domingo, 2 de agosto de 2015


CONTO DO DOMINGO


Para Davi, que chegará em novembro (conto) de Salete Rêgo Barros








Com duas varetas de palha de coqueiro, fita adesiva colorida, tesoura sem ponta, papel de seda, crepom e linha número dez, pequenas mãos desajeitadas cortam o papel de seda em forma de quadrado, com aproximadamente trinta centímetros de lado, e colam um dos palitos na diagonal. Os olhos mexem-se freneticamente e um pedaço de língua aparece no canto da boca ligeiramente molhada.

Com o outro palito elas traçam um arco colando-o cruzado por cima do palito que já está fixo, fazem dois furinhos no lugar onde as duas varetas se cruzam (um furo de cada lado), passam a linha pelos buracos e, sem cortá-la, dão um nó. Amarram a linha a partir do nó deixando um pequeno espaço. Por último, fazem uma rabiola bem colorida com o papel crepom, cortando as tiras, colando-as, em seguida, num fio de linha. Depois, amarram a rabiola na parte de baixo da vareta reta.

Segurando o troféu elas escolhem um local onde o sol brilha com intensidade. Agora, voltadas para o alto, as mãos tentam em vão o equilíbrio necessário.

– Ei, Moço, o que faço?

– Ora, você deve esperar que o vento sopre.

– Vai demorar muito?

– Depende. Se você ficar aí, parado, vai.

As mãos se voltam, os pés sentem a quentura da areia e os olhos procuram um local mais ameno. O troféu é agarrado firmemente enquanto o pensamento voa alto – é preciso ter cuidado para que ele não se prenda nos galhos de alguma árvore ou na fiação elétrica.

– Moço, e o vento, quando vai soprar?

– Moço, e o vento?

– Moço?

Bolas de gude correm de um lado para o outro, impulsionadas por petelecos certeiros. O troféu aguarda num canto, sob um pesado carretel de linha, e as mãos que cortaram e colaram papeis, agora acertam brilhantes coloridos.
Quando os bolsos ficam pesados até não poder mais, folhas secas começam a rolar, a rolar, a rolar. O vermelho, o amarelo, o azul e o verde ganham altura, elegantemente, buscando o infinito com a habilidade de quem soube esperar.



Recife, maio de 2015



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima