domingo, 15 de setembro de 2013


A Arte da Escuta


Por Fátima Quintas*

















Img: Reprodução


A celeridade do mundo contemporâneo distorce as circunstâncias. Pessoas se atordoam; mexem-se de um lado para o outro em um frenesi sem controle. O importante é dar conta da ciranda galopante. Os diálogos tornam-se superficiais, atendem apenas ao imediatismo do momento. A escuta transforma-se em alguma coisa incompatível com o tempo de que se dispõe. Um dia atrás do outro – a avalanche dos acontecimentos se sucede como se a relevância do existir estivesse na corrida por alguma coisa que nem sempre sabemos o que é.

Apesar da sofreguidão diária, gosto de escutar o outro. Aliás, necessito conversar com amigos e desconhecidos. E aprendo tanto com os comentários alheios! Na semana passada, exatamente quarta-feira, dia 29 de agosto, entrei num elevador lotado; antes, a fila indiana já denotava impaciência. Um senhor, provavelmente com hora marcada, reclamava da inoperância dos elevadores. Eram exatamente seis máquinas, a subir e a descer, sempre cheias, homens, mulheres e crianças adaptando-se ao espaço que lhes cabia. Por fim, chegou a minha vez; entrei. Dei boa tarde ao ascensorista, ele respondeu-me com um sorriso largo e franco. Agradeci a receptividade; registrei a sua simpatia. Logo me respondeu: “Dona, aqui ninguém me vê, surpreendo-me quando alguém me dirigi à palavra”. De pronto, perguntei-lhe: “O senhor deve concluir a jornada de trabalho meio “enlouquecido” com esse movimento contínuo”. Ao que retrucou: “Enlouquecido não, enfadado”. A precisão do vernáculo me chamou a atenção; ele estava certo, enfadado era o termo exato. O bate-papo fluiu: “O que faz para recuperar-se desse enfado?”. Imediatamente confessou: “Trabalho seis horas. Ao largar, tenho necessidade de ir a pé (estávamos na Av. Rosa e Silva) até a Av. Dantas Barreto, passeando, respirando o ar dos espaços abertos para sentir que o mundo é grande e não se limita a esse quadrado fechado e pesado em que me vejo. Nunca falei isso a ninguém, só a minha mulher; também nunca me perguntaram. A senhora é gente boa; qual a sua graça?”

Logo me disse o nome. Não entendi. Repetiu; não consegui captar – um nome estranho. O rosto, feliz; olhos grandes, cabelos curtos, dentes bonitos, mãos calejadas, alguém de bem com a vida. Sua sabedoria me encantou: quem suspeitaria que aquele homem deambulava quilômetros em busca da liberdade, da sensação de compreender o mundo na sua magnitude, andar, andar, andar, em contraponto à dureza do trabalho?

Imaginei-o a olhar as árvores, a avistar o Rio Capibaribe, a água corrente, sempre indo, evocando o filósofo Heráclito; pessoas nas calçadas, o mundo de todos, Drummond sussurrando, “mundo vasto mundo”... A humanidade, a perenizar-se, eterna e eternizante.

Quanta coisa de depura da arte da escuta?! Nada mais intenso que o jorro do outro: sentimentos, afetos, discordâncias, conflitos... A alma se revela no implícito de cada um. Sem o espírito de reflexão, ninguém percorre caminho algum. A escuta é uma forma de interiorizar o que vem do nosso próprio espelho, reforçando o sentido da vida.

Ah, se aprendêssemos a escutar! O mundo com certeza tornar-se-ia mais humano e mais compreensivo.


*Fátima Quintas é antropóloga, escritora, ensaísta, cronista e atual presidente da Academia Pernambucana de Letras.





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