domingo, 15 de março de 2015


POEMAS DO DOMINGO

Poemas de Raimundo de Moraes, Paulo Rocha, Samarone Lima, Sérgio Vaz e José Gomes



Descruzando as pernas com Anne Sexto*
Raimundo de Moraes

Sorria
          disse o fotógrafo
Sobrevivi
Escreva
          disse o médico
Sobrevivi
Arda
          disse o poema
Ardi


*Transcrito do livro Coesia, 2015



Poema da despedida
Paulo Rocha

(cinco sentidos)

Só vou dizer o que sei
e o que eu sei que tu sabes:

Que não olhes de olhos baixos
a fome a dor e a festa
das verdades encantadas.

Que não escutes nas noites
gemidos presos nas frestas
das manhãs e madrugadas.

E não sintas mais que o cheiro
da flor, do fruto, da aresta
das vontades confirmadas.

Que nada digas que ofenda
nem que macule o que resta
dos poucos sinais da estrada.

E que tua mão não toque
na febre ímpia das almas
em testas vis aninhadas.

E não digo mais do que sei
porque eu sei que tu o sabes.



Memória do corpo
Samarone Lima

Muitas quedas
Nada deixaram.
Não importa a altura, o impacto.
O corpo desdobra-se, renasce
Refaz tecidos e ossos.
Arranhões deixaram rastros, sangue, lágrimas.
A pele, mais que revela: oculta.
Dois dentes quebrados
Não me desfizeram o sorriso.
Mas certos silêncios nunca mais voltaram.



Os miseráveis
Sérgio Vaz (SP)

Vítor nasceu… no Jardim das Margaridas.
Erva daninha, nunca teve primavera.
Cresceu sem pai, sem mãe, sem norte, sem seta.
Pés no chão, nunca teve bicicleta.
Já Hugo, não nasceu, estreou.
Pele branquinha, nunca teve inverno.
Tinha pai, tinha mãe, caderno e fada madrinha.
Vítor virou ladrão, Hugo salafrário.
Um roubava pro pão, o outro, pra reforçar o salário.
Um usava capuz, o outro, gravata.
Um roubava na luz, o outro, em noite de serenata.
Um vivia de cativeiro, o outro, de negócio.
Um não tinha amigo: parceiro.
O outro, tinha sócio.
Retrato falado, Vítor tinha a cara na notícia,
enquanto Hugo fazia pose pra revista.
O da pólvora apodrece penitente, o da caneta
enriquece impunemente.
A um, só resta virar crente, o outro, é candidato a presidente.



Templo velho*
José Gomes, Poeta Vaqueiro

Eu sou igual a um templo abandonado,
Por entre o mussambê, voltando ao chão,
Um deserto e sombrio casarão
Entre os braços musgosos do passado.

O tempo arruinou-o, foi condenado,
Onde tudo era amor, religião,
Sonha agora coberto de melão
Como um pobre lugar, mal assombrado!

Ouvi a derradeira Ave Maria!
E vi levar a Padroeira um dia
Num cortejo levando castiçais...

Hoje em noites argentes, sem cortinas,
A minha alma passeia entre as ruínas,
Onde tudo nasceu, descansa em paz!


*Transcrito da Revista do IHJ – maio/2013



0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima