domingo, 27 de maio de 2018


POESIA DE MARIA DE LOURDES HORTAS


Por José Luiz Mélo*




Maria de Lourdes Hortas
Foto: Arquivo DCP




Devo lhe chamar assim, lhe define melhor do que Poeta ou Poetisa.

Isto porque você e os seus versos são de tamanha espiritualidade que não posso imaginá-la gente, à nossa semelhança, nem de matéria, as imagens dos seus poemas que de tão inervadas de sentimento, transcendem ao que estamos habituados que os nossos sentidos percebam e julguem real.

Há alguns dias você tem publicado, com admirável formatação do José Carlos de Abreu, as “Carta à Minha Mãe” nas páginas do Face. Resgate do seu Livro: “Rumor de Vento”, publicado em 2009 pela Panamérica Nordestal, do Juarez Correya.

Estas cartas, que nos revelam os estágios mais elevados a que se pode atingir o espírito, humaniza a saudade tornando-a palpável, sentida, real; traz-nos de volta e eterniza enquanto perenes e eternos nossos seres que se não apartam porque juntos continuamos juntos, apenas até você, não sabíamos como dizê-lo.

Sugiro que estas Cartas sejam publicadas agrupadas, talvez numa plaqueta, ou numa única postagem no face e em outras mídias, de modo alcançar a todos que procuram um modo de expressar suas saudades sem conseguir fazê-lo.

Hoje, trazemos “As cartas à minha Mãe”, para publicação no nosso “Domingo com Poesia”, onde partilhamos com os nossos amigos o que de mais belo se tem escrito em nossa terra.


*José Luiz de Mélo é poeta e editor do DCP




CARTAS À MINHA MÃE





Aos poucos a hera sobre as pedras
Vira pedra (...)

WALLACE STEVENS





Capa do livro “Rumor de Vento”, publicado
em 2009 pela Panamérica Nordestal





I.

Quando quase menina, comecei a
escrever eras sempre a primeira
leitora.
Se gostavas, dizias: “Fiquei arrepiada. Isso
é bom!” Se não gostavas, o arrepio não
vinha.
Aconselhavas-me: “tenta outra vez...”

Depois que partiste, Mãe, naquele
agosto cinza, A poesia calou-se dentro
de mim.
Hoje ocorreu-me a causa do meu silêncio:
tanta coisa para te dizer e não consigo...
Certamente por conta da ausência do
barômetro, teu arrepio.

Por isso resolvi escrever estas cartas:
quem sabe assim conseguirei demolir o
silêncio que vem aprisionando o meu
coração?

Minha querida Mãe,
Quando receberes esta, de onde
estiveres, como te for possível por
favor envia-me um sinal de que a carta
chegou.
Pode vir numa sonata de
chuva na visita de beija-
flor no arrepio de
vento...


II.

Minha alma regressa esta
noite: Seu retorno dói.
Dou-me conta de que
não sou de pedra.
À noite o silêncio da casa parece
levedar como crescia a massa do
pão sob dobras de linho nos
mistérios da infância.

Mal escurece pressinto teus
passos riscando o corredor.
O coração acelera-se
prelúdio na penumbra da
sala dissonância no piano
ausente.


IV.

No sonho
ultrapasso o
portal secreto.
Meus dedos
resvalam pela
seda lilás do teu
vestido.


V.

Esta madrugada liguei
para ti: Chamou,
chamou e ninguém
 atendeu.
De repente veio a
chuva dialogar na
vidraça. Do retrato


VI.

antigo escapou o
teu sorriso.


VII.

Agora que dormes sob a
pirâmide no vértice do
tempo sabes o
que diz o vento
quando passa
assobiando pela estrada.


VIII.

Na casa onde vivias
murcharam as violetas
todavia chuvas e
ventos ainda
conversam na varanda
onde rezavas voltada
para o mar.

O quarteto de pássaros
teus amigos visitantes
pontuais pela madrugada
e ao entardecer não
entenderam porque
emudeceu tua presença
azul alumiando o sol.


IX.

O rio da tua
vida passou a
ser meu
afluente
enquanto rio eu
for.


X.

Depois de mim
quem colherá tuas
águas?


XI.

A porta da tua
casa cerrou-se
para sempre
quando
fecharam a
porta da caixa
onde apenas
coube teu
corpo frio.


XII.

...livro aberto na
mesinha de
cabeceira porta-
jóias caixa de
música xícara sobre
a mesa vidro de
perfume anel
retrato vestido
sobre a cama
coisas tantos e
tantos signos da
engrenagem da
vida gestos
expostos emoções
à deriva espalhados


XIII.

na pressa da
partida.


XIV.

Inviolável cofre tua vida
tornou-se ontem para
sempre. Impossível
reverter a rocha lava
fria.


XV.

Agora tua casa
se entrelaça nas
casas daqueles
que ainda por
aqui se demoram
mais um pouco.

No retrato antigo sorris e
esperas: é véspera, Mãe.


XVI.

Quando te cobriram
com a mortalha de
terra a vida pesou
sobre mim, órfã.


XVII.

Um portal se
fecha a tristeza
me cobre: crepe
negro e molhado
terra soterrando o
cofre que te
enterra. 


XIX.

Implacável eclipse o
da morte
transformando em
bronze a que viaja
mares de terra a
dentro.

A ressonância do
pranto não atinge o
biombo que te
oculta.


XX.

Menina adormecida
dentro do barco
sonhas com a eira
ao relento do luar.
Para essa geografia
viajas ao encontro
dos que vivem na
aquarela antiga.


XXII.

Ficaram teus recados
inscritos na tarde
lilás de um agosto de
chuva. Fábulas
cifradas nas folhas
de chá depostas na
porcelana fria. 











2 comentários:

  1. "Ficaram teus recados
    inscritos na tarde
    lilás de um agosto de
    chuva. Fábulas
    cifradas nas folhas
    de chá depostas na
    porcelana fria."
    Parabéns! Belas conexões de palavras.

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  2. Muita emoção e uma suave chuva molham meus olhos cansados... o perfume tem a cor lilás.
    Belissima, Maria

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Natanael Lima Jr, Frederico Spencer e José Luiz Mélo