domingo, 27 de julho de 2014


O Conto da Semana

A XOXOTA AZUL

por Fernando Farias











A vida de puta é como a do jogador de futebol. Com o avanço da idade, vai para o banco de reserva.

Numa tarde invernosa de domingo, a prostituta Adrienne constatou, aos 25 anos, que estava perdendo espaço para as meninas mais jovens. Precisava urgentemente fazer algo para atrair e manter mais clientes.

As grandes ideias surgem nos momentos de maior ócio, podem gerar sucessos e ganhos financeiros.

As meninas estavam cada vez mais ofensivas: corpos malhados, silicones, vestidos bonitos e perfumes importados. Inventavam novas posições doKama Sutra, se especializavam como guias de turismo. Com a proximidade do verão e a vinda dos gringos em busca de sexo com as mulatas brasileiras, Adrienne sabia que teria de caprichar melhor na aparência para ocupar seu lugar ao sol no turismo sexual.

Para conseguir mais dólares, seria preciso aprender a falar inglês, um pouco de espanhol e algumas palavras em alemão. Mas, Adrienne sabia muito pouco, além de se comunicar com gestos ou frases como: “Do you wanna fuck me?".

Tudo é uma questão de inovar com criatividade. As boas ideias no mundo dos negócios têm levado fama a publicitários e homens de marketing. Em momentos de crise, os mais criativos se preparam para ser ofensivos e mantendo-se no mercado.

Após pensar dias e dias, Adrienne teve uma grande ideia, ao observar que os pneus dos carros são todos pretos. Imaginou que podiam ser amarelos, azuis, verdes. Além dos carros ficarem mais bonitos, deixariam o asfalto das estradas com faixas coloridas com o desgaste dos pneus.

“Se podemos mudar a cor dos cabelos e até dos olhos com lente de contatos, por que os pneus dos carros têm que ser pretos?”, pensou.

E foi assim, fazendo esta associação criativa entre os pneus dos carros, a cor dos olhos e dos cabelos, que  a prostituta pensou nos pelos escuros da sua xoxota. Riu ao ter uma ideia engraçada. Resolveu comprar tintas especiais para tingir cabelos.

Inicialmente usou o amarelo. Mas não gostou. Ficava horrível uma xoxota loira numa mulata. “E se o freguês caísse na gargalhada?”.

Depois usou o verde. Mas ficou escuro demais. Não combinava com suas coxas escuras.O lilás ficou feio. Branco nem pensar. O vermelho poderia ser associado ao sangue da menstruação e os homens a evitariam. Mas, finalmente, ela testou o tingimento azul claro. Ficou tão lindo que ela tirou fotos, fez seu portifólio.

Com a chegada da temporada de caça aos estrangeiros, Adrienne, que ocultou seu segredo das colegas, mostrava as fotos aos clientes, que pagavam até adiantado pela experiência de “conhecer” uma xoxota azul.

Mas a espionagem comercial existe, o segredo do sucesso de Adrienne foi descoberto e logo imitado. E a maioria das meninas, sem muito conhecimento estético, usavam cores variadas. Algumas pareceriam até um arco-íris, uma aquarela, com tanta mistura de cores.
O sucesso de Adrienne foi ameaçado. Continuou usando o azul durante o verão. Sentia-se frustrada por ter tido a ideia e, agora, outras se beneficiavam. Não tinha conhecimentos sobre registro de patentes sobre a autoria de sua criatividade.

E começaram a surgir mais e mais xoxotas extravagantes. Purpurinas, desenhos de ideogramas japoneses, letras gregas, peixinhos, borboletas e ursinhos. Carinha amarela sorridente.  Surgiu o verde claro e amarelo ouro, com estrelinhas azuis, que conquistaram muitos clientes estrangeiros que transavam por amor à seleção brasileira.


Finalmente, compreendendo que deve haver um motivo para os pneus dos carros serem pretos, Adrienne tentou a última jogada. Pintou os cabelinhos com a cor original. Montou uma loja de produtos especiais para xoxotas e liderou o mercado por muitos anos.



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