domingo, 30 de setembro de 2012


Velocidade, Solidão e Poesia

 
 
Frederico Spencer*
 



 

 
  
 
 
Num fragmento do poema “Oração pelo Poema”, o poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo, considerado como um dos maiores da língua portuguesa, nos fala: “a cem quilômetros por hora/solto a direção do automóvel/para escrever alguma coisa/mais urgente que minha vida”.
 
Nesse instante do poema, o poeta desiste da vida ou corre o risco de perdê-la por dois motivos aparentes: para não perder o verso que o atravessa ou porque foge da angústia da solidão que o entorpece. “A cem quilômetros por hora” nega a própria existência se esta não for pela poesia que o persegue, sombra e mito da saga de se nascer poeta.
 
É na solidão e na velocidade das ocorrências das coisas da vida que a poesia eclode e quebra a casca do ovo que a aprisiona. Sobressaltado, o poeta se presta à gestação precipitada dos seus símbolos/filhos mal criados, donos de suas verdades. Assim acontece em “Nasce o Poema”, de Ferreira Gullar: “e a poesia irrompe/donde menos se espera/às vezes/cheirando a flor/às vezes/desatada no olor/da fruta podre/que no podre se abisma”.
 
Há sempre, na gestação da poesia, a condição prematura do vir a ser no mundo - seu gesto ditatorial. Urgência e razão se contextualizam no momento onde acontece a quebra da castidade do papel e a poesia materializa-se como gente, para matar a fome do mundo. O poeta simplesmente dedica-se à dor do parto e apara sua sangria, qual o Édipo, olha sua cria no seu momento mais delicado e o reconstrói para soltá-lo no mundo.
 
Nas suas mais variadas formas de expressão, a poesia reclama seu momento único para nascer dentro da solidão, como está em Belchior: “dentro do carro/ sobre o trevo /a cem por hora, ó meu amor/só tens agora os carinhos do motor. Nesta busca de um infinito que demora a chegar, há algo que se perdeu na profusão da velocidade e dos afetos, onde o tempo corrói os amantes, deixando a solidão como o momento necessário para nascer, desobedecendo à ordenação de um mundo mecânico.
 
Casada com a música, a poesia assume outra identidade: “Vou cavalgar por toda a noite/numa estrada colorida/usar teus beijos como açoites/e a minha mão mais atrevida”, esta canção de Roberto Carlos, além de outras, de tantas velocidades e estradas nos levam a uma procura suicida pelo amor através de versos que requerem a supressão das horas, como condição de se vencer a dicotomia espaço/tempo, onde o amor dorme descansado. E sonhamos.
 
A poesia vence o poeta e a barreira do tempo porque não obedece fronteiras nem os limites do humano, possibilitando-nos viajar em suas naves/metáforas, para além do arco espaço/tempo concedendo-nos a possibilidade de viver, mesmo assim, com os pés no chão. Parafraseando o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, a “ave/bala” encontrará o destino certo porque sempre haverá um verso perdido a nos espreitar.
 
*Frederico Spencer é poeta, sociólogo e psicopedagogo
 
 
 
 
Os invasores
 
Paulo Azevedo Chaves*
 



 







Desenho de Albrecht Durer
 
 
Eles chegaram às primeiras horas do dia. Pareciam inocentes auxiliares realizando os serviços domésticos. O telefone estava mudo. A internet não funcionava. As casas vizinhas estavam à venda, desocupadas. Quando os dois saíram para fazer o serviço de jardinagem, fechei rapidamente todas as portas a chave. Mas findas suas tarefas lá fora, ei-los de novo no interior do imóvel. Ambos sérios e mudos, uma palidez cadavérica nas faces. Um deles, baixinho e com início de calvície, vestia uma camiseta com estampas vermelhas, parecendo sangue. A bermuda, larga e cobrindo os joelhos, tinha idêntico padrão de estamparia. O outro, alto e magro, parecendo um coveiro padrão de cemitério, usava uma camisa branca e suja de terra, as mangas compridas arregaçadas até os cotovelos. Eles olhavam fixo para mim, sem nenhuma emoção no olhar. Senti um súbito cansaço e fui deitar-me em meu quarto. As cortinas estavam cerradas, mas ainda não escurecera por completo. Deitei-me na cama e cruzei as mãos sobre o peito. Os invasores estavam ali, um de cada lado do leito bem posto, olhando-me com seus olhares frios, distantes. O baixinho parecia meu antigo empregado, executado com seis tiros numa viela suburbana do Recife. “Eu amo você, Rodrigo” -- pensei. Não estava triste ,nem alegre, Apenas muito, muito cansado. O sol finalmente se pôs e em meu quarto tudo eram trevas. Mas eu pressinto que os invasores continuam ali, parados, um de cada lado da velha cama antiga de jacarandá . Estou vivo ou estou morto? Moribundo, talvez? Realmente não sei e acho que nunca saberei.
 
 
Jaboatão dos Guararapes, 28 de setembro de 2012

 
*Paulo Azevedo Chaves é advogado, jornalista e poeta, assinou no Diário de Pernambuco, nos anos 70/80, a coluna cultural Poliedro, e de meados dos anos 80 até 1993, a coluna Artes e Artistas, especializada em artes plásticas.
 
 
 

 
 
POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, ALMÉSIO NASCIMENTO, ANTONIO DE CAMPOS E JUAREIZ CORREYA
 


 
Elegia a Hamlet II*
Natanael Lima Jr
 
 
   [...] A natureza está em desordem... Execrável inquietação!
                         Oh! Nunca eu tivesse nascido para castigá-la!
                                            
                                                            Shakespeare, Hamlet
                                                                                                                                                                

compadece-te de nós
que albergamos as dores
as aflições, os tormentos
& as traições que retalham os corações
 
tudo está consumado
não haverá palavra sobre palavra
& a voz altissonante
emudecerá
 
o amanhã
nada mais nos resta a crer
a palavra jaz morta
 
ah! inquietação execrável!
o que virá depois
nada mais importa
quero o silêncio das horas
& a vertigem dos passos
incautos
 
*do livro “À espera do último girassol & outros poemas”
 
  
 
 
O fantasma
Almesio Nascimento
 
 
Deus é esse grito a esmo
Na hora imprecisa
Em que depositamos nele
O fantasma da nossa agonia..
 
Deus é um suporte.
É uma invenção das nossas fugas..
Uma mão que atua
Nas inconsequências, nas ruínas...
Na hora do pavor.
 
Deus em volta de nós
No mundo em que pisamos
Essa semelhança desconhecida.
 
Deus é essa nossa insistência de busca.
De saber como ele é.
Esse Deus que fingimos conhecê-lo,
De não fazê-lo existir.
 
Deus quer sair de dentro de nós
Deus está enterrado em nós.
Nas articulações sanguíneas
Nos pulsos das veias.
 
 
 
Talvez em Babilônia
Antonio de Campos
 
 
Outrora este monte foi tempo
e aquele, um palácio de reis.
Estas cinzas foram libido viva
E aquelas rodas levavam belezas.
 
Na areia há um trono submerso
e as filhas da cidade, agora,
são poeira que daqui se levanta
e ali se deita pra fecundar ainda.
 
Aqui, guerreiros abatidos
gritavam na esperança
que uma palavra pudesse
emendar um círculo partido.
 
Ali, os sábios foram achados
sem estrela pra dissecar
e uma lua pra predizer a dor
que seria como, sem lua, foi.
 
Estranho este presente
que daquelas terras vem
e revela restos de desejos
que teimam em partir.
 
Mas uma legião já foi chamada
pra desenterrar aqueles
que amei no passado –
talvez em Babilônia!
 
 
 
Poema suspenso dentro do Recife*
Juareiz Correya 
 
Moro no Alto Recife
libertário como todo nativo
de nuvens concretas que as cores sangram
num canto edificado
sem margens e rios
ruas me habitam sem medo
árvores abrem portas e janelas
e a cidade tem mais igrejas
do que as 365 igrejas da Bahia
todos os dias as formas ganham sonhos
a sorte é um poema experimental de Deus
nas paredes aéreas do meu bairro
antigo como a história de ontem
e o menino que fala por mim
na várzea urbana do meu cérebro
além deste lugar a cidade é uma festa
fabricada como um carnaval
e eu nunca poderei escrever sobre a tristeza
porque no Alto Recife onde moro
o mar se enche de céu
e o sol abraça todo mundo
sem hora marcada
 
*da Antologia Poesia Viva do Recife
 
 

 



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima