domingo, 2 de setembro de 2018


IV SARAU VIRTUAL


(Homenagem a Joaquim Cardozo e Mauro Mota)


Nesta IV edição do Sarau Virtual, o DCP tem a alegria e o privilégio de reunir cinco poetas contemporâneos que se destacam no cenário pernambucano e brasileiro: 

ADRIANA MAYRINCK, DAYVTON ALMEIDA, FREDERICO SPENCER, MARCELO MÁRIO DE MELO E YURI PIRES




ADRIANA MAYRINCK*










“Escrever é expressar o que está no lado de dentro, com todas as nuances, desejos e contradições do ser mulher, que transborda de encantos e desencantos o despertar das emoções. A poesia está nas entrelinhas, no olhar, nos detalhes, no lado de dentro. Em diversas fases uso como ferramenta o poema em prosa, com estilo literário que passeia por entre o romantismo e o lirismo. As experiências e percepções, no real e no imaginário, sempre na primeira ou terceira pessoa, definem esse exercício poético e criativo em versos livres. São passos para um caminho (in)certo, (i)material, que se revela a cada vivência, ou oculta-se no ir e vir por entrelinhas. Reflexos, sombras e luz, onde os elementos da natureza misturam-se por entre metáforas e figuras de imagem. Um olhar íntimo sobre o efêmero e a casualidade, de uma mulher errante que cria asas e voa por entre tempos, na busca incansável por abrigo, talvez, de si mesma, (in)finitamente.”


ARDÊNCIAS

Se tudo em mim arde, e uma parte é o que sabe, e a outra o que sente
Qual parte de mim me habita, me faz ser, luz e sombra, em segredo
No labirinto do que fui e sou, te refaço em êxtase, sem medo
Amanheço em ti, ávida e sedenta, mas guardo desejos no corpo dormente

Rasgo a neblina que inicia o dia, rastros de luz de tudo o que sonhou
No pêndulo, do ontem e do agora, em quietude e alegria, sorrio languidamente
Dezembro cinzento, invade com o frio os raios de sol no meu corpo lentamente

Não pergunto e busco repostas, no reflexo que o espelho silenciou
Arfante, aspiro o tempo, agarrada a ti, espero que me leia
Dos caminhos que tracei, me perdi de promessas, mas te encontrei
Por entre desertos floridos, espero e vivo por tudo o que desejei

No calor que me incinera, recolho de ti, a chama que incendeia
Fragmentos incandescentes, consomem-me, vivências
No leito quente e acolhedor, esqueço minhas inquietações
No abraço que me agasalha, refugio-me daquelas ilusões
Sou esse vulcão que me alucina, que transforma em rima, ardências


*Adriana Mayrinck, nasceu em 1970, produtora cultural, fundou a empresa IN-FINITA, morou no Rio de Janeiro e Recife, e em 2017 mudou-se para Lisboa e divulga os autores brasileiros e portugueses, em seus projetos e eventos. Representante da União Brasileira de Escritores (UBE-RECIFE), faz parte da Academia Virtual da Língua Portuguesa, na cadeira OLGA SAVARY. Tem um livro publicado, participa em algumas antologias no Brasil, Portugal e Suíça e das edições do Fanzine Alfarrábios.



DAYVTON ALMEIDA (PE)*













“O que eu sou e todos os meus aspetos, sem a poesia eu não teria corpo, alma e se quer uma ideia no imaginário de alguém que ainda pode imaginar o que é a própria poesia. Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos e a do Senhor Deus, sem a poesia EU NADA SERIA.”


AMOR DOS DEUSES

Eu juro em nome de Zeus,
com a força de Hércules,
a sabedoria de Atenas
os sonhos de Ícaro.
a determinação de Ulisses
que sempre irei te amar.
Com a bênção de Afrodite
flechado por Cupido, eu digo que
o meu amor é infinito como
os mares de Poseidon radiante
como a carruagem de Apolo
Alto astral como Dionísio.
E se mesmo assim tu não me queiras,
eu lutarei com o comando de Ares,
na companhia de Nike
Só para garantir a vitória.
Encaminharei Hermes para tu,
com escultura do nosso amor,
no aço que aprendi a manipular com Evaristo,
para que tu vejas como são As várias formas
do meu amor por te.
Enquanto tu estiveres do meu lodo,
por ironia das Moiras eu ficar sem a tua presença,
Invejarei Orfeu indo ate o lar de Hades,
só para tê-la de volta para mim.


*Dayvton Almeida 'O Ser Poeta' é autor, editor, radialista, ator, diretor de teatro, fundador da Feira de Literatura Independente da Cidade do Moreno -FELICIDADE, fundador da Casa Ser Poeta e da Biblioteca de Autores Independentes da Cidade do Moreno. Nasceu no Bairro de Casa Amarela, em Recife, mora atualmente na cidade do Moreno, onde é membro fundador da Academia Morenense de Letras e Artes (AMLA) e correspondente da Academia Luminescência Brasileira.  É estudante de Psicologia, com dez livros publicados pelas Editoras Clube de Autores, Poesias Escolhidas e SANTmel. Em comemoração aos seus vinte anos trabalhando com as artes, foi  homenageado no carnaval morenense de 2014. 



FREDERICO SPENCER (PE)












“Poesia é a arte de reinterpretar a vida cotidiana através das palavras - surradas e coloquiais - dando a elas um novo sentido. Através dela podemos sair do campo da lógica formal para a metafísica possível da estética literária.”



A NÁUSEA E O PÂNTANO

Na água espessa nave, pele e osso
se fazia? Ninguém a via
aquática flor, no lodo
caranguejos e de conchas se vestia
com as mãos até o pescoço
no líquido encarnado e viscoso
manguezal, de brotos se nutria:
fendas no lamaçal tremia de gozo
a tarde nas mãos ardia
o viço do seu vestido novo
no movimento das marés
o vigor de suas pernas transparecia
estranha paisagem, finas e vadias
neste pão aquoso.



MARCELO MÁRIO DE MELO (PE)










“A poesia é a linguagem que mergulha e voa. Por uma poesia aberta e andante, que expanda os estalos do mundo e as tremuras da nossa intimidade. Dançamos com as musas, saciamos sua sede, sorvemos seu fogo e as fazemos relaxar e dormir. Depois, saímos soltando labaredas pelo mundo. O exercício da metalinguagem poética se completa com o esforço para meter a linguagem poética no cotidiano, lamber o dia a dia com a língua da poesia. A percepção atenta ao cotidiano permite a saída do egocentrismo lírico, calcado nas cruzes mentais do autor, para a sintonia com a ebulição cósmica da vida e suas sugestões de pauta. Só o mergulho no singular permite a absorção do pisca-pisca universal e sua tradução. Trata-se de fazer a leitura poética da vida cotidiana, e não ver a percepção/elaboração poética como um departamento especial, apartado do mundo, área de primeira classe do navio, esquecendo que o mar envolve a todos, na viagem e no naufrágio. Há o risco, presente em todos os caminhos metafóricos, técnicos e temáticos, do desvio da faixa central da estrada poética para as trilhas da prosa descritiva, raciocinante ou emotiva.  Cabe ao poeta manter o rumo e o prumo.”


POÉTICA MENTE

Viver poeticamente
é um grande desafio
é ter poética
mente
nadando no cosmo-rio
ovo posto 
nave ave
poe Mar
poetizar
mar da vida incandescida
esfinge  a desafiar
sintonias dissonâncias
gritos e balbuciar
abismos a céu aberto
véus e venenos no ar.

Quem quiser viver poesia
tem que se deseducar
tirar cerca do caminho
quebrar bitola e altar
sentir  o cheiro do nunca
o cio do quebra-mar
beijar boca de vulcão
com sereia mergulhar
cavalgar no Minotauro
e voar sem decolar.


Estou de nariz aceso 
de tanto poetizAr
esse ar poetizado
não me deixa definhar
enche os pulmões de poesia
respirar é poemar
poemares ares água
nascimento morte mágoa
língua que lava e enxágua
acaso encanto e espanto
me sento e me levanto
na ciranda e na trincheira
falar sério e brincadeira
duas faces da moeda
caminhar e levar queda
nas veredas da poesia
meu pão e meu dia a dia
versos no cotidiano
em um pedaço de pano
ver o manto da princesa
poesia na nossa mesa
também  na ponta da estrela
olhar a luz e bebê-la
fazer do sol alimento
idéia e sentimento
caminhando de mãos dadas
as verdades acabadas
indo  pro redemoinho
poesia fazendo ninho
na nuvem da invenção
com a palavra na mão
poeta faz pá e cava
ata desata e desbrava
mina e ouriversaria
trazendo pro dia a dia
diamante lapidado
seu produto acabado
nosso pão de cada dia
brilho brilhante poesia.



YURI PIRES (SP)*











“A poesia é uma leitura imponderável do prosaico que há no mundo e/ou uma leitura prosaica do imponderável que há no mundo.”


REFÚGIO

Ainda que
nem todo
fruto
dê semente,

ninguém
se enterra
em si
impunemente.


RESISTIR 

Quero a vivacidade
das coisas inúteis;
a poesia e a sua in-
utilidade.

A potência
é poder não fazer
e, todavia,
a contrapelo,

fazê-lo.


*Yuri Pires, 32 anos, nasceu no Recife (PE) e reside em São Paulo (SP), é autor de A Pedra (Lote 42, 2017).




7 comentários:

  1. Sempre bom está em espaços onde a poesia é soberana, o Domingo Com Poesia é simplesmente um lugar dos poetas festeja a sua própria alegria.

    ResponderExcluir
  2. Respostas
    1. Agradecemos seu comentário, caro Fernando Matos.

      Excluir
  3. Muito boa iniciativa. Viva a poesia! Tenho um cabsl no uoutubr obde pricuri divulgar a poesia. Visitem.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Sônia Bierbard, agradecemos sua visita. vamos procurar seu canal. grato e sucesso

      Excluir
  4. Obrigado pelo espaço, Natanael. O domingo com poesia é fundamental para a divulgação da poesia contemporânea. Parabéns.

    ResponderExcluir

  • a literatura em sua rede

    7 anos

    desde 2011


Editores: Natanael Lima Jr, Frederico Spencer e José Luiz Mélo