domingo, 4 de outubro de 2015


ENTREVISTA COM CIDA PEDROSA

“O que vai fazer bons leitores é uma boa política de leitura no município, no estado, no país”.


 Cida Pedrosa é secretária de
Meio Ambiente e Sustentabilidade do Recife
Foto: Divulgação



Cida Pedrosa nasceu em Bodocó, PE. É poeta, advogada e editora do site Interpoética. Na década de 1980, coordenou o ‘movimento de escritores independentes de Pernambuco’. É autora de seis livros de poesias publicados no Brasil e no exterior. Foi advogada sindical da FETAPE e do CENDHEC, entre os anos de 1990 e 2003. Atualmente ocupa o cargo de secretária de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Recife.

Nesta entrevista exclusiva ao DCP, Cida Pedrosa fala sobre política, gestão pública, literatura, cultura, tecnologia, educação, entre outros assuntos.



DCP – Como conciliar literatura, política e gestão pública?

CP - Não é fácil. Não é fácil porque é um trabalho árduo de todas as três e que requerem muita fidelidade. A gestão pública demanda que você esteja muito atento para trabalhar para a cidade, para o coletivo, para fazer com que o seu trabalho e o da sua equipe se reflitam em melhorias para a vida das pessoas e da cidade. É um trabalho de muito comprometimento com a causa. A política também requer fidelidade porque você tem que trabalhar as perspectivas de mudança e de transformação da cidade, do estado, do país e do mundo, a partir do exercício político e da militância política, que é diária, permanente. São muitas as lutas! Já a poesia, que é o meu lado maior, ela demanda uma fidelidade enorme e, às vezes, fica prejudicada por conta do pouco tempo que disponho. Poesia é antes de tudo solidão. Escrever é um ato solitário. Escrever é um ato em que o escritor fica com ele mesmo, é quando ele para, pensa, reflete e põe no papel seus sentimentos, desejos, vontades, ou simplesmente põe o seu nada. Às vezes, eu me sinto um pouco angustiada porque coloco de lado o meu fazer literário por conta de tantas atividades. Mesmo assim, eu não paro. Agora eu acabo de terminar um livro, chamado Claranã, que vou lançar no dia 27 de outubro, às 19h, na Torre Malakoff. Eu vinha construindo esse livro devagarzinho há quase cinco anos e eu consegui terminar. Tive que me isolar por quatro dias. Foi uma imersão enorme. Eu trabalhei todos os horários nesse livro para conseguir terminar. Na verdade, eu gostaria que o dia tivesse mais de 24 horas ou que eu pudesse ser mais racional com meu tempo.


DCP – Você acha que a poesia pode salvar o mundo e torná-lo mais sustentável?

CP - Eu sempre digo que poesia é salvação, é a minha salvação. Todas às vezes em que não escrevo ou passo tempos sem escrever, eu fico muito desesperançosa, oca e mal por dentro. Para mim, o exercício de escrever é muito importante. Agora, como eu sou um pouco utópica, eu acredito também que a poesia torna o mundo mais sustentável. Quando se lê uma poesia de manhã, a gente vai muito melhor para o trabalho, mesmo que essa poesia seja uma porrada. A poesia não precisa ser necessariamente suave. Às vezes, ela é uma cotovelada no estômago. Mas, a gente precisa disso para refletir, para pensar e repensar. E, se a poesia não salva o mundo, pelo menos transforma e o torna muito mais interessante.


DCP – Na década de 1980 você participou ativamente do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco. Estamos vivendo um intenso movimento literário, que balanço você faria deste momento?

CP - A gente vive num momento muito bom. Tem muito jovem recitando e escrevendo. Isso é prova de que a poesia é a transformação. Se a poesia não tivesse esta grande liga com o novo, não haveria tantos jovens fazendo isso. O Recife é uma cidade profícua em grandes artistas, principalmente na área da literatura. Dentre nossos grandes nomes na poesia brasileira, temos João Cabral de Melo Neto, Manoel Bandeira e Joaquim Cardozo.Todos são cânones da poesia brasileira. Então, Recife é um lugar de grandes escritores. Eu venho da militância diária e tenho a convicção de que a poesia e a arte têm função social e fico muito feliz em ver esta juventude envolvida. Na década de 80, o movimento de escritores independentes era exatamente isso. Era uma grande aglutinação de pessoas das mais diversas origens políticas e literárias de esquerda. Comunistas, socialistas, humanistas e anarquistas que foram para as ruas, acreditando que a literatura também é espaço de luta. Era um momento político complexo. Ditadura acabando, anistia, presos políticos saindo do cárcere. Alguns escritores, como Marcelo Mário Melo, juntaram-se ao movimento, e a gente acreditava que a poesia poderia ser instrumento dessa luta.


DCP – O Interpoética completa 10 anos de atividades na web. Como você observa o papel da internet para a literatura?

CP - Acredito que a internet democratizou o processo de difusão literária. Agora você pode ser um autor que tem seu próprio editor (a internet) e seu próprio difusor, sem precisar da mediação dos grandes canais de imprensa e das grandes editoras. A prova disso é que muita gente jovem fica famoso primeiro na internet para depois ser procurado pela editora. Um exemplo é Clarice Freire, escritora pernambucana, de 26 anos, que bomba na internet com mais de um milhão de acessos. O Interpoética é um trabalho que eu fiz com Sennor Ramos e Raimundo de Moraes, e contou com a colaboração de grandes escritores pernambucanos. Um espaço que devoto muito amor e respeito. Muita gente ficou conhecida e foi divulgada pela primeira vez na web, lá. Ainda hoje, o Interpoética é um espaço que agrega o maior número de escritores pernambucanos.


DCP – As políticas públicas do estado atendem aos anseios da literatura na região?

CP - Acho que a cultura é muito complexa, principalmente como política pública. Nós tivemos um grande momento quando Gilberto Gil foi Ministro da Cultura, no primeiro governo Lula. Depois, Juca Ferreira deu continuidade muito bem às políticas no segundo governo Lula. Isso teve um rebatimento impressionante nos governos estaduais e municipais que tinham gestores com sensibilidade para arte. Em seguida, o Ministério passou pela mão de vários gestores que não conseguiram implantar uma boa política no Brasil. Ressalto que, do ponto de vista do Governo do Estado, os dois governos Eduardo Campos foram muito bons para a cultura e isso criou um grande espaço de mobilização em Pernambuco. Hoje nós estamos num momento de preamar. Juca Ferreira está de volta ao Governo Federal, mas num momento adverso, de crise econômica. E essa crise está nos governos federal, estadual e municipal. Isso faz com que a cultura, que deveria servir– inclusive - de elemento agregador para as pessoas saírem da crise, tenha os seus recursos reduzidos. Afinal, quando o gestor vê a falta de remédios na farmácia ou de enfermeiros ou médicos num posto de saúde, ele opta logo por essa política pública elementar. E a gente, que é da cultura, termina sofrendo com os cortes. Eu não gostaria que ocorressem tantos cortes na área de cultura. Mas, infelizmente, isso acontece e eu compreendo porque acontece. Compreendo que um gestor - quando vai cortar recursos públicos e tem a opção de tirar de uma creche ou da cultura–opte pela cultura. Afinal, não é propriamente uma escolha. Não podemos falar dos cortes desconhecendo o cenário de fundo. Nós estamos num momento de crise complexo, grave. E eu hoje tenho muita paciência e respeito pelos abnegados que trabalham na área de cultura, que acreditam e querem fazer e, às vezes, não tem os instrumentos necessários porque faltam recursos.


DCP – Qual a importância do seu livro ‘As filhas de Lilith’ no contexto da sua obra?

CP - É um dos livros que mais gostei de escrever, pois aborda questões que são muito importantes no que se refere ao feminismo e à luta das mulheres. São 26 poemas, cada um com um nome de mulher e conta a história das mulheres com suas várias faces nesta contemporaneidade. Retrata as delícias e a dor de ser mulher. Vai do erotismo pesado à denúncia contra as injustiças praticadas contra a gente. O livro foi o pico da maturidade dos meus escritos e um livro que amei fazer. Adoro o livro e faria tudo de novo.


DCP – Num país em que ainda sofre com deficiências no ensino público e com alto índice de analfabetos funcionais, como as tecnologias podem contribuir para o incentivo à leitura?


CP - A gente sofre no Brasil com uma coisa complicada, que é a falta de investimento, de forma pesada e eficiente, no ensino fundamental e no ensino médio. Por mais que tenham ocorridos avanços, como no nível superior com a expansão de vagas e inclusão de pessoas carentes, com políticas públicas importantes, é fundamental investir no ensino fundamental para romper a linha de pobreza. Afinal, se existem crianças educadas de forma diferente no mesmo país, vai haver um vazio e uma desigualdade enorme difícil de resolver. Um país que oferece um bom nível fundamental e torne as pessoas aptas à leitura, faz diferença no processo de formação e construção das pessoas do ponto de vista político e filosófico. Acho que o instrumento digital é um bom espaço para pesquisa. Mas, não basta ter um computador com acesso à internet. A gente tem que saber o que as pessoas estão vendo na internet, o que os jovens estão lendo. Necessariamente não é o acesso à internet que faz um bom leitor. Muitas vezes, a boa leitura está num livro de papel. Eu fiquei surpresa quando soube que as três melhores escolas públicas avaliadas pelo MEC, este ano, estão em cidades minúsculas. E o que fez a diferença é um bom corpo docente e a família. Todos unidos para a formação de bons leitores. O que vai fazer bons leitores é uma boa política de leitura no município, no estado, no país. É a democratização do livro, é toda escola ter uma biblioteca e os professores serem encantados pela literatura. Isso é a grande política. Leitura tem que ser deleite, tem que ser uma experiência boa. Leitura tem que ter encantamento.



Um comentário:

  1. Só a poesia salva. No principio era o poema. Em seu nome todo poder será exercido. Cida Pedrosa não é poeta. É a própria poesia romântica e feroz.
    Militante, linda e amiga

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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima