domingo, 10 de março de 2013


Um Livro, Por Favor!

Lourival Pereira Pinto*










Foto: Reprodução


Certa vez ouvi um poeta dizer a seguinte frase: “é mais importante formar um leitor do que descobrir petróleo”. Então me peguei refletindo sobre o significado dessa frase, e imaginei um mundo onde a formação do cidadão estaria acima dos interesses econômicos. Seria possível?

Sabemos que uma utopia nunca é possível, mas esse mundo que imaginei está acima da utopia, em algum lugar ou tempo no terreno do realizável, do possível. Acredito que qualquer ação cultural deva pensar a formação de um povo, ou de uma comunidade, ou de uma pessoa. Se não é possível mais aceitar que o mercado determine as regras de um desenvolvimento insustentável, ou que as relações de poder influenciem a formação do cidadão, devemos buscar caminhos que revertam o processo de exclusão social que a lógica do mercado impõe.

Sabendo assim, quais são as possibilidades? Deve haver muitas, mas uma delas, e talvez a fundamental é investir na formação das pessoas. Essa formação tem um longo caminho a ser percorrido, e não prevê resultados a curto prazo. Mas já sabemos como dar o primeiro passo nessa maratona infinita, e esse primeiro passo é formar leitores.

Indiscutivelmente, um cidadão alfabetizado e letrado tem condições de exercer um papel mais atuante na sociedade, desde as reflexões acerca do estado de coisas que o circunda, até na postura crítica em relação aos rumos da sociedade. Muito além de serem reflexos da sociedade, os cidadãos devem ser livres para transformar essa sociedade.

Mas como e onde formar leitores? Leitores formam leitores, então, essa é uma condição básica para essa ação. No mínimo, podemos prever aqui uma lógica de multiplicação: um leitor forma dois, dois formam quatro e assim, até o infinito. Claro que há diversas estratégias para se formar leitores, mas, no momento, este não é nosso objetivo neste texto. O nosso propósito agora é discutir ONDE formar leitores.

Não há dúvidas de que as escolas exercem um papel fundamental nesse campo, porém, sabemos que nem sempre esse papel é exercido com competência. Defendemos aqui espaços (ou dispositivos) de ação cultural que possam criar condições para as pessoas reencontrarem seu papel como leitores.

Em primeira mão, esses dispositivos podem ser as bibliotecas. Certamente poderão me questionar: bibliotecas estão ultrapassadas, hoje as crianças pesquisam na internet, os professores impõem apostilas nas escolas, as crianças têm tablets, ebooks, etc. Analisados friamente, todos esses argumentos só fortalecem minha defesa pelas bibliotecas.

Poderia aqui desfiar um rosário de contra-argumentos, mas vou me deter em apenas três: 1. pesquisar exclusivamente na internet não garante recuperar informações pertinentes e/ou fidedignas. 2. Apostilas são práticas nocivas, pois fecham o cerco para possíveis novas informações ou para questionamentos. 3. tablets não resolvem o problema da leitura.

Então retornemos às bibliotecas. Elas são espaços de múltiplas possibilidades de leitura e de informação, permitem momentos de trocas e compartilhamentos e, além disso, podem reduzir a violência nas comunidades em que estão inseridas. Na sua relação com a escola, já foi comprovado que estudantes que frequentam bibliotecas veem reduzidas sua evasão e/ou sua retenção escolar. Mas, para que essas ações efetivamente aconteçam, as bibliotecas devem ser bem coordenadas e fortalecidas.

E esses aspectos passam, necessariamente, pela gestão pública, e muitas vezes me pego perguntando, porque o poder público não se interessa em possibilitar esse recurso às populações, principalmente as mais carentes. Não sei a resposta, mas pensando agora nas comunidades mais carentes, entendo que é nesses lugares que as bibliotecas devem ser ainda mais valorizadas e fortalecidas. O cotidiano desses lugares, muitas vezes, facilita um processo de desconfiança e insensibilidade que toma conta dos moradores.

Uma biblioteca instalada nessas comunidades pode, além de possibilitar novos conhecimentos e possibilidades, causar uma transformação cognitiva e social. Um trabalho de leitura leva ao afeto, e o afeto leva a brutalidade para longe e potencializa a sensibilidade. E essas transformações se materializam em pessoas mais reflexivas, críticas, questionadoras e sensíveis. No fundo, o que queremos é trocar as realidades sombrias das favelas pela sensibilidade e pela esperança.


*Lourival Pereira Pinto é professor Dr. do Departamento de Tecnologia da Informação da UFPE










POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, FREDERICO SPENCER E CARLOS PENA FILHO


Rumor de estrelas*
Natanael Lima Jr


Imagem: Reprodução












Que céu permanece
infinito em nós?
Quem o enxerga
além da limitada vista?

Companheiros,
não se dispersem
na caminhada incerta,
permitam ascender mundos,
arrolar sonhos;
permitam ascender estrelas,
arrefecer trevas.

Companheiros,
cada instante é único
na caminhada de trôpegos e vacilantes
passos.

Sutilíssima
é a existência humana:
tudo transcende
e tudo germina.

*In “À espera do último girassol & outros poemas”, 2011.





Um silêncio habita*
Frederico Spencer


Imagem: Reprodução












O silêncio habita
na casa quarto e sala
no coração do homem, seus vazios:
casarios com suas vozes inventadas
neles os fantasmas da infância impregnada.
Nas ruas os silêncios
de todos os homens
são fantasmas de um tempo
de labuta e caliça
fabril, multiplicada
nas mãos dos homens
a manhã acorda amordaçada:
da noite, que sobrou:
o cio de sua cadela amada.

*In “Abril Sitiado”, 2011.




A solidão e sua porta*
Carlos Pena Filho (1929 – 1960)


Imagem: Reprodução










Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha).

Quando, pelo desuso da navalha,
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

*Transcrito do livro: Antologia de Antologias. Organizado por Magaly Trindade Gonçalves et all. São Paulo: Musa Editora Ltda., 1997, p. 497.



Diga aí!


"Mas eu não quero conforto. Eu quero Deus, eu quero a poesia, quero o perigo real, eu quero liberdade, quero a bondade. Quero pecado".  (Aldous Huxley , Admirável Mundo Novo)





Diga lá!


“Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e ao desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens.” Pois a poesia é isso. É a verdade absoluta em cada um de nós.” (Ferreira Gullar)







2 comentários:

  1. Prezado poeta,

    Muito bom visitar o seu rico espaço literário. Segui-lo será muito interessante.
    Espero receber outras vezes sua visita em meu "baú" de escritos e versos. Esta sintonia literária é muito gratificante entre pessoas que amam palavras.
    Um abraço das "terras do sem fim" do sul da Bahia.
    Genny

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    Respostas
    1. Foi um grande prazer receber sua visita. Para receber nossas atualizações inscreva seu email no Portal.

      Saudações,

      Natanael Jr

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima