendada. Lá sempre estavam dois ou três no passando o tempo, outros vinham visitar e contar histórias, por a par dos andamentos do depois de cada um, como estavam os parentes, às vezes um vitimado tinha irmão bruto, era trabalho dobrado. Pois que morte de encomenda só se resolve por braço e obra de parente, não adianta contratar, que ninguém se mete no trabalho do outro, nem pra ajudar nem pra atrapalhar.
Classe unida estava ali, entre uma meiota e outra:
– Delegado deu fé que foi você, Romão, o Coronel Josefa pagou mais dois mil, mode sumi com os papel.
E depois mais outra:
– Olhe, voltou de São Paulo o irmãozinho daquele último, o porcaria disse que te pega ou tu abraça ele antes. 
Pegava nada, que ninguém é doido de mexer com ninguém.
Já na fechada do dia, descia Manhoso da sesta, arrodeava os copos e as garrafas, cadê minha cerveja, não sou homem mais de tomar cachaça. Já me ofende, esta água do diabo. Depois de algumas a primeira história, sempre no rastro da conversa, Cabo Diabo não conseguiu ainda pegar aquele deputado lá, eita bichinho arredio.
– Não conseguiu porque é frouxo, era Manhoso falando e os outros já calando o beiço, menos Delmiro Toco: frouxo não, Manhosinho, o home é deputado, anda com cinco segurança cheio de radinho, né assim não.
Deputado, segurança, doutor metido a merda, é tudo a mesma coisa. Todo bicho com endereço morre. O homem não tem endereço? Seja em Brasília, na capital ou nos fundão, tem endereço dá pra pegar. Endereço de tatu é toca, de lambu é estrada, coruja mora nas madrugada. Tu vê ninguém caçar capivara em arruado? Às vezes o endereço do homem não é nem sua casa, é os vícios e as manias que tem. Já busquei padre na zona, já acertei polícia em cama de senhora, já matei doutor no meio do mato, de quatro o malvivente, sofrendo safadeza nas parte de trás e gostando, tesconjuro.
Só não matei até hoje foi lobisomem, que mora na ignorância, e alma penada porque já tá morta mesmo. O resto é quase tudo morredor. Se tá vivo, pode morrer. Uns morrem mais, outros menos, não tão vendo aí as notícias das espécies em extinção? É porque são mais morredora que as outras. Já rato, barata, todo santo dia morre quantas, mas cadê que some? É porque não são da qualidade morredora. Já baleia, arara azul, a isso não dô valor, pois que não sabem nem se apreservá.
Mesmo acontece com gente. Alma sebosa pode matar todo dia, no outro dia tem um bocado de novo, já se aprumando na frente da mira. Chama-se proliferação, que eu sei das coisas até em palavreado difícil. Pra acabar com alma sebosa nunca cobrei, era até um pecado se cobrasse, alguma coisa tem-se que fazer pelo bem dos que ficam, não é mesmo? Cobrava pra apagar os erros de quem errou. O errado eu mandava pro outro lado, se virasse lá com Deus ou com o diabo, o certo era sempre o que me pagava, que assim é que gira o mundo e é assim que deve ser.
Mas hoje tá tudo virado. Antigamente, era um lugar pra cada coisa, cada coisa em seu lugar. Coronel era quem mandava, político obedecia. Agora desinverteu tudo, tem coronel que é senador, deputado e até prefeito, que Deus me livre. Tem Coronel que não quer mais ser chamado de Coronel, pode? Diz que pega mal pra imagem. Ainda bem que tô aposentado. Senão, ia me dar era raiva, e a raiva come logo meu juízo.
Mas vou contar de um deputado que eu encerrei o mandato, faz muito tempo, tempo que essa turma era macha, não tempo de agora que até crente pode ser deputado, oras quem se viu. Primeiro fui aprender que bicho era aquele, nunca havia matado um da espécie política. Descobri que o danado se reproduzia de dois jeitos: por voto emprenhado ou por indicação. É o único bicho que vem em duas vias, você apaga um e botam o tal de suplente ou vice no lugar dele, então, pro país, não ajuda muito, não. Mas tinha o interesse do Coronel Eulálio, que Deus o tenha, que tava acima de tudo isso. Descobri que merecia mesmo morrer, mentia mais que mulher de zona, enganava mais que fazedor de mágica, e roubava, como roubava. Político pra mim é tudo igual. Se tiver dois ou três diferentes me mostra, trago pra casa e crio como se fosse meu!
Pois o nome do premiado, que nem vem ao caso, mas eu digo, era Demóstenes Galhardo de Santana, deputado no Recife, não desses de Brasília,  que nem existia, capital mesmo era Ridijanero. Vinha de quando em vez molhar a mão do povo, se amostrá de carro e receber ordens, dizer como estavam as andanças dos projetos de interesse do Coronel. Numa dessas, o traíra pincelou a filha do Coronel, que ele quase teve um troço, mas aguentou calado, na ossada dos peito. Mandou a filha pro internato nas Alagoas e me chamou.
– Separe uma flor das grandes, Zé Manhoso, tenho trabalho pra tu na capital.
Ainda perguntei: não pode ser aqui mesmo, Coronel, não gosto de cidade grande. Inda hoje não gosto, mas ele disse não.
– Tu não vai sujar parte nenhuma de meu terreiro com o sangue do desinfeliz, disse, e tava dito.
Me aprontei e fui, eu mais Firmina, que peguei na zona de Maceió, moça puta mas linda, noviiiiinha, cheirosa e limpa. Quem achá que eu tava errado é que não sabe da malícia, eu naquele tempo já remoía o juízo e buscava a tal de inovação, que é fazer não os contrário, mas os diferente. Que peixe grande não se pega com minhoca não, seus senhores. Atenta no que eu digo hoje, peixe grande se pega com outro peixe. Não contei à quenga todas as verdades, que isso não se conta nem pra padre, só pedi pra enfeitiçar o depravado, não era isso que ele gostava? E deixar o resto comigo, que ela nem sabia nem desconfiava ou dissertava não
saber, depois pagava e ela voltava pra Maceió, que não se avexasse.
Com o dinheiro do Coronel botei a moça no melhor hotel, comprei vestido floreado, me amoitei eu no meretrício, que a gente trabalha melhor nos escuros do mundo. Cuidei dos lugares onde o homem ia, joguei a Firmina em seu caminho, mas sempre tocaiando, que mulher perdida também nunca foi coisa de confiança, só quando já tava com asa e meia pro lado dela aluguei dois quarto escondido, mandei marcar o dia da função, fiquei esperando, nem ela sabia que eu já tava dentro.
Pois os dois chegaram, se prometeram e se ralaram, no bem bom, rezei pra Virgem e tasquei a minha branquinha, afiada doze vezes, nos doze dias de espera. Não teve quê nem de quê. Serviço pronto, me escapei pela janela, fui a passo pelo beco, comprei jornal e tareco, vim de ônibus e cá estou. 
– E a moça, Manhoso, voltou pra Maceió?
– Apois a moça, já ia esquecendo, eu não tinha levado a flor pro encomendado, cortei com a faca do vestido dela mesmo, uma flor deste tamanho, enfiei na boca do cabra, não podia ficar sem assinatura. 
Ela nem reclamou, coitada, que mulher defunta não reclama. Se não faço isso, quem contava a história era ela, não esse veio aqui na frente de vocês. 
Tem outra gelada?

Paulo Rocha é contista, poeta e editor dos Jornais Gazeta Nossa e Grande Litoral



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