domingo, 10 de julho de 2016


ORAÇÕES PARA VAGALUMES – PARTE 2 (CONTO DE FERNANDO FARIAS)



Uma nova experiência que o site Domingo com Poesia traz pra você. Nosso colaborador Fernando Farias escreveu um conto que será apresentado em três partes. A cada semana um trecho do interessante ORAÇÕES PARA VAGALUMES. Realismo fantástico puro.  Não deixe de compartilhar e comentar aqui. Boa leitura.



ORAÇÕES PARA VAGALUMES – Parte 2
Fernando Farias


Img.: reprodução



Assim comecei a ajudar os doentes e a limpar mundo de gente ruim.  Percebi que, quando eu rezava, via que as pessoas boas têm uma nuvenzinha azul na cabeça. Só eu as via.  As más pessoas tinham uma nuvem marrom. Eu não curava pessoas ruins. Às vezes nem gente ruim não nascida. Eu via as nuvens marrons nas barrigas das grávidas.

Minha tia Benildes voltou do mundo dos mortos. Toda a noite vinha em meus sonhos, sempre arrastando os pés e a reclamar de minhas orações negativas. Para ela meu segredo era para ajudar as pessoas e não para matar.
Eu acendia velas para minha tia e fazia aumentar no cemitério as catacumbas pintadas de azul.

Anos depois a cidade não tinha mais gente doente. Os médicos não trabalhavam. As casas funerárias fecharam. Eu via uma nuvem azul sobre as ruas. Ninguém mais me procurava. Eu não via mais vagalumes, ninguém para enviar velas. Meu rabo de jacaré voltou a crescer.

Naquela noite, sonhei que voava com os pássaros para o Sul. Um deles com a voz de tia Benildes me avisou que estava na hora de ir para cidade grande.

Eu tinha juntado dinheiro das doações e numa mala com poucas roupas, umas fotos da família e o vidro de perfume de gardênia. Saí cedinho, no ônibus amarelo, sem me despedir. Cheguei à rodoviária com cheiro de tangerina e vômito. Uma cidade escurecida pela fumaça.

Perguntei onde tinha um lugar para ficar. Ensinaram-me que perto do porto havia pequenos hotéis que alugavam quartos para moças vindas do interior. 

Vi um navio pela primeira vez. Constatei que havia muita safadeza na cidade, marinheiros bêbados e música alta. A cidade grande cheirava a esgoto.

Os quartos das moças ficavam nos corredores de madeira.       Nem eu consegui dormir. Assustei-me com os gritos que pareciam de pessoas sendo enforcadas, gemendo e chutavam as divisórias de madeira. Depois riam e brigavam.

Eu precisava curar para diminuir meu rabo. Contei a um grupo de moças seminuas que eu rezava pessoas doentes. A notícia se espalhou. Deram para me chamar de a “cigana”.

As doenças aqui são diferentes do interior. Sofre-se de sífilis, cranco duro e saudades de casa. Os homens só falam línguas estranhas, como dizia o pastor.

Comecei a rezar. Sem cobrar nada para ganhar confiança e mostrar serviço. As doenças desapareciam e minha fama aumentou. Principalmente entre os marinheiros estrangeiros.

Passava dia orando, passando a folha de arruda nos pênis caídos, pingando pus, diante de homens desesperados e vagalumes.

Tempos depois descobri que a cidade era um imenso puteiro. Só agora descobri que eu morava numa bucetaria. Não havia moças direitas como lá no interior. 

Até que um dia a polícia fechou o hotel e fui presa. Fiquei numa cela com mulheres estranhas que se diziam condenadas pelo crime de pensar diferente do governador. Uma delas, a Mariana, escondia a foto de um homem barbudo, fardado e fumando um charuto. O homem era “El Comandante”, segundo ela.

No outro dia, Mariana voltou para a cela, estava em carne viva. Eles tinham arrancado seus mamilos com alicates. Rezei com a força de quem acredita na reza para curar as feridas. Ela se levantou sem dores, transparente, riu para mim, flutuou e atravessou o teto. Ficou apenas o resto de Mariana no chão cercada de sangue.

Não me levaram para tortura, bateram na cabeça até que eu fiz sexo oral com três deles e mandaram me soltar. Disseram que eu era feia. A polícia nem me revistou.

Era noite e eu estava do lado da cidade longe do porto. Ruas largas, cheia de carros e gente apressada. Precisava dormir para falar com minha tia. Apenas a mala e o pouco dinheiro. Ainda tentei dois hotéis, mas não me deixaram ficar, eu tinha cara de mulher suspeita. Esperei anoitecer e dormi num banco da rodoviária certa que voltaria para o interior.

Tia Benildes disse que não. Indicou-me procurar a diretora do hospital, uma religiosa, e pedir ajuda para trabalhar. Tia Benildes disse que eu devia fazer rezas para curar os doentes antes que o rabo crescesse.  Creio que, no sonho, vi a Mariana a lado de minha tia.

Foi fácil para eu ser aceita no Hospital da Caridade Cristã, só pela comida e uma maca enferrujada para dormir. Um prédio antigo, escuro, cheirando a urina, cheio de imagens de santos, onde as freiras administravam com desprezo. Nos jardins criavam plantas carnívoras alimentadas com restos de feridas dos doentes.  A velha madre escutou meu pedido sem tirar os olhos dos meus seios e da minha boca. Concordou em me dá aposentos em troca de meu trabalho.

A cara fechada da freira se abriu em gargalhadas quando contei que eu era rezadeira e que curava as pessoas doentes com minhas orações. Logo virei a rezadeira doidinha entre as freiras risonhas. Não acreditavam em orações.

Mas fiz o que minha tia mandou. Silenciosamente comecei a rezar. Minha tarefa era varrer e lavar o chão das enfermarias, entre os cancerosos, tuberculosos e amputados das usinas de cana.

As salas se enchiam de vagalumes e eu não via nuvens escuras na cabeça das pessoas. Mas havia nuvens marrons nas cabeças das freiras.


CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA



Um comentário:

  1. esperando a continuação... Adorei a história! No começo me pareceu uma história infantil mas quando começou a usar palavras adultas entendi a proposta...

    ResponderExcluir

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima