DA ARTE DE MATERNAR, CONTO DE ZULEIDE DUARTE

Postado por DCP em 01/08/2021








Imagem: Reprodução/Google






Da arte de maternar

Zuleide Duarte*



O corpo de morena fornida nunca se aqueceu nos masculinos calores. Mas foi mãe de muitos filhos dos outros, acompanhando levas de sobrinhos, netos, parentes e aderentes. Ouviu primeiro a palavra mãe. Seu peito seco enganou a fome do sobrinho-filho. Lavou e engomou para fora a fim de que nada lhe faltasse. Passava as longas noites de espera desfiando o terço. - O menino na rua, exposto à sedução das moças fogosas, tudo doida pra se esfregar nos filhos dos outros. Moças fogosas, quase quengas. Tudo doida pra casar. Até um bucho elas arranjam para engabelar o trouxa. Com meu filho, não.

 

A cadeira à porta testemunhava vigílias. Convocava todos os santos conhecidos para trazerem logo o filho. Filho? - Claro. Mais meu do que seu. Quantas vezes você andou três léguas para encontrar mãe de leite? Noite de sono, perdeu alguma? Meu, sim. Que Deus me deu para me amparar na velhice. A outra olhava incrédula aquela pobre iludida. Sabia, por experiência, que filho ganha o mundo e esquece pai e mãe. Quem espera recompensa de filho está perdido. De sobrinho então... Mas não ia dizer nada. Pecado grande tirar a esperança dos outros. Se ela dizia que era filho, que fosse. Solhar não faz mal.

 

- Aquele tal de João do Acais mandou dizer que vem aqui. Aquele afoito está pensando que vou dar corda a ele. Nem ligo. Vou lá perder meu tempo com aquele sunguelo. Tenho muito que fazer. Se ele vier com enxerimento varro daqui com o cabo da vassoura. Não ouvia cantada, por mais sutil e educada. Saía logo com quatro pedras na mão. Melhor, com a vassoura, para impedir retornos. Curta e grossa. No coração só o sobrinho-filho. Sair de casa, nem pensar. Não podia. O filho precisava de atendimento: prepara o banho, chinelo, roupa limpa, comida quente. Seu momento de felicidade verdadeira. Não, perder o único instante verdadeiramente feliz, jamais. Dez horas em ponto ele voltava da escola e ela estava, esposa-mãe, aguardando ansiosamente. Nunca se atrasava.

 

Uma noite, a primeira. Viu todas as novelas e rezou todas as preces e ele, nada. -Teria acontecido uma desgraça? Minha Nossa Senhora de Fátima, proteja meu menino. Chorando, viu o relógio marcar duas horas .Um barulho na chave. - Ainda acordada, tia? nunca a chamou mãe. Que aconteceu meu filho? Nada. Fiquei conversando com uns colegas. Até essa hora? Já é tarde. Já sou um homem. Não tinha bicho papão na rua. Mas... boa romaria faz quem na sua casa está em paz.

 

Adeus tranquilidade. Daquela noite em diante, nunca mais chegou cedo. Noites insones, promessas, velas acesas. Arredio, nada dizia do que se passava depois da aula. - Pensou em tudo. Menos no óbvio. Um rabo de saia. Tão tarde? Mulher da vida. Perigo é pegar doença do mundo. Mas o menino tão novo... Puxou ao pai. Já se sabe filho de gato como é.

 

Tem certeza que é mesmo dele? Não acreditava. Seu menino ia ser pai. Tinha embuchado uma doida. Tudo que temia aconteceu. Tragédia maior. A menina andava seminua na garupa da moto, até as tardes e as más horas. Traição. Sentiu o enfraquecimento do seu poder. Agora ela não recebia os afagos. A "outra" tomara seu lugar. Ávida toda zelando pelo rapaz para dar de mão beijada à primeira pistoleira que apareceu. Emburrou. Chorava dia e noite. Ave agourenta. Com gosto ruim e tudo, deu-se a desditosa. Casado e o futuro incerto.

 

Criança une e separa. Depende da situação. Dois meninos com outro. Perderam o tempo de brincar e as coisas se complicaram. Cada qual na sua casa. Ela voltou a sorrir. Recuperou o filho triste, desiludido. Nem enxergava isto, tal a alegria. Os dias corriam bem e ela cantava.

 

Ele não se acostumava mais em casa. Qualquer coisa lhe dizia para voar. Assumir a vida que tão precocemente peitou.

 

Amou de novo. Ela não acreditava. Rendeu-se à evidência. Não resistiu e acamou. Desgostosa da vida. A cama que tanto evitava tomou a forma do seu corpo mofino. Decidiu morrer. Deixar-se ir. Entrevada, viu-se desnuda pela primeira vez diante do filho. Do homem. Feia, envelhecida, sem préstimo. Molambo. Ele corava diante da nudez da tia. Aquele corpo vigiado, impedido de entregar-se aos prazeres da carne, nos braços do filho que olhava desconfortável e enojado do cheiro de urina que se desprendia daquela que nunca se importou em lhe limpar as fezes.





Zuleide Duarte nasceu em Mossoró, Rio Grande do Norte. É doutora em Literatura Brasileira e professora de Língua Portuguesa. Publicou: Ficção: Travo (romance): Da arte de maternar (contos). Ensaio: África de Áfricas (organizadora), Leituras luso-brasileiras, D’Eça e D’Outros, Outras Áfricas.  Possui estudos publicados em revistas nacionais e estrangeiras. Tem vários livros inéditos de ficção e crítica.

 



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