domingo, 27 de julho de 2014


A Face Poética de Ariano Suassuna

 Ariano Suassuna/Foto:Divulgação

O DCP revela nesta edição comemorativa a face poética de Ariano Suassuna. Romancista, poeta, dramaturgo e ficcionista.  Ariano foi um poeta virtuoso, de uma sensibilidade ímpar e comovente. De seu reino, partiram raridades líricas, repletas de encanto, de grandeza onírica de suas perfeitas colocações ao eterno, ao divino e à espera da sorte sobre o destino humano. A sua poesia é incomum, visceral, distante de qualquer paralelo poético entre nós. Além das obras já consagradas, Ariano publicou pela Editora Universitária da UFPE, em 1999, o livro ‘Poemas’, com seleção e notas de Carlos Newton Júnior.
Conheça mais sobre a vida e a obra do mestre Ariano Suassuna acessando: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=305

Natanael Lima Jr e Frederico Spencer 
editores


QUATRO POEMAS DE ARIANO SUASSUNA

A INFÂNCIA
(Com mote de Maximiano Campos)

Sem lei nem Rei, me vi arremessado
bem menino a um Planalto pedregoso.
Cambaleando, cego, ao Sol do Acaso,
vi o mundo rugir. Tigre maldoso.

O cantar do Sertão, Rifle apontado,
vinha malhar seu Corpo furioso.
Era o Canto demente, sufocado,
rugido nos Caminhos sem repouso.

E veio o Sonho: e foi despedaçado!
E veio o Sangue: o marco iluminado,
a luta extraviada e a minha grei!

Tudo apontava o Sol! Fiquei embaixo,
na Cadeia que estive e em que me acho,
a Sonhar e a cantar, sem lei nem Rei!


A ACAUHAN – A MALHADA ONÇA
(Com mote de Janice Japiassu)

Aqui morava um Rei quando eu menino:
vestia ouro e Castanho no gibão.
Pedra da sorte o meu Destino
pulsava, junto ao meu, seu Coração.

Para mim, seu Cantar era divino,
quando, ao som da Viola e do bordão,
cantava, com voz rouca, o Desatino,
o sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu Pai. Desde esse dia
eu me vi como um Cego sem meu guia
que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua Efígie me queima. Eu sou a Presa,
Ele a Brasa que impele ao fogo, acesa,
Espada de ouro em Pasto ensanguentado.


A MOÇA CAETANA A MORTE SERTANEJA
(Com mote de Deborah Brennand)

Eu vi a Morte, a moça Caetana,
com o Manto negro, rubro e amarelo.
Vi o inocente olhar, puro e perverso, 
e os dentes de Coral da desumana.

Eu vi o Estrago, o bote, o ardor cruel, 
os peitos fascinantes e esquisitos. 
Na mão direita, a Cobra cascavel, 
e na esquerda a Coral, rubi maldito.

Na fronte, uma coroa e o Gavião. 
Nas espáduas, as Asas deslumbrantes 
que, rufiando nas pedras do Sertão,

pairavam sobre Urtigas causticantes, 
caules de prata, espinhos estrelados 
e os cachos do meu Sangue iluminado.


LÁPIDE
(Com mote de Virgílio, o Latino, 
e de Lino Pedra-Azul, o Sertanejo)

Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo 
nas pedras do meu Pasto incendiado: 
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado, 
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalgá-lo 
numa Sela de couro esverdeado, 
que arraste pelo Chão pedroso e pardo 
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido, 
tropel de cascos, sangue do Castanho, 
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho, 
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima