domingo, 29 de setembro de 2013


Raymonde

por Antônio Campos*
camposad@camposadvogados.com.br














Cícero e Raymonde em Paris na década de 40
Foto: Arquivo IMC


Não podemos conceber nenhuma outra prova de existência do que a que nos é dada pelo calor das grandes amizades. Raymonde, esposa e musa inspiradora de Cícero Dias, recentemente falecida, fazia parte desse miradouro que o tempo não apaga criado por Raissa Maritain no seu belo livro “As Grandes Amizades”, em que a autora francesa compartilha intensamente, com seus leitores de todas as épocas, a história de homens e mulheres que comungavam com ela e seu marido famoso, o filósofo Jacques Maritain, muitos gestos, atitudes e pensamentos. A amizade na visão intuitiva de grandes figurantes que ficaram marcados na história intelectual da França, durante um período vivenciado, também, por Raymonde e seu marido, o pernambucano de Escada, pintor Cícero Dias.

Raymonde foi a vida inteira uma mestrissima na arte de fazer amigos e amigas, sabendo manter como mulher e esposa amorosa, com o seu jeito de francesa bela e inteligente, aquilo que raras souberam descobrir, embora morando longe daqui: esse jeito brasileiro e nordestino de cativar pessoas, de sorrir, de falar até com o nosso sotaque, de cozinhar e de vestir tão brasileiramente quando vinha com marido passar férias de verão em Recife.
Uma Amizade tão cordial como a que une irmãos, irmãos que eram, estivessem pertos ou distantes: Cícero Dias, Zé Lins do Rego, Gilberto, Renato Carneiro Campos, Marcelo Carneiro Leão, Raymonde e Madalena Freyre. Raymonde não era apenas participante da vida de seu marido como esposa, companheira e secretária. Ela sabia com perfeição receber, ao lado do marido, celebridades como Picasso, George Braque, Henri Matisse e Fernand Léger, para citar alguns grandes nomes que se tornaram amigos do casal e da casa parisiense a mais brasileira das casas de Paris. Tudo ali tinha o sabor de Pernambuco feito por Raymonde.

Diziam na casa de meu pai, além de Gilberto Freyre, outros amigos do casal Cícero e Raymonde, que visitavam sua casa em Paris, que Raymonde, além de falar português impecável, sabia como raros preparar um prato pernambucano de sabor incomparável, dentre as muitas receitas que ela aprendia quando vinha com o marido rever o engenho Jundiá, da família de Cícero Dias, na cidade de Escada, onde ele, com poucos anos de idade, iniciou o hábito da leitura precoce e começou a pintar. Essas revelações, que muito prezo, são todas páginas de memória, dos falares ouvidos por mim e Eduardo, éramos ainda jovens, na casa de meu pai, e das lembranças trazidas nas conversas da varanda da casa de meu tio, Renato Carneiro Campos, de quem Raymonde e Cícero Dias eram amigos.

Cícero Dias, na pintura, mergulhava no interior humano, transitando entre o real e o imaginário, no meio de tudo isso, aqui e acolá, o canavial e suas plumagens feitas de verde. Foi um dos maiores pintores do século em que viveu. Raymonde era leveza e delicadeza em pessoa ao lado do marido, naquela Rue Long Champ, em Paris, onde residia há quarenta anos, plantando flores e cultivando grandes amizades.

Como dizia Nelson Rodrigues, o amigo é um acontecimento, o resto é paisagem. Em Cícero Dias e em Raymonde tudo era uma celebração em conjunto de acontecimento e paisagem.


*Antônio Campos é advogado, escritor, editor, membro da Academia Pernambucana de Letras e curador da Fliporto.






2 comentários:

  1. Boa Noite. Desculpe minha falta de entendimento. Quero saber se o programa é dedicado a poetas novos e de sensualismo.. Obrigado.

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    1. Mari, boa tarde

      Não entendi sua pergunta, pode refazê-la?

      Frederico Spencer
      Editor de texto

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima