domingo, 6 de março de 2016


A POESIA DE EUGENIO JERÔNIMO*

Eugenio é poeta e mestre em linguística
Foto: Divulgação




QUANDO O TEMPO ERA MENINO

Tenho pena da nova geração
De crianças dos centros principais
Emboscadas por medos capitais
E uma agenda com tanta obrigação.
É ginástica, é inglês, é natação.
Psicólogo, colégio, judô, dança.
Futebol, capoeira, e isso cansa,
Que a lista ultrapassa o que cabia.
Se a agenda é maior do que o dia,
A que horas crianças são criança.

Em um raro momento de lazer,
Cumprem pena entre as grades de um prédio.
Tão comum reclamarem “Ai que tédio,
eu não tenho nadinha pra fazer”.
Perguntarem à mãe “Posso descer?”
Descem tensas, as câmeras as escoltam.
Mal desceram pra sala logo voltam,
Na TV vão jogar detidamente,
Mas acusam o tédio novamente
E dos medos urbanos não se soltam.

Quem viveu ser criança antigamente,
Em cidade pequena, interior,
E é filho de pai trabalhador
Observa o fenômeno tristemente.
A criança não dar-se por contente
Com espada que acende se olhar,
Com carrinho que corre se falar,
Com boneca que sabe tradução
E com birra jogar-se no salão
Reclamando não ter de que brincar.

Celular nem se tinha inda sonhado,
Videogame era coisa do além.
Só notícia às vezes dava alguém
De um trem e um carrinho importado,
Que andavam o botão fosse apertado.
O cinema, a TV com a plateia,
No vizinho em final ou em estreia
De novela ou partida concorrida.
A barriga era um oco sem comida,
Mas o quengo era cheio de ideias.

Um regalo quem tinha um sortido,
O biscoito, que era o que havia.

Mcdonalds, nem nome se ouvia.
Guaraná era líquido proibido,
Reservado ao menino adoecido,
Cream cracker integrava sua mesa.
No diário a comida com rudeza,
A farinha inteirava a rapadura,
Ter tomate com açúcar, ô gostosura,
Adoçava os azedos da pobreza.

Hábeis mãos solteironas de uma tia
De fazenda poupavam certa sobra,
De boneca faziam prima obra.
Um botão de ser olho se fingia,
Com uma mosca de linha se tecia
Sobrancelha e boca, igual nariz.
Os cabelos, fiapo meio gris.
Na redinha entre as pernas da cadeira,
A menina a embalava a tarde inteira,
Delas duas não sei qual mais feliz.

Uma lata de óleo já usada,
Quatro tábuas pedidas a um caixote,
Aparadas a dente de serrote,
Já no flandres a forma desenhada,
Prego, lata, madeira está montada
De um Opala a estrutura em perfeição.
Duas aspas compõem a suspensão.
Parachoque, painel, minúcias todas.
Havaianas emprestam quatro rodas
E um barbante comprido, a direção.

Assobio. Começa outra jornada.
Pés descalços afogados na areia
Fascinados com uma bola de meia,
Dez meninos jogamos na estrada.
A plateia, de bodes está lotada,
Vai um craque e avança em corrupio,
Dribla o poste, o pé de tamboril,
No zagueiro imponente da imbuia,
Dá com classe humilhante banho de cuia.
Faz o gol que Pelé não conseguiu.

Marmeleiro vendia alazão,
Uma vara linheira ainda fina,
Uma faca traçava cauda e crina.
E por freio um pedaço de cordão.
Sobre o lombo do Pégaso do Sertão,
O menino no mato se embrenhava,
Surubim, o do danho, derrubava,
Este boi que zombava dos corcéis,
E morava nas lendas dos cordéis,
Porque nunca um vaqueiro o pegava.

Fazendeiro de sonho e esperança,
Nosso gado eram os ossos de zebus,
Que a seca vendera aos urubus,
O curral de cipós postos em trança.
E o cachorro que da nossa segurança
Era um anjo da guarda incomum,
Era um talo tirado ao jerimum.
Mas um cão de verdade nos seguia,
Corta-jaca de nossa estripulia.
E bem claro o papel de cada um.

Quem lembrava o destino tão contrário,
No cavalo de pau ou no seu carro?
Com fortuna de nota de cigarro,
Cada um se fazia milionário.
Se mais raro, mais alto o numerário.
Médio Hollywood e Continental,
Arizona ou Clássicos trivial,
Com Gaivota valiam muito pouco,
Eram couro de rato para troco,
E Minister era a nota maioral.

Na carreira o grupo já deixávamos
Como um bando de arara em alvoroço,
Engolíamos a pressa com o almoço
E à rua de barro já voltávamos.
O difícil escolher de que brincávamos:
Toca, breque, gaiola e pião,
A disputa polícia com ladrão,
Tomar banho de rio ou de açude,
Baleadeira, alçapão, bola de gude,
Ou a flauta de cano de mamão.

Ressoando uma voz pelo quintal,
Vigilância infalível que não tarda,
Era a mãe pra tirarmos nossa farda,
Estendendo outra roupa no varal.
Pobre azul amassado do tergal.
Triste branco de fios violados.
Rotos congas com línguas, já cansados.
Pra tirar tanto sujo e terra vária,
Só milagre de água sanitária
Com carinhos de mãe muito extremados.

Ninguém tinha um brinquedo fabricado,
Mesmo o básico a pobreza nos negava,
Que era enorme, porém não superava,
Fantasia, invenção nem o sonhado
Mundo feito de modo improvisado,
Com engenho, com arte e com vontade.
Feita em casa a nossa felicidade.
Nenhum medo nos tinha por escravo.
Se o bolso era falto de centavo,
Nossas pernas corriam liberdade.



BONECO DE VITALINO EM POEMA PARA HOMENAGEAR TREMA

Suando sabedoria,
Os membros da Academia
Mexeram na ortografia,
Mesmo sem mudança extrema,
A mim causaram problema,
Buliram em hífen, acento,
E aquilo que eu mais lamento,
Mandaram tirar o trema.

Data venia, seus gramáticos,
Mantenho os pontos simpáticos,
Como dois olhos erráticos.
Toda vez que boto um trema,
Tô desenhando um poema,
Sinto os mesmos efeitos
De ver os bicos dos peitos
No busto de Iracema.



GRAMÁTICA DO CHOVER NO SERTÃO

No Sertão nunca chove de veneta,
Vai o Céu planejando passo a passo,
Achegando o tição sobe o mormaço,
O relâmpago de fogo faz lingueta,
Em tenor o trovão toca trombeta.
Muda o Céu a toalha e a textura,
Sai azul entra uma cor escura.
Concluído o cenário não tem falha,
Vem São Pedro e peneira em grossa malha,
Bênção em chuva derrama com fartura.

Um cadelo se enrosca na cozinha
E a cabra se ampara na latada,
Com o frio se arrancha a ninhada
Sob as telhas das asas da galinha,
No balaio a gata se aninha,
Da baixada o gado se apressa,
Para as terras mais altas atravessa,
O barrão dá o lombo à chuvarada,
Não se bole nem muda uma passada,
Parecendo que cumpre uma promessa.

Pingo a pingo se forma o adjuntório,
A tarefa é fazer uma enxurrada,
Logo as águas alugam a estrada
Pra valer por riacho provisório.
No riacho real, trágico velório,
Convertido em caminho da desdita,
Em desértica areia que crepita,
Os fogosos carneiros da enchente
Dão marradas nas margens da nascente
E atônito o riacho ressuscita.

Moldurado o homem na janela,
Cotejando o agora com o passado.
Quantas noites ficou ali prostrado,
Com os olhos no céu, de sentinela,
Vaquejando relâmpago entre estrela,
Sem achar uma pista, a mais vasqueira.
Hoje a chuva lhe molha a alma inteira.
Tudo isso no ritmo do baião
Duma lata sedenta no oitão
Se enchendo nos pingos da goteira.

Riem os olhos do homem pro terreiro,
Vendo as águas brincarem de cascatas,
Sobre as quais pulam sapos acrobatas.
Enfrentando um vetusto juazeiro,
Paga a chuva imposto de baceiro,
De casaca-de-couro ninho é,
Com garranchos pontudos bem ao pé.
Na rodagem escavada em duas grotas,
Seis meninos festejam cambalhotas,
Bebem nuvem e jogam cangapé.

Da pré-chuva ao The End da chuvada,
Deu o Céu uma hora de expediente.
As folhinhas dos meses velozmente,
Tira o homem de forma antecipada
E, por isso, já vê fava enramada,
Jerimum, melancia, o futuro
Se debulha em feijão cedo maduro,
Milho verde na brasa pipocando.
Vê-se o homem uma gaita assoprando
Numa espiga de milho do monturo.


*Eugenio Jerônimo nasceu em Iguaracy-PE, Sertão do Pajeú, em 1966. Mora no Recife. Mestre em Linguística pela Universidade Federal de Pernambuco. Professor e servidor do Tribunal Regional do Trabalho de Pernambuco. Poeta, contista e romancista.  Publicou o livro de contos Aluga-se janela para suicidas (2009). 



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