domingo, 5 de julho de 2015


CONTO DO DOMINGO

Noturno de Chopin (conto) de Fernando Farias


Fernando Farias/Foto: Divulgação



Seis horas.

O ônibus azul aproxima-se da rua arborizada. O motorista fardado escuta as sirenes, observa as viaturas e o aglomerado de pessoas justamente na casa a que se dirigia.

Cinco horas e cinquenta minutos.
        
É a mãe quem consola as amigas e os vizinhos. Ele está bem, não vai morrer. Olha mais uma vez para o início da rua, espera a chegada do ônibus.

Cinco horas e quarenta minutos.

Ao ouvir o cantar dos pneus da viatura policial, o pai abre a porta, entrega o revólver, os braços às algemas, sereno, deixa-se aprisionar.

No quarto, a mãe, sorridente, tenta estancar o sangue usando uma toalha branca, enquanto o filho chora de dor. Feliz ela escuta a sirene da ambulância.

Cinco horas e trinta minutos.

O filho acorda com o barulho do tiro e sente a dor aguda na perna e grita. Vê o rosto sereno do pai que ainda segura a arma. O cheiro de pólvora e sangue. Sente as mãos da mãe comprimindo uma toalha sobre o ferimento. Ouve palavras de consolo e carinho.

Cinco horas e vinte e cinco minutos.

Vacila sobre a distância. Ajusta a pontaria, segura com as duas mãos, treme, e dispara o gatilho na perna. Um único tiro.
Cinco horas e vinte minutos.

Ela, delicada, puxa devagarzinho o lençol até o joelho, com cuidado para não o acordar. Acena com os olhos compreensíveis para o marido. Um sinal em aprovação ao gesto seguinte.

Cinco horas e quinze minutos.

Primeiro ela telefona para a polícia, com a voz disfarçando um choro, comunica que seu marido acabara de atirar no filho. Em seguida chama uma ambulância. Uma tragédia.

Cinco horas e dez minutos.

Tomam chá de camomila, lembram os momentos felizes nos vinte anos do garoto. Paparicado desde o nascimento até chegar ao Conservatório de Música. Do primeiro dentinho às primeiras namoradas. Concluem que não há amor maior que se pode sentir a um filho. Futuro brilhante como pianista. Jamais será um piloto de aviões.

Cinco horas e cinco minutos.

Acordam, preparam um chá. Decisão tomada. Ela pega a toalha e ele o revólver. Às seis horas chegaria o ônibus azul para buscá-lo. Num mundo em guerra é perigoso ter um filho convocado pela Força Aérea.

Cinco horas.

O rapaz dorme em paz. Sonha sobrevoando as nuvens sobre o Oriente Médio ao som de um Noturno de Chopin.



Um comentário:

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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima