domingo, 14 de setembro de 2014


O CONTO DA SEMANA

Lição a Pedro, de Douglas Menezes*

Img:reprodução

Não adianta adiar a vida, Pedro. Nem fazer poupança pra comprar remédio na velhice, pois nela você vai estar a meio pau de qualquer jeito, isto se nela chegar. Viverá remoendo o que deixou de realizar, tempo esquecido de você. Lembrará na angústia da soledade a canção já distante: “Pela última vida, poucos amigos hão de te procurar”. O momento do juízo final, onde a soma irá ter sempre como resultado a diminuição do que foi e do que deveria ter sido. Daí aparecer a dor maior: a de ir embora sem ter coberto a existência com o que valeria a pena. O beijo não dado, a ousadia ausente, o abraço suspenso no ar, quase ato consumado. A amizade negada por pura birra, orgulho sem prazo de validade.

Não adiante, Pedro, olhar os filhos crescerem a distância, apenas porque uns trocados a mais engordaram o dinheiro guardado. Você não sabe de nada. Não jogou futebol com o filho, nem foi seu confidente na primeira crise adolescente. Não discutiu as aventuras do filme que bombou, nem a final do campeonato, pois você estava longe. Sabe de nada, Pedro. Você não viu a menina ficando moça, as horas no espelho, querendo ouvir seu elogio: pai deve ser o primeiro homem a notar. Não viu, Pedro, sua filha virar mulher: não poderia diminuir um pouco o salário, existência miserável.

Você leu tanto, Pedro, ouviu muita música, e não aprendeu. Lembrar Paulinho da Viola é preciso: “Tenho pena daqueles / Que se arrastam até o chão / Enganando a si mesmo por dinheiro ou posição”. Pois é Pedro, entrou num ouvido e saiu pelo outro. Uma vida só amealhando coisas, fazendo cálculos que não resultaram na felicidade desejada. Terrenos e mais terrenos, um mouro no trabalho, abdicando da brisa ao vento, ou da paisagem que enche os olhos além.

Você não aprendeu, Pedro, a lição do artista, cujo final sintetiza o tempo que passa, a par de cal derradeira, o desperdício de amesquinhar o lado bom e exagerado da vida, consagrado nos momentos improvisados. Sim, Pedro, inútil o arrependimento agora. Sozinho nesta casa, tão grande quanto vazia, a relembrar, insistentemente, a canção popular, a dizer num arremate singelo: “Pois sei que além de flores, nada mais vai no caixão”.

Você foi mau aluno, Pedro, deixou de aprender a lição maior, aquela que aprova com louvor e distinção, na escola da existência: a de viver a vida, vivendo.

11 de setembro de 2014


*Douglas Menezes é escritor, professor de língua portuguesa, pós-graduado em Literatura Brasileira e em Leitura, Compreensão e Produção Textual pela UFPE, membro da Academia Cabense de Letras  



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