domingo, 13 de janeiro de 2013


Lêdo Ivo: Das Alagoas um Desbravador da Palavra




por Cássio Cavalcante*











Foto: Reprodução
Lêdo Ivo
1924 – 2012

  
“O poeta não deve crer nos anjos, mas nas palavras que os criam.”
Lêdo Ivo


Festa literária de Marechal Deodoro 2012, em um dos debates mais interessantes que assisti, o escritor Antonio Torres, com um livro grande e acredito que pesado nas mãos, disse: “Este é a minha bíblia, quando leio essas páginas me vem inspiração.”Era o livro: Poesia completa 1940 – 2004”. Edição da Topbooks/ Braskem, de Lêdo Ivo. Em um outro momento da Flimar, no stand enquanto aguardava o lançamento de meu livro, o vi na calçada do Centro Cultural do Banco do Nordeste, com um blazer bege e calças largas, andava, nem devagar, nem tão pouco ligeiro, simplesmente andava. O cumprimentei, ele me respondeu com um aceno e passou. Passou o homem, o poeta, em mim ficou a visão do mito. Foi a primeira vez que o vi pessoalmente. Mais tarde foi simpático e paciente em mais uma solicitação de foto. Dessa vez pelo um grupo de amigos escritores vindos de Pernambuco, formado por mim, Frederico Spencer e Natanael Lima Junior.

Nasceu em Maceió em 1924, filho de Floriano Ivo e Eurídice Plácido de Araújo Ivo. Casou com Maria Leda Sarmento de Medeiros Ivo (1923-2004). Seu início na literatura se deu no ano de 1944, quando publicou “As Imaginações”, poesia, e em 1945 lançou “Ode e Elegia”, que mereceu o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras. Afirmou que o leitor é o coautor do texto. Explicou que os biógrafos empenham-se em explicar a obra a partir da vida, quando o correto é exatamente o contrário: trata-se de explicar a vida a partir da obra. Do paralelo entre a Poesia e a Cultura alertou: “A poesia é uma criação da cultura, mas esta deve permanecer invisível no poema”. Sobre a transparência humana sentenciou: “Na vida precisamos sempre usar máscaras, pois ninguém nos reconheceria se nos apresentássemos de rosto nu.”. Lêdo Ivo afirmou, explicou, alertou e sentenciou, mas acima de tudo viveu, em Alagoas, no Brasil e no mundo.

Em 13 de novembro de 1986, sucedendo Orígenes Lessa, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Tomou posse em 07 de abril de 1987. Sobre o livro “Cartas de Inglaterra” do  fundador da cadeira que ocupou, Rui Barbosa, disse em seu discurso de posse que o conjunto de ensaios que forma o livro está para a literatura brasileira como os ensaios de Macaulay para a literatura inglesa. Foi o quinto escritor que ocupou a cadeira de nº 10.

Nos últimos tempos com quase noventa anos tinha uma vitalidade de se admirar. Falava alto, gostava de comer bem, e era mestre em contar casos divertidos. Mas com tudo isso era dono de uma saúde frágil. Em dezembro passado dias antes do Natal, almoçava num restaurante, em Sevilha, na Espanha. Passou mal, voltou para o hotel onde recebeu atendimento médico, mas antes de ser encaminhado para o hospital, faleceu. Se a morte não tivesse lhe batido a porta, na semana seguinte retornaria a sua terra, Maceió. Lá tinha uma agenda de trabalho a cumprir. Foi um correto explorador do vasto oceano das letras.

Recife, Boa Viagem, o jornal que li no início desta manhã data 12 de janeiro de 2013.


 III Festa Literária de Marechal Deodoro –
Alagoas/2012
Foto: Frederico Spencer, Cássio Cavalcante
Lêdo Ivo e Natanael Lima Jr


*Cássio Cavalcante é escritor




DOIS POEMAS DE LÊDO IVO


CEMITÉRIO DOS NAVIOS
  
Aqui os navios se escondem para morrer.

Nos porões vazios, só ficaram os ratos
à espera da impossível ressurreição.

E do esplendor do mundo sequer restou
o zarcão nos beiços do tempo.

O vento raspa as letras
dos nomes que os meninos soletravam.

A noite canina lambe
as cordoalhas esfarinhadas

sob o voo das gaivotas estridentes
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.

Clareando madeiras podres e águas estagnadas,
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho

que marca no casco as cicatrizes
do portaló que era um degrau do universo.

E a tarde prenhe de estrelas
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente,

um casal aturdido pelo amor mais carnal
erguia no silêncio negras paliçadas.

Ó navios perdidos, velhos surdos
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos

varando a neblina, no porto onde os barcos
eram como um rebanho atravessando a treva!




SONETO PURO
  
Fique o amor onde está; seu movimento
nas equações marítimas se inspire
para que, feito o mar, não se retire
das verdes áreas de seu vão lamento.

Seja o amor como a vaga ao vago intento
de ser colhida em mãos; nela se mire
e, fiel ao seu fulcro, não admire
as enganosas rotações do vento.

Como o centro de tudo, não se afaste
da razão de si mesmo, e se contente
em luzir para o lume que o ensolara.

Seja o amor como o tempo — não se gaste
e, se gasto, renasça, noite clara
que acolhe a treva, e é clara novamente.





3 comentários:

  1. Prezado Cássio, parabéns pelo texto.

    O bom de se fazer coisas boas na vida é que não se morre tão facilmente. Lêdo nos deixou boas obras.

    Abraços,Adriano Marcena.

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  2. Verdade Adriano. Agradecemos seu comentário e visita.
    Natanael Lima Jr
    Editor

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima