sábado, 16 de março de 2013


Escritor Destaque da Semana

Marcus Accioly
 
 
Foto: Reprodução
 
 
 
 
MARCUS (MORAES) ACCIOLY
 
 
Nasceu no engenho Laureano, em Aliança, Mata Norte ou Seca de Pernambuco, em 21 de janeiro de 1943, onde passou a infância com os avós maternos. Adolescência dividida entre o engenho Jaguaraba, dos avós paternos, em Barreiros, Mata Sul ou Úmida de Pernambuco, e a casa dos seus pais, no Recife. É formado em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco, e pós-graduado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco. Sua poesia já foi traduzida para o espanhol, francês, alemão. Possui poemas musicados por Capiba, Cussy de Almeida, César Barreto, Josefina Aguiar, Fernanda Aguiar, Paulo Fernando Gama, Arnaut Matoso, Sandro Guimarães, Édison D’Ângelo, Demétrio Rangel e Genivaldo Rosas. Já lançou vários discos. Além de Íxion – uma tragédia à grega – teve livros adaptados e encenados, como peças de teatro, em São Paulo, Bahia e Pernambuco. Foi integrante do “Movimento Armorial” do escritor Ariano Suassuna – com o seu irmão Nestor Accioly – apresentador e declamador da “Orquestra Armorial de Câmara”. Têm sido escritas dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre a sua obra. Exerceu, entre as diversas funções públicas, a de Coordenador Cultural do Nordeste/Ministério de Educação e Cultura (gestão Eduardo Portela), Chefe da 4ª Superintendência Regional da Secretaria de Cultura da Presidência da República (gestão Sérgio Paulo Rouanet) e a de Secretário Executivo do Ministério da Cultura (gestão Antônio Houaiss). Pertenceu ao Conselho Federal de Cultura e ao Conselho Nacional de Política Cultural, Rio de Janeiro. Faz parte do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco (presidente). Professor de Teoria Literária da Universidade Federal de Pernambuco, ocupa, na Academia Pernambucana de Letras, a cadeira nº. 19, deixada pelo poeta João Cabral de Melo Neto. Foi lançado por César Leal no “Suplemento Literário” do Jornal “Diario de Pernambuco”, em 1967. Publicou quatorze livros e possui dez inéditos. Recebeu doze Prêmios Literários. Pertence à Geração – 60 que, no Recife, é denominada de Geração – 65.
 
 
 
ENTREVISTA (FRAGMENTO)
 
 
Mário HélioEntão o seu discurso, que parece pessimista, na realidade nem é pessimista nem realista, está antenado...
 
Marcus Accioly – “O poeta – escreveu Pound – é a antena da raça”. Tal antena, em vez de lugar de pouso às andorinhas, deve servir de transmissor e receptor dos sinais do tempo. Vivemos entre paradoxos. A nossa realidade é tão pessimista quanto é otimista o nosso sonho. Constrangido a assumir um papel agressivo, violento às vezes, dentro das sociedades consumistas e consumidoras, tendo que transformar a sua voz em algo capaz de esclarecer, denunciar e revidar, tendo que se engajar à disciplina dos que tentam fazer do mundo pior, um mundo melhor ou, pelo menos, possível ou razoável, talvez o poeta deixe de ser o amigo que se queria, para ser o inimigo que se precisa.
 
Mário Hélio – Você é um poeta que publicou bastante, todos os seus livros venderam e, ao mesmo tempo, você está publicando um livro de mais de quinhentas páginas. Ora, toda a sua obra não é uma absoluta afirmação de fé na poesia e de fé na sua poesia em particular?
 
Marcus Accioly – Acredito na poesia como acredito em Deus. Também acredito no futuro e creio no poeta, mas o poeta tem perdido a fé em si mesmo. O penúltimo leitor de poesia morreu e o último está enfermo. O poeta precisa restaurar a sua própria saúde – a saúde da poesia – a saúde do leitor e a saúde do mundo, para sobreviver. Ele precisa voltar a ser, biblicamente, o sal e a luz da terra.
 
Mário Hélio – A sua poesia é uma poesia em voz alta.
 
Marcus Accioly – A poesia é o meu instrumento, o único que disponho. Logo, eu sou o meu próprio instrumento. A poesia é uma voz e uma companhia. A poesia é a voz e a voz é poder. Os animais selvagens não suportam a voz humana: ela denuncia muito mais o homem do que a sua presença física. Ouvir é mais terrível do que ver. A poesia em voz baixa requer uma boa acústica para escutá-la, porque o mundo possui muitos ruídos. Camões pediu às Tágides “uma tuba canora e belicosa” para soprar. O poeta na América é mais que uma voz, é um grito, um uivo – à Ginsberg – um berro, pois ele preisa ser som e arma ao mesmo tempo.
 
 
(Entrevista de Marcus Accioly, com quatorze páginas, dada ao jornalista e poeta Mário Hélio e publicada na Revista Continente Multicultural – Ano 1, Nº. 4, Abril de 2001 – da Companhia Editora de Pernambuco – Recife).
 
 
 
 
DOIS POEMAS DE MARCUS ACCIOLY
 
 
 
Martelo agalopado (fragmento)
 
- Sobre as cristas das pedras pousam anjos
  Para ouvir estes rudes desafios
  Que só hão de cessar ao sol-nascente
  Pois que a noite tem cantos como os rios.
  E estes cantos são notas, são arranjos
  De violas, rebecas e pandeiros
  Que, marcando o compasso do repente,
  Fazem os passos da noite mais ligeiros.
  Porque o dedo da gente quando esfola
  O aço firme e sonoro da viola
  Que parece chorar enquanto canta,
  Eu, lembrando Catulo quando falo,
  Ouço a lua cantar dentro do galo
  Que carrego por dentro da garganta.
 
 
Galope à beira-mar (fragmento)
 
- Quando eu chamo os ventos não há calmaria
  No porto, na vela, nas ondas do mar,
  Na ilha, na praia, na noite, no dia,
  No som da viola que sabe tocar.
  No barco, na pesca, no arrasto, na linha,
  No lance, na rede, no peixe, no anzol,
  No homem que desce na água marinha
  E traz entre os dedos o covo do sol.
  Cantor que me enfrenta retira o chapéu
  E, ouvindo as sereias cantar seus lamentos,
  Apanha as estrelas que chovem do céu,
  Mas quando eu começo não posso parar,
  Pois minha viola tem cordas de ventos,
  Um búzio na boca e um canto de mar.


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