domingo, 4 de outubro de 2015


CONTO DE FERNANDO FARIAS (ANABELA)*

Anabela (conto) de Fernando Farias



 Foto: Divulgação
Escritor Fernando Farias


Noivas sempre atrasam. Anabela ainda estava sendo maquiada. O padre Jorge já sabia disso e mesmo com a igreja cheia, continuou a ver o jogo.

 O sacristão arrastando os pés avisou que o noivo já estava no altar. O padre foi urinar, escovou os dentes e deu milho para as galinhas no quintal. Só quando escutou a marcha nupcial saiu da sacristia.

Abriu a Bíblia, assuou o nariz e observou o excesso de rosas na decoração. Viu o João, o noivo, trêmulo ao lado da sogra que vestia um roupão que parecia ser feito de restos de uma cortina. A mãe disse baixinho que ele agora não podia mais desistir. Tinha dado a palavra de homem. Os convidados barulhentos se levantaram voltados para a porta.

Do altar, o padre viu que quatro homens entraram carregando um caixão fúnebre. De passos lentos, caminharam até onde estava o noivo e os padrinhos. Abriram a tampa do caixão.

João se aproximou. Anabela. Vestia um longo vermelho. Mãos cruzadas sobre o peito. Pele mais branca, uma suave maquiagem. O silêncio quebrado com tosses e alguns choros. O cheiro das rosas misturado ao do cadáver.

Na última fila, dona Dolores explicava baixinho ao motorista da funerária que Anabela morreu há uma semana antes do casamento.

Foram nove anos de noivado à distância. O João trabalhou nas construções de edifícios em São Paulo para juntar dinheiro para o casamento. Mas demorou muito. Chegou de ônibus um dia após o falecimento.


Foi de morte morrida. Morte de saudade acumulada, desta que a ansiedade é tanta que explode o coração.

Mas o casamento foi mantido, revela dona Dolores. Conservaram a Anabela no gelo, corpo em pé dentro de um tonel até a data marcada. Para espantar o cheiro, molho de pimenta e cebolas.

O motorista explicou que estava com outro caixão vazio no carro, não sabia para quem era a encomenda e escutou o padre dizer “agora pode beijar a noiva”.

Os lábios de João beijaram a boca ressecada de Anabela. Caiu um dente. Era Anabela e não a Bela Adormecida.

Antes de sair da igreja João deitou-se no outro caixão, colocou algodão no nariz, acenou para pessoas e beijou a mão da mãe. E os dois caixões foram fechados.

Vendedores de pipocas, picolés e doces seguiam o cortejo pelas ruas da cidade de Bodocó. À frente, a filarmônica desafinava a Marcha Fúnebre. Os padrinhos do casamento seguravam as alças dos caixões. O calor daquele céu sem nuvens de dezembro.

Ainda escutaram batidas apressadas. Gritos abafados. Aranhar na tampa do caixão. O Padre Jorge mandou os coveiros jogarem mais pás de terra.

Afinal, o que Deus uniu o homem não separa.



*O argumento para este conto foi uma ideia sugerida pela professora Simone Barbosa, da cidade de Bodocó, Pernambuco


8 comentários:

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  2. Esse conto é cômico ao mesmo tempo é triste, e surpreendente, no fim chega ser maldoso ,coitadinho do noivo kkkkk

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  3. Esse conto é cômico ao mesmo tempo é triste, e surpreendente, no fim chega ser maldoso ,coitadinho do noivo kkkkk

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  4. Esse conto tá muuuuuuuuuuito bom :)
    Taiomarys Barros :)

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. uau, sempre criativo! muito bom ler seus contos

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  7. Muito bom. Dá arrepios. Parabéns. Gostei muito.

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima