domingo, 25 de março de 2018


DJANIRA SILVA E SEUS JARDINS DE VERSOS



Por José Luiz Mélo






Escritora Djanira Silva
Foto: reprodução



Deparei-me com o nome Djanira Silva pela primeira vez, quando na Cultura Nordestina, templo das letras e das artes desta nossa cidade do Recife, eu vinha serpenteando entre suas estantes e tropecei, (e este é o verbo que devo usar, com o sentido de alguém que vem desatento e súbito um obstáculo, ou neste caso, uma forte emoção lhe faz parar e voltar ao real, ou ao imaginário), num livro, humildemente postado, quase de joelhos, entre outros imponentes volumes de uma estante.

Na lombada do livro, impresso: “Sonetos”. Tomei-o nas mãos, uma encadernação em capa dura; para fazer vis ao carinho de sua edição, letras douradas; sobranceiro o nome “Djanira Silva”, da autora, em gótico florido e logo abaixo, traçado numa caligrafia bem pautada, também em dourado, o nome do livro: “Saudade Presa.”

Aberto o livro, o que dizer? – a repetição daquele momento que se apresenta cada vez em que nos colocamos diante da beleza, do milagre da criação, e nos sentimos nas planuras vendo mil horizontes em nossa frente e ao mesmo tempo, em todos eles.

Os sonetos de Djanira em nada são tecidos em vestes abotoadas e cerzidas no relevo do verso. Parecem-nos muito mais versos soltos, desapegados do universo da métrica e da rima, entretanto métrica e rima que cabem tão naturalmente nos seus sonetos como membros nativos de um corpo: Braços, pernas, dor, amor, coração.

No preâmbulo do livro, no lado oposto da 1ª. Página, esta belíssima invocação:

Se é para dormir
Que venha o sono
Se é para acordar
Que venha o sonho


REALIDADE

Livros, sapatos, roupas espalhadas
Da porta da cozinha até o portão
Sobre as camas toalhas encharcadas
Marcas de pés molhados, pelo chão
Todas as salas são desarrumadas
A mãe impaciente ralha, em vão
Crianças correm rindo às gargalhadas
Sem darem ouvidos à reclamação
Passado o tempo a casa se esvazia
E a mãe sente saudade a cada dia
Daquela antiga desarrumação
Convive com a dor da realidade
Nas cadeiras vazias a saudade
Casa arrumada pela solidão.


MISTÉRIO ABISSAL

Se nascer e morrer é só um instante
A mesma chama que acende, apaga
Da roda viva o homem itinerante
Num gesto crucial que agride e afaga
Assim a vida em mutação constante
É sempre triste no final da saga
Se nascer e morrer não é o bastante
A moenda da vida nos esmaga
Aqui chegamos sem querermos vir
Daqui partirmos sem querermos ir
Sequer sabemos aonde estamos indo
Este mistério abissal, profundo
Nos faz chegar chorando a este mundo
De onde ninguém jamais saiu sorrindo.


Bem, mas devo seguir:
Foi quando, meio de 2017, comecei a frequentar a enorme sala de estar, (ou terraço?), onde encontramos pessoas sentadas dos mais diversos locais de um mundo que sequer imaginamos existir, e que entre si trocam suas vivências, construindo uma existência plural que se intersecciona e relaciona, superando as diferenças de linguagem e culturais, formando um mundo mais unitário, − o Facebook.

Neste novo ambiente, entre outras pessoas voltadas ao culto das letras, dos sentimentos e da poesia, reencontrei a Djanira.

Desde então, além dos poemas que publica regularmente, tomei conhecimento de crônicas de sua autoria, histórias de vida contadas com tanta leveza que se não sabe onde a vida e a fantasia.

Começo do ano, Djanira publicou algumas destas crônicas, num belo volume denominado de “O Sorriso da Borboleta.”

É deste livro, onde se vê que o encadeamento das histórias é parte também de sua história de vida, que revelo o lírico enredo da tia Celina e sua sobrinha Djanira.


TIA CELINA

Djanira Silva


Levei a sério minhas leituras. Com o tempo transferi os livros para o meu quarto. Neles viajei por muitos mundos. Conheci pessoas de todos os tempos. Amei almas grandiosas que me ensinaram a caminhar entre sonho e realidade, representantes de um passado do qual já começo a fazer parte e a descobrir que não é bom estacionar no agora. Voei nas asas da imaginação sustentada pelas lembranças.

Minhas vivências levaram-me a escrever. Falo pouco de tristezas porque cada um tem as suas, não vão precisar das minhas, assim aprendi com tia Celina que não se cansava de repetir: ninguém quer saber de gente triste.

Minha avó dizia que ela carregava num corpo maduro uma alma menina. Era brincalhona, encrenqueira e boa. Bom humor e presença de espírito não faltavam nas suas conversas.

Um dia fui para o internato e nas férias soube que ela tinha ido para casa de uma irmã no Rio de Janeiro. A princípio mandava notícias, notícias que com o tempo deram lugar ao silêncio.

A presença de tia Celina foi muito importante na minha vida. Ela e suas histórias. Algumas que ouvira, outras que inventava. Tinha um jeito especial de contá-las. Fazia gestos, imitava gente e bicho e nos divertia quando engrossava ou afinava a voz. A figura elegante e o sorriso debochado, jamais sairão de minha lembrança assim como as frases chistosas e a irreverência. Meu pai, extremamente conservador não aceitava seu comportamento. Pediu-lhe, várias vezes para se conter diante das visitas, pedido que ela ignorava. Em almoço oferecido ao prefeito, em nossa casa, no final de sua gestão, ela se superou. No discurso de agradecimento o homenageado, entre outros assuntos, enumerou as obras realizadas na cidade durante o seu mandato. Falando para ser ouvida, ela comentou − não fez mais do que sua obrigação.

Não podia ir a enterros. Acometida por crises de riso, não podia se conter. Não sabia o porquê daqueles acessos.

A catarata a tornara quase cega. De vez em quando dizia: vem cá, menina enfia essa linha na agulha que eu estou com preguiça.

Debochava da velhice – Não é coisa boa mas a gente tem que encarar, dizia rindo e fazendo careta, deixando à mostra os poucos dentes que lhe restavam, amarelados pelo fumo. E acrescentava, a gente nasceu para andar para frente. Ninguém tem dedos no calcanhar.

Eu imaginava como seria tia Celina se tivesse estudado.


DJANIRA SILVA

Vida literária

Iniciou-se nas letras em Pesqueira, nos jornais A Voz de Pesqueira e a Folha de Pesqueira. No Recife colaborou com o Diário de Pernambuco, Jornal do Comércio, Diário da Noite e Folha da Manhã.

Bacharel em Direito

Tem 13 livros publicados, o 1º. deles, em 1980, “EM PONTO MORTO”, poesia, e o último, em 2018, “O SORRISO DA BORBOLETA”, crônicas.

Participa ativamente da vida literária, fazendo parte de várias instituições no Recife, Olinda e Pesqueira. É sócia efetiva da Associação de Imprensa de Pernambuco

Detentora de 9 prêmios literários, 7 dos quais nos gêneros ficção, ensaio e poesia outorgados pela Academia Pernambucana de Letras, dos quais o último, prêmio Edmir Pires de 2014, pela publicação do seu livro “Saudade Presa”

Participa, ainda, ativamente de jornais, revistas e blogs literários.




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    ano IV


Editores: Natanael Lima Jr, Frederico Spencer e José Luiz Mélo