domingo, 27 de outubro de 2013


A cadeira de balanço

Por Fátima Quintas*











Img. Reprodução

No canto esquerdo da sala, enroscado sobre o tapete colorido em tons dégradé de vermelho-vinho, o gato não se mexe. Quieto, imóvel, indiferente: um perfil bem talhado de estátua intocada. Pelo macio, olhos azuis, marcados pela tarja cinzenta que os separa, vigia felinamente a velha senhora, sentada na cadeira de balanço, a tricotar um casaco de criança ainda indefinido no estilo e no conjunto.  Todas as noites, após a pequena ceia, uma xícara de chá com torrada seca, quando muito pincelada timidamente com queijo branco ou geleia dietética, o ritual se inicia. Cabelos brancos ralos, presos em um coque rente à nuca, óculos de grau, vestido de algodão leve, mãos firmes, face enrugada, a mulher com os seus oitenta anos entrega-se à liturgia da noite. Adora trabalhos manuais, mas, nos últimos meses, já não sente forças para ir muito além no seu ofício criativo. Anos a fio, costurou para uma clientela enorme de um Recife cheio de esplendor, vaidoso de jantares solenes e de etiquetas refinadas. Pouco a pouco, a vista falta-lhe, a coragem limita-se à lerdeza dos passos vagarosos e o comércio multiplica a oferta de vestidos de grifes esmeradas, butiques preciosas, acabamentos irrepreensíveis, uma cadeia industrializada que lhe rouba sonhos antigos do então atelier reverenciado pela cidade. Na modesta casa de porta e janela, a velha senhora refugia-se. E à noite, os fantasmas crescem, povoando o estado insone que a persegue. Tricota obstinadamente. Assim, mata as horas e as horas a matam. Uma luta desigual entre a cronologia e a existência.

Manhosamente, com as patas recolhidas sob o dorso relaxado, não emite o menor som o animal doméstico.  Vez por outra, levanta-se, roça com dengo as pernas da velha senhora, os dois se acarinham, a solidão se divide, silêncios se amparam na fragilidade da finitude. A morada esquecida se oculta sob a vigília do discreto angorá. Nela não há televisão, o mundo externo se reduz às notícias de um rádio fanhoso que insiste em sobreviver à velocidade da mídia. Durante a noite os sons se recolhem, as vozes emudecem, a janela, de postigo de madeira, se cerra. É hora de concluir a derradeira página do livro.

O ar pesa na lúgubre sala. A monotonia dos atos adquire uma forma tão sequencial que feri-la diz de um desmonte imperdoável. A regularidade da cadeira de balanço, indo e vindo, em compassos simétricos, representa o último vestígio de vida. A palhinha indiana do assento e do espaldar, desgastada pelos anos, suporta o peso de um corpo magro e curvado, refém da sua própria história. Naquela cadeira, naquele balanço, naquele sussurro inaudível, resta a imensidão do passado. Remeto aos belos versos de Gilberto Freyre: "Um dia sobre os tijolos soltos/ a cadeira de balanço será o principal ruído/ as mangueiras/ o telhado/ o pátio/ as sombras/ o fantasma da moça/ tudo ouvirá em silêncio o ruído pequeno".

No murmúrio emitido pelo balanço pendular, a velha senhora repousa sobre o regaço uma caixa de madeira, larga, funda, de verniz descascado, contendo pequenos novelos de lã e longas agulhas, instrumentos indispensáveis à tecelagem dos delicados pontos de tricô. O semblante cansado denuncia o abandono da ancianidade. Cochila. O calor umedece o corpo, na testa franzida o suor deslizante, não há frinchas de aragem nem tampouco de liberdade. A luz permanece acesa, o ritmo da cadeira exibe uma moderação inigualável, as notas sincronizadas parecem reverenciar o concerto mudo de Brandenburg.  O gato não mia. Entende o mistério da sala. A cerimônia da despedida da noite corresponde à realidade mais dura que se repete no vácuo de uma casa meio-morta.

A cadeira de balanço ainda permanece ocupada. O gato, tão felino e tão atento aos gestos da velha senhora, ao lado dormita.


*Fátima Quintas é antropóloga, escritora, ensaísta, cronista e atual presidente da Academia Pernambucana de Letras.



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