domingo, 29 de setembro de 2013


O Conto da Semana

Fantasia manchada de batom carmim (conto)* de Fernando Farias

Img: Reprodução

Agora sou apenas uma fantasia. Deixo-me levar no mesmo frevo das outras máscaras. Uso apenas uma mortalha preta e a máscara branca, ornada de serpentinas.
Parece cheia do Capibaribe. Vassourinhas varre a multidão serpenteando pelas ruas do Recife. É o Galo da Madrugada colhendo tanta gente que nem o sol deixa sombras.
Imagino-me voando sobre o rio do João Cabral e, embaixo das pontes decoradas de bandeiras do poeta Manuel, vejo os caranguejos dançarinos do mangue.
Sinto o cheiro de perfume do talco, fazendo-me lembrar as outras encarnações, quando eu brincava nas festas à Saturno e ao deus Baco. O mesmo prazer me empolga.
A marcha militar acelerada impõe o ritmo e harmonizam as batidas dos corações. Parece uma mandinga. O sopro dos metais contamina o sangue e gera a dança epilética desengonçada.
Eis que escuto um frevar de pés mais leves, passos de alguém que consegue dançar sem tocar o chão, como se a flutuar sobre rosas. Sinto-me atraído. Experimento no ar o cheiro diferente, o cheiro que tem nos seios das mulheres negras quando estão suadas.
Vejo que há muitas colombinas dançando com pierrôs e já não sou um ser completo. Continuo frevando e com os olhos de radar busco encontrar a moça solitária dos passos tão leves.
Finalmente, perto do estandarte que rima com escarlate, eu a vejo. Uma alma criança vestida de mortalha branca e máscara negra, ornada de serpentinas, os olhos verdes e o sorriso de batom carmim. Achei a minha Maria Bonita.
Nossos olhos se encontram. Soam os clarins e escutamos aplausos. Evoé. Chovem confetes e nos abraçamos. Dançamos felizes, rodopiando, capibando, sabendo que já nos conhecemos de outros carnavais. E o Galo nos leva numa pororoca pelas ruas até escurecer por três dias nas ladeiras de Olinda.
Agora, escuto apenas os sinos da missa da quarta-feira de cinzas. Clareia o dia no chão de pedras lisas do Pátio de São Pedro. Na rua deserta, apenas um homem cambaleante insiste em carregar o estandarte do clube. Estou caído na calçada, sem a minha máscara decorada de serpentinas.
Lembro-me que pegou na mão do homem da fantasia colorida, um palhaço, e volúveis entraram numa jangada. Ela se foi. Levou a minha persona e me deixou sem rosto.
Manchado de batom carmim, eu caminho invisível entre as beatas na Praça do Carmo. Foi apenas uma fantasia. 

*Este conto recebeu menção honrosa no Concurso Luiz Jardim de Contos, biblioteca Casa Amarela. Prefeitura do Recife em 2007.



3 comentários:

  1. Respostas
    1. Obg em nome do escritor Fernando Farias. Enviarei seu comentário para ele.
      Abç,
      Natanael Lima Jr

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  2. Obrigado amiga
    Muita paz
    quero conhecer teu trabalho.

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima