domingo, 15 de julho de 2018


III SARAU VIRTUAL




PARTICIPAÇÕES

FLORA FIGUEIREDO, LAÍS RIBEIRO, MÁRCIA MARACAJÁ, RAIMUNDO DE MORAES E VALMIR JORDÃO




FLORA FIGUEIREDO (SP)*












“A poesia é minha reserva ecológica, onde me adentro e respiro fundo. Procuro dividir esse ar puro com quem me lê. Tenho a sensação de que cada vez que um poeta planta um poema, ele revigora o planeta. Talvez seja um mero sonho, mas como não sonhar?”


BORBULHANTE
  
Guardei meu poema dentro de uma bolha de sabão.
Como não ficar seduzida
pela circunferência lisa e transparente,
onde o arco-íris passeia docemente
e morre de amores pela espuma colorida?

Acomodado na nova moradia,
o poema suspirou e adormeceu.
Quando acordou, já não mais me pertencia.

A bolha de sabão se deslocara
e o poema apaixonado que eu criara
descobriu, de repente, que era teu.


*Flora Figueiredo é natural de São Paulo. Poeta, cronista, tradutora e  compositora. Foi vice-presidente da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, membro da Women Association of Journalists and Writers, correspondente do Centre International d´Études Poétiques, na Bélgica, de cujo acervo constam suas obras. Durante três anos foi responsável pela última página da Revista Cláudia. Finalista do Prêmio Jabuti em 2000 na categoria Poesia, é membro da União Brasileira de escritores (UBE). A autora publicou as obras poéticas: Florescência (também lançado em Portugal), Limão Rosa, Amor a Céu Aberto, Estações, O Trem que Traz a Noite, Chão de Vento e participou de várias Antologias. Seus livros foram adotados pelas redes públicas de ensino. Tem trabalhos nas áreas publicitária e musical, com parceiros como Ivan Lins, Natan Marques, maestro Aylton Escobar e vários outros.




LAÍS RIBEIRO (PE)













“Poesia é fecundar o lirismo que transcende os limites lógicos da alma. É olhar, é sentir, é ser em versos, é estar em cadência e existir na verticalidade sentimental das personas que me compõe. Ela é para mim assim como sou para vida; existência. Somos um só organismo e fomos paridas pelo mesmo nó umbilical; vida.”


DISTOPIA

Pátria desolada
Quantos dos teus homens
Hoje são lágrimas?
Esperança sufocada
Queima os olhos
Nação roubada
Liderada pela desordem
E desgraça...

Patriotas monarcas
Quanto ópio...
Partidos democratas
Governam oligarquias
Ironias? Não, mandatos!
Democracia?
Escancara o verbo
No tribunal lotado
Sanguessugas
Pleiteia votos
Dizendo sim
Nonato estado
Governar...

A gente fica de plateia
Vendo o espetáculo
Dos reis que sabem
Roubar...
Votar é fácil
Difícil é aprender
As escolhas mudar 



MÁRCIA MARACAJÁ (PE)















“Um estado de espírito. Um desdobramento. Uma vazão. 
Uma cura. Uma luz. Um achamento. 
Epifania. Estranhamento. 
Ponto de mutação.”



BRADO SILVÍCOLA


(...)

Cuidado com a Literatura

que não está nos livros

com os artistas que não vão

para a televisão

e que não servem a um patrão

  
Cuidado com os poetas loucos

Cuidado com os gritos!

Com os famintos e os inquietos!

Com as degradadas

As PUTAS

As libertadas

E os amores invisibilizados


Cuidado, vocês,

que ainda não acordaram

para o sonho da insensatez

para a combustão do pensamento

Acelerado

Inquieto

Utópico

Manifesto

Marginal

Plural

Anárquico?!

Revolucionário?!


Avesso deste mundo paralelo

Em que os cegos se refestelam

Em meio a esta ilusão!!!


ONDE ÁRVORES SAGRADAS SÃO ARRANCADAS!!!

ONDE MONSTROS DE CONCRETO SÃO REVERÊNCIAS!!!

ONDE OS RIOS SÃO ATERRADOS

E A TERRA É LAVADA EM SANGUE

NEGRO!

BRANCO!

ÍNDIO!

Banhada em indecências


Onde os suicídios prosperam!

Onde o povo é apagado!

Onde a história é silenciada!

Onde a beleza existe pra turista ver...


VER O QUÊ?!

EU TE DIGO!

EU TE GRITO !!!



Ver o sinal da cruz

E ouvir a oração

A um Deus que nada pode fazer

Da ganância e egoísmo desses homens

Dessas mulheres

Que fecham os olhos antes mesmo de morrer!

Mortos-vivos!!!

E o zumbi herói, dele o que se há de fazer?!

  
A resistência de seu povo se perde

No cinturão da pobreza que engrossa

Na canção e embalo de sua glória que não se dança

Que não se sabe

Que não se lembra

  
Louvamos a quem?!

Se à natureza não devotamos amparo

Se não clamamos todo o nosso legado?


Eu sou as árvores assassinadas!

Eu sou as putas apagadas!

Eu sou as meninas estupradas!

Sou sangue negro, branco, índio!

Eu sou corpo, voz e espírito!

(...)


SOU A TERRA ONDE PISAM OS MEUS PÉS

O HORIZONTE ONDE MEUS OLHOS PODEM ALCANÇAR

EU SOU A VOZ QUE ME GRITA OUTROS GRITOS



E SOU TODO ESTE BRADO SILVÍCOLA!!!


*Poema editado. Parte do texto acima foi performatizado na 3ª Mostra PE da Produtora Nós Pós, entrando na Chegança Poética do Literânima, compondo a programação da Praça da Palavra no Festival de Inverno de Garanhuns (PE), ano 2014.



RAIMUNDO DE MORAES (PE)













“Usando as palavras do poeta mexicano Octavio Paz: A poesia revela este mundo: cria outro. A poesia é uma leitura do mundo real e uma criação de um outro mundo, cuja descoberta ocorre na interação texto/leitor/contexto.”



SEMENTE*

As nêsperas na mesa
         abrem-se fartas
de carne e suco
         E o violento temporal
vai dedilhar os poros
         revolver pedras
enxaguar
                                       raízes e vermes
afogar


        Teu fruto
(eu lembro) desfibrava fácil
         e a carne vinha mole entre os dentes
As enxurradas vieram
         como baladas rápidas de ávidos curumins
E os pássaros vieram sujos
         de Bering ou Marrakesh
As águas chegaram. Outra vez, perenes
         levando retratos, remexendo sulcos de discos esquecidos
evolando perfumes suaves de roupas e camas

          
          Ah por que entre os verões o manancial da tua boca?
          Por que esses perfis de narizes e lábios
          entre o abandono de girassóis que já não buscam mais?
          Por que a frase que tu queres e que não está em mim?


Pássaros e chuvas vão e vêm
          e redesenharão fantásticos infinitos
enquanto for grande a imaginação da Esperança
          Enquanto não pousarem no único fio retesado e melódico
E as fibras desse Verão venham entre os dentes
          como reescrevessem c o n t r a p o n t o s
de melodias e réquiens

*Poema do livro Tríade (Facform/Funcultura, 2010)
Prêmio Carlos Drummond de Andrade Sesc-DF, seleção 2008



VALMIR JORDÃO (PE)













“A poesia representa para mim, a beleza,
o respirar a vida na sua plenitude,
o senso crítico e a possibilidade de registrar
o cotidiano sem participar dos beija mãos dos sátrapas
e da vassalagem tão antiga e em voga nos dias atuais.
A poesia é a alma que permeia os sonhos, as aspirações
e as inquietudes do sentir-se humano, demasiadamente humano.”


em minha vida passa um rio


o dossel do rio se rompeu: as derradeiras baronesas
desprendem-se das úmidas entranhas dos barrancos.
precavidas, as ninfas já partiram.
doce Capibaribe, corre suave, até que meu termine.
o rio não suporta garrafas vazias,restos de comida,
lenços de seda, caixas de papelão, pontas de cigarros
e diferentes bugigangas em seu dorso,
e outros testemunhos das noites insones.
os ociosos herdeiros dos magnatas municipais,
partiram sem deixar vestígios.
às margens do Capiberibe sentei e lá chorei.
doce Capibaribe, corre suave, pois falarei
baixinho e quase nada te direi.
atrás de mim, porém numa rajada fria escuto
o insistente chocalhar de ossos na Cruz do Patrão,
e um riso ressequido tangencia o rio.
os lúgubres murmúrios da Emparedada da Rua Nova
ecoam no vento cruzando a terra estiolada.

o rumor das buzinas e motores não trarão
a rebeldia da Praieira, nem a libertária Confederação do Equador.
oh! cidade indomável. as vezes posso ouvir
em qualquer bar da Mamede Simões,
o álacre lamento de um bandolim,
e a algazarra que farfalha em bocas tagarelas.
o rio poreja vinhoto e poluição,
as barcaças derivam ao sabor das marés
onde os desportistas ao remo exercitam-se
sob os arcos das belas e infindáveis pontes.
e sua correnteza serpenteia a cidade
a convidar para o eterno renascimento.
rio das Capivaras, corre suave
até que meu canto termine.
cão sem plumas , pássaro fênix
a prolongar o nosso desencanto e alumbramento...




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