domingo, 1 de junho de 2014


Leitura x Erotismo: os leitores estão preparados para essa combinação?

Publicado em obvious lounge por Rita L. M.*

A literatura erótica pode ser encontrada no livro, na música, no teatro, no cinema, na TV, e cada leitura proporciona releituras com diversos entendimentos e interpretações. Mas, com que olhos essa leitura acontece? Onde os leitores têm os pés apoiados para gerar as interpretações?

Img: Reprodução

Ler é um desafio. No dia a dia, as leituras feitas são as mais diversas, e todas partem do processo de interação entre o leitor e o texto com o objetivo de satisfazer a curiosidade sobre o assunto lido. Todo texto tem uma finalidade que faz com que o leitor se situe perante ele: fantasiar, buscar informações, confirmar ou refutar um conhecimento prévio, propiciar a reflexão, discutir ideias.

A leitura pela leitura não basta. Antes de conhecer o texto, é necessário saber, também, quem é o autor, as obras já produzidas por ele e os assuntos daquele enredo. Esses elementos prévios da leitura favorecem o entendimento, constroem a interpretação, estabelecem inferências e conjeturas. Agora, vincular leitura ao erotismo é uma boa combinação?

Há alguns anos, houve a popularização de romances contendo passagens eróticas e com isso um aumento significativo de leitores, os quais se utilizam dessa leitura literária como um meio eficaz para despertar o corpo para o prazer e o gozo. Como as pessoas não tiveram (e continuam sem ter) a oportunidade e nem a coragem de falar sobre temas ligados à sexualidade, optam por esse tipo de leitura em busca de respostas que preencham o vazio deixado pelo silêncio há séculos. Pode-se dizer, ainda, que a literatura erótica evoca livremente a sexualidade das personagens como elemento propulsor, levando a um desígnio mais amplo: o despertar da imaginação nos leitores.

E é por esse caminho que se pode ir, aos poucos, introduzindo obras de uma longa e importante lista de escritores como as de Safo, Aretino, Marquês de Sade, D. H. Lawrence, Nabokov, Flaubert, Henry Miller, Hilda Hilst, Gregório de Matos, Machado de Assis, Caio Fernando Abreu, Carlos Drummond de Andrade, que recorreram ao erotismo propriamente dito para tornar seus textos prazerosos (e muitas vezes quase impublicáveis) com o objetivo de excitar os leitores. Mas não basta o leitor ter em mãos uma obra literária erótica apenas como fornecedor de conhecimentos sobre os temas mencionados sem que a mesma não o esclareça em sua necessidade e o capacite a colocar em prática as sensações despertadas para ir além de si mesmo.

Quando temos uma literatura cuja essência é afirmar os direitos da carne, a base passa a ter uma estética de apelo moral, tornando visíveis as dicotomias: erótico quando se fala do sexo apenas nas entrelinhas, mostrando os lados alto/nobre e belo da literatura; o pornográfico quando se descreve o ato sexual em si ou dos genitais, feio/sujo. Na ausência de um conhecimento geral em suas devidas variações, pode-se cometer graves enganos sobre a (re)significação dos textos e sobre seus criadores. A noção de liberdade sexual e sua progressão no tempo - suas mutações e suas contradições - tornam possíveis avaliar se um texto erótico é bom ou ruim; e ainda, se ele pertence a literatura ou a um documento psicopatológico.

O ato de ler na atualidade distingue-se dos séculos passados, uma vez que a atuação do leitor se constitui pelos e nos processos de leituras superficiais. Entretanto, não se pode esquecer a necessidade de resgatar o comportamento humano diante das obras literárias, dando um novo contexto tanto para os textos como para os leitores. A literatura que utiliza em sua forma de expressão o erotismo não pode ter a sua conceituação reduzida devido a sua natureza polemica e, também, por fazer parte dos tabus e das transgressões humanas que nascem de obscenidades como orgias, sacrifícios, incesto, prostituição, adultério, homossexualidade, fetiches. A proposta é tratar a literatura erótica a partir da beleza e da nobreza que os textos – tanto em prosa como em versos - podem proporcionar ao leitor, passando pela filosofia, psicanálise, sociologia, ética e, sobretudo, sexo e sexualidade. Faz-se necessário provocar reflexões e entendimentos do e para o corpo em seus prazeres e gozos, e incendiar as controvérsias desde o conservadorismo ao liberalismo.


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A arte não se intimida ao desnudar-se, no entanto, aprender a ler e a (con)viver com a literatura erótica em tempos que a ausência e a presença se disfarçam com o próprio tempo de vida, pode ser um disparador de fantasias , de imaginações, de descobertas bem menos hipócritas; encorajando aqueles que leem a (re)descobrir caminhos para o seu próprio prazer e satisfação, transcendendo o campo do texto e abrangendo todo o tipo de representação erótica.

*Rita L. M. é colunista do site obviouslounge



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