domingo, 28 de fevereiro de 2016


MOVIMENTO DE CULTURA POPULAR (1960–1964): A POSSIBILIDADE DE UM MUNDO MELHOR (CRÔNICA DE SALETE RÊGO BARROS)




Salete Rêgo Barros
Foto: Divulgação




Finda a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o sentimento libertário toma conta da juventude, que começa a se organizar em associações, diretórios acadêmicos, movimentos ligados às igrejas e partidos políticos, entre outros.

Entusiasmados com o movimento francês “Peuple et Culture”, o casal Norma e Germano Coelho retorna a Pernambuco, após alguns anos de permanência na Europa, com a meta de elevar o nível cultural do povo, preparando-o para a vida e para o trabalho. O projeto envolve a parceria do poder público e da iniciativa privada, sendo acatado, de imediato, pelo então prefeito do Recife, Miguel Arraes de Alencar.

Em 1960, a sede do MCP foi instalada no Arraial do Bom Jesus, em Casa Amarela, e inaugurada no dia 13 de maio, em homenagem ao dia da abolição da escravatura.

A instituição tinha entre suas finalidades: promover e incentivar a educação de crianças e adultos; proporcionar a elevação do nível cultural do povo; formar quadros destinados a interpretar, sistematizar e transmitir os múltiplos aspectos da cultura popular.

Aderiram ao movimento líderes operários, artistas, intelectuais e jovens estudantes comprometidos com a erradicação da miséria do povo do Recife, centrados nos anseios populares, ressaltando os valores regionais, ministrando o ensino da língua e da gramática, instrumento de cultura para a emancipação de um povo. 

A paixão pelo saber foi mobilizada através do folclore nordestino, das artes plásticas e do artesanato, teatro, música, dança, literatura, ciência, pesquisa e esportes. Essas atividades já estavam consolidadas ao final de 1962, através de 20.000 alunos distribuídos entre 201 escolas isoladas e grupos escolares; uma rede de escolas radiofônicas com 30.000 adultos se

alfabetizando, um centro de artes plásticas e artesanato, 452 professores e 174 monitores do ensino fundamental, supletivo e educação artística, praças de cultura com bibliotecas, cinema, teatro, música, tele-clube, orientação pedagógica, recreação e educação física. Inaugurou o plano editorial do MCP, a coleção Meninos do Recife, de Abelardo da Hora.

Faziam parte do movimento, intelectuais e artistas do quilate de Francisco Brennand, Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho, Abelardo da Hora, José Cláudio e o educador Paulo Freire, cujo legado ao MCP se traduz através da Lei 12.612 de 13 de abril de 2012, sancionada pela presidente Dilma Rousself, que lhe confere o título de Patrono da Educação Brasileira.

O movimento alcançou repercussão nacional e serviu de modelo para outros estados do Brasil. No entanto, em 31 de março de 1964, a sede do MCP foi invadida pelos que temiam um país alfabetizado, consciente de sua cidadania. Sobre o gramado do jardim, dois tanques de guerra apontavam seus canhões para as duas entradas do sítio. Todas as escolas foram fechadas e todas as cartilhas foram queimadas. Os integrantes e simpatizantes do movimento são estigmatizados até os dias atuais. E a possibilidade de um mundo melhor, mais uma vez, adiada.



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