domingo, 6 de março de 2016


CONTO DE FREDERICO SPENCER (TANGO PARA IRACI)

Frederico Spencer
Foto: Divulgação




TANGO PARA IRACI

A Gustave Flaubert



Seu olhar se fixara no horizonte, as respostas se multiplicavam na poeira da caatinga, embaçadas por um sol que já não adiantava - Iraci dançava em sua íris. Pele branca e o negrume dos cabelos: jogo de luz e sombra que aprofundavam aquelas curvas que desciam até as ancas carnudas, poço profundo habitado por seres de outros mundos.

Com o balanço da cadeira veio o trote do cavalo - o maldito pêndulo ditando aquelas horas; a visita adentrou para o almoço daquele dia, trouxe uma garrafa de vinho e frutas, escolhidas a dedo para o momento - Iraci adorava pinhas; encostadas levemente umas às outras, dormiam sobre uma manjedoura - a esperança de novos dias nutria o doce em sua pele fina.

Vivia os dias contando as horas, sonhando, os pratos a serem servidos, nem por um momento deveria transparecer a inquietude daqueles momentos, sem pressa a tarântula tecia o casulo da morte.
- Talvez fosse o vinho e a embriagues de sua cor, tudo era paixão. Um tempo já maduro, teria aninhado sua semente vil.

Um homem agora sangra.

Naquele vai e vem, os pés da cadeira multiplicavam as respostas; um único tiro alinhavara aqueles pensamentos. Iraci era mais que as sombras de um dia e de noites criadas na servidão dos desejos.

- Além de suas saídas, evasivas: a igreja, as novelas e esses livros - esses novos que a pouco conseguira com algumas amigas. Onde se aninhou a semente do mal?

Em seus olhos a noite já descia com suas sombras e o dia ainda não havia dissipado o calor e os restos do almoço ainda estavam entre os dentes: a troca de olhares, o convite para mais um cálice, a estupidez da embriagues que rápido se esvai, deixando a realidade estampada, desnuda e fria: Iraci dançava naqueles braços, olhando os olhos entreabertos. Um bago de pinha caia de seus lábios.

- Não seria um sonho ruim, visões trazidas à tona por uma digestão difícil? - Tudo era turbidez e medo.

Aquela dança crescia como um tango - falava de fogo e sombras dos amores que crescem serpenteando os dias, maquinando suas más vontades e ao amanhecer voltam aos seus sótãos sujos.

Caiu ante os passos desconexos, havia no ar o cheiro da pólvora e o ardor do estanho, encerrando o dia.

Agora ele olhava o horizonte trêmulo, aquele dia já ia morrendo. Iraci neste momento se desbotou em sua mente, tudo era solidão e silêncio.



*Do livro inédito: O olho do rinoceronte.



Um comentário:

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima